A China real começa onde os estereótipos terminam

Durante décadas, clichês substituíram dados, história e realidade, projetando ansiedades ocidentais, num país complexo, raramente estudado com seriedade

Washington Araújo - 11/01/2026

Durante meio século, parte expressiva do Ocidente cultivou um hábito confortável: falar da China sem estudá-la. Criou-se um vocabulário automático — ameaça, cópia, massa obediente, regime opaco — repetido como mantra por políticos, colunistas e comentaristas que raramente se dão ao trabalho de investigar dados, história ou vida cotidiana.

Não se trata de ignorância casual, mas de preguiça intelectual sistemática, aquela que transforma preconceito em opinião e estereótipo em análise. Esse vício não é neutro. Ele desumaniza. Ao reduzir 1,4 bilhão de pessoas a uma caricatura funcional — “eles” —, o discurso estereotipado autoriza o desprezo moral e dispensa o rigor factual.

Tudo o que a China faz vira suspeito por definição. Se cresce, é “ameaça”. Se inova, é “cópia”. Se planeja, é “conspiração”. Esse padrão não descreve a China; denuncia a pobreza analítica de quem o utiliza.

Os números, porém, não se deixam intimidar por slogans. Desde 1978, quando se iniciam as reformas econômicas, o crescimento médio anual do PIB chinês girou em torno de 9% a 10% por várias décadas, segundo o Banco Mundial. Isso não é um detalhe estatístico: é uma transformação estrutural que alterou o comércio global, a logística, a indústria e o padrão de consumo de dezenas de países. Crescimento dessa magnitude não se sustenta com improviso, muito menos com “truques”.

Mais contundente ainda é o dado social que desmonta qualquer discurso desumanizante. O Banco Mundial registra que quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema entre o fim dos anos 1970 e 2020 — cerca de 75% de toda a redução da pobreza extrema no planeta nesse período. Não é retórica: é gente que passou a comer melhor, estudar, viver mais. Negar isso não é ceticismo; é cinismo social.

A melhoria material aparece de forma brutalmente objetiva na saúde. A expectativa de vida na China alcançou cerca de 78 anos em 2023, mais que o dobro da registrada em meados do século XX. Esperança de vida é um indicador implacável: ela resume saneamento, vacinação, renda, alimentação e acesso a serviços. Quem insiste em chamar esse resultado de “propaganda” está, na prática, negando a realidade empírica.

Outro clichê recorrente — o de que a China “só copia” — entra em colapso quando confrontado com ciência e inovação. Em 2023, o escritório chinês recebeu 1,68 milhão de pedidos de patentes de invenção, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual. Isso representa mais de 40% dos pedidos globais. Patente não é medalha moral, mas é um termômetro claro de esforço inventivo.

Continuar repetindo “eles só copiam” diante desses números é má-fé intelectual.

O mesmo vale para infraestrutura, um tema tratado com desdém por críticos apressados. A China construiu, em poucas décadas, a maior rede de trens de alta velocidade do mundo, com cerca de 48 mil quilômetros em operação até 2024. No mesmo ano, investiu mais de 850 bilhões de yuans em ativos ferroviários. Para o leitor: yuan, também chamado de RMB (Renminbi), é a moeda oficial da China, assim como o dólar é dos EUA ou o euro da União Europeia. Nada exótico. Nada obscuro. Apenas economia real.

Obras como a ponte Danyang–Kunshan, com 164 quilômetros, ou o sistema Hong Kong–Zhuhai–Macao, com 55 quilômetros de extensão combinando pontes e túneis submarinos, não são “ostentação”. São engenharia em escala continental. Chamar isso de “excesso” antes de entender sua função logística é outra forma de desprezo disfarçado de crítica.

No campo tecnológico, a China também rompeu uma dependência histórica. O BeiDou — frequentemente citado sem explicação — é o sistema chinês de navegação por satélite, equivalente ao GPS dos Estados Unidos ou ao Galileo da União Europeia. Ele entrou em operação global em 2020 e hoje sustenta aplicações em transporte, agricultura de precisão, logística, defesa civil e telecomunicações.

Traduzindo: a China deixou de depender de sistemas estrangeiros para algo tão básico quanto localização e sincronização de dados. Isso é soberania tecnológica, não propaganda.

Na inteligência artificial, os dados são ainda mais incômodos para os estereotipados. O AI Index de Stanford aponta que a China respondeu por mais de 60% das patentes globais em IA em 2022. É legítimo discutir governança, privacidade e uso ético dessas tecnologias. O que não é legítimo é fingir que esse avanço não existe porque ele incomoda narrativas confortáveis.

Até no cotidiano, o preconceito falha. Em 2024, os sistemas de pagamento digital chineses processaram transações equivalentes a centenas de trilhões de yuans. A China tornou-se uma das sociedades mais avançadas do mundo em pagamentos móveis, integração digital e serviços urbanos. Isso muda hábitos, tempo de vida, organização social. Não é ideologia; é prática.

Por fim, o preconceito revela seu esgotamento cultural quando tenta explicar fenômenos como o TikTok apenas como manipulação geopolítica. Criado pela empresa chinesa ByteDance, o aplicativo tornou-se uma das plataformas culturais mais influentes do planeta. Pode — e deve — ser regulado. Mas reduzi-lo a caricatura é repetir o velho erro: confundir desconforto com análise.

O ponto central é simples e incômodo: os estereótipos contra a China dizem mais sobre as inseguranças do Ocidente do que sobre a China em si. Eles funcionaram por décadas como muletas cognitivas, evitando comparações, evitando autocrítica, evitando dados. Mas muletas não levam longe.

O povo chinês carrega uma rara continuidade civilizacional: aprende com o passado sem se aprisionar a ele. Forjou uma ética do esforço, do estudo e da paciência histórica, do confucionismo às ciências contemporâneas. Valorizou o coletivo sem anular o engenho individual, planejou séculos, construiu pontes e ideias, alfabetizou massas, salvou vidas, inovou tecnologias. Sua cultura combina disciplina e imaginação, resiliência e curiosidade, produzindo conquistas que atravessam dinastias, revoluções e futuros possíveis com rigor humano duradouro.

A exigência do nosso tempo é outra: pesquisa livre e independente da verdade, baseada em fatos, números e história — não em preconceitos herdados. Quem insiste em olhar a China apenas pelo espelho quebrado dos estereótipos não está fazendo jornalismo, nem análise, nem crítica. Está apenas defendendo a própria recusa em aprender e erguendo monumentos vazios a própria ignorância.

https://www.brasil247.com/blog/a-china-real-comeca-onde-os-estereotipos-terminam