A corrida silenciosa da China por energia solar no espaço
Sem alarde, o país estrutura pesquisas para captar energia fora da atmosfera e reposicionar sua matriz energética no horizonte do século.
Washington Araújo - 11/01/2025


A China voltou a ocupar o centro do debate energético global ao confirmar, por meio de instituições ligadas ao seu programa espacial, estudos avançados para a geração de energia solar no espaço.
Não se trata de um anúncio retórico nem de ficção científica: o país trabalha, desde ao menos 2019, em um roteiro técnico para desenvolver a chamada energia solar espacial, conceito conhecido internacionalmente como Space-Based Solar Power. O projeto ainda está distante da execução plena, mas seus contornos são reais, documentados e estratégicos.
O princípio técnico é conhecido. Fora da atmosfera terrestre, painéis solares recebem radiação com intensidade maior e praticamente constante. Na superfície, a eficiência média dos sistemas fotovoltaicos é afetada pela alternância entre dia e noite, pela nebulosidade e pela absorção atmosférica. Em órbita, essas perdas deixam de existir. Segundo dados da China Academy of Space Technology, a captação solar no espaço pode ser até oito vezes mais eficiente do que em solo, dependendo da órbita e da tecnologia empregada.
Os estudos chineses indicam como objetivo final a instalação de uma estação em órbita geoestacionária, a aproximadamente 35.786 quilómetros da Terra. Nessa posição, a estrutura acompanha a rotação do planeta, permitindo transmissão contínua de energia para um mesmo ponto da superfície. A eletricidade captada seria convertida em micro-ondas e enviada a grandes antenas receptoras terrestres, capazes de reconverter o sinal em energia elétrica para a rede.
A transmissão por micro-ondas já foi testada em ambientes controlados e não é exclusividade chinesa. A NASA, a agência espacial japonesa JAXA e centros europeus estudam o mesmo princípio desde os anos 1970.
Em 2022, a China realizou testes experimentais de transmissão sem fio em solo e anunciou planos para demonstrações orbitais de pequena escala até o final da década de 2020.
O tamanho frequentemente citado da estação — cerca de um quilómetro de largura — não consta como especificação final em documentos oficiais. Trata-se de uma estimativa conceitual, usada para ilustrar a ordem de grandeza de um sistema capaz de gerar gigawatts de potência. Da mesma forma, comparações com o consumo global de petróleo pertencem ao campo das projeções teóricas, não de cálculos auditados por organismos independentes.
O cronograma divulgado é prudente. Testes em órbita baixa ao longo dos anos 2030. Sistemas intermediários nas décadas seguintes. Uma instalação de grande escala apenas por volta de 2050. Até lá, os obstáculos permanecem claros: custo de lançamentos, hoje ainda superior a US$ 2.000 por quilo; montagem robótica em órbita; durabilidade frente à radiação solar e micrometeoritos; além de acordos internacionais sobre uso e segurança da transmissão.
O dado central, contudo, é político e estratégico. A China trata energia e espaço como vetores de soberania de longo prazo. Não promete milagres. Investe em ciência pesada, engenharia incremental e tempo histórico. Se a energia solar espacial se tornar realidade, não será um salto repentino, mas uma obra de décadas — silenciosa, cara e profundamente transformadora.
https://revistaforum.com.br/opiniao/a-corrida-silenciosa-da-china-por-energia-solar-no-espaco/
