Depois da contagem regressiva, a realidade

Enquanto a festa acaba, um país invisível mantém hospitais, presídios, aeroportos e serviços vitais funcionando, sem discurso, sem holofotes e sem descanso

Washington Araújo - 01/01/2026

O Ano Novo começa, de fato, quando o barulho termina. Os fogos se apagam, as ruas esvaziam, as redes sociais silenciam aos poucos, e o país acorda com um cansaço que não cabe na ressaca. O dia 1º de janeiro é menos uma celebração do futuro e mais um retrato cru do presente: desigual, exausto e funcionando apesar de tudo.

Enquanto parte da população dorme até tarde, há um Brasil que nunca dormiu. Nos hospitais, plantões seguem cheios. Emergências recebem vítimas da virada: acidentes, excessos, violências que não entraram na contagem regressiva. Médicos, enfermeiros e técnicos atravessam a madrugada sem champagne, apenas com protocolos, decisões rápidas e corpos que não podem esperar pelo ano seguinte.

Nas delegacias, o movimento é contínuo. Brigas familiares, conflitos de vizinhança, ocorrências banais e crimes graves compartilham o mesmo balcão. O calendário muda, mas a violência não tira férias. Para quem trabalha ali, o Ano Novo começa com os mesmos dilemas antigos, apenas numerados de forma diferente.

Aeroportos e rodoviárias vivem outro tipo de transição. Famílias se despedem, trabalhadores retornam mais cedo, malas carregam promessas feitas sob efeito de álcool e otimismo. O país se move enquanto ainda boceja. Não há fogos nesses corredores — apenas filas, atrasos e anúncios mecânicos que lembram que o tempo não suspende seus compromissos.

Nos presídios, o dia amanhece igual a todos os outros. Grades não reconhecem datas simbólicas. Para quem está encarcerado, o Ano Novo é apenas mais um dia contado, mais um risco, mais uma espera. A distância entre o espetáculo da virada e a realidade do sistema penal revela um país que comemora sem olhar para dentro de seus muros.

Há também quem trabalhe invisível: garis limpando o excesso da festa, jornalistas fechando edições com equipes reduzidas, operadores de energia, água e dados garantindo que nada falhe. São eles que sustentam a ilusão de normalidade. Quando tudo funciona, ninguém percebe. Quando falha, o espanto é imediato.

O primeiro dia do ano é um espelho incômodo. Ele mostra quem pode parar para celebrar e quem não tem o direito de parar. Mostra desigualdades que não tiram folga, funções essenciais que não rendem manchete e um país que depende do trabalho silencioso de muitos para que poucos possam descansar.

Talvez por isso o 1º de janeiro seja tão revelador. Ele não inaugura nada. Apenas retira o ruído. E no silêncio que sobra, o Brasil aparece sem filtros, sem slogans e sem fogos. Um país que acorda cedo, mesmo quando ninguém está olhando.

Antes que esqueça: feliz 2026!

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