Epstein, Washington e a verdade interrompida
Entre acordos indulgentes, falhas na prisão e arquivos controlados, o caso Epstein revela como Washington administra crises quando o poder é colocado em risco
Washington Araújo - 10/01/2026


Era sábado, 10 de agosto de 2019, pouco depois das 6h30 da manhã, quando agentes penitenciários abriram a porta de uma cela no Centro Correcional Metropolitano de Manhattan (MCC), prisão federal de segurança máxima localizada na 125 Park Row, a poucos metros da Ponte do Brooklyn. Ali encontraram Jeffrey Epstein morto, pendurado por um lençol improvisado, preso ao beliche. Tinha 66 anos, aguardava julgamento por tráfico sexual de menores e estava sob custódia direta do Estado americano.
Epstein ocupava a ala 9 South, destinada a presos considerados sensíveis pelo sistema federal. O MCC abriga cerca de 760 detentos, entre acusados de terrorismo, líderes do crime organizado e delatores sob proteção. Não é uma prisão periférica nem improvisada. É uma unidade projetada para isolamento rigoroso, vigilância contínua e rondas frequentes. Epstein havia sobrevivido a uma tentativa de suicídio semanas antes. Ainda assim, naquela madrugada, estava sozinho. As rondas não foram cumpridas como previsto. As câmeras do corredor não produziram registros utilizáveis. Quando o corpo foi retirado, o problema já não era apenas a morte — era o fracasso do Estado em preservar o próprio processo judicial.
Naquele dia, o presidente dos Estados Unidos era Donald Trump. Epstein morreu sob custódia federal durante seu governo. Com isso, um julgamento que prometia expor décadas de crimes sexuais, acordos indulgentes e tolerância institucional foi interrompido de forma definitiva.
Epstein não era um personagem marginal. Durante anos, construiu uma fortuna de origem pouco transparente e circulou com naturalidade por Nova York, Palm Beach, Paris e Londres. Mantinha jatos privados, mansões e uma ilha nas Ilhas Virgens Americanas. Sua presença em círculos de poder era conhecida, registrada e aceita. O que permaneceu intocado por tempo demais foi sua responsabilização.
O primeiro grande desvio ocorreu em 2008, na Flórida. Apesar de evidências consistentes de abuso sexual contra menores, Epstein firmou um acordo judicial amplamente criticado por sua leniência. Confessou crimes, cumpriu pena reduzida e teve autorização para deixar a prisão diariamente. O acordo foi conduzido pelo então promotor Alexander Acosta, que mais tarde se tornaria secretário do Trabalho no governo Trump. As vítimas não foram notificadas. O sistema optou pela acomodação.
Esse acordo não foi um erro técnico. Foi uma decisão institucional. Demonstrou que, diante de capital social elevado, a aplicação da lei pode ser ajustada. O caso Epstein não exige teorias extravagantes para ser grave. Basta observar como o sistema reagiu quando confrontado.
Em julho de 2019, onze anos depois, a Promotoria Federal do Distrito Sul de Nova York reabriu o caso. Epstein foi preso ao desembarcar em Teterboro, Nova Jersey, vindo do exterior. As acusações eram diretas: tráfico sexual de menores entre 1994 e 2004, envolvendo dezenas de vítimas recrutadas sob promessas de dinheiro e proteção. Pela primeira vez, não havia acordo prévio. O julgamento parecia inevitável.
Não ocorreu.
A morte de Epstein deslocou o centro do debate. O Departamento de Justiça reconheceu falhas graves no sistema prisional. Dois agentes foram responsabilizados administrativamente. Nenhuma autoridade superior perdeu o cargo. O foco passou a ser aquilo que não seria mais examinado em juízo.
Sob pressão pública e jornalística, o Congresso aprovou a Epstein Files Transparency Act, obrigando o Departamento de Justiça a divulgar os arquivos federais relacionados a Epstein e à sua associada Ghislaine Maxwell. Autoridades reconheceram a existência de mais de um milhão de documentos, incluindo depoimentos, registros financeiros, listas de voos e material fotográfico. O volume explica a liberação gradual. Não explica o desconforto político.
Nas últimas semanas, a Justiça autorizou a divulgação de lotes de documentos e dezenas de fotografias. As imagens causaram forte reação não por revelarem crimes inéditos, mas por documentarem a amplitude das relações sociais de Epstein. Aparecem Bill Clinton, Michael Jackson, Mick Jagger, Kevin Spacey, Chris Tucker, David Copperfield, além de membros da aristocracia britânica como Príncipe Andrew e Sarah Ferguson, todos registrados em encontros sociais com Epstein ou Maxwell. O próprio governo ressalta: nenhuma dessas imagens constitui prova criminal por si só.
Mas as fotos desmontam uma narrativa conveniente. Epstein não operava à margem. Ele circulava.
Uma fotografia que incluía Donald Trump foi inicialmente publicada no repositório oficial do Departamento de Justiça, depois retirada sem aviso e, mais tarde, restabelecida. O Departamento de Justiça afirmou que as imagens foram retiradas temporariamente para aplicar novas tarjas e supressões destinadas a proteger a identidade de vítimas e cumprir exigências legais de sigilo. A oscilação alimentou suspeitas sobre controle político da divulgação e ampliou a desconfiança pública.
Trump não foi formalmente acusado de crimes relacionados ao caso Epstein. Isso não encerra sua relevância. Epstein morreu sob seu governo. E durante sua presidência não houve iniciativa robusta para uma abertura independente e integral dos arquivos. O Executivo preferiu tratar o episódio como encerrado, reduzindo-o a um suicídio individual, sem enfrentar suas implicações institucionais.
A comoção pública não nasce das imagens isoladas, mas do padrão que elas revelam: denúncias conhecidas coexistiram por anos com festas, viagens e convivência social normalizada. O incômodo não está nos nomes, mas na tolerância.
As maiores prejudicadas continuam sendo as mulheres que denunciaram Epstein. Muitas aguardaram décadas para serem ouvidas. Quando finalmente o foram, o principal acusado já estava morto. Compensações financeiras não substituem verdade nem esclarecimento público.
A morte de Epstein encerrou o processo penal, mas expôs um padrão. O Estado permitiu o acordo indulgente, falhou na custódia e agora administra os arquivos como dano controlado. Não é falha técnica. É método. E enquanto esse método prevalecer, nenhuma promessa de transparência será crível.
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