O que ainda está vivo em nós?
Washington Araújo - 01/01/2026


O primeiro dia de 2026 não inaugura um tempo neutro. Ele chega depois de um ano atravessado por guerras prolongadas, crises humanitárias persistentes, deslocamentos forçados em escala recorde e um desgaste visível da confiança pública. O mundo não ficou em pausa — decisões continuaram a ser tomadas, governos seguiram atuando e a tecnologia avançou, ainda que bolsas e mercados financeiros só retomem as atividades a partir do dia seguinte ao feriado. Algo essencial, porém, continuou se perdendo sem alarde. É nesse cenário que a vida e o pensamento de Albert Schweitzer ganham atualidade incômoda.
Nascido em 1875, na Alsácia então sob domínio alemão, Schweitzer construiu cedo uma trajetória rara. Doutor em Teologia, professor universitário e filósofo, tornou-se também um dos mais respeitados intérpretes de Johann Sebastian Bach de sua geração. Ainda jovem, era um concertista consagrado nos grandes palcos europeus — de Berlim a Londres, de Paris a Roma — e recebeu prêmios e honrarias importantes pelo rigor técnico e pela profundidade de suas interpretações. Prestígio intelectual, estabilidade financeira e reconhecimento público já estavam assegurados antes dos 30 anos.
Em 1905, tomou uma decisão que contrariava frontalmente a lógica dominante das elites europeias: ingressou no curso de Medicina com um objetivo claro e declarado — cuidar de populações africanas abandonadas pela ordem colonial. Formou-se médico em 1913 e seguiu para Lambaréné, no atual Gabão, onde fundou um hospital em condições extremas.
As primeiras instalações eram de pau a pique, erguidas em meio à floresta, sem saneamento básico e com escassez crônica de medicamentos. Para viabilizar o projeto, Schweitzer vendeu praticamente todo o seu patrimônio, incluindo prêmios, medalhas, troféus e bens pessoais acumulados ao longo da carreira musical e acadêmica.
A região enfrentava altas taxas de malária, tuberculose, hanseníase e doenças intestinais. Ao longo de mais de cinquenta anos, Schweitzer atendeu milhares de pacientes, realizou cirurgias, formou equipes locais e ampliou gradualmente o hospital, que chegou a reunir dezenas de edificações simples, construídas conforme a demanda clínica crescia.
Em intervalos regulares de três a cinco anos, ele retornava à Europa por cerca de três meses. Nessas viagens, realizava longas séries de concertos beneficentes para arrecadar recursos destinados à construção de novas alas, compra de equipamentos e manutenção do hospital africano.
Relatos de visitantes e pacientes registram cenas que se tornaram parte de sua história. Ao fim da tarde, na varanda do hospital, Schweitzer sentava-se ao piano e tocava Bach enquanto o sol se punha. Centenas de pacientes, muitos deitados nos gramados, ouviam em silêncio. Não era um gesto estético nem uma concessão ao lirismo, mas a expressão de uma ética vivida: cuidar do corpo sem abandonar a dignidade do espírito.
Em 1952, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. No discurso de aceitação, afirmou: “O exemplo não é a melhor forma de influenciar os outros. É a única.” A frase sintetiza uma vida inteira orientada pelo princípio do “respeito pela vida”, entendido não como abstração, mas como responsabilidade ativa diante de qualquer sofrimento humano.
É nesse contexto que sua advertência mais conhecida ganha peso factual: “A tragédia não é quando um homem morre; a tragédia é aquilo que morre dentro de um homem enquanto ele ainda está vivo”. Em 2026, a sentença descreve um fenômeno observável. Mais de 110 milhões de pessoas vivem hoje em condição de refugiados, segundo dados das Nações Unidas.
A repetição desses números sem reação proporcional revela algo além da crise humanitária: revela a normalização da indiferença.
O que não pode morrer dentro de alguém enquanto a vida segue? A fé que se traduz em ação. A esperança sustentada por escolhas difíceis. A solidariedade que não depende de conveniência. A fraternidade que não seleciona vítimas. E a decência como limite mínimo diante da dor alheia.
Abrir 2026 à luz de Albert Schweitzer não é um exercício de memória. É um teste de consciência histórica. Sociedades podem continuar funcionando quando a ética se ausenta — mas, nesse estágio, já começaram a colapsar por dentro.
https://revistaforum.com.br/opiniao/o-que-ainda-esta-vivo-em-nos/
