O que eles esperam em 2026 — Krugman, Friedman, Žižek e Sachs

Mais que previsões, os sinais já visíveis de um mundo que chega a 2026 menos ingênuo, mais tenso e perigosamente adaptado ao improviso político global

Washington Araújo - 31/12/2025

Não é comum que economistas, filósofos e analistas geopolíticos tão distintos convirjam no diagnóstico de um mesmo horizonte histórico. Mas é exatamente isso que ocorre quando se lê, em sequência, as reflexões recentes de Paul Krugman, Thomas L. Friedman, Slavoj Žižek e Jeffrey Sachs. Vindos de tradições intelectuais diversas, publicados em plataformas igualmente diferentes — de newsletters autorais a fóruns globais de opinião —, eles desenham, cada um à sua maneira, um mesmo ponto de chegada: 2026 não será apenas mais um ano do calendário, mas um marco de exaustão política, econômica e moral.

O que se esgota não é apenas um ciclo econômico ou um mandato presidencial. O que entra em colapso silencioso é a crença de que o mundo ainda opera sob ajustes automáticos, correções graduais e consensos minimamente estáveis. As previsões para 2026, lidas em conjunto, formam um retrato inquietante: instituições cansadas, sociedades polarizadas, guerras prolongadas, tecnologia acelerada e uma perigosa normalização do improviso.

Paul Krugman, agora escrevendo com mais liberdade fora do New York Times, tem sido talvez o mais contido — e, por isso mesmo, o mais revelador. Em seus textos recentes, ele evita o alarmismo fácil. Não fala em colapso iminente nem em crise financeira clássica. Sua previsão para 2026 é mais sutil e mais corrosiva: uma erosão progressiva da confiança pública, especialmente nos Estados Unidos. Para Krugman, o problema central não será a inflação em si, nem o crescimento do PIB, mas a sensação difusa de que os números “não conversam” com a vida real. Custos de moradia, saúde, educação e energia continuarão pressionando a política, mesmo que os indicadores macroeconômicos sugiram estabilidade.

Krugman aponta ainda um risco pouco debatido: o impacto político do boom da inteligência artificial sobre o emprego qualificado e sobre a política monetária. A promessa de produtividade convive com ansiedade social, e essa tensão tende a se manifestar com força nas eleições de meio de mandato de 2026. Sua previsão é clara: não será um ano de rupturas espetaculares, mas de desgaste acumulado, aquele tipo de desgaste que mina governos e abre espaço para soluções simplistas.
Thomas L. Friedman, por sua vez, observa 2026 a partir do tabuleiro global. Em entrevistas e ensaios publicados fora de sua coluna regular, ele sustenta que o mundo caminha para uma fase de pragmatismo cru, quase cínico. A ideia de uma ordem liberal guiada por valores universais perde força, substituída por alianças funcionais, temporárias e negociadas caso a caso. Para Friedman, 2026 será o ano em que as potências deixarão de fingir que compartilham um mesmo projeto civilizatório.

Nesse cenário, conflitos como o do Oriente Médio, a guerra prolongada no Leste Europeu e a rivalidade sino-americana deixam de ser “crises”, no sentido clássico, e passam a ser condições estruturais. Friedman não prevê uma explosão global, mas um mundo permanentemente tenso, em que líderes se especializam mais em administrar riscos do que em construir futuros. O resultado é um sistema internacional menos ideológico, porém também menos confiável, no qual a improvisação se torna política de Estado.

É Slavoj Žižek, como era de se esperar, quem leva esse diagnóstico às últimas consequências simbólicas. Em seus textos recentes no Project Syndicate e em sua newsletter, o filósofo esloveno sugere que 2026 pode marcar a consolidação de um novo “normal” autoritário, ainda que sem ditaduras explícitas. Crises climáticas, escassez de água, emergências sanitárias e guerras prolongadas criam o ambiente perfeito para a suspensão contínua de direitos em nome da sobrevivência coletiva.

Žižek não fala em golpe clássico nem em retorno aos totalitarismos do século XX. Sua previsão é mais perturbadora: o autoritarismo do cotidiano, aceito sem choque, incorporado à rotina administrativa. Estados passam a decidir quem pode circular, consumir, migrar ou protestar com base em algoritmos, emergências e exceções permanentes. Para ele, 2026 será menos o ano do choque e mais o ano da resignação. O mundo seguirá funcionando — mas com menos ilusões sobre democracia, liberdade e escolha.

Jeffrey Sachs, por fim, oferece a leitura mais frontal e mais normativa. Em artigos recentes publicados fora da grande imprensa tradicional, Sachs trata 2026 como um prazo-limite. Seus textos falam abertamente em bifurcação histórica. Ou a comunidade internacional avança até lá em acordos concretos — especialmente em controle nuclear, clima e governança global —, ou entrará numa década de instabilidade sistêmica.

Sachs chama atenção para um dado pouco presente no debate público: a expiração ou fragilização de tratados estratégicos entre 2025 e 2026, especialmente na área nuclear. A ausência de novos acordos, combinada com a proliferação tecnológica e a deterioração da confiança entre potências, cria um ambiente propício a erros de cálculo. Para ele, 2026 pode ser lembrado como o ano em que o mundo escolheu a inércia — e pagou por isso.

Apesar das diferenças de tom e método, há convergências evidentes entre os quatro autores. Todos rejeitam a ideia de que 2026 será um ano de “retorno à normalidade”. Todos percebem que as instituições estão mais frágeis do que aparentam, mesmo quando seguem operando formalmente. E todos apontam, direta ou indiretamente, para a substituição de grandes projetos por gestão contínua de crises.

As divergências, contudo, são igualmente instrutivas. Krugman aposta no desgaste gradual; Friedman, no pragmatismo sem ilusões; Žižek, na normalização da exceção; Sachs, na urgência de decisões estruturais. Juntos, eles não oferecem uma profecia fechada, mas um alerta multifacetado: o mundo de 2026 exigirá mais lucidez e menos autoengano.

Talvez o traço mais inquietante dessas previsões seja justamente a ausência de surpresa. Não há aqui o anúncio de um evento cataclísmico único, mas a descrição de um processo em curso, visível, quase banal. O risco não está no imprevisto, mas na acomodação. Se 2026 marcará o fim de algo, não será o fim da história, mas o fim da ingenuidade. E isso, como a história costuma ensinar, é sempre um momento perigoso — e decisivo.

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