O tolo, o imbecil e a encruzilhada
O problema não é ignorância, é a recusa consciente dos fatos — organizada, ruidosa e politicamente funcional para sabotar políticas públicas e paralisar instituições
Washington Araújo - 19/01/2026


Você sabe diferenciar um tolo de um imbecil? A pergunta deixou de ser filosófica e passou a ser diagnóstica. Ela ajuda a explicar por que sociedades informadas tomam decisões ruins, por que governos insistem em políticas fracassadas e por que o mundo repete erros já amplamente documentados.
Não vivemos uma crise de conhecimento. Vivemos uma crise de disposição para aprender. E viver no modo aprendizagem é a mais urgente necessidade do mundo atual.
O tolo erra porque não sabe. Falta-lhe contexto, método ou experiência. Ele tropeça, cai, identifica a causa da queda e se levanta. Aprende com o impacto e ajusta o passo. Esse movimento — errar, corrigir, avançar — sustenta a história humana, a ciência, a política e o progresso institucional. O tolo não transforma o erro em identidade. Trata-o como algo provisório.
O imbecil opera em outra lógica. Ele também tropeça, mas, em vez de se levantar, se agarra à pedra que o derrubou. Examina-a, defende-a, justifica-a e passa a apresentá-la como fundamento. Permanece no chão por vontade própria. Levantar-se exigiria admitir que estava errado, e isso, para ele, é inaceitável. O erro deixa de ser circunstancial e vira convicção.
Essa distinção ajuda a compreender fenômenos contemporâneos que desafiam qualquer racionalidade mínima. A crença de que a Terra é plana persiste apesar de satélites, mapas digitais e imagens acessíveis em tempo real. O negacionismo vacinal sobrevive mesmo diante de décadas de pesquisas, estatísticas e milhões de vidas salvas. Não se trata de desconhecimento. Trata-se de apego emocional a narrativas refutadas. E isso tendo muito próximo de nós os horrores da pandemia do COVID que só foi eliminada graças a cooperação global na área de saúde e a criação de vacinas eficazes.
No campo geopolítico, a teimosia organizada produz efeitos ainda mais graves. Vemos ressurgir a ideia de que um país pode ser autossuficiente, isolado do mundo, ignorando cadeias produtivas globais, fluxos financeiros, crises sanitárias e mudanças climáticas.
O planeta é um corpo indivisível: se um membro adoece, o organismo inteiro sofre. Não há como fingir que uma infecção no dedo mindinho não afeta o corpo todo. Da mesma forma, uma crise em qualquer canto do mundo ressoa globalmente. Ignorar a interdependência é como ignorar um ferimento que pode gangrenar tudo.
O unilateralismo é vendido como virtude, quando na prática gera fragilidade, instabilidade e conflito.
Nada disso ocorre por falta de alertas. Eles existem, são públicos e reiterados. Relatórios econômicos, estudos científicos e experiências históricas demonstram os limites dessas fantasias. Ainda assim, líderes insistem nelas porque admitir complexidade exige abandonar slogans simples. E slogans rendem mais aplausos do que correções de rota.
O custo dessa escolha raramente recai sobre quem decide. Sistemas de saúde entram em colapso, economias se enfraquecem, conflitos se prolongam. O tolo, quando erra em posição de poder, ainda pode corrigir o caminho. O imbecil dobra a aposta. Confunde teimosia com firmeza e persistência no erro com coragem.
As plataformas digitais agravaram esse quadro. A recusa em aprender virou espetáculo. A convicção vazia ganhou palco, seguidores e engajamento. Permanecer caído passou a ser apresentado como resistência moral. O erro reiterado deixou de ser acidente e se transformou em método de mobilização política e social.
Distinguir tolice de imbecilidade deixou de ser exercício intelectual. Tornou-se necessidade institucional. Com o tolo, ainda há espaço para educação, diálogo e aprendizado. Com o imbecil, é preciso estabelecer limites claros, para que sua decisão consciente de permanecer no chão não paralise sociedades inteiras.
No fundo, a realidade impõe uma verdade inescapável: a Terra funciona como um único território interdependente, e a humanidade compartilha riscos, recursos e destinos. Negar isso não muda os fatos. Apenas adia soluções e amplia danos.
Ser tolo é humano e transitório. Ser imbecil é uma escolha reiterada.
O dilema do nosso tempo não é se vamos errar, mas se teremos coragem política, ética e intelectual de levantar — ou se continuaremos no chão, abraçados à pedra que já provou, inúmeras vezes, ser apenas um obstáculo.
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