Sem ilusões nem união: o mundo à deriva em 2026
Do ponto de vista de Krugman, Friedman, Žižek e Sachs, as crises perderam o poder de se autocorrigir; o que resta é aprender a navegar na instabilidade permanente
Washington Araújo - 31/12/2025


Quatro autores que raramente caminham lado a lado estão apontando para o mesmo horizonte. Um economista laureado, um analista do poder global, um filósofo da ruptura e um arquiteto da governança internacional convergem num diagnóstico incômodo: o mundo se aproxima de 2026 exausto, fragmentado e perigosamente habituado a viver sem projeto. Não se trata de futurologia nem de retórica alarmista, mas da leitura fria de sinais já visíveis.
O que entra em desgaste não é apenas um ciclo econômico ou um mandato político, e sim a própria crença de que o sistema global ainda opera por ajustes automáticos, consensos mínimos e correções graduais. Instituições seguem funcionando, mas por inércia; lideranças administram crises sem oferecer direção; sociedades aprendem a aceitar o improviso como normalidade. O colapso, aqui, não é abrupto nem espetacular — é silencioso, progressivo e profundamente corrosivo.
Em seus textos recentes, Paul Krugman tem adotado um tom mais contido, talvez justamente por escrever com maior liberdade intelectual. Ele não antevê uma crise financeira clássica nem um choque inflacionário fora de controle. Seu alerta é mais sutil: a erosão contínua da confiança pública, especialmente quando os indicadores macroeconômicos deixam de dialogar com a experiência cotidiana.
Mesmo em cenários de crescimento moderado, custos estruturais — moradia, saúde, educação e energia — seguem pressionando a política. Para Krugman, o risco central não é a explosão, mas o desgaste acumulado, aquele que mina governos por dentro e cria terreno fértil para soluções simplistas, frequentemente autoritárias.
Thomas L. Friedman observa 2026 a partir do tabuleiro internacional. Em ensaios e entrevistas recentes, descreve um mundo que abandona a retórica de valores universais e adota um pragmatismo cru. Alianças tornam-se funcionais, temporárias, negociadas caso a caso, sem qualquer ilusão civilizatória compartilhada.
Conflitos prolongados deixam de ser tratados como crises excepcionais e passam a integrar a estrutura permanente do sistema internacional. O resultado é um mundo menos ideológico, mas também menos confiável, no qual governar significa administrar riscos contínuos, não construir futuros estáveis.
É Slavoj Žižek quem leva esse diagnóstico ao plano mais perturbador. Para ele, 2026 pode consolidar um novo “normal” autoritário, não por meio de golpes clássicos, mas pela aceitação cotidiana da exceção. Emergências climáticas, sanitárias e securitárias fornecem o argumento permanente para suspensões graduais de direitos.
Nesse cenário, a restrição deixa de chocar. Estados passam a decidir quem circula, consome ou protesta com base em algoritmos, riscos e urgências indefinidas. O autoritarismo não se impõe; ele se administra. O mundo segue funcionando, mas com menos ilusões sobre liberdade, escolha e democracia.
Jeffrey Sachs oferece a leitura mais direta e normativa. Seus textos tratam 2026 como um prazo-limite, sobretudo diante da fragilização de tratados estratégicos, em especial na área nuclear. A ausência de novos acordos, combinada à proliferação tecnológica e à deterioração da confiança entre potências, cria um ambiente propício a erros de cálculo.
Para Sachs, o perigo não é abstrato nem distante. Ele é mensurável, político e evitável — desde que haja decisão. Caso contrário, 2026 pode ser lembrado como o ano em que o mundo escolheu a inércia e aceitou suas consequências.
O ponto mais grave dessas análises não é a possibilidade de ruptura, mas a disposição coletiva de normalizar a degradação. Não se anuncia um evento final, e sim a consolidação de um método: governar por exceção permanente, decidir por fadiga social, aceitar por ausência de alternativas.
O mundo pode atravessar 2026 ainda de pé — com eleições, mercados, tratados e discursos formais —, mas já operando sem convicção, sem horizonte e sem lastro ético. Quando a ingenuidade se encerra sem que a lucidez a substitua, o vazio costuma ser ocupado pelo cinismo, pela força e pela obediência resignada.
A história não falha nesse registro: sociedades não perdem a liberdade de uma vez; perdem-na quando passam a considerar normal viver sem princípios. É nesse ponto que 2026 deixa de ser apenas uma data e se transforma num teste decisivo.
https://revistaforum.com.br/opiniao/sem-ilusoes-nem-uniao-o-mundo-a-deriva-em-2026/
