Shoghi Effendi tem a leitura mais lúcida do colapso contemporâneo
Washington Araújo - 09/01/2026


O nosso tempo já não admite ambiguidades confortáveis. O mundo perdeu o direito à ingenuidade política. Não existem mais periferias seguras nem conflitos distantes capazes de serem ignorados sem custo. Crises armadas, colapsos institucionais e radicalizações ideológicas deixaram de ser episódios regionais para se tornarem manifestações de um sistema global em fratura. A História apertou o cerco: tudo acontece perto, tudo cobra preço alto, tudo exige posicionamento.
Essa aceleração dos acontecimentos já havia sido identificada com notável clareza por Shoghi Effendi (1897-1957), ao observar que “os acontecimentos do mundo estão se desenrolando de forma perturbadora e com rapidez desconcertante; o turbilhão das paixões humanas tornou-se veloz e alarmantemente violento; as nações estão sendo gradualmente enredadas nas crises recorrentes e nas controvérsias ferozes que afligem a humanidade”. Trata-se menos de uma previsão pontual e mais de um diagnóstico estrutural do nosso tempo.
É justamente para compreender esse ponto de inflexão que suas reflexões ganham atualidade. Sua leitura do século XX não foi impressionista nem retórica. Partiu da observação precisa de sistemas políticos em desgaste, de impérios em mutação e de uma humanidade empurrada para a interdependência sem o correspondente amadurecimento moral. Ao olhar para os conflitos do seu tempo, não descreveu apenas eventos, mas identificou padrões que hoje se repetem em escala ampliada.
Ao antecipar um mundo atravessado por crises recorrentes e tumultos políticos, Shoghi Effendi não cedeu ao fatalismo. Indicou que somente a cooperação entre povos, o diálogo franco sobre o poder e a aceitação consciente da unidade humana poderiam sustentar um novo ordenamento civilizatório. Para ele, a unidade não era ideal abstrato nem consolo espiritual, mas exigência funcional diante do colapso de modelos baseados na fragmentação, na força e na competição permanente.
Esse diagnóstico ajuda a compreender o esgotamento de uma lógica antiga. A soberania absoluta, exercida como licença para agir sem consequências externas, tornou-se anacrônica. No cerne dessa tensão está aquilo que ele descreveu como “uma ordem política fundada na doutrina obsoleta da soberania absoluta, em flagrante desacordo com as necessidades de um mundo já reduzido a uma vizinhança”, cujas provações acabam por “purgar concepções anacrônicas e preparar os povos para formas mais elevadas de organização coletiva”.
O século avança enquanto parte da política insiste em respostas herdadas de um mundo que já não existe — um mundo em que fronteiras funcionavam como escudos e oceanos como garantias. Hoje, essas proteções simbólicas ruíram, mas a mentalidade que as sustenta persiste, alimentando decisões míopes e instabilidade crônica.
É nesse descompasso que a violência retorna. Não como exceção apenas trágica, mas como instrumento recorrente de governos incapazes de lidar com interdependência, diversidade e limites. Quando o poder se recusa a reconhecer vínculos, passa a produzir instabilidade como método, não como acidente. A força substitui a política, e o improviso ocupa o lugar da estratégia.
Há, portanto, uma falha ética profunda no centro da crise contemporânea. Não por acaso, Shoghi Effendi advertiu que “as perturbações das quais o mundo hoje sofre irão se multiplicar, e a sombra que o envolve se tornará mais densa, enquanto perigos imprevisíveis e jamais imaginados ameaçam as nações por dentro e por fora”. A instabilidade deixa de ser surpresa e passa a ser consequência previsível.
O mundo não sofre por falta de recursos, mas por excesso de poder mal orientado e pela ausência de critérios éticos capazes de conter sua própria brutalidade. Onde a ética recua, a barbárie reaparece com linguagem técnica e aparência de normalidade.
Ainda assim, a História não se move apenas em linha de ruína. Ela avança por processos simultâneos e contraditórios. Como ele observou, “o mundo atravessa um processo simultâneo de desintegração e reorganização; estruturas antigas estão sendo gradualmente corroídas, enquanto novas formas de associação internacional começam a emergir sob intensa pressão histórica”. Esses movimentos opostos caminham lado a lado e moldam o curso dos acontecimentos globais.
Nenhuma sociedade permanece fora desse campo de forças. A ciência encurtou oceanos, a economia dissolveu fronteiras e a tecnologia transformou crises locais em choques globais instantâneos. A ilusão do isolamento ruiu. Participar do mundo deixou de ser escolha moral e passou a ser condição objetiva de sobrevivência política. A alternativa à cooperação não é autonomia, mas vulnerabilidade crescente.
Há uma imagem simples que ajuda a compreender esse momento histórico. Imagine uma longa estrada construída por várias comunidades, cada uma responsável apenas pelo trecho que passa diante de suas casas. Durante anos, cada vila cuidou do próprio pedaço, certa de que os buracos mais adiante não eram problema seu. Quando surgiam rachaduras no asfalto distante, diziam tratar-se de falhas alheias. Com o tempo, os danos se acumularam, os trechos começaram a ceder e a estrada inteira tornou-se praticamente intransitável. Uns culparam a chuva, outros o excesso de tráfego, outros o acaso. Apenas um observador percebeu o essencial: não era possível manter um trecho em boas condições se o caminho inteiro estava sendo abandonado. A estrada era uma só — e sua ruína também.
O século chegou a esse ponto. Ou se reconhece que a estrada é comum, que o destino é compartilhado e que a reconstrução exige coordenação, ética e coragem política, ou continuaremos chamando de fatalidade aquilo que é, na verdade, escolha consciente. Persistir na lógica da força não é sinal de realismo. É optar, com lucidez assustadora, pela continuidade do colapso.
