Tahirih, Beauvoir e a longa travessia da igualdade

De Tahirih, executada na Pérsia, a Simone de Beauvoir, atacada na Europa, este texto acusa: a história da humanidade registra séculos de crimes sistemáticos contra mulheres

Washington Araújo - 16/01/2026

Ela nasceu em 1817, na Pérsia da dinastia Qajar — país que só mais tarde passaria a adotar oficialmente o nome Irã — uma das mais antigas civilizações contínuas do mundo, com mais de 2.500 anos de existência histórica. Chamava-se Tahirih. Num território em que religião, poder e patriarcado formavam um sistema fechado, sua existência intelectual já representava um desafio estrutural. Na primeira metade do século XIX, a Pérsia era rigidamente teocrática, regida por hierarquias religiosas, justiça arbitrária e controle severo sobre o corpo e a voz das mulheres. Educação feminina era exceção tolerada; autonomia, afronta direta à ordem social.

Filha de um clérigo influente, casada ainda jovem, Tahirih rompeu com o destino que lhe fora imposto ao aderir, ainda nos seus vinte anos, aos ensinamentos do Báb, movimento espiritual que questionava dogmas fossilizados e introduzia uma ideia radical para a época: a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Na Pérsia do século XIX, isso significava corroer as bases simbólicas do poder masculino, jurídico e religioso. Tahirih tornou-se uma das mais eruditas, combativas e temidas defensoras dessa ruptura intelectual.

O episódio de Badasht, em 1848, consolidou sua condição de figura revolucionária. Ao retirar o véu diante de um auditório exclusivamente masculino, Tahirih não buscou escândalo moral, mas impôs uma ruptura histórica. O gesto deixou claro que não se tratava de reforma gradual, mas de cisão com o passado. Um dos participantes, incapaz de suportar o impacto daquele ato, feriu a si mesmo. A violência não estava na atitude de Tahirih, mas no sistema que ela expunha à luz.

Preso o corpo, tentou-se negociar a consciência. Conduzida à presença do xá Nasiri’d-Din Shah, foi-lhe oferecida segurança, riqueza e casamento em troca da renúncia às suas convicções. Tahirih respondeu com versos que atravessaram a história como manifesto: “O reino, a riqueza e o poder ficam contigo; a pobreza extrema, o exílio e a perda ficam comigo.” Não havia ambiguidade. Ela recusava a troca desigual entre privilégio e liberdade.

Após quatro anos de prisão, foi estrangulada com um lenço e lançada a um poço, em 1852, aos 36 anos. Diante de seus algozes, deixou uma frase que não pedia compaixão: “Podem me matar quando quiserem, mas não conseguirão deter a emancipação das mulheres.” Era menos uma despedida do que um diagnóstico histórico.

Quase um século depois, em outro cenário, Simone de Beauvoir (1908–1986) daria forma conceitual ao que Tahirih havia vivido no próprio corpo. Nascida em Paris, formada em filosofia num ambiente intelectual dominado por homens, Beauvoir enfrentou resistências acadêmicas, rompeu convenções morais e, em 1949, publicou O Segundo Sexo. Ao afirmar que “não se nasce mulher, torna-se”, desmontou a ideia de destino biológico e revelou a engrenagem social que produz desigualdade. Se Tahirih fez da própria vida um argumento irrefutável, Beauvoir construiu a linguagem que permitiu ao mundo nomear a opressão.

Entre a poeta persa e a filósofa francesa há uma ponte de método e de coragem. Uma agiu quando falar era proibido; a outra escreveu quando falar era tolerado, mas desautorizado. Uma rompeu símbolos com gestos; a outra desmontou mitos com conceitos. Ambas recusaram o conforto do silêncio e escolheram a responsabilidade de confrontar seu tempo.

Há um dado elementar que dispensa retórica: todos nós nascemos de uma mulher. E há outro, igualmente incontornável: mulheres representam cerca de 49,7% da população mundial. Ainda assim, o poder global segue organizado como se fossem exceção. O sistema das Nações Unidas reúne 193 Estados-membros, mas, em 2025, apenas 25 países eram governados por mulheres. A discrepância não é casual; é histórica.

O prestígio científico repete o padrão. Desde 1901, os Prêmios Nobel foram concedidos 633 vezes. Somente 68 dessas concessões contemplaram mulheres — e 67 mulheres foram laureadas, já que Marie Curie recebeu o prêmio duas vezes. Não se trata de ausência de talento, mas de reconhecimento seletivo, moldado por décadas de exclusão.

Nos campos que sustentam a vida social, os números são ainda mais reveladores. Na saúde, dados consolidados indicam que 67% da força de trabalho global é composta por mulheres, incluindo cerca de 90% das enfermeiras e parteiras do mundo. Na educação, elas são 94% dos profissionais da educação infantil e 68% dos docentes do ensino fundamental.

Em outras palavras, é a mulher quem cuida, educa e cura a humanidade — e, mesmo assim, permanece sub-representada nos postos de comando, recebe menos por funções equivalentes e enfrenta barreiras persistentes à progressão profissional.

Essa assimetria cobra um preço brutal. No mundo, cerca de 50 mil mulheres e meninas são mortas todos os anos por parceiros íntimos ou familiares, segundo dados recentes das Nações Unidas — uma mulher assassinada a cada dez minutos dentro de espaços que deveriam ser de proteção. Aproximadamente 60% dessas mortes ocorrem no ambiente doméstico.

No Brasil, o quadro é igualmente devastador: 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, o maior número desde a tipificação do crime, mantendo a média de mais de quatro mulheres assassinadas por dia. Esses números não são abstrações estatísticas; são vidas interrompidas por uma cultura que ainda tolera a violência como instrumento de dominação.

Tahirih e Beauvoir pertencem a séculos diferentes, línguas diferentes e estratégias diferentes. O que as une é a mesma convicção inegociável: uma sociedade que permite que as mulheres eduquem, cuidem e curem o mundo, mas lhes nega igualdade e proteção, compromete não apenas a justiça — compromete a própria ideia de humanidade.

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