Wagner Moura e o E.T. cultural de Hollywood
Com humor, precisão e azeite de dendê, Wagner Moura mostrou que chamar um filme de estrangeiro é uma forma elegante de exclusão, repetindo no cinema a lógica xenófoba aplicada a povos inteiros
Washington Araújo - 07/01/2026


Há cenas que não foram escritas para serem históricas, mas acabam sendo. E há outras que não foram feitas para aparecer — porém, justamente por isso, dizem muito mais do que a cerimônia inteira. O episódio ocorrido em 4 de janeiro de 2026, em Santa Monica, Califórnia, durante a 31ª edição do Critics Choice Awards, pertence à segunda categoria. Não foi um grande escândalo, nem um momento de aplausos intermináveis. Foi, sim, uma brecha no verniz cultural que revela o que muitas vezes fica por baixo do glamour.
O prêmio de melhor filme estrangeiro para O Agente Secreto poderia ter sido apenas uma nota de rodapé: aplaudido por alguns, esquecido por muitos. Mas a entrega desse prêmio aconteceu de qualquer jeito, ainda na fila de entrada do tapete vermelho, antes mesmo do início formal da transmissão, como se aquilo fosse um protocolo menor — um item a ser conferido no backstage da consagração principal.
Não chamaram os brasileiros ao palco. A mensagem implícita era simples: isso aqui não é o coração da festa. O coração, como sempre, bate em inglês.
Foi então que Wagner Moura, convocado às pressas, fez o que poucos fariam naquela circunstância: aceitou o prêmio — e, em segundos, deslocou seu sentido. Ao entregá-lo ao diretor Kleber Mendonça Filho, observou com elegância e precisão:
“melhor filme estrangeiro, que lá no Brasil se chama filme internacional.”
Não houve ataque. Houve correção. E isso dói mais. Ainda mais com azeite de dendê de quem sabe jogar capoeira e esbanjar inteligência emocional.
A expressão foreign film nunca foi neutra. Ela não descreve apenas uma origem geográfica; inscreve uma posição na hierarquia simbólica. Estrangeiro é sempre o outro, o satélite, o que orbita. Internacional é quem participa do mundo em pé de igualdade. Ao trocar uma palavra, Wagner trocou o eixo — e expôs uma hierarquia cultural que prefere não ser nomeada.
Essa lógica não é exclusiva de Hollywood. Ela é um idioma do poder, e o poder fala com fluência em qualquer continente. No início dos anos 2000, ao circular por Florença e Roma — em julho — observei pequenas rodas de músicos africanos tocando em praças públicas, cercadas por italianos e turistas curiosos. Era um cosmopolitismo aparente, feito de sons, ritmos e olhares cruzados.
Foi ali que meu amigo italiano, Gian Mauro Zaganelli, comentou comigo, com indignação cortante:
“Tom, nunca me acostumei a ouvir aqui na Itália que os africanos são chamados de ‘extracomunitários’. Isso é muita xenofobia — é quase tratar os africanos como extraterrestres. Um absurdo!”
A frase era curta e afiada — porque apontava para algo que a linguagem, muitas vezes, tenta ocultar: quando criamos categorias para excluir, construímos fronteiras invisíveis dentro do humano.
“Extracomunitário” — que deveria ser um termo técnico — funciona como etiqueta de exclusão. Cria uma espécie de “zona de não pertencimento”. A palavra empurra para fora, sinaliza uma presença tolerada, mas nunca reconhecida. É quase tratar pessoas como extraterrestres — não por acaso, a metáfora remete ao E.T. de Spielberg: um ser estranho que chega de fora, observado com curiosidade, medo e paternalismo, sempre tolerado, nunca integrado. A violência está no rótulo: quem nomeia, manda; quem é nomeado, se justifica.
A arrogância europeia, como a arrogância estadunidense, vem de longe. O Velho Mundo sempre teve dificuldades em aceitar que o mundo não gira em torno de um único centro, e o Novo Mundo — ou o centro autoproclamado moderno — aprimorou essa lógica: transformou influência em indústria, indústria em padrão, padrão em norma universal. O resultado é conhecido: muita gente se imagina epicentro do planeta, mesmo sabendo pouco de geografia e menos ainda da vida cultural fora de seus limites.
E, no entanto, a realidade insiste em ser maior. O cinema contemporâneo é multipolar. O público é global. As histórias circulam sem pedir visto. A ideia de que existe um único centro — ou um conjunto de centros legítimos — ficou parecendo um hábito antigo, desses que sobrevivem por inércia cultural.
É por isso que o gesto de Wagner Moura incomoda tanto: ele não confrontou; expôs. Não levantou a voz; ressignificou o sentido das palavras diante de câmeras, microfones e olhares de milhões. E a correção educada tem um poder corrosivo particular: ela humilha o sistema sem levantar a voz, fazendo com que a plateia só perceba que algo foi desmontado quando a mancha aparece.
Há humor nisso, claro — um humor que nasce do contraste entre o simbolismo do tapete vermelho, aquele espaço sagrado de autoimportância, e o corredor improvisado onde foi entregue um prêmio que deveria ser celebrado com pompa. E, ao mesmo tempo, existe um sorriso amargo ao ver um ator brasileiro devolver com elegância uma lição de geopolítica cultural em poucos segundos.
No fim, a ironia é cristalina. Tentaram minimizar o prêmio; ele ficou maior. Tentaram empurrar o cinema brasileiro para a antessala; ele falou da sala inteira. Tentaram manter hierarquias antigas; elas começaram a ruir assim que foram nomeadas em voz alta.
Talvez a indústria americana continue chamando de foreign film. Talvez a burocracia europeia continue produzindo “extracomunitários” em formulários e fronteiras. Mas naquela noite em Santa Monica, alguém lembrou — com humor e precisão — que o mundo não é um anexo de nenhuma indústria cultural.
Ele é vasto, plural e indomável.
E, cada vez mais, fala português — e tailandês, indiano, mandarim, malaio.
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