A arquitetura esquecida do desenvolvimento social

Mais do que teoria, experiências em bairros espanhóis demonstram que desenvolvimento social nasce quando moradores assumem responsabilidade coletiva e instituições públicas passam a atuar como parceiras

Washington Araújo - 06/03/2025

Durante décadas, o debate internacional sobre desenvolvimento social foi dominado por uma premissa confortável: bastaria aperfeiçoar políticas públicas, ampliar orçamentos e desenhar programas mais sofisticados para que desigualdades estruturais começassem a ceder. A realidade tem sido menos dócil. Em muitos países, planos tecnicamente irrepreensíveis produzem resultados modestos porque ignoram uma variável decisiva: sociedades não se transformam apenas por decisão administrativa. Quando comunidades se tornam espectadoras da própria vida coletiva, nenhum desenho institucional — por mais engenhoso que seja — consegue sustentar mudanças duradouras.

Foi precisamente essa lacuna que uma declaração apresentada em 10 de fevereiro de 2026, durante a 64ª sessão da Commission for Social Development das United Nations, em New York, decidiu enfrentar de forma direta. O documento, intitulado “Parcerias para a Transformação Social: os papéis complementares das instituições, das comunidades e dos indivíduos”, foram apresentados pela Bahá’í International Community, organização da sociedade civil com status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social da ONU.

Mais do que um texto conceitual, a declaração parte de experiências observadas nas Canary Islands, arquipélago espanhol no Atlântico, especialmente na região de Las Palmas de Gran Canaria e na cidade vizinha de Telde. A partir dessas experiências, o documento formula uma tese simples e, ao mesmo tempo, desafiadora para grande parte das políticas sociais contemporâneas.

O desenvolvimento social ganha consistência quando três atores operam em complementaridade: indivíduos, comunidades e instituições públicas. Quando um deles se impõe sobre os demais, surgem distorções. Quando aprendem a agir em cooperação, abre-se um campo social capaz de produzir mudanças mais profundas e duradouras.

Essa ideia não nasce no plano abstrato.

Depois da pandemia de Covid-19, autoridades locais começaram a observar um fenômeno que se repetiu em muitas cidades europeias: retração da vida comunitária, enfraquecimento das redes de solidariedade e queda na participação cívica. Nos bairros populares de Las Palmas e Telde, esse processo era visível. Associações locais perdiam vitalidade, atividades coletivas diminuíam e o sentimento de pertencimento enfraquecia.

Imigração e diversidade
Ao mesmo tempo, o crescimento da imigração africana e latino-americana ampliava a diversidade cultural da região, mas também alimentava tensões e episódios de desconfiança entre grupos sociais.

Era um terreno fértil para fragmentação social.

Foi nesse contexto que algo inesperado começou a acontecer.

A partir de 2022, grupos de moradores passaram a organizar encontros de formação comunitária voltados ao fortalecimento de capacidades humanas e sociais. Não se tratava de cursos convencionais nem de programas oficiais. O foco estava em algo mais elementar e mais exigente: transformar valores como confiabilidade, cooperação, responsabilidade e serviço ao bem comum em práticas cotidianas.

A iniciativa não nasceu dentro de gabinetes governamentais. Nasceu entre vizinhos.

Instituto para Formação e Desenvolvimento Comunitário

Em poucos anos, mais de três mil moradores participaram diretamente dessas atividades em bairros da região metropolitana de Las Palmas, envolvendo jovens, famílias migrantes, educadores, trabalhadores e aposentados.

Dessa base emergiram projetos diversos: programas de empoderamento feminino, reforço escolar, iniciativas ambientais, apoio à parentalidade, integração de imigrantes e ações de saúde comunitária.

Para coordenar esse crescimento foi criado o Instituto para Formação e Desenvolvimento Comunitário (ICTD).

Um detalhe distingue essa experiência de muitos projetos sociais tradicionais: o instituto nasceu praticamente sem financiamento externo. O motor das atividades foi o voluntariado e o senso de responsabilidade coletiva.

Em vez de esperar programas governamentais ou recursos institucionais, moradores decidiram começar com aquilo que já possuíam — tempo, conhecimento e disposição para agir.

À medida que as atividades ganharam escala, o envolvimento das autoridades públicas tornou-se inevitável.

Prefeituras, escolas públicas e unidades de saúde passaram a oferecer infraestrutura, espaços físicos e apoio logístico. Não como substituição da ação comunitária, mas como complemento.

Jinámar

Essa interação tornou-se particularmente visível no bairro de Jinámar, localizado entre os municípios de Telde e Las Palmas.

Durante as férias escolares de 2024 e 2025, programas comunitários passaram a ocorrer diariamente envolvendo cerca de 700 crianças e adolescentes, acompanhados por aproximadamente 80 voluntários locais.

As atividades incluíam oficinas culturais, práticas esportivas, debates sobre convivência social e projetos de serviço comunitário.

O conteúdo era organizado pelos próprios moradores. As autoridades municipais ofereciam espaços e infraestrutura.

O resultado foi mais profundo do que simples ocupação do tempo livre. Criou-se um ambiente onde relações sociais começaram a se recompor após anos de retração comunitária.

Outro episódio ocorrido no bairro de San Matías ajuda a compreender o impacto desse processo.

A prefeitura havia proposto a criação de um mural artístico coletivo. A ideia era positiva, mas inicialmente recebeu pouca adesão. Muitos moradores percebiam a iniciativa como mais um projeto oficial distante da realidade local.

O cenário mudou quando jovens envolvidos nas atividades comunitárias decidiram assumir o projeto como parte de sua própria aprendizagem social. Convidaram vizinhos, elaboraram desenhos e transformaram a atividade em um encontro aberto.

A participação cresceu rapidamente.

O mural deixou de ser um projeto institucional e tornou-se expressão coletiva do bairro.

Esse tipo de experiência começou a alterar também a percepção de gestores públicos.

Funcionários municipais passaram a enxergar o ICTD não como grupo que solicita apoio, mas como parceiro capaz de mobilizar cidadãos em torno de objetivos construtivos.

Parte do processo

Uma das coordenadoras do instituto, citada na declaração apresentada à ONU, resume a mudança de perspectiva com precisão: quando autoridades se percebem parte de um processo comunitário vivo, o apoio institucional deixa de ser concessão e passa a ser cooperação.

O educador comunitário José Miguel Hernández, também mencionado no documento, descreve o aprendizado de forma ainda mais direta: “durante muito tempo acreditamos que desenvolvimento era algo que governos entregam. Descobrimos que ele começa quando pessoas comuns decidem agir juntas”.

Ao examinar atentamente esse documento, uma conclusão se impõe com força crescente: políticas públicas são indispensáveis, mas raramente são suficientes. O que realmente desloca sociedades de um ponto de estagnação para um horizonte de progresso é a capacidade de alinhar energia institucional, iniciativa comunitária e responsabilidade individual em torno de um propósito compartilhado.

Essa talvez seja a contribuição mais provocadora do texto apresentado na ONU.

Transformação coletiva

Ele desloca o eixo do debate sobre desenvolvimento social. Em vez de perguntar apenas o que os governos devem fazer, o documento convida a perguntar como sociedades inteiras podem reorganizar suas relações para produzir transformação coletiva.

Indivíduos deixam de ser apenas beneficiários de políticas públicas e tornam-se agentes ativos de mudança.

Comunidades deixam de ser apenas receptoras de serviços e passam a ser ambientes de construção de soluções.

Instituições públicas deixam de operar isoladamente e passam a atuar como facilitadoras de processos sociais mais amplos.

Essa reorganização não elimina responsabilidades distintas entre Estado e sociedade. Mas cria uma arquitetura de cooperação capaz de multiplicar capacidades humanas e institucionais.

Num mundo marcado por fragmentação social, desconfiança institucional e polarização política, essa lição merece atenção.

O desenvolvimento sustentável não depende apenas de políticas bem desenhadas. Depende da capacidade das sociedades de reconstruir os vínculos que tornam possível a ação coletiva.

Quando indivíduos redescobrem o hábito de agir juntos, comunidades recuperam sua força organizadora e instituições públicas encontram parceiros reais para suas políticas.

É nesse ponto que o documento apresentado na ONU revela sua dimensão mais profunda.

Ele nos lembra que o desenvolvimento não começa em relatórios, conferências ou resoluções diplomáticas. Começa quando sociedades redescobrem algo elementar: a capacidade de cooperar conscientemente para construir o bem comum.

https://revistaforum.com.br/opiniao/a-arquitetura-esquecida-do-desenvolvimento-social/