Economia
A força de Pequim
Da pobreza extrema à liderança industrial mundial, a China consolidou um projeto nacional baseado em disciplina, estratégia e continuidade histórica


Há mais de trinta anos acompanho o desenvolvimento chinês, estudo suas estruturas de poder, observo suas reformas econômicas e procuro compreender como uma civilização milenar conseguiu atravessar guerras, humilhações externas, fome coletiva e revoluções sem perder a capacidade de planejar o futuro.
Poucos países contemporâneos demonstram tamanho senso de continuidade histórica.
Em salas de aula universitárias, congressos acadêmicos e artigos publicados ao longo dessas décadas, sempre chamaram atenção a velocidade e a profundidade das transformações chinesas. Nessas pesquisas, ensaios e análises jornalísticas, recorro permanentemente a fontes ocidentais de reconhecida credibilidade — Banco Mundial, FMI, ONU, universidades europeias e norte-americanas, relatórios econômicos internacionais, além de jornais como The New York Times, Financial Times e The Economist.
A intenção é simples.
Fugir tanto da propaganda quanto do preconceito ideológico.
A China exige observação cuidadosa.
Ao longo de mais de quatro milênios, o país atravessou guerras civis, invasões estrangeiras, rupturas dinásticas, fome e revoluções sem abandonar aquilo que talvez seja sua marca mais singular: a disposição de pensar em horizontes históricos longos.
Num planeta dominado pela ansiedade eleitoral, pelas oscilações das bolsas e pela velocidade superficial das redes sociais, Pequim opera em outro ritmo.
O governo chinês projeta ferrovias, universidades, corredores industriais e investimentos energéticos olhando para 2035, 2049 e até 2075.
Não se trata apenas de economia.
Trata-se de visão histórica.
Existe uma frase atribuída ao então primeiro-ministro chinês Zhou Enlai (1898–1976) que ajuda a compreender essa mentalidade. Questionado sobre os impactos da Revolução Francesa de 1789, Zhou teria respondido: “Ainda é cedo demais para avaliá-la.”
A frase talvez nunca tenha sido dita exatamente dessa maneira. Ainda assim, tornou-se simbólica porque traduz uma característica profunda da cultura política chinesa: processos históricos relevantes não são julgados pela espuma dos acontecimentos imediatos.
A virada econômica
Quando o presidente Xi Jinping (1953– ) declarou, em fevereiro de 2021, que a China havia eliminado a pobreza extrema em todo o país, o anúncio sintetizava um projeto iniciado décadas antes por Deng Xiaoping (1904–1997).
Entre 1978 e 2024, mais de 800 milhões de chineses deixaram a pobreza, segundo o Banco Mundial.
Nenhuma transformação social contemporânea ocorreu nessa escala.
Em 1981, quase 88% da população chinesa vivia em extrema pobreza. Hoje, a segunda maior economia do planeta abriga uma classe média estimada em mais de 400 milhões de pessoas.
O PIB chinês ultrapassou US$ 18 trilhões em 2025.
A China tornou-se o maior parceiro comercial de mais de 120 países. Também consolidou-se como principal comprador de commodities brasileiras, especialmente soja, minério de ferro e petróleo.
Tenho escrito inúmeros artigos ao longo dos anos tratando dessas mudanças da maneira mais imparcial possível, sempre estabelecendo comparações internacionais indispensáveis para compreender a velocidade da transformação chinesa.
Basta observar a inteligência artificial, os sistemas ferroviários de alta velocidade, a digitalização bancária, as cidades inteligentes e a modernização urbana de centros como Shenzhen, Xangai, Hangzhou e Chongqing.
Em várias dessas áreas, Estados Unidos e Europa passaram a correr atrás do atraso.
Diplomacia e influência
Outro aspecto que frequentemente impressiona é a consistência da diplomacia chinesa.
Ao longo dos últimos anos, em encontros acadêmicos, institucionais e culturais realizados em Brasília, tornou-se impossível não perceber o elevado preparo intelectual, o profissionalismo e a disciplina do corpo diplomático chinês no Brasil. Embaixadores, conselheiros e adidos demonstram conhecimento sólido sobre economia internacional, política brasileira e relações bilaterais.
Há método nisso.
A diplomacia chinesa raramente trabalha apenas para o presente. Ela constrói influência de forma gradual, paciente e silenciosa.
A história chinesa não pode ser analisada apenas como trajetória de um Estado moderno.
A China é uma civilização contínua.
Enquanto muitas nações contemporâneas possuem poucos séculos de existência, os chineses acumulam experiências administrativas, filosóficas e culturais que atravessaram milênios. Dinastias como Han, Tang, Song e Ming construíram sistemas sofisticados de arrecadação tributária, irrigação agrícola e burocracia profissionalizada quando boa parte da Europa ainda vivia fragmentada em feudos.
Muito antes do Ocidente discutir meritocracia, a China imperial já realizava exames públicos rigorosos para selecionar funcionários do Estado.
Também não é coincidência que invenções decisivas para a modernidade tenham surgido em território chinês. Papel, pólvora, bússola, impressão gráfica e técnicas hidráulicas avançadas nasceram ali séculos antes da Revolução Industrial europeia.
O peso das cicatrizes
Mas reduzir a história chinesa a uma sequência de êxitos seria distorcer os fatos.
O século XIX mergulhou o país numa das fases mais humilhantes de sua existência.
As Guerras do Ópio, iniciadas em 1839 pelo Império Britânico, abriram feridas que permanecem vivas na memória nacional chinesa. A derrota obrigou Pequim a aceitar tratados desiguais, ceder Hong Kong aos britânicos e abrir seus portos ao controle estrangeiro.
Quando Mao Zedong (1893–1976) proclamou a fundação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949, o país era majoritariamente rural, pobre e devastado.
A expectativa média de vida mal ultrapassava 35 anos.
Mais de 80% da população era analfabeta.
Houve erros graves.
O Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural produziram traumas humanos profundos.
Mas a virada econômica iniciada no fim dos anos 1970 alterou radicalmente o destino nacional. Deng Xiaoping compreendeu que slogans ideológicos não derrotariam a pobreza.
Sua frase mais célebre tornou-se símbolo do pragmatismo chinês moderno:
“Não importa a cor do gato, desde que ele cace ratos.”
Liderança tecnológica
Nas décadas seguintes, a economia chinesa cresceu perto de 10% ao ano durante mais de trinta anos consecutivos.
Em 2001, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio acelerou sua integração global.
Em 2010, o país ultrapassou o Japão e tornou-se oficialmente a segunda maior economia do mundo.
Hoje, a China responde por aproximadamente 30% da produção industrial global.
Possui a maior malha ferroviária de alta velocidade do planeta, com mais de 45 mil quilômetros de trilhos.
Lidera a produção mundial de painéis solares, baterias de lítio, drones comerciais, carros elétricos e minerais processados para a transição energética.
Mais de 80% dos painéis solares produzidos no mundo saem de fábricas chinesas.
Em veículos elétricos, empresas como BYD e CATL tornaram-se gigantes globais diante de uma indústria europeia enfraquecida e de uma indústria norte-americana ainda tentando reorganizar sua cadeia produtiva.
No campo da infraestrutura, os números impressionam.
A China construiu, em apenas duas décadas, mais quilômetros de metrô do que muitos países europeus edificaram em um século inteiro.
O porto de Xangai permanece o maior do mundo em movimentação de contêineres.
Pequim também lidera investimentos globais em energia limpa e disputa supremacia em inteligência artificial, computação quântica e telecomunicações avançadas.
Empresas como Huawei desafiaram diretamente a hegemonia tecnológica norte-americana.
A disputa deixou de ser apenas econômica.
Tornou-se estratégica.
Washington e Pequim
É nesse ponto que a diferença entre o atual modelo político chinês e a crise contemporânea da política norte-americana se torna mais evidente.
Enquanto Pequim trabalha com metas industriais para 2049 — ano do centenário da República Popular da China —, os Estados Unidos vivem crescente polarização institucional, tensões raciais, disputas eleitorais permanentes e conflitos culturais internos.
A comparação entre Xi Jinping (1953– ) e Donald Trump (1946– ) revela estilos radicalmente distintos de liderança.
Xi fala frequentemente em estabilidade, continuidade histórica, multipolaridade e planejamento estratégico.
Trump concentra grande parte de sua retórica em confrontos internos, imigração, disputas ideológicas domésticas e embates eleitorais permanentes.
O ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger (1923–2023), um dos maiores especialistas ocidentais em China, observou certa vez que “a China pensa em décadas; os Estados Unidos pensam em eleições”.
Kissinger compreendia que a força chinesa não nasce apenas de indicadores econômicos.
Ela repousa numa cultura estratégica consolidada ao longo dos séculos.
Literatura e cinema
Outro componente frequentemente ignorado é o papel da cultura contemporânea chinesa.
O escritor Mo Yan (1955– ) tornou-se uma das vozes literárias mais importantes da China moderna. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2012, Mo Yan construiu uma obra marcada pela mistura de realismo, memória rural, violência política e humor ácido.
Seu romance Sorgo Vermelho, publicado em 1986, transformou-se num fenômeno internacional após ser adaptado para o cinema por Zhang Yimou (1950– ). O livro retrata a brutal ocupação japonesa da China nos anos 1930, expondo fome, violência militar e resistência camponesa.
Já obras como Peitos Grandes, Quadris Largos e As Baladas do Alho mergulham nas contradições sociais produzidas pelas transformações econômicas chinesas e pelos traumas políticos do século XX.
Outro nome central da literatura chinesa contemporânea é Yu Hua (1960– ). Seu romance Viver tornou-se um clássico ao narrar a trajetória de uma família devastada pelas turbulências políticas da China maoista, incluindo guerra civil, fome e Revolução Cultural.
Outra obra de enorme repercussão foi Crônica de um Vendedor de Sangue, romance que retrata pobreza, sobrevivência e dignidade humana em meio às dificuldades econômicas da China do pós-guerra.
No cinema, poucos diretores tiveram impacto tão profundo quanto Zhang Yimou (1950– ). Filmes como Sorgo Vermelho, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 1988, Lanternas Vermelhas, indicado ao Oscar, e Hero, estrelado por Jet Li, Tony Leung e Maggie Cheung, transformaram-se em referências visuais do cinema contemporâneo.
Zhang Yimou combinou monumentalidade estética, crítica social e sofisticação visual como poucos diretores de sua geração. Em 2008, dirigiu a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, assistida por bilhões de pessoas no planeta.
Outro cineasta fundamental é Chen Kaige (1952– ), autor de Adeus Minha Concubina, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1993 e considerado um dos maiores filmes asiáticos do século XX.
A obra acompanha cinquenta anos da história chinesa através da trajetória de dois artistas da Ópera de Pequim. O filme atravessa ocupação japonesa, guerra civil e Revolução Cultural, mostrando como mudanças políticas profundas podem destruir vidas, afetos e identidades culturais.
Encontro-me neste momento iniciando a escritura do meu vigésimo primeiro livro, dedicado justamente a essas reflexões sobre China, geopolítica, inteligência artificial, modernidade urbana e transformação econômica.
O eixo do século
Depois de décadas observando o comportamento das grandes potências, tornou-se impossível ignorar que o eixo econômico, tecnológico e industrial do século XXI desloca-se rapidamente para a Ásia.
Talvez esteja exatamente aí a principal diferença chinesa.
Em um mundo dominado pela política do improviso, pela ansiedade eleitoral e pela tirania do curto prazo, Pequim trabalha com paciência histórica, disciplina estratégica e metas nacionais que atravessam gerações. Enquanto parte do Ocidente consome energia em crises internas permanentes, disputas ideológicas estéreis e polarizações que fragmentam suas próprias sociedades, a China amplia silenciosamente sua influência industrial, tecnológica, financeira, científica e diplomática.
O século XXI ainda está sendo escrito.
Mas poucos movimentos geopolíticos parecem tão claros quanto este: pela primeira vez desde a Revolução Industrial, o eixo econômico, tecnológico e estratégico do planeta desloca-se de forma acelerada para a Ásia — e nenhum país simboliza essa mudança com tanta força, organização e ambição histórica quanto a China.
22 de maio de 2026
Os infinitos tentáculos viscosos do polvo
Áudios, contratos e cifras milionárias desmontam versões sucessivas e revelam bastidores explosivos envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro — e estamos apenas no começo


Raramente escrevo por pressão de leitores. Jornalismo, para mim, deve responder antes de tudo aos fatos. Mas o caso Master continua produzindo novos personagens, novas contradições e zonas cada vez mais escuras. Já tratei do assunto em três artigos anteriores. Ainda assim, o escândalo segue crescendo como um monstrengo de águas profundas.
Desta vez, resolvi atender leitores de São Paulo, Ceará e Rio Grande do Sul. Há pautas que simplesmente se impõem. E cabe ao jornalista buscar ângulos menos óbvios sobre aquilo que já começa a contaminar o debate público brasileiro.
O bolsonarismo sempre gostou de acusar os outros de viverem de narrativas. Agora descobriu que a pior narrativa é aquela gravada em áudio, armazenada em celular alheio e vazada justamente no momento em que a fantasia eleitoral precisava parecer limpa.
A revelação central é simples e devastadora. Flávio Bolsonaro, que vinha negando proximidade com Daniel Vorcaro, negociou com o ex-banqueiro do Master cerca de US$ 24 milhões — algo próximo de R$ 134 milhões — para financiar Dark Horse, cinebiografia internacional de Jair Bolsonaro.
O número impressiona não apenas pela dimensão política, mas também pela escala cinematográfica. O valor negociado entre Flávio e Vorcaro seria suficiente para produzir aproximadamente três vezes Ainda Estou Aqui e cerca de cinco vezes O Agente Secreto. Isso ajuda a dimensionar o tamanho financeiro da operação que, inicialmente, tentava ser apresentada como simples iniciativa privada e quase artesanal de apoio cultural familiar.
Documentos e mensagens apontam que ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025. Não se trata de encontro casual. Não se trata de fotografia social. Não se trata de mera simpatia política.
A cronologia é cruel com Flávio. Em março, dizia que a “conta do Banco Master” estava longe da direita. Depois afirmou que não tinha relação relevante com Vorcaro. Em seguida, vieram mensagens tratando o banqueiro como interlocutor direto. Depois surgiram negociações milionárias. Depois apareceram áudios. Depois cronogramas financeiros.
A cada nova revelação, uma versão anterior desmoronava.
No dia em que as revelações vieram a público, Flávio reagiu primeiro com um “é mentira”, seguido de risos e evasivas. Horas depois, a própria realidade já havia desmontado a frase. Vieram áudios, mensagens, comprovantes e uma intimidade verbal incompatível com a distância política que ele tentava sustentar.
Primeiro, não havia relação. Depois, havia apenas uma aproximação privada. Primeiro, não conhecia direito. Depois, conhecia o suficiente para negociar dezenas de milhões de dólares. Primeiro, tratava-se de invenção da imprensa. Depois, virou “captação privada legítima”.
Impressiona a velocidade com que certas versões são apresentadas como verdades absolutas e, duas ou três horas depois, acabam descartadas pela sucessão dos fatos como lixo abandonado pela própria história.
A defesa de Flávio passou então a sustentar que tudo não passava de uma iniciativa privada de um filho tentando financiar um filme sobre o próprio pai. A frase tenta soar doméstica e afetiva, mas tropeça na escala do caso.
Filho costuma pedir ajuda para álbum de fotografias, homenagem familiar ou livro comemorativo. Não costuma captar cifras milionárias junto a um banqueiro cercado por investigações sobre um rombo bilionário.
Sempre entendi — e a vida tem reiteradamente confirmado isso — que toda decisão carrega consigo as consequências que inevitavelmente dela decorrem. Aproximar-se de personagens envolvidos em operações nebulosas quase nunca termina sem custo político, moral ou jurídico.
Mario Frias apareceu logo depois exercendo o velho papel de bombeiro que chega ao incêndio carregando gasolina. Disse que não existia “um único centavo” de Vorcaro no projeto.
Depois relativizou. Disse que, ainda que existisse dinheiro do banqueiro, isso não configuraria irregularidade alguma. A contradição é evidente. Primeiro, o dinheiro inexistia. Depois, sua existência deixou de ser problema.
A produtora GOUP entrou em cena tentando equilibrar o impossível. Disse que não recebeu recursos do Master. Também negou dinheiro vindo de empresas ligadas a Vorcaro.
Mas se recusou a revelar quem financiou efetivamente o projeto. Alegou cláusulas de confidencialidade. A versão cria um vazio difícil de sustentar. O dinheiro não veio do banqueiro. Mas a origem real também não pode ser conhecida.
Transparência parcial costuma ser apenas outra forma de opacidade.
Eduardo Bolsonaro também acabou tragado pelo enredo. Publicamente, sua participação parecia periférica. Bastidores e documentos começaram a indicar outra realidade.
A contradição aqui é estrondosa. Poucas horas antes da divulgação dos documentos, Eduardo sustentava que nada tinha a ver com a produção do filme. Afirmava que o projeto seguia sem seu envolvimento direto. Tentava transmitir a imagem de mero observador distante.
Então surgiu o contrato.
No documento revelado, a assinatura de Eduardo Bolsonaro aparece formalmente como produtor executivo do filme, ao lado de Mario Frias. Não como simpatizante. Não como apoiador informal. Não como alguém periférico. Produtor executivo.
A descoberta implode a versão anterior. Porque produtor executivo não é figura decorativa. Produtor executivo participa de decisões estratégicas, acompanha orçamento, avalia captação, discute cronogramas e integra o núcleo operacional do projeto.
A sequência dos fatos tornou tudo ainda mais desconfortável. Primeiro, Eduardo minimiza. Depois, documentos o colocam dentro da engrenagem central da produção. Primeiro, distância política e operacional. Depois, assinatura contratual.
Mais uma vez, os fatos caminharam numa direção e as versões públicas caminharam em outra.
Mensagens e contratos passaram a apontar envolvimento ativo no orçamento e na estrutura financeira da produção. A figura do simples apoiador informal começou a parecer pequena demais para o tamanho da engrenagem internacional que se desenhava nos bastidores.
O episódio da mansão adicionou uma camada quase caricatural ao caso. Mensagens revelaram tentativas de aproximar Jair Bolsonaro de Daniel Vorcaro em Brasília, justamente no período em que o ex-presidente enfrentava crescente pressão judicial.
Depois vieram negativas. Depois explicações parciais. Depois novas mensagens. O roteiro passou a avançar em círculos. Cada resposta criava uma nova pergunta.
Política, cinema, milionários, banqueiros investigados, mansões e produtores tentando viabilizar um épico eleitoral financiado por personagens explosivos. O roteiro parece exagerado até para streaming de baixa qualidade.
A repercussão internacional veio rapidamente porque o escândalo reúne ingredientes difíceis de ignorar. Um senador tentando negar vínculos já documentados. Um banqueiro associado a suspeitas bilionárias. Um filme político transnacional. E cifras incompatíveis com qualquer aparência de improviso artesanal.
O problema para o bolsonarismo é que a história deixou de parecer uma produção patriótica independente. Começou a adquirir o cheiro pesado de um sistema paralelo de influência, dinheiro e proteção mútua.
A ironia final talvez seja a mais dura. Dark Horse pretendia vender Jair Bolsonaro como o azarão perseguido pelo sistema.
As revelações recentes produziram justamente o oposto. Um retrato de proximidade entre poder político, dinheiro opaco e personagens mergulhados em investigações explosivas.
O filme ainda nem estreou. Mas o making of político já se transformou em um desastre de imagem difícil de controlar.
https://revistaforum.com.br/opiniao/os-infinitos-tentaculos-viscosos-do-polvo/
16 de maio de 2026
A nova economia espacial avança e o Brasil permanece fora da equação
O país transforma potencial em atraso e transfere para outras nações o controle de tecnologias essenciais ao seu próprio desenvolvimento


Há um dado que, à primeira vista, deveria nos constranger muito mais do que nos orgulhar. Brasil, Rússia, Índia, China e Estados Unidos formam um grupo raríssimo de países que combinam território continental, população acima de 100 milhões de habitantes e Produto Interno Bruto superior a US$ 1 trilhão. É uma elite objetiva da geopolítica contemporânea. No caso brasileiro, porém, essa condição tem servido menos como alavanca de poder e mais como álibi recorrente para justificar a ausência de decisões estruturais. Somos grandes nos números e pequenos nas escolhas.
Recordo a frase de Ozires Silva, fundador da Embraer, gravada na entrada do Centro Espacial do ITA: “o Brasil é grande demais para sonharmos pequeno”. A frase, frequentemente celebrada, revela hoje um contraste incômodo. Transformou-se, ao longo do tempo, em uma espécie de retórica de conforto — repetida com orgulho, mas desmentida pela prática. Porque, ao observarmos as últimas duas décadas, o que se impõe não é apenas a perda de ritmo, mas a consolidação de uma cultura política que naturaliza o atraso como se fosse inevitável.
Enquanto China e Estados Unidos estruturaram programas espaciais contínuos, com investimentos anuais que alcançam dezenas de bilhões de dólares e integração direta com suas estratégias industriais e militares, o Brasil seguiu um caminho errático, marcado por descontinuidade, contingenciamentos e ausência de visão sistêmica. Entre 2000 e 2023, a China investiu cerca de US$ 100 bilhões em seu programa espacial e realizou mais de 500 lançamentos orbitais, consolidando uma infraestrutura que combina soberania tecnológica com capacidade de influência global.
No mesmo período, o Brasil destinou aproximadamente US$ 1,5 bilhão ao setor, somando AEB, INPE e DCTA. Quando se observam os números anuais recentes, a assimetria torna-se não apenas evidente, mas estrutural: os Estados Unidos investem cerca de US$ 70 bilhões por ano; a China, entre US$ 14 e 18 bilhões; Rússia e Índia orbitam entre US$ 1,5 e 2,5 bilhões; o Brasil mal alcança US$ 50 milhões. Não se trata de atraso circunstancial, mas de uma escolha política reiterada, persistente e, sobretudo, cara em suas consequências.
Não se trata apenas de números. Trata-se de consequências concretas e cumulativas. O agronegócio brasileiro, altamente competitivo, depende cada vez mais de dados orbitais para monitoramento climático, gestão de safras e logística de exportação. A preservação da Amazônia exige sistemas sofisticados de observação da Terra e capacidade autônoma de processamento de dados. Sem investimento consistente, terceirizamos inteligência estratégica e aceitamos, de forma tácita, uma dependência tecnológica que limita nossa soberania e estreita nosso horizonte de decisão.
Quando se está atrás em uma corrida tecnológica, insistir em replicar o estágio anterior costuma ser a forma mais eficiente de permanecer atrás. A história recente da inovação mostra que saltos de paradigma são frequentemente realizados por quem reconhece cedo a obsolescência do modelo dominante. No campo espacial, isso já se desenha com clareza: arquiteturas baseadas exclusivamente em foguetes balísticos tendem a ser substituídas por sistemas híbridos, modulares e potencialmente disruptivos, como elevadores espaciais e plataformas omnidirecionais. Iniciativas como Sandaerospace e Sandaerovator indicam uma mudança de lógica — do lançamento episódico para o acesso contínuo e escalável ao espaço.
Nesse cenário, Conversando recentemente com um amigo especialista em assuntos aeroespaciais, ouvi algo que considero sábio: tecnologias ainda vistas como periféricas no Brasil podem adquirir centralidade estratégica. Microfoguetes, frequentemente tratados como soluções limitadas, podem ser integrados como módulos de sistemas maiores, compondo arquiteturas flexíveis e adaptáveis. Conceitos como estruturas cubo-esfera ou cubo-diamante, baseadas em materiais avançados como o aerografeno 3D-H2 Sandaero-Unimat, apontam para uma engenharia de massa extremamente reduzida, com implicações diretas na eficiência energética e nos custos operacionais. Não se trata apenas de lançar satélites, mas de reconfigurar a própria economia do acesso ao espaço.
As implicações dessa mudança vão muito além da engenharia e já começam a delinear uma disputa concreta por poder e recursos no século XXI. Sistemas modulares e de nova geração não apenas ampliam capacidades: reposicionam países na hierarquia tecnológica global. Operações como captura e eventual mineração de asteroides, hoje ainda em fase experimental, já mobilizam agências e consórcios privados que entendem o espaço como extensão da economia terrestre. A construção de infraestrutura orbital permanente deixou de ser hipótese — é agenda em curso. E mesmo propostas mais ousadas, como plataformas habitáveis em Vênus, entre 50 e 60 quilômetros de altitude — onde pressão e temperatura se aproximam das condições terrestres —, já migraram do imaginário para a pesquisa estruturada. Esse meu colega fez uma síntese incômoda: “quem dominar a logística do acesso contínuo ao espaço não apenas lidera — define as regras”.
Ignorar essa inflexão não é prudência; é autoexclusão deliberada da próxima fronteira econômica e estratégica do planeta.
O espaço, hoje, não é mais fronteira simbólica nem palco de disputas ideológicas da Guerra Fria. É infraestrutura crítica, tão essencial quanto redes de energia ou sistemas financeiros. Países menores, com menos recursos e menor escala econômica, já compreenderam essa mudança e priorizam o setor como vetor de desenvolvimento tecnológico e inserção internacional. O Brasil, entretanto, segue oscilando entre a retórica da grandeza e a prática do subfinanciamento crônico, como se ainda pudesse adiar indefinidamente decisões estruturais.
Nesse contexto, a distorção interna de prioridades torna-se ainda mais evidente. Enquanto o país destina valores irrisórios para áreas estratégicas, o Congresso Nacional ampliou significativamente o volume de recursos direcionados por emendas parlamentares de execução pouco transparente, conhecidas como Emendas PIX. Trata-se de dezenas de bilhões de reais alocados sem conexão clara com um projeto nacional de desenvolvimento. Não é apenas uma questão fiscal; é uma escolha política que desloca recursos do futuro para o presente imediato, reforçando uma lógica de curto prazo que inviabiliza qualquer estratégia consistente.
A percepção desse descompasso torna-se ainda mais aguda quando confrontada com experiências internacionais. Quem já teve a oportunidade de visitar a China ou acompanhar de perto sua dinâmica produtiva percebe que não se trata apenas de investimento em escala, mas de coordenação entre Estado, indústria e academia. O contraste com o Brasil não reside apenas nos números, mas na capacidade de execução, continuidade e alinhamento estratégico. É a diferença entre planejar décadas à frente e administrar crises sucessivas.
Diante desse cenário, a própria arquitetura de governança global revela sinais de anacronismo. A configuração do Conselho de Segurança da ONU, ainda baseada em um equilíbrio de poder do pós-guerra, já não reflete a distribuição real de capacidades econômicas, demográficas e tecnológicas do século XXI. A presença de países como Brasil e Índia nesse seleto grupo de grandes nações reforça a necessidade de revisão desse arranjo, sob pena de aprofundar a desconexão entre legitimidade e poder efetivo no sistema internacional.
A questão deixou de ser tecnológica há muito tempo. Tornou-se um teste implacável de lucidez histórica e de coragem política.
Persistir no subinvestimento não é erro — é decisão consciente de permanecer periférico.
E nenhuma nação do tamanho do Brasil tem o direito de escolher, deliberadamente, a irrelevância.
https://www.brasil247.com/blog/a-nova-economia-espacial-avanca-e-o-brasil-permanece-fora-da-equacao
15 de maio de 2026
E se a neutralidade econômica for a maior fraude do nosso tempo?
Em Escape from Capitalism, Mattei sustenta que cortes sociais não corrigem crises: garantem margens de lucro, aprofundam desigualdades e preservam a arquitetura do poder financeiro global.


Eu aprendi, ao longo dos anos escrevendo sobre sociologia, ética, política e poder, que toda neutralidade proclamada merece desconfiança. Foi com esse espírito que, em 2026, recebi Escape from Capitalism (Fuga do Capitalismo), lançado no Reino Unido pela Penguin Books. Não se trata de mais um título acadêmico a ocupar prateleiras especializadas. Desde a sua chegada às livrarias, o livro circula com tração incomum no debate público, atravessando universidades, think tanks e redações. Ao abri-lo, percebi rapidamente que não estava diante de um manual técnico, mas de uma acusação estruturada contra a própria ideia de que a economia seja ciência neutra, separada da disputa política. E é justamente a partir dessa suspeita inicial que o livro começa a ganhar densidade e urgência.
A economia não é neutra
Mattei, professora da The University of Tulsa e presidente do Forum for Real Economic Emancipation, sustenta algo que me fez interromper a leitura: “A economia não é neutra; é uma tecnologia de governo.” Se aceito essa premissa, todo o edifício muda de lugar. De repente, debates sobre autonomia dos bancos centrais, metas de inflação e tetos fiscais deixam de ser meras escolhas técnicas. Passam a ser dispositivos que moldam previamente o campo do possível. Quando um ministro afirma que “não há alternativa”, talvez esteja apenas reproduzindo a gramática dessa tecnologia de governo.
E é nesse ponto que a autora aprofunda o argumento, deslocando-o do plano conceitual para o terreno concreto das políticas públicas. Ela escreve: “A austeridade não é um erro. É um imperativo estrutural do lucro.” A frase exige pausa. Durante anos, ouvimos que ajustes fiscais eram necessários para restaurar confiança e estabilidade.
Mattei me obriga a inverter a lógica: e se o corte de direitos sociais não for remédio, mas sintoma? Se o sistema precisa constantemente garantir margens de rentabilidade, então a compressão de gastos sociais torna-se mecanismo previsível. O que parecia contingência revela-se engrenagem.
Essa engrenagem, porém, não funciona apenas no plano macroeconômico. Ela se infiltra no cotidiano. É nesse encadeamento que surge outra afirmação perturbadora: “O desemprego funciona como mecanismo de disciplina.” Não se trata de metáfora exagerada.
Num mundo de trabalho intermitente, aplicativos, contratos frágeis e terceirizações sucessivas, o medo da exclusão molda comportamentos. A fila invisível de substituição é permanente. Quando conecto essa ideia às estatísticas globais de precarização, percebo que o desemprego não é apenas número trimestral; é mensagem política contínua: aceite menos, questione menos.
A crítica avança, então, para um dos dogmas mais repetidos da modernidade econômica. Mattei afirma: “Crescimento, tal como medido pelo PIB, mensura acumulação, não bem-estar.” Aqui o nexo se completa. Se a austeridade disciplina e o desemprego controla, o crescimento legitima. Festejamos índices positivos mesmo quando florestas são devastadas, cidades se tornam inabitáveis e desigualdades se aprofundam. O PIB sobe; a qualidade de vida nem sempre acompanha. A métrica transforma expansão de capital em sinônimo de progresso humano.
Democracia sob tutela
E, ao chegar a esse ponto, a autora formula talvez a síntese mais desconfortável do livro: “Não há soberania democrática sob dependência de mercado.” Essa frase conecta todas as anteriores. Se políticas são limitadas por expectativas financeiras, se orçamentos são definidos pela reação de investidores, se reformas sociais precisam antes agradar mercados, então a democracia opera sob tutela. Governos eleitos tornam-se administradores de constrangimentos globais. A soberania popular passa a existir dentro de margens estreitas.
Não por acaso, o historiador Adam Tooze observou que o livro ilumina como o poder político está codificado na própria teoria econômica. Ao dialogar com análises publicadas na Jacobin por Steven Mather e Scott Aquanno, percebo que o debate ultrapassa a denúncia e entra no campo das alternativas.
Se a dependência do mercado limita a democracia, escapar dela exigiria planejamento macroeconômico coordenado e fortalecimento de capacidades estatais — sobretudo diante da urgência da transição ecológica, que o capital privado não financia na escala necessária.
Esse encadeamento de ideias já estava anunciado em The Capital Order (A Ordem do Capital), mas aqui ganha contornos mais explícitos e propositivos. Ao fechar Escape from Capitalism (Fuga do Capitalismo), não sinto que li um tratado técnico. Sinto que fui conduzido por um raciocínio que começa desmontando a neutralidade da economia, passa pela anatomia da austeridade e do desemprego, questiona o fetiche do crescimento e termina desafiando a própria arquitetura da soberania contemporânea.
O livro não oferece conforto. Ele exige reposicionamento. E talvez seja essa sua maior virtude: lembrar-me de que aquilo que aprendemos a tratar como inevitável pode, sob exame rigoroso, revelar-se apenas construção histórica — e, portanto, passível de transformação.
https://revistaforum.com.br/opiniao/e-se-a-neutralidade-economica-for-a-maior-fraude-do-nosso-tempo/
11 de maio de 2026
Imposto sobre bilionários divide os Estados Unidos
Discussão tributária expõe impasse político americano entre financiamento social crescente, limites constitucionais e concentração extrema de riqueza nacional


A desigualdade voltou ao centro da política americana carregada por uma frase de enorme apelo popular. Nas redes sociais, espalhou-se a ideia de que um imposto anual de 5% sobre os bilionários dos Estados Unidos seria suficiente para financiar programas gigantescos e ainda entregar milhares de dólares diretamente às famílias do país. A mensagem ganhou velocidade porque oferece uma solução simples para um problema real. Mas os números apresentados nela desmoronam sob uma verificação elementar.
O senador Bernie Sanders foi rapidamente associado à proposta. A relação parece natural. Sanders construiu sua carreira política defendendo aumento de impostos sobre grandes fortunas, heranças e ganhos extraordinários de capital. Sua crítica à concentração de riqueza nos Estados Unidos atravessa décadas. Ainda assim, a versão que viralizou — com arrecadação trilionária e distribuição direta de dinheiro às famílias — não aparece em nenhum projeto formal defendido por ele.
A confusão ajuda a explicar o estado atual do debate público americano. Fórmulas complexas passaram a circular comprimidas em frases curtas, desenhadas para causar impacto imediato. Nesse ambiente, detalhes fundamentais desaparecem: limites jurídicos, efeitos econômicos, dificuldades operacionais e até coerência matemática.
Os Estados Unidos concentram hoje algo entre 900 e 1.000 bilionários. O patrimônio somado desse grupo gira na faixa de US$ 5 trilhões a US$ 6 trilhões. Uma taxação anual de 5% sobre essa base produziria arrecadação estimada entre US$ 250 bilhões e US$ 300 bilhões por ano, isso antes de evasão fiscal, reestruturações patrimoniais e disputas judiciais inevitáveis.
O dado desmonta o principal valor repetido nas publicações virais: os US$ 4,4 trilhões frequentemente mencionados. A diferença não é pequena nem secundária. Em algum ponto da circulação digital, projeções de vários anos foram misturadas com arrecadação anual. Também existe a possibilidade mais direta: inflação deliberada dos números para ampliar o efeito político da mensagem.
A inconsistência reaparece na promessa de distribuição direta às famílias. Os Estados Unidos possuem cerca de 130 milhões de domicílios. Caso US$ 4,4 trilhões fossem divididos igualmente, cada família receberia aproximadamente US$ 33 mil — não os US$ 12 mil citados em milhares de postagens. A própria narrativa entra em choque com sua matemática interna.
Nada disso elimina a relevância do debate sobre taxação de grandes fortunas. A concentração de riqueza nos Estados Unidos atingiu níveis históricos nas últimas décadas, impulsionada principalmente pela valorização explosiva de empresas tecnológicas, ativos financeiros e participações acionárias. Uma parte expressiva desse patrimônio cresce continuamente sob mecanismos tributários muito menos pesados do que aqueles aplicados sobre salários e consumo.
É justamente nesse ponto que defensores de impostos sobre grandes patrimônios sustentam sua crítica. A percepção disseminada em amplos setores da sociedade americana é a de que trabalhadores comuns pagam proporcionalmente mais tributos do que indivíduos protegidos por estruturas financeiras sofisticadas, holdings familiares, fundos privados e mecanismos internacionais de blindagem patrimonial.
A discussão não pertence apenas ao campo ideológico. Ela atravessa universidades, organismos multilaterais e setores importantes da economia europeia e americana. O problema começa na tentativa de transformar esse diagnóstico em política pública concreta.
A primeira dificuldade está na natureza desses patrimônios. A riqueza dos bilionários não permanece parada em contas bancárias. Grande parte dela existe em ações, participações empresariais e ativos privados sujeitos a oscilações diárias de mercado. Avaliar permanentemente esse estoque patrimonial abriria disputas técnicas e judiciais praticamente intermináveis.
Existe ainda a questão da liquidez. Uma taxação patrimonial elevada poderia obrigar empresários e investidores a vender ativos para gerar caixa, produzindo efeitos sobre empresas, bolsas e cadeias de investimento. Economistas divergem sobre a dimensão desses impactos, mas poucos tratam o tema como algo simples.
Outro obstáculo aparece na mobilidade internacional dessas fortunas. Mudanças de residência fiscal, reorganizações societárias e transferência de ativos para jurisdições mais favoráveis fazem parte do repertório global das grandes riquezas contemporâneas.
A dimensão jurídica também pesa. Um imposto federal direto sobre patrimônio enfrentaria forte contestação constitucional nos Estados Unidos e abriria anos de batalha nos tribunais.
No fundo, a discussão expõe um impasse que atravessa a sociedade americana: o avanço extraordinário da riqueza no topo da pirâmide econômica diante de demandas sociais cada vez mais pressionadas por saúde, educação, moradia e endividamento familiar.
A questão permanece aberta. O que já se tornou evidente é outra coisa: slogans produzem engajamento com facilidade muito maior do que políticas viáveis. E números inflados ajudam mais a incendiar paixões políticas do que a esclarecer o tamanho real do problema.
https://www.brasil247.com/blog/imposto-sobre-bilionarios-divide-os-estados-unidos
11 de maio de 2026
Escala 6×1 expõe exploração disfarçada de produtividade no Brasil
Oposição à redução da jornada reproduz argumentos usados contra férias, salário-mínimo e 13º salário, já refutados


O debate sobre o fim da escala 6×1 não é uma disputa entre conforto e produtividade. É um embate direto entre evidência empírica e um padrão histórico de resistência do poder econômico a qualquer avanço civilizatório no mundo do trabalho.
O Brasil começa a discutir, com atraso crônico, aquilo que organismos multilaterais, centros de pesquisa e empresas já testaram em escala real: jornadas menores produzem trabalhadores mais saudáveis, reduzem custos sistêmicos e elevam a eficiência por hora trabalhada. O que está em jogo não é teoria. É prática comprovada — ignorada.
A escala 6×1 atinge 33,2% dos empregos formais no país, segundo dados do Ministério do Trabalho divulgados pela Agência Brasil com base em 2025. Traduzindo: cerca de um terço da força de trabalho brasileira vive sob um regime de desgaste contínuo, com apenas um dia de descanso semanal. Não é coincidência que essa parcela esteja concentrada nas camadas mais vulneráveis — comércio, serviços, logística, alimentação, segurança privada. É aí que a proteção trabalhista costuma ser mais frágil e a exploração mais naturalizada.
O primeiro argumento é econômico — e foi sequestrado por décadas por uma narrativa de medo. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou, em 2026, que a redução da jornada para 40 horas semanais elevaria o custo médio do trabalho em 7,84% no regime celetista. Esse número foi imediatamente apropriado por setores empresariais como prova de inviabilidade. O que não foi dito com a mesma ênfase — e precisa ser dito — é que esse aumento se refere ao custo por hora trabalhada, não ao custo total da empresa. Quando diluído na estrutura completa de custos — que inclui capital, insumos, tecnologia e logística — o impacto cai para menos de 1% em setores intensivos em mão de obra.
Esse detalhe técnico foi deliberadamente omitido em discursos alarmistas. Não por desconhecimento, mas por estratégia. Inflar o dado bruto e esconder sua real dimensão é uma técnica antiga: cria-se a aparência de colapso para bloquear o debate antes que ele amadureça.
O próprio histórico brasileiro desmonta essa retórica. Reajustes reais do salário mínimo, ao longo dos anos 2000, foram tratados com o mesmo alarme — e não produziram o desastre prometido. O argumento econômico, quando exposto integralmente, deixa de ser um veto e passa a ser um ajuste administrável.
O segundo argumento é sanitário — e aqui os números deixam de ser abstração. Dados divulgados pela Organização das Nações Unidas em 2025, com base em registros oficiais de 2024, mostram mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais no Brasil, um salto de 134% em relação a 2022. Não se trata de percepção subjetiva. São diagnósticos registrados: ansiedade severa, depressão, esgotamento. A escala 6×1 não é a única causa, mas funciona como acelerador desse processo. Seis dias consecutivos de trabalho comprimem o tempo de recuperação física e emocional a um intervalo insuficiente. O trabalhador não se recompõe — apenas sobrevive até o próximo ciclo.
O terceiro argumento é fiscal — e revela quem realmente paga a conta. A Central Única dos Trabalhadores, com base em dados do INSS de 2024, aponta 3,6 milhões de afastamentos do trabalho, com impacto estimado em cerca de R$ 80 bilhões anuais. Esse valor não sai do balanço das empresas que operam com jornadas exaustivas. Ele recai sobre o Estado e, portanto, sobre toda a sociedade. A lógica é simples: o modelo 6×1 privatiza ganhos e socializa prejuízos. O lucro fica concentrado; o custo do adoecimento é distribuído.
O quarto argumento é de segurança — e expõe uma negligência estrutural. O Ministério do Trabalho e Emprego registrou 724.228 acidentes de trabalho em 2024. O Observatório SmartLab contabiliza 8,8 milhões de acidentes e quase 32 mil mortes desde 2012. Esses números não são acidentes no sentido coloquial. São, em grande medida, consequências previsíveis de ambientes de trabalho marcados por fadiga crônica. Um trabalhador no sexto dia consecutivo não erra por falha individual. Erra porque o sistema foi desenhado para operar no limite da exaustão.
O quinto argumento é produtivo — e desmonta o mito central. Na Islândia, entre 2015 e 2019, testes com cerca de 2.500 trabalhadores reduziram a jornada para 35–36 horas semanais sem corte salarial. O resultado foi claro: produtividade mantida ou ampliada. A razão é conhecida na literatura econômica: produtividade está ligada à qualidade do tempo de trabalho, não à sua extensão. Jornadas longas geram dispersão, erros, retrabalho. Jornadas mais curtas forçam reorganização, foco e eficiência.
O sexto argumento vem do Reino Unido, onde, em 2022, 61 empresas e cerca de 2.900 trabalhadores participaram de um experimento de semana de quatro dias. Os resultados foram contundentes: queda de 65% nas faltas por doença, redução significativa de burnout, estabilidade ou aumento de receita e adesão permanente de 92% das empresas. Esses dados não vieram de sindicatos. Vieram de balanços empresariais.
O sétimo argumento é de retenção — e atinge diretamente o bolso das empresas. A rotatividade caiu 57% no experimento britânico. Em um país como o Brasil, onde setores como varejo e serviços convivem com alta rotatividade, isso representa economia concreta. Contratar, treinar e perder trabalhadores custa caro. Manter custa menos. Jornadas mais equilibradas funcionam como mecanismo de fidelização — algo que o discurso empresarial raramente admite, mas já começa a praticar.
O oitavo argumento é epidemiológico e global. A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho estimaram, em estudo global publicado em 2021, que jornadas iguais ou superiores a 55 horas semanais estiveram associadas a 745 mil mortes no mundo em 2016, por acidente vascular cerebral e doença cardíaca isquêmica. Trata-se de um dado global, não brasileiro. O número não é retórico. É um indicador de que jornadas extensas são, literalmente, um fator de risco à vida.
É aqui que a história brasileira precisa ser chamada à mesa — não como memória decorativa, mas como prova de padrão. Em 13 de maio de 1888, quando a Abolição da Escravidão no Brasil foi assinada, setores da elite agrária reagiram com virulência. Argumentaram que a produção entraria em colapso, que a economia rural seria destruída, que o país mergulharia no caos. A oposição não foi moderada. Foi feroz, articulada, interessada em preservar um sistema baseado em exploração extrema.
Décadas depois, o mesmo roteiro se repetiu. Em 1936, quando se estruturavam as bases do salário mínimo, a reação empresarial voltou a acionar o discurso da inviabilidade econômica. Em 1º de maio de 1943, com a criação da Consolidação das Leis do Trabalho, o país ouviu que direitos trabalhistas inviabilizariam o crescimento. Em 13 de julho de 1962, com a instituição do 13º salário, a resistência foi novamente intensa: empresários, associações comerciais e setores financeiros anunciaram desemprego em massa, retração de investimentos e falências generalizadas.
Nada disso ocorreu.
O que ocorreu foi outra coisa: adaptação. A economia incorporou direitos, reorganizou custos, expandiu consumo e consolidou um mercado interno mais robusto. A cada avanço, a mesma estratégia foi usada: amplificar o medo para conter a mudança. A cada vez, a realidade desmontou a narrativa.
Hoje, a frase reaparece com nova embalagem: “o fim da escala 6×1 vai quebrar o Brasil”. É a mesma frase que, em 1925, acompanhou o debate sobre férias remuneradas. A mesma que, em 1936, atacou o salário mínimo. A mesma que, em 1943, tentou barrar a CLT. A mesma que, em 1962, combateu o 13º salário.
A metáfora da sirene precisa ser levada às últimas consequências. Não se trata de um simples alerta. Trata-se de um dispositivo recorrente de contenção social. Uma sirene que não anuncia incêndios reais, mas tenta impedir que o prédio seja reformado. Ela soa alta, urgente, dramática — não para proteger a economia, mas para proteger um modelo de distribuição de poder.
A escala 6×1 é, hoje, uma engrenagem desse modelo. Um mecanismo que transforma tempo de vida em custo descartável. Um sistema que depende da exaustão para manter margens. Um arranjo que funciona melhor para quem paga salários do que para quem depende deles.
Persistir nele, diante de dados econômicos, sanitários, fiscais e históricos tão consistentes, não é prudência. É insistência em um erro conhecido. Um erro que o Brasil já cometeu antes — e já foi obrigado a corrigir.
A pergunta, portanto, não é se o país pode reduzir a jornada. A pergunta é por quanto tempo ainda vai fingir que não pode.
https://revistaforum.com.br/opiniao/escala-6-1-exploracao-produtividade-brasil/
02 de maio de 2026
Vorcaro, Ibaneis e os R$ 12 bilhões
Da carteira fictícia à mansão quitada, o artigo reconstrói como bilhões circularam entre Master e BRB, enquanto o poder político silenciava diante de um risco sistêmico devastador, institucional e criminoso


O escândalo BRB–Master não nasceu de um acidente bancário nem de uma aposta malsucedida. Nasceu de uma sucessão de decisões que desafiaram a prudência, empurraram um banco público para uma exposição desmedida e abriram espaço para uma engrenagem em que crédito suspeito, influência política, luxo sem freio e operações sob investigação caminharam lado a lado.
O dado central continua sendo o mesmo e não pode ser rebaixado: as apurações tratam da compra, pelo BRB, de cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras do Banco Master com ativos superfaturados ou inexistentes. Esse é o eixo do caso. O valor de R$ 11 bilhões a R$ 11,5 bilhões aparece em outro braço da investigação, ligado à REAG e a fundos usados para circular recursos. São camadas distintas de um mesmo desastre.
A cronologia, para padrões brasileiros, tem sido devastadora.
Entre julho de 2024 e outubro de 2025, as transferências entre BRB e Master somaram cerca de R$ 16,7 bilhões, segundo informações levadas ao processo e relatadas pela Reuters. Nesse período, o BRB foi puxado para o centro de uma estrutura que, mais tarde, o Banco Central e a Polícia Federal passariam a tratar como fonte de risco sistêmico e de possível fraude. A Tirreno Consultoria é peça-chave para entender esse mecanismo: segundo a Agência Brasil, o Master simulou a compra de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da Tirreno, operação que existiria apenas contabilmente, sem pagamento efetivo nem crédito real; depois, essa mesma carteira foi revendida ao BRB por R$ 12 bilhões, após manipulação da taxa de juros. O Banco Central analisou CPFs da carteira e concluiu que as operações não existiam.
Outro personagem decisivo é Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e ex-sócio do Master. Seu nome aparece ligado à estruturação de produtos que sustentaram a expansão agressiva do banco. Depois de deixar o grupo em maio de 2024, ele ficou com o antigo Voiter, rebatizado de Banco Pleno.
Em fevereiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Pleno por deterioração econômico-financeira e problemas de liquidez, ampliando a percepção de que o ecossistema que cercava o Master não era um conjunto de coincidências, mas uma rede de vasos comunicantes.
O marco público mais brutal veio em 18 de novembro de 2025. Naquele dia, a Reuters noticiou a prisão de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, ao mesmo tempo em que o Banco Central decretava a liquidação extrajudicial do Banco Master, do Banco Master de Investimento, do LetsBank e da corretora do grupo. A razão oficial foi direta: “grave crise de liquidez”, forte deterioração patrimonial e violações graves das regras do sistema financeiro.
Mais tarde, Vorcaro voltaria ao noticiário com nova detenção, em 4 de março de 2026, em investigação sobre tentativa de suborno a ex-dirigente do Banco Central, segundo a Reuters.
Em seguida, o desmonte prosseguiu.
Em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central liquidou a CBSF DTVM, ligada à REAG.
Em 21 de janeiro, foi a vez da Will Financeira, controlada pelo Master.
Em 17 de março, caiu o Banco Master Múltiplo. A Agência Brasil resumiu esse colapso com clareza: os fundos administrados pela REAG aparecem como peça central na sustentação do esquema, enquanto a liquidação do Master ocorreu quando o banco já não conseguia pagar nem 15% dos vencimentos semanais.
O retrato de Vorcaro não se limita às planilhas.
Entre 2021 e 2024, reportagens baseadas em documentos de investigação apontam gastos de cerca de R$ 892 milhões em viagens e eventos de luxo. Em novembro de 2024, seu noivado em Roma custou aproximadamente US$ 4,04 milhões, mais de R$ 20 milhões. Circula na imprensa que a rotina de festas incluía modelos internacionais, jatinhos, resorts, chefs estrelados e propriedades usadas para receber autoridades e empresários em ambiente de ostentação ostensiva.
Em Trancoso, na Bahia, a imprensa descreveu uma estrutura de villas, recepções privadas e logística voltada a transformar riqueza em influência.
Como se vê, falar em milhares de dólares para o banqueiro Vorcaro é como tratar de dinheiro de pinga.
É nesse terreno que entram as ligações familiares e religiosas.
O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, pastor ligado à Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, aparece em reportagens citadas pelo Sindicato dos Bancários com base em Folha e UOL como destinatário de R$ 485 milhões da Super Empreendimentos, empresa suspeita de funcionar como canal de pagamentos a milícia privada e agentes públicos. O mesmo material relata que Zettel transferiu R$ 40,9 milhões para a Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, com repasses mensais que teriam chegado a R$ 8 milhões entre outubro de 2024 e janeiro de 2025.
Zettel foi preso em 4 de março de 2026, e a unidade Belvedere encerrou atividades dias depois. São fatos que ainda exigem apuração conclusiva, mas já não permitem tratar essa conexão como detalhe folclórico.
No plano político, a chamada “emenda Master” precisa ser lembrada pelo que era: uma proposta de Ciro Nogueira, apresentada em 13 de agosto de 2024, no curso da PEC 65/2023, para elevar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão por depositante. A CNN revelou mensagem atribuída a Vorcaro celebrando a iniciativa: “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes!”. O relator rejeitou a emenda por considerá-la sem relação com a PEC, mas a própria PEC 54/2024 acabou aprovada pelo Senado em 19 de dezembro de 2024, com 53 votos favoráveis no 1º turno e 55 no 2º, embora o destaque ligado à emenda tenha sido rejeitado por 48 votos a 22.
A fase penal voltou a subir de temperatura em 16 de abril de 2026, com a prisão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Segundo a Reuters, a decisão do ministro André Mendonça cita evidências de um esquema destinado a viabilizar a fabricação, venda e transferência de carteiras fictícias do Master para o BRB. Costa é suspeito de ter recebido R$ 146,5 milhões em propina, por meio de imóveis, com mais de R$ 74 milhões já rastreados; no mesmo dia, também foi preso o advogado Daniel Monteiro.
Nesse contexto, o episódio da mansão de Flávio Bolsonaro no Lago Sul volta com força. E precisa ser investigado — e para ontem, como se diz no popular. O financiamento de R$ 3,1 milhões, dentro de uma compra total de R$ 5,9 milhões, foi concedido pelo BRB em 2021, na gestão de Paulo Henrique Costa, em 360 parcelas; o empréstimo foi quitado em apenas três anos. A Justiça do DF considerou a operação regular, mas a coincidência entre o crédito generoso, a quitação acelerada e a prisão posterior do então presidente do banco torna inevitável uma investigação jornalística e institucional mais rigorosa sobre as condições concretas desse negócio. Esse assunto tem sabor de chocolate com laranja.
Por fim, não há como aliviar a responsabilidade política de Ibaneis Rocha e Celina Leão.
Ibaneis não pode se esconder atrás de negativas protocolares enquanto um banco público sob seu comando foi arrastado para uma exposição bilionária. Celina erra ao insinuar má vontade do governo federal para “salvar” o BRB. A União não existe para socializar o prejuízo de operações sob investigação por fraude, corrupção, lavagem e crimes financeiros.
Antes de qualquer conversa sobre socorro, há uma ordem de prioridade inescapável: auditoria forense, individualização de responsabilidades, bloqueio de bens e devolução integral de cada centavo.
Chama atenção, em meio a cifras bilionárias, liquidações em série e prisões já efetivadas, a postura da TV Globo. A emissora que, em outros escândalos, exibiu em horário nobre esquemas de propinoduto, imagens de dinheiro fugindo pelo ralo em alta velocidade e apresentações em PowerPoint com nomes e conexões didaticamente expostos, até aqui adota uma contenção difícil de justificar. Não se viu qualquer representação visual do fluxo de bilhões sob investigação, nem a mesma ênfase na exposição de figuras como Ciro Nogueira, Ibaneis Rocha, Celina Leão e Paulo Henrique Costa no centro dessa engrenagem. Quando os fatos existem, mas a imagem é domesticada, o silêncio deixa de ser ausência e passa a ser escolha editorial com consequências.
Quando bilhões são drenados sob suspeita de fraude e conluio, a única resposta aceitável é devastadora para os responsáveis: cadeia, perda total de bens e restituição integral — tudo o que vier abaixo disso será, na prática, legitimar o crime.
https://revistaforum.com.br/opiniao/vorcaro-ibaneis-e-os-r-12-bilhoes/
17 de abril de 2025
No esgoto do BRB-Master, puxa-se um fio e o sistema inteiro transborda
Prisão de ex-presidente do BRB expõe suspeita de R$ 146 milhões em propina, créditos sem lastro e uso de imóveis de luxo para ocultação


A engrenagem foi puxada — e não parou mais. Como nas caixas de lenços em que um único gesto arrasta vários de uma só vez, o caso que envolve o BRB e o empresário Daniel Vorcaro deixou de ser um episódio isolado para revelar uma cadeia de operações, cifras e decisões que já não suportam disfarce técnico nem a complacência que costuma proteger crimes sofisticados, onde a fraude circula com assinatura, senha e verniz institucional.
A prisão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, determinada pelo ministro André Mendonça na manhã de 16 de abril de 2026, não nasce de suposições frágeis nem de narrativas infladas. Ao contrário, se ancora em indícios financeiros contundentes, em números que ferem a inteligência de qualquer observador minimamente atento: a investigação aponta para pagamentos ilícitos que variam entre R$ 140 milhões e R$ 146,5 milhões, com mais de R$ 74 milhões já identificados em circulação concreta. Não é cifra lateral. É dinheiro suficiente para desmontar qualquer tentativa de relativização moral.
Esse volume não se espalha por acaso nem se esconde em pequenos favores.
O que a Polícia Federal descreve é um mecanismo frio, calculado, com pagamento de propina por meio de seis imóveis de alto padrão, usados como disfarce para dar aparência de legalidade a recursos cuja origem, segundo os investigadores, está contaminada por acordos subterrâneos. Longe de configurar erro técnico, trata-se de sofisticação criminosa aplicada à gestão de recursos públicos.
A decisão de André Mendonça adiciona um elemento que não pode ser suavizado: a referência direta à possível “fabricação, venda e transferência de carteiras de crédito fictícias”.
Em linguagem direta, e dando já a real, isso significa manipular a essência do sistema financeiro, criar ativos sem substância e empurrá-los como se fossem legítimos, deslocando riscos e produzindo uma ficção contábil que beneficia poucos e ameaça muitos. Isso não é desvio administrativo, mas sim grosseira fraude estrutural.
Quando a apuração menciona até R$ 12 bilhões em créditos de baixa qualidade ou sem lastro consistente, o debate deixa de ser sobre irregularidade pontual e passa a ser sobre escala de impacto. Não se está diante de um episódio periférico, porque o que vemos é uma engrenagem azeitada capaz de comprometer a integridade de uma instituição pública inteira, transferindo riscos privados para o colo do interesse coletivo com uma naturalidade que beira o cinismo.
Até agora, o palco expôs o vigário — não confundir com sicário — e o chefe do coro. Ainda faltam o governador de traço maquiavélico e a sacerdotisa dos imbróglios. Atenção; O Boeing BRB-Master já está em aproximação final.
O que mais revolta não é apenas o montante, mas o desenho da operação. A decisão do Supremo Tribunal Federal aponta que Paulo Henrique Costa não atuou como espectador eventual, mas como agente ativo na viabilização dessas operações dentro do BRB, criando ambiente interno para que interesses privados encontrassem abrigo institucional. Isso rompe qualquer tentativa de narrativa defensiva baseada em erro, excesso de confiança ou falha de julgamento. Aqui há método, há direção e há escolha.
Mensagens interceptadas agravam ainda mais o quadro ao indicar que, diante do risco de exposição, houve ordem para “travar tudo”. Essa expressão não é à toa. Ela carrega a consciência do que estava em jogo e a tentativa de interromper rastros quando a possibilidade de responsabilização se tornou concreta. Quem age assim não está em zona cinzenta; está plenamente ciente de que cruzou limites.
O pano de fundo institucional torna o caso ainda mais intragável e indigesto.
O Banco Central já havia rejeitado a aquisição do Banco Master pelo BRB em setembro de 2025. Pouco depois, o Master colapsou e foi liquidado. À luz do que agora se investiga, ganha força a hipótese de que houve uma tentativa de sustentar artificialmente essa estrutura, deslocando ativos problemáticos e mascarando fragilidades com operações que não resistiriam ao teste mais elementar de consistência.
Quando práticas dessa natureza se instalam no interior de um banco público, o dano não se limita a cifras ou balanços. Ele destrói a confiança, distorce o papel da instituição e expõe o contribuinte a riscos que nunca escolheu assumir.
O mais perturbador é a sensação recorrente de que esse tipo de operação se repete com novos personagens, novas estruturas e a mesma lógica de captura do interesse público por circuitos privados.
Parece uma dízima periódica tresloucada sempre levando à cena do crime com dinheiro público.
A defesa nega, como sempre nega, e classifica a prisão como desnecessária. É previsível. O que não pode ser tratado como previsível é a naturalização desse padrão de comportamento. Porque, quando cifras dessa magnitude circulam sob disfarces patrimoniais, quando bilhões são deslocados com base em ativos questionáveis e quando decisões estratégicas são contaminadas por interesses externos, não estamos diante de um desvio — estamos diante de um modelo.
A metáfora inicial não apenas se sustenta, como se impõe com mais força ao final. O primeiro lenço foi puxado e expôs outros, muitos outros, que estavam cuidadosamente dobrados para não chamar atenção. E o que essa caixa revela não são pedaços isolados de papel, mas camadas sucessivas de um sistema que aprendeu a esconder o essencial à vista de todos.
A pergunta que permanece não é mais se há mais lenços ali dentro. É quantos ainda sairão — e quanto estrago continuarão a causar — antes que alguém tenha coragem de virar a caixa inteira e encarar, sem disfarces, tudo o que foi empurrado para dentro dela.
https://www.brasil247.com/blog/no-esgoto-do-brb-master-puxa-se-um-fio-e-o-sistema-inteiro-transborda
17 de abril de 2025
Ascensão e queda silenciosa sob o domínio da sombra corporativa
Teoria da sombra, de Carl Gustav Jung, ajuda a compreender como conteúdos psíquicos reprimidos influenciam decisões e deformam culturas organizacionais


A vida empresarial costuma ser descrita como território de metas, inovação e expansão de mercado. Mas, por trás das apresentações em PowerPoint e dos relatórios trimestrais, existe um dado menos confortável: empresas não quebram apenas por erro técnico ou crise externa. Muitas desmoronam por erosão interna — quando a confiança deixa de ser o eixo invisível que sustenta decisões e relações.
Pesquisas globais de consultorias como McKinsey e PwC vêm mostrando, há anos, que a maioria das grandes transformações corporativas fracassa. A Gallup registra índices persistentes de desengajamento no trabalho. Não se trata apenas de estratégia mal executada. Trata-se de cultura corroída.
Alguns colapsos corporativos tornaram-se emblemáticos justamente por isso.
A Enron era uma gigante norte-americana do setor de energia. Atuava na comercialização de eletricidade e gás natural e foi celebrada, nos anos 1990, como símbolo de inovação financeira. Em 2001, revelou-se que seus lucros eram sustentados por fraudes contábeis complexas e ocultação de dívidas bilionárias. O resultado foi uma das maiores falências da história dos Estados Unidos, com milhares de empregos perdidos e a destruição da confiança de investidores. Não foi apenas um problema técnico: era uma cultura que premiava agressividade, silêncio e manipulação.
A Theranos prometia revolucionar exames laboratoriais com uma tecnologia capaz de realizar centenas de testes com poucas gotas de sangue. Fundada no Vale do Silício, atraiu bilhões de dólares em investimentos e conselheiros influentes. A tecnologia, porém, não funcionava como anunciado. Funcionários que questionavam eram isolados ou pressionados. A empresa entrou em colapso, e sua fundadora foi condenada por fraude. Ali, o problema não foi apenas científico; foi cultural: um ambiente onde discordar era sinônimo de traição.
Já a WeWork, empresa de compartilhamento de escritórios, cresceu rapidamente oferecendo espaços flexíveis para startups e grandes companhias. Chegou a ser avaliada em cerca de 47 bilhões de dólares antes de tentar abrir capital. Quando documentos financeiros vieram a público, revelaram prejuízos bilionários e práticas de governança questionáveis. A imagem de liderança visionária ocultava decisões erráticas e conflitos de interesse. O valor despencou, investidores recuaram, e a empresa precisou de resgate financeiro.
Esses episódios não interessam apenas ao mercado financeiro. Eles interessam à psicologia organizacional. Porque, em todos eles, houve algo além de má gestão: houve sombra operando sem controle.
Carl Jung definiu a sombra como o conjunto de conteúdos psíquicos reprimidos ou não reconhecidos pelo ego consciente. Não é apenas “o lado mau”. Inclui inseguranças, vaidades, ambições desmedidas, ressentimentos e medos de perda de poder.
Quando esses conteúdos não são reconhecidos, tendem a se manifestar por projeção: atribuímos aos outros aquilo que recusamos admitir em nós.
No ambiente corporativo, isso se traduz de forma concreta.
Um gestor que se enxerga como exemplo de equilíbrio pode, inconscientemente, ser governado por intensa necessidade de aprovação. Quando se sente ameaçado por um funcionário competente, reage com hostilidade velada. Atribui ao subordinado “falta de espírito de equipe”, quando o incômodo real é sua própria insegurança.
Outro exemplo: o executivo que construiu sua imagem sobre rigor ético, mas que não suporta falhar. Diante de metas inalcançáveis, começa a relativizar números, a maquiar resultados “temporariamente”.
Como não admite a contradição interna, torna-se excessivamente crítico com erros alheios. A sombra atua como mecanismo de compensação.
Há ainda o caso do líder carismático cuja identidade pública é a da ousadia visionária. Internamente, porém, teme perder centralidade. Oscila entre entusiasmo contagiante e desqualificação abrupta de ideias que não partem dele. A equipe aprende a ler o humor antes de falar. Decisões deixam de ser técnicas e passam a ser emocionais.
Mas há uma forma ainda mais cruel da sombra corporativa: aquela que se converte em sabotagem deliberada, sobretudo quando parte de um dos donos da empresa.
Quando um sócio relevante — consumido por ressentimento, inveja ou desejo de controle absoluto — permite que sua sombra o governe, a sabotagem pode assumir feições sofisticadas. Ele não precisa gritar. Pode simplesmente atrasar aprovações estratégicas, questionar repetidamente projetos já validados, retirar apoio financeiro no momento decisivo, desautorizar lideranças diante de equipes, disseminar dúvidas sobre a competência de colegas.
A sabotagem raramente se anuncia; ela se infiltra.
Nesse cenário, a sombra atua como sabotador silencioso. Primeiro, mina reputações. Depois, fragmenta alianças internas. Por fim, paralisa decisões críticas. Projetos promissores morrem não por inviabilidade técnica, mas por boicote emocional. O ambiente torna-se campo de suspeitas. Funcionários passam a evitar iniciativas que possam desagradar o centro de poder instável.
O medo substitui a criatividade empresarial.
Os efeitos são perniciosos e cumulativos. Talentos pedem demissão. Parceiros externos percebem incoerências. Investidores identificam ruídos estratégicos. A empresa, ainda que financeiramente saudável no curto prazo, começa a sofrer derrocada em termos de imagem e no dia a dia.
A sombra de um único dirigente pode contaminar todo o ecossistema corporativo.
A hipocrisia e a falsidade cotidianas nascem justamente dessa distância entre autoimagem e realidade interna — mas não são falhas menores de caráter; são agentes corrosivos. O elogio estratégico em público, seguido de desqualificação nos bastidores; o discurso inflamado sobre meritocracia, acompanhado de favorecimentos silenciosos; a defesa de transparência praticada com retenção seletiva de informações: tudo isso produz um ambiente moralmente instável. A consequência não é apenas desconforto. É cinismo estrutural. Funcionários passam a trabalhar protegendo-se, não colaborando. Reuniões tornam-se teatros. A criatividade recua diante do medo. A confiança, quando submetida à duplicidade reiterada, não se desgasta lentamente — ela rompe. E, quando rompe, a empresa deixa de ser comunidade produtiva e transforma-se em território de autopreservação.
“Aquilo que negamos em nós mesmos governa-nos por trás do palco.” A frase resume o risco. Em empresas, esse “governo oculto” se manifesta em favoritismos inexplicáveis, punições desproporcionais e decisões impulsivas.
“Projetar a própria sombra é transformar colegas em inimigos imaginários.” Quando líderes veem ameaça em toda divergência, instalam clima de suspeita permanente.
“A confiança não resiste à duplicidade prolongada.” Comentário necessário: equipes percebem incoerências. Podem tolerar erros; não toleram deslealdade repetida.
A sombra não pode ser eliminada. Ela é parte estrutural da personalidade. O que pode ser feito é torná-la consciente. Isso exige prática deliberada de autocrítica, abertura a feedback real — inclusive desconfortável —, processos transparentes de decisão e governança clara.
Empresas que investem apenas em tecnologia e ignoram o fator humano correm risco semelhante ao de gigantes que ruíram por dentro. A unidade básica entre funcionários — a confiança — depende da coerência entre discurso e prática, da previsibilidade ética e da disposição de reconhecer limites.
Um escritório é mais do que espaço físico. É território psicológico compartilhado. Quando a sombra é ignorada, transforma-se em força desagregadora que mina decisões, contamina relações e sabota estratégias cuidadosamente desenhadas.
Nenhuma organização quebra apenas por fatores externos; muitas apodrecem por dentro enquanto celebram resultados trimestrais. A diferença entre ascensão sustentável e colapso abrupto raramente está apenas no mercado — está na maturidade moral de quem lidera. Empresas que se recusam a examinar sua própria escuridão podem crescer rapidamente, mas caminham sobre terreno instável. As que enfrentam suas contradições constroem bases sólidas.
No mundo corporativo, não é a ausência de sombra que garante longevidade — é a coragem de reconhecê-la antes que ela assuma o controle.
https://www.brasil247.com/blog/ascensao-e-queda-silenciosa-sob-o-dominio-da-sombra-corporativa
12 de abril de 2025
A conta da publicidade finalmente chegou
Durante décadas, agências venderam criatividade protegidas do fracasso comercial. Agora grandes anunciantes começam a exigir outra lógica


Durante décadas, a indústria da publicidade operou dentro de uma confortável blindagem econômica. As agências vendiam criatividade, planejamento estratégico e compra de mídia — mas raramente dividiam o risco real do negócio. Se uma campanha elevava vendas, ótimo. Se fracassava, o pagamento da agência continuava praticamente garantido. O cliente absorvia o prejuízo; a agência preservava o contrato. Esse arranjo, que estruturou a publicidade global desde o pós-guerra, começa a apresentar rachaduras evidentes.
Um contrato recente entre o conglomerado britânico WPP e a montadora Jaguar Land Rover tornou visível uma mudança que vinha fermentando nos bastidores da indústria. Parte relevante da remuneração da agência passou a depender diretamente do desempenho comercial das campanhas. O princípio é brutalmente simples: resultados concretos geram pagamento maior; desempenho fraco reduz a remuneração. Em outras palavras, a publicidade começa a dividir o risco que durante décadas pertenceu exclusivamente ao anunciante.
Não se trata de um experimento marginal. A WPP continua sendo uma das maiores potências da comunicação global. O grupo, que reúne redes como Ogilvy, VML, Mindshare e GroupM, registrou receitas superiores a €13,5 bilhões em 2025. Quando uma empresa desse porte altera o modelo de remuneração, o sinal para o mercado é inequívoco: o contrato psicológico entre marcas e agências entrou em revisão.
Os números ajudam a compreender o ambiente dessa transição. Segundo dados da IBISWorld, a indústria global de agências de publicidade movimentou cerca de US$ 444,7 bilhões em 2025, crescendo a uma taxa média anual de 3,8% desde o início da década. As projeções indicam que o setor poderá alcançar US$ 529 bilhões até 2030.
O crescimento, contudo, esconde uma disputa silenciosa por poder econômico. Hoje, o eixo da publicidade global deslocou-se para plataformas tecnológicas. Google, Meta e Amazon concentram uma parcela crescente do investimento em mídia digital e oferecem ferramentas capazes de medir com precisão quase cirúrgica cada clique, cada conversão e cada venda.
Durante anos ensinando em cursos de publicidade, observava um fenômeno curioso nas salas de aula: muitos estudantes imaginavam a publicidade como um território quase artístico, um espaço de ideias brilhantes capazes de alterar comportamentos coletivos. Parte disso continua verdadeira. Mas sempre procurei lembrar que publicidade, antes de tudo, é economia aplicada à persuasão.
Nesse sentido, o contrato entre WPP e Jaguar Land Rover apenas torna explícito algo que a lógica de mercado vinha exigindo há tempo: se a publicidade promete impacto econômico, precisa aceitar avaliação econômica.
Alguns dos nomes mais respeitados da indústria reconhecem essa mudança. David Droga, fundador da Droga5 e hoje executivo do grupo Accenture Song, costuma repetir uma frase que sintetiza bem o novo ambiente: “criatividade sem impacto de negócio tornou-se apenas entretenimento caro”.
Outro veterano da indústria, Sir Martin Sorrell, fundador da própria WPP, tem sido ainda mais direto ao analisar o futuro do setor: “clientes não compram mais campanhas; compram crescimento”.
Essa mudança de linguagem revela algo mais profundo. A publicidade deixou de ser apenas narrativa de marca para tornar-se infraestrutura de vendas. Dados, algoritmos, inteligência artificial e plataformas digitais passaram a ocupar o espaço que antes era monopolizado pela intuição criativa.
Isso não significa o fim da criatividade. Significa apenas que ela perdeu o privilégio de não prestar contas.
O novo modelo que começa a emergir transforma as agências em algo mais próximo de parceiras comerciais. Compartilham risco, dividem resultados, assumem responsabilidade direta pelo desempenho.
Talvez seja o ajuste mais duro que a indústria publicitária enfrentou desde a revolução digital.
Durante décadas, a publicidade funcionou como um laboratório protegido da economia real. Agora a porta desse laboratório foi aberta.
E quando o ar da realidade entra, não traz aplausos — traz balanços, métricas e consequências.
A publicidade começa a atravessar esse corredor.
E ele não se parece com os corredores iluminados dos festivais de criatividade. Parece mais com o interior de um relógio mecânico aberto sobre a mesa: engrenagens expostas, cada peça obrigada a provar que realmente move o tempo.
https://revistaforum.com.br/opiniao/a-conta-da-publicidade-finalmente-chegou/
08 de abril de 2025
Pix ameaça o lucro das multinacionais financeiras
Pix expõe as multinacionais do dinheiro que cobram em silêncio, acumulam bilhões e resistem a qualquer sistema que elimine seu pedágio global


O dinheiro raramente revela onde está o poder. Ele apenas circula, silencioso, como se obedecesse a uma ordem natural das coisas. Mas basta tocar na engrenagem certa para que o desconforto apareça. Foi exatamente isso que o Pix fez.
O Pix não é uma sigla tradicional; o nome, criado pelo Banco Central do Brasil, remete a “pixel” e à ideia de rapidez, traduzindo um sistema simples, instantâneo e pensado para uso cotidiano sem barreiras.
Criado pelo Banco Central do Brasil, o sistema não se limitou a modernizar pagamentos. Ele reorganizou hábitos, reduziu custos a quase zero e, sobretudo, eliminou intermediários que por décadas lucraram com a fricção.
Em poucos anos, mais de 170 milhões de brasileiros passaram a operar dentro dessa lógica. Não se trata de adesão voluntária apenas — trata-se de um deslocamento estrutural do cotidiano econômico.
Esse tipo de mudança não passa despercebido fora do país.
Nos Estados Unidos, empresas de pagamentos reagiram. Alegaram favorecimento institucional, distorções concorrenciais, riscos ao mercado, o Diabo quatro. Argumentos previsíveis, repetidos sempre que um modelo consolidado começa a ser pressionado por uma alternativa mais eficiente. Nenhum sistema gosta de sair de sua zona de conforto.
O ponto central está longe desses termos formais. O sistema financeiro internacional foi desenhado para operar sob uma lógica específica de centralidade. A rede SWIFT é o exemplo mais evidente: uma infraestrutura que organiza fluxos, mas também condiciona acessos. Ao longo dos anos, seu uso ultrapassou o campo técnico e entrou no terreno das decisões políticas, servindo como mecanismo de pressão e isolamento em momentos de conflito.
É nesse contexto que o Pix adquire um significado que vai além do Brasil.
Ele demonstra, com dados e escala, que é possível construir sistemas eficientes fora desse eixo tradicional. Rússia e China avançaram por razões evidentes de sobrevivência geopolítica. O Brasil chega por outro caminho: eficiência operacional, inclusão financeira e adoção massiva. Tem o que podemos chamar de o molho brasileiro…
O economista Josafat Hernández observou que o Pix pode evoluir para uma alternativa regional ao SWIFT. A afirmação ecoa porque encontra respaldo na prática. Sistemas de pagamento não precisam ser globais para serem decisivos. Basta que sejam confiáveis, baratos e amplamente utilizados dentro de um espaço econômico relevante.
Há um elemento adicional que torna essa discussão mais sensível.
O Pix não depende de tarifas elevadas, não cria barreiras artificiais e não exige que o usuário compreenda sua complexidade para utilizá-lo. Ele simplifica. E, ao simplificar, retira poder de estruturas que prosperam na complexidade.
A reação externa segue um roteiro conhecido. Questiona-se a forma, tensiona-se o ambiente regulatório, constrói-se a narrativa. Nada disso altera o ponto essencial: o que está em jogo é quem captura valor no percurso do dinheiro. Não por acaso, nos últimos dias o presidente colombiano Gustavo Petro deu entrevistas dizendo que seu país irá adotar o Pix. E aí temos literalmente um “barata voa”: é se vários outros países adotarem o Pix proximamente?
Quem tem medo do Pix?
A resposta começa pelos números — e por quem os publica. No relatório anual de 2023 da Visa, a própria companhia informa ter processado cerca de 14,8 trilhões de dólares em volume total de pagamentos no período. Esse montante, isoladamente, supera o Produto Interno Bruto de economias inteiras como a da Alemanha ou do Japão em determinados anos recentes — países industriais, complexos, com décadas de acumulação produtiva. No mesmo ano, a Mastercard reportou aproximadamente 9 trilhões de dólares em seu relatório oficial aos investidores, um valor comparável ao PIB combinado de várias economias médias da Europa ou da América Latina. Somadas, essas duas redes privadas concentram algo próximo de 24 trilhões de dólares por ano.
Para dimensionar, trata-se de uma cifra que rivaliza com o próprio PIB dos Estados Unidos, a maior economia do planeta. É uma escala de poder.
Sobre cada transação, incidem taxas que, segundo estudos amplamente citados por entidades como a Merchant Payments Coalition e análises do setor financeiro norte-americano, variam entre 1,5% e 3%, dependendo do tipo de cartão, do país e do contrato com o comerciante. Esse percentual não aparece de forma transparente ao consumidor final, mas está embutido no preço de praticamente tudo o que se compra. Trata-se de uma renda contínua, previsível, globalizada.
É nesse ponto que o Pix se torna incômodo de verdade.
Ele não apenas reduz custos operacionais; ele desloca a captura de valor para dentro do sistema doméstico e elimina uma intermediação que, até aqui, parecia inevitável.
Cada transferência instantânea e gratuita representa uma pequena fratura em um modelo que depende da repetição massiva dessas tarifas ao redor do mundo.
Há ainda um aspecto que raramente entra no debate público com a devida clareza:
As redes de cartões operam como infraestruturas de dados em escala planetária. Cada transação gera informação detalhada sobre comportamento, localização, frequência, vínculos econômicos. Esse acúmulo não é passivo. Em determinados contextos, ele pode ser mobilizado para bloqueios, restrições e pressões — um tipo de poder que não se anuncia, mas que existe e já foi utilizado em diferentes cenários internacionais.
Quando Washington levanta questionamentos sobre o Pix, o movimento ganha outra leitura. Não se trata apenas de competição entre tecnologias. O que está sendo defendido é um arranjo que combina receita, informação e capacidade de influência. O Pix, ao reduzir drasticamente a dependência de intermediários estrangeiros, não mexe apenas em tarifas — ele atinge um sistema que lucra com cada transação e que, ao mesmo tempo, acompanha em detalhe como, onde e com quem o dinheiro circula. Menos intermediação significa menos cobrança, mas também menos visibilidade externa sobre a vida econômica de milhões de pessoas e empresas.
É essa dupla perda — de receita e de alcance — que ajuda a explicar por que um sistema doméstico de pagamentos passou a ser tratado como questão estratégica fora do Brasil.
https://www.brasil247.com/blog/pix-ameaca-o-lucro-das-multinacionais-financeiras
08 de abril de 2025
A arquitetura esquecida do desenvolvimento social
Mais do que teoria, experiências em bairros espanhóis demonstram que desenvolvimento social nasce quando moradores assumem responsabilidade coletiva e instituições públicas passam a atuar como parceiras


Durante décadas, o debate internacional sobre desenvolvimento social foi dominado por uma premissa confortável: bastaria aperfeiçoar políticas públicas, ampliar orçamentos e desenhar programas mais sofisticados para que desigualdades estruturais começassem a ceder. A realidade tem sido menos dócil. Em muitos países, planos tecnicamente irrepreensíveis produzem resultados modestos porque ignoram uma variável decisiva: sociedades não se transformam apenas por decisão administrativa. Quando comunidades se tornam espectadoras da própria vida coletiva, nenhum desenho institucional — por mais engenhoso que seja — consegue sustentar mudanças duradouras.
Foi precisamente essa lacuna que uma declaração apresentada em 10 de fevereiro de 2026, durante a 64ª sessão da Commission for Social Development das United Nations, em New York, decidiu enfrentar de forma direta. O documento, intitulado “Parcerias para a Transformação Social: os papéis complementares das instituições, das comunidades e dos indivíduos”, foram apresentados pela Bahá’í International Community, organização da sociedade civil com status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social da ONU.
Mais do que um texto conceitual, a declaração parte de experiências observadas nas Canary Islands, arquipélago espanhol no Atlântico, especialmente na região de Las Palmas de Gran Canaria e na cidade vizinha de Telde. A partir dessas experiências, o documento formula uma tese simples e, ao mesmo tempo, desafiadora para grande parte das políticas sociais contemporâneas.
O desenvolvimento social ganha consistência quando três atores operam em complementaridade: indivíduos, comunidades e instituições públicas. Quando um deles se impõe sobre os demais, surgem distorções. Quando aprendem a agir em cooperação, abre-se um campo social capaz de produzir mudanças mais profundas e duradouras.
Essa ideia não nasce no plano abstrato.
Depois da pandemia de Covid-19, autoridades locais começaram a observar um fenômeno que se repetiu em muitas cidades europeias: retração da vida comunitária, enfraquecimento das redes de solidariedade e queda na participação cívica. Nos bairros populares de Las Palmas e Telde, esse processo era visível. Associações locais perdiam vitalidade, atividades coletivas diminuíam e o sentimento de pertencimento enfraquecia.
Imigração e diversidade
Ao mesmo tempo, o crescimento da imigração africana e latino-americana ampliava a diversidade cultural da região, mas também alimentava tensões e episódios de desconfiança entre grupos sociais.
Era um terreno fértil para fragmentação social.
Foi nesse contexto que algo inesperado começou a acontecer.
A partir de 2022, grupos de moradores passaram a organizar encontros de formação comunitária voltados ao fortalecimento de capacidades humanas e sociais. Não se tratava de cursos convencionais nem de programas oficiais. O foco estava em algo mais elementar e mais exigente: transformar valores como confiabilidade, cooperação, responsabilidade e serviço ao bem comum em práticas cotidianas.
A iniciativa não nasceu dentro de gabinetes governamentais. Nasceu entre vizinhos.
Instituto para Formação e Desenvolvimento Comunitário
Em poucos anos, mais de três mil moradores participaram diretamente dessas atividades em bairros da região metropolitana de Las Palmas, envolvendo jovens, famílias migrantes, educadores, trabalhadores e aposentados.
Dessa base emergiram projetos diversos: programas de empoderamento feminino, reforço escolar, iniciativas ambientais, apoio à parentalidade, integração de imigrantes e ações de saúde comunitária.
Para coordenar esse crescimento foi criado o Instituto para Formação e Desenvolvimento Comunitário (ICTD).
Um detalhe distingue essa experiência de muitos projetos sociais tradicionais: o instituto nasceu praticamente sem financiamento externo. O motor das atividades foi o voluntariado e o senso de responsabilidade coletiva.
Em vez de esperar programas governamentais ou recursos institucionais, moradores decidiram começar com aquilo que já possuíam — tempo, conhecimento e disposição para agir.
À medida que as atividades ganharam escala, o envolvimento das autoridades públicas tornou-se inevitável.
Prefeituras, escolas públicas e unidades de saúde passaram a oferecer infraestrutura, espaços físicos e apoio logístico. Não como substituição da ação comunitária, mas como complemento.
Jinámar
Essa interação tornou-se particularmente visível no bairro de Jinámar, localizado entre os municípios de Telde e Las Palmas.
Durante as férias escolares de 2024 e 2025, programas comunitários passaram a ocorrer diariamente envolvendo cerca de 700 crianças e adolescentes, acompanhados por aproximadamente 80 voluntários locais.
As atividades incluíam oficinas culturais, práticas esportivas, debates sobre convivência social e projetos de serviço comunitário.
O conteúdo era organizado pelos próprios moradores. As autoridades municipais ofereciam espaços e infraestrutura.
O resultado foi mais profundo do que simples ocupação do tempo livre. Criou-se um ambiente onde relações sociais começaram a se recompor após anos de retração comunitária.
Outro episódio ocorrido no bairro de San Matías ajuda a compreender o impacto desse processo.
A prefeitura havia proposto a criação de um mural artístico coletivo. A ideia era positiva, mas inicialmente recebeu pouca adesão. Muitos moradores percebiam a iniciativa como mais um projeto oficial distante da realidade local.
O cenário mudou quando jovens envolvidos nas atividades comunitárias decidiram assumir o projeto como parte de sua própria aprendizagem social. Convidaram vizinhos, elaboraram desenhos e transformaram a atividade em um encontro aberto.
A participação cresceu rapidamente.
O mural deixou de ser um projeto institucional e tornou-se expressão coletiva do bairro.
Esse tipo de experiência começou a alterar também a percepção de gestores públicos.
Funcionários municipais passaram a enxergar o ICTD não como grupo que solicita apoio, mas como parceiro capaz de mobilizar cidadãos em torno de objetivos construtivos.
Parte do processo
Uma das coordenadoras do instituto, citada na declaração apresentada à ONU, resume a mudança de perspectiva com precisão: quando autoridades se percebem parte de um processo comunitário vivo, o apoio institucional deixa de ser concessão e passa a ser cooperação.
O educador comunitário José Miguel Hernández, também mencionado no documento, descreve o aprendizado de forma ainda mais direta: “durante muito tempo acreditamos que desenvolvimento era algo que governos entregam. Descobrimos que ele começa quando pessoas comuns decidem agir juntas”.
Ao examinar atentamente esse documento, uma conclusão se impõe com força crescente: políticas públicas são indispensáveis, mas raramente são suficientes. O que realmente desloca sociedades de um ponto de estagnação para um horizonte de progresso é a capacidade de alinhar energia institucional, iniciativa comunitária e responsabilidade individual em torno de um propósito compartilhado.
Essa talvez seja a contribuição mais provocadora do texto apresentado na ONU.
Transformação coletiva
Ele desloca o eixo do debate sobre desenvolvimento social. Em vez de perguntar apenas o que os governos devem fazer, o documento convida a perguntar como sociedades inteiras podem reorganizar suas relações para produzir transformação coletiva.
Indivíduos deixam de ser apenas beneficiários de políticas públicas e tornam-se agentes ativos de mudança.
Comunidades deixam de ser apenas receptoras de serviços e passam a ser ambientes de construção de soluções.
Instituições públicas deixam de operar isoladamente e passam a atuar como facilitadoras de processos sociais mais amplos.
Essa reorganização não elimina responsabilidades distintas entre Estado e sociedade. Mas cria uma arquitetura de cooperação capaz de multiplicar capacidades humanas e institucionais.
Num mundo marcado por fragmentação social, desconfiança institucional e polarização política, essa lição merece atenção.
O desenvolvimento sustentável não depende apenas de políticas bem desenhadas. Depende da capacidade das sociedades de reconstruir os vínculos que tornam possível a ação coletiva.
Quando indivíduos redescobrem o hábito de agir juntos, comunidades recuperam sua força organizadora e instituições públicas encontram parceiros reais para suas políticas.
É nesse ponto que o documento apresentado na ONU revela sua dimensão mais profunda.
Ele nos lembra que o desenvolvimento não começa em relatórios, conferências ou resoluções diplomáticas. Começa quando sociedades redescobrem algo elementar: a capacidade de cooperar conscientemente para construir o bem comum.
https://revistaforum.com.br/opiniao/a-arquitetura-esquecida-do-desenvolvimento-social/
06 de março de 2025
No Brasil, a cor da pele ainda define salários
Trabalhadores brancos recebem até 67% a mais por hora que pretos ou pardos, expondo uma desigualdade estrutural que atravessa gerações no Brasil


O debate sobre desigualdade no Brasil costuma ser envolvido por uma névoa confortável de opiniões e suposições. Mas há um território onde a retórica perde espaço: o das estatísticas oficiais. Quando os números entram em cena, o argumento deixa de ser retórico e passa a ser factual. E quem os produz com regularidade, método e responsabilidade institucional é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Este texto nasce de um incômodo que não desaparece ao longo dos anos de observação das estatísticas sociais brasileiras. Há algo profundamente revelador na regularidade desses números. Eles se repetem com pequenas variações, mas com o mesmo desenho estrutural.
A base desses dados é a PNAD Contínua, a principal pesquisa sobre mercado de trabalho no país. Na Síntese de Indicadores Sociais divulgada em 6 de dezembro de 2023, com base no ano de 2022, o IBGE apresentou um dado direto: o rendimento médio por hora de trabalhadores brancos era de R$ 20, enquanto pretos ou pardos recebiam R$ 12,40. A diferença alcançava 61,4%.
Não se tratava de uma anomalia estatística. Na atualização divulgada em dezembro de 2024, já com dados de 2023, a distância havia aumentado. O rendimento médio por hora chegou a R$ 23,02 para trabalhadores brancos e R$ 13,73 para pretos ou pardos, ampliando o diferencial para 67,7%.
Esses números dizem algo que o discurso público muitas vezes tenta suavizar: a desigualdade racial no mercado de trabalho brasileiro não está desaparecendo. Ela permanece incrustada na estrutura econômica.
Quem acompanha essas estatísticas percebe rapidamente que não se trata de números neutros. Cada decimal traduz escolhas sociais acumuladas ao longo de décadas. Cada diferença salarial revela como uma sociedade distribui valor e reconhecimento entre seus trabalhadores.
O recorte de gênero amplia ainda mais a fratura. Mulheres continuam recebendo cerca de um quarto a menos que homens, mesmo quando apresentam níveis de escolaridade iguais ou superiores. Quando raça e gênero se cruzam, o padrão torna-se brutalmente previsível: mulheres negras permanecem na base da pirâmide de renda do país.
Esse quadro não surge por acaso. O sociólogo Florestan Fernandes já alertava que o Brasil aboliu juridicamente a escravidão, mas não desfez a estrutura social que a sustentava. Em outras palavras, a liberdade formal não foi acompanhada de uma redistribuição real de oportunidades.
Ao observar a série histórica da PNAD Contínua, torna-se impossível ignorar a persistência desse padrão. A desigualdade salarial atravessa níveis de educação, setores econômicos e posições ocupacionais. Mesmo entre trabalhadores com ensino superior completo, a diferença salarial entre brancos e pretos ou pardos continua elevada, frequentemente superior a 40% no rendimento por hora.
Há também outro indicador revelador: o acesso ao poder dentro das empresas. Pretos e pardos representam mais da metade da força de trabalho brasileira, mas continuam sub-representados em cargos de direção e gerência.
Esse descompasso indica que o problema não está apenas no salário recebido ao final do mês. Ele está no acesso às posições onde as decisões econômicas são tomadas.
Analisando esse cenário, o economista ganhador do Nobel Amartya Sen observa que desigualdades persistentes no trabalho não refletem apenas imperfeições de mercado, mas restrições sociais que impedem milhões de pessoas de desenvolver plenamente suas capacidades. Quando essas restrições se tornam sistemáticas, a própria ideia de meritocracia começa a desmoronar.
Negar a existência de racismo estrutural no Brasil tornou-se uma espécie de ilusão de ótica coletiva. Só não enxerga o fenômeno quem decide olhar para outro lado. O Brasil que aparece nos dados não é o país idealizado em discursos sobre cordialidade racial. É um país em que o valor da hora de trabalho ainda é afetado pela cor da pele e pelo gênero de quem trabalha.
A historiadora Lilia Schwarcz tem insistido que o Brasil construiu ao longo do século XX uma narrativa confortável sobre si mesmo, celebrando a miscigenação como prova de harmonia social. As estatísticas contemporâneas, porém, contam outra história: uma sociedade em que desigualdades raciais continuam profundamente entranhadas na economia.
Se produtividade e esforço fossem os únicos critérios determinantes, não haveria razão estatística para que a cor da pele e o gênero continuassem funcionando como marcadores tão previsíveis de renda.
O que os dados revelam é outra coisa: o mercado de trabalho brasileiro ainda opera com hierarquias silenciosas herdadas da história social do país. Hierarquias que começaram na escravidão, atravessaram a industrialização e permanecem incrustadas na economia contemporânea.
Essas desigualdades não são apenas um problema ético. São também um problema econômico.
Uma sociedade que paga menos a milhões de trabalhadores por razões sociais — e não produtivas — desperdiça talento, reduz mobilidade social e limita seu próprio crescimento.
Economias modernas prosperam quando conseguem mobilizar plenamente o potencial humano de sua população. O Brasil, ao manter barreiras salariais previsíveis por raça e gênero, escolhe fazer exatamente o contrário.
Os números do IBGE, portanto, não são apenas estatísticas. Eles funcionam como um diagnóstico incômodo sobre como o país continua distribuindo valor, oportunidade e reconhecimento.
Enquanto essas diferenças permanecerem estruturalmente intactas, qualquer discurso sobre igualdade de oportunidades continuará incompleto.
Porque não existe mercado realmente competitivo quando o preço da hora de trabalho ainda é influenciado pela cor da pele ou pelo gênero de quem trabalha.
E não existe projeto sério de desenvolvimento nacional enquanto a economia brasileira continuar aceitando — quase como se fosse natural — que milhões de trabalhadores precisem produzir mais, resistir mais e esperar mais apenas para continuar recebendo menos. Quando um país normaliza essa lógica, não está diante de uma imperfeição estatística do mercado. Está diante de uma escolha histórica sobre quem merece prosperar e quem será condenado a sustentar, silenciosamente, a base da pirâmide social.
https://www.brasil247.com/blog/no-brasil-a-cor-da-pele-ainda-define-salarios
05 de março de 2025
Redes Sociais: o futuro dos sindicatos entre a tarrafa e o ruído
Entidades trabalhistas que não assumirem transformação urgente e estratégica perderão relevância pública, capacidade de mobilização e presença efetiva nas disputas contemporâneas


Oprimeiro sindicato de trabalhadores de Macau, no Rio Grande do Norte, surgiu ainda na década de 1930. Foi lançado em 1938 e reconhecido oficialmente pelo Ministério do Trabalho em 1948. Chamava-se Sindicato dos Trabalhadores na Extração de Sal de Macau — também conhecido como Sindicato dos Operários Salineiros — e foi criado por meu avô, Venâncio Zacarias de Araújo, que anos depois se tornaria prefeito da cidade, em 1957. Macau consolidava-se como polo estratégico da salina brasileira. Sede da Salinor, líder nacional com mais de 40% da produção, a cidade explora um conjunto singular de fatores naturais — sol intenso, ventos firmes e geografia plana — que explicam por que o Rio Grande do Norte responde por cerca de 95% do sal produzido no país.
A atividade salineira de Macau remonta ao século XVII e moldou a economia local por gerações. No auge, entre as décadas de 1950 e 1960, o sindicato reunia milhares de associados, tornou-se uma das entidades mais fortes da região, lutou por direitos trabalhistas, criou o SESTIS (Serviço Social dos Trabalhadores da Indústria do Sal) e influenciou diretamente a política local. Cresci ouvindo relatos sobre greves, negociações coletivas e assembleias acaloradas. Minha familiaridade com o universo sindical não nasceu apenas da pesquisa acadêmica, mas da memória viva de casa.
Antes da consolidação do sindicato salineiro, o Rio Grande do Norte já registrava experiências organizativas relevantes. O Sindicato do Garrancho, fundado em 1933, organizou trabalhadores da extração e do assentamento de pedras e marcou um momento importante na articulação coletiva no estado. Essa mobilização ajudou a pavimentar o sindicalismo potiguar e antecedeu a criação do Sindicato dos Salineiros de Macau, em 1938, ampliando a luta por direitos na cadeia produtiva do sal e fortalecendo a consciência política em uma região historicamente desigual.
Novos desafios
Hoje, como professor universitário e estudioso das organizações sociais de trabalhadores no Brasil, observo que os desafios mudaram de forma, mas não de essência. A luta por direitos permanece. O que se transformou radicalmente foi o ambiente em que essa luta se dá. Se no passado o sindicato precisava de sede física, jornal impresso e carro de som, agora precisa compreender algoritmos, métricas de engajamento e segmentação digital.
As eleições de 2022 revelaram um dado relevante para qualquer análise institucional: a dificuldade de converter capilaridade organizativa em presença digital coordenada. Diversas entidades buscaram estruturar comissões e brigadas digitais, com a meta ambiciosa de formar milhares de núcleos interligados. O resultado ficou muito abaixo do esperado. O problema não foi ausência de militância, mas falta de método, integração e planejamento sistêmico.
Predominaram redes fragmentadas, muitas vezes vinculadas a lideranças específicas ou a mandatos parlamentares isolados.
Do ponto de vista sociológico, isso expõe uma tensão contemporânea: instituições concebidas para ação coletiva enfrentando um ambiente tecnológico que privilegia personalização, velocidade e comunicação descentralizada. A cultura sindical, historicamente baseada em assembleias e decisões colegiadas, encontra dificuldade para se adaptar à lógica instantânea das plataformas.
A reflexão aqui não é partidária. É estrutural. A democracia contemporânea é atravessada por fluxos informacionais intensos. Quem não domina a lógica das redes perde capacidade de disputar narrativas públicas. Produzir conteúdo não é suficiente. Há abundância de posts, vídeos curtos, cards e declarações circulando diariamente. O gargalo está na arquitetura de distribuição.
Formato de tarrafa
Entre as propostas debatidas em círculos sindicais e acadêmicos está a criação de sistemas organizados no formato de “tarrafa”: um núcleo central articulando redes estaduais, setoriais e municipais. A imagem é precisa. A tarrafa só cumpre sua função quando cada nó está conectado. Na prática, isso significa coordenação de listas de transmissão, definição de horários estratégicos de envio e integração entre diferentes plataformas — WhatsApp, Instagram, Facebook, X e outras.
Estudos sobre comportamento digital indicam que a simultaneidade de postagens amplia o alcance orgânico. Quando milhares de perfis replicam uma mensagem em curto intervalo, os algoritmos identificam relevância e ampliam visibilidade. Essa lógica exige disciplina — algo que sempre foi virtude das organizações trabalhistas —, mas que precisa ser traduzido para o ambiente virtual.
Segmentação
Outro elemento central é a segmentação de público. Trabalhadores na ativa têm demandas distintas das de aposentados. Jovens sindicalizados interagem de forma diferente em comparação a dirigentes históricos. Ferramentas de Big Data e inteligência artificial permitem personalizar mensagens. Contudo, seu uso deve respeitar rigorosamente a Lei Geral de Proteção de Dados. Bases públicas como RAIS e SIDRA oferecem subsídios estatísticos, mas dados pessoais só podem ser utilizados com autorização expressa. Estratégia sem ética compromete legitimidade.
O Brasil possui dezenas de milhares de dirigentes sindicais espalhados pelo território. Se cada um operar como ponto de rede, compartilhando conteúdos em listas próprias e redes sociais, o potencial de difusão é expressivo. Mas isso não se constrói por improviso. Exige formação continuada, definição clara de responsabilidades e acompanhamento permanente de resultados.
Tecnologia e legitimidade
Há também um risco evidente: acreditar que tecnologia substitui legitimidade.
Redes bem estruturadas ampliam alcance, mas não substituem propostas consistentes nem diálogo real com a base.
A confiança permanece sendo o ativo central de qualquer organização social.
Quando recordo as histórias de Macau e da entidade fundada por meu avô, percebo que o elemento decisivo sempre foi organização. Na década de 1930, estruturar uma entidade de trabalhadores exigia coragem diante de um Estado ainda centralizador e de relações laborais assimétricas. Nos anos 1950, ampliar direitos significava enfrentar resistências econômicas e políticas locais. Hoje, o cenário mudou, mas a necessidade de método e visão estratégica permanece.
O século XXI impõe às organizações trabalhistas um duplo movimento: preservar sua identidade histórica e incorporar competência tecnológica.
A assembleia física continua relevante, mas precisa dialogar com a assembleia digital. O panfleto tornou-se post; o jornal mural, feed; a palavra de ordem ecoa agora em timelines.
Como pesquisador, vejo que a capacidade de coordenação será determinante para o futuro das organizações sociais de trabalhadores no Brasil. Não se trata apenas de disputar eleições, mas de manter presença qualificada no debate público. Comunicação deixou de ser acessório; tornou-se infraestrutura.
Método e coordenação
Entre as salinas potiguares e o universo dos algoritmos, há uma linha contínua: a organização coletiva como instrumento de dignidade. Sem método, há dispersão. Com método, há voz. A história demonstra que trabalhadores organizados transformam realidades — não por retórica, mas por estrutura, método e continuidade. O ambiente mudou de forma vertiginosa; a exigência de coordenação, contudo, permanece intacta. E agora é imperativo elevá-la de patamar. Não há espaço para inércia institucional.
Água parada acumula lodo; organização que apenas reage, que se acomoda à rotina burocrática ou se fecha à inovação, degrada-se silenciosamente. Sindicato desmotivado, refratário à mudança e desmobilizado perde relevância, perde base, perde voz. No mundo dos algoritmos e da disputa permanente por atenção, quem não circula, não articula e não se renova, evapora.
A nova organização sindical mais adequada ao tempo atual não pode ser um edifício vertical com salas isoladas, mas um sistema nervoso distribuído, no qual cada dirigente funciona como neurônio ativo, capaz de receber, processar e retransmitir informação em sincronia com o todo. Se o modelo antigo era a praça pública cercada por paredes físicas, o modelo contemporâneo precisa assemelhar-se a uma constelação interligada por fibras invisíveis: cada estrela mantém sua identidade própria, mas só produz orientação quando conectada às demais. Sem conexão, há pontos de luz dispersos; com conexão, forma-se o mapa que guia a travessia coletiva.
https://revistaforum.com.br/opiniao/redes-sociais-o-futuro-dos-sindicatos-entre-a-tarrafa-e-o-ruido/
03 de março de 2025
Quando a ganância derruba impérios tecnológicos
Sem inteligência estratégica, liderança vira soberba; a recusa chinesa expôs fragilidade americana e mostrou que mercado global recompensa cálculo frio


O mundo empresarial não é território para amadores nem para vaidades infladas. É campo de visão longa, cálculo frio e inteligência estratégica permanente. Quem administra olhando apenas o trimestre seguinte já está atrasado. Quem negocia pensando exclusivamente na própria margem pode estar assinando o próprio obituário corporativo. O mercado não pune ingenuidade ética; pune erros estratégicos. E o caso da GoPro é uma aula crua sobre como se perder o trono ao confundir liderança com invulnerabilidade.
Em junho de 2014, a GoPro estreava na Nasdaq sob aplausos. Captou cerca de US$ 427 milhões em sua oferta pública inicial. Em poucos meses, seu valor de mercado se aproximava de US$ 10 bilhões. Vendia aproximadamente 6,6 milhões de câmeras por ano. Havia criado um mercado do zero. Mais do que uma câmera, era um ecossistema: acessórios, softwares de edição, comunidade global, presença maciça no YouTube e nas redes sociais.
Enquanto o Vale do Silício celebrava, Shenzhen trabalhava. A DJI, fundada em 2006 por Frank Wang, consolidava sua hegemonia nos drones civis. Em 2015, estimativas da Skylogic Research indicavam que a empresa chinesa já detinha mais de 70% do mercado global de drones. O modelo Phantom popularizou a captura aérea — e carregava câmeras da própria GoPro.
A negociação que poderia ter redesenhado o setor fracassou por uma exigência considerada desproporcional: a empresa americana queria dois terços de todo o lucro do drone chinês acoplado com a GoPro. A resposta foi fulminante. Os executivos da DJI não precisaram sequer de uma hora para dizer não. Recusaram na mesma conversa. Ali morreu a possibilidade de uma fusão tecnológica que poderia ter consolidado uma hegemonia conjunta.
Benchmarking, nesse contexto, não é copiar o concorrente. É analisar sistematicamente suas melhores práticas, identificar vantagens estruturais e, sobretudo, decidir quando integrar competências para ampliar escala e utilidade. Produtos muitas vezes atingem seu auge quando se fundem a outros e criam novas categorias.
A DJI compreendeu isso. Investiu pesado na estabilização de imagem — gimbals de três eixos, integração total entre hardware e software, domínio de vibração. Internalizou a competência crítica. Depois, trouxe essa tecnologia para o solo, criando câmeras próprias com estabilização avançada.
A GoPro lançou o drone Karma em 2016. O resultado foi constrangedor. Poucas semanas após o lançamento, a empresa anunciou recall global por falhas que levavam à perda súbita de energia. Os drones, não raramente, simplesmente caíam do céu. A cobertura da imprensa internacional foi implacável. O impacto financeiro e e o altíssimo prejuízo para reputação da empresa foi severo.
O valor de mercado que orbitara US$ 10 bilhões despencou vertiginosamente. Em poucos meses, a empresa viu sua capitalização encolher para cerca de US$ 200 milhões. O mercado não perdoa decisões estratégicas equivocadas.
Casos semelhantes ecoam hoje. A Microsoft investe bilhões para integrar inteligência artificial da OpenAI ao seu ecossistema de produtos, fundindo software tradicional com modelos generativos. A Apple avança na integração entre hardware, serviços e inteligência embarcada para ampliar retenção e valor agregado. Em ambos os casos, a lógica é clara: unir competências para expandir utilidade e receita.
Empresário precisa enxergar quilômetros além do ponto onde está. Margem exagerada pode ser cegueira estratégica. Ganância não é apenas um desvio comportamental; é risco estrutural. Quando ultrapassa o limite do razoável, compromete rentabilidade, marca e futuro.
O pioneirismo não garante imunidade. Garante apenas a obrigação de continuar aprendendo antes que outro aprenda por você.
https://www.brasil247.com/blog/quando-a-ganancia-derruba-imperios-tecnologicos
23 de fevereiro de 2025
O Brasil se tornou a nação do quase cresce, quase inova, quase decola
Selic em 15% mantém país no topo global dos juros reais, favorece o rentismo, pressiona o investimento produtivo e impõe custo direto às empresas e às famílias


A Selic em 15% ao ano não é apenas um número técnico decidido a cada 45 dias pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil. Ela se transformou em símbolo de um modelo. Em janeiro de 2026, o Copom manteve a taxa nesse patamar, consolidando o nível mais alto desde 2006. A justificativa formal permanece a mesma: assegurar a convergência da inflação à meta. No entanto, quando a inflação projetada para os próximos 12 meses orbita em torno de 4% e a taxa nominal é 15%, o que se estabelece é um juro real ex-ante próximo de dois dígitos — um dos mais elevados do planeta.
Convém explicar com precisão técnica o que significa essa expressão. “Juro real ex-ante” é a taxa nominal descontada da inflação esperada para os próximos 12 meses. Não se trata de inflação passada, mas de expectativa futura. É esse indicador que investidores globais utilizam para comparar retorno efetivo entre países. Sob esse critério, o Brasil figura consistentemente entre as duas maiores taxas reais do mundo. A liderança pode variar conforme metodologia e horizonte — em alguns rankings aparece a Turquia, em outros a Rússia —, mas o fato incontornável é que o Brasil está no topo global de remuneração real do capital financeiro.
Para evitar qualquer generalidade, é necessário olhar os números concretos das principais economias. O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, manteve nos últimos três meses a taxa básica (Fed Funds) no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano. O Banco Central Europeu (BCE — Banco Central Europeu), responsável pela política monetária dos 20 países que utilizam o euro, opera com taxa de depósito em 2,00% e taxa principal de refinanciamento em torno de 2,15%.
No caso latino-americano, os dados são igualmente objetivos. O Banco de México (Banxico) mantém a taxa básica em 11,00% ao ano no início de 2026. O Banco Central do Chile trabalha com taxa de política monetária em torno de 6,50% ao ano. Não há adjetivos aqui — há números. O Brasil opera com 15%. México, 11%. Chile, 6,50%. O diferencial é estrutural.
Diante desse quadro, a pergunta que se impõe não é se juros combatem inflação — combatem, em determinadas circunstâncias —, mas se o Brasil está pagando um preço desproporcional por uma estabilidade que já apresenta sinais de consolidação.
Quando o cofre rende mais que a fábrica
Adam Smith (1723–1790) escreveu em A Riqueza das Nações que “o trabalho anual de cada nação é o fundo que originalmente lhe fornece todas as coisas necessárias e convenientes da vida”. Smith desmontou o mercantilismo ao mostrar que riqueza não é metal acumulado, mas produção gerada. Ao manter juros reais de dois dígitos, o Brasil sinaliza que o retorno do capital financeiro supera, com folga, o retorno do investimento produtivo médio. Isso cria um desalinhamento estrutural.
David Ricardo (1772–1823), ao formular a teoria das vantagens comparativas, partiu da ideia de que o capital flui para onde a produtividade relativa é maior. Mas essa lógica pressupõe um custo de oportunidade compatível com o risco produtivo. Quando o título público brasileiro remunera a 15%, projetos industriais, tecnológicos e exportadores precisam oferecer retornos extraordinários apenas para empatar com o risco soberano. O efeito não é abstrato: investimentos são adiados, cadeias produtivas perdem densidade, inovação é comprimida. Isso significa menos fábricas abertas, menos startups financiadas, menos empregos qualificados gerados. Significa também crédito imobiliário mais caro, financiamento estudantil mais restrito e consumo das famílias permanentemente pressionado. A vida cotidiana sente o impacto na prestação do carro, na taxa do cartão, no custo do capital de giro da padaria da esquina.
A sedução do capital volátil e a fragilidade estrutural
Joseph Schumpeter (1883–1950) afirmava que “o crédito é essencialmente criação de poder de compra para fins de inovação”. Sem crédito acessível e previsível, a destruição criativa se enfraquece. Juros elevados atraem capital de curto prazo interessado no diferencial de taxa — o chamado carry trade — mas não necessariamente capital produtivo de longo prazo. Esse fluxo pode apreciar o câmbio temporariamente, reduzir competitividade industrial e tornar o país mais dependente de commodities.
Essa dependência não é abstrata nem recente. Soja, minério de ferro, petróleo bruto, milho e carnes representam parcela central da pauta exportadora brasileira. O agronegócio responde por cerca de 25% do PIB, direta e indiretamente, e mais de 45% das exportações totais. A concentração em produtos primários, embora gere divisas, limita a sofisticação tecnológica da economia. Juros elevados reforçam essa dinâmica ao desestimular indústria de transformação e setores intensivos em inovação. Parte do atraso industrial e tecnológico brasileiro nasce justamente desse círculo vicioso: capital caro, indústria enfraquecida, dependência crescente de produtos básicos.
O trilhão que não vira escola, hospital ou estrada
Em 2025, as despesas com juros nominais do setor público brasileiro ultrapassaram um trilhão de reais. Traduzindo para linguagem direta: para cada 100 reais produzidos pelo país em um ano, quase 8 reais foram destinados apenas ao pagamento de juros da dívida pública. Esse dinheiro não constrói pontes, não amplia universidades, não financia pesquisa científica, não fortalece hospitais. Ele remunera o estoque da dívida.
John Maynard Keynes (1883–1946) advertiu que “a dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das antigas”. Persistir em taxas excepcionalmente elevadas pode transformar prudência monetária em rigidez estrutural. Michal Kalecki (1899–1970) foi ainda mais incisivo ao sustentar que decisões macroeconômicas refletem conflitos distributivos. Juros elevados transferem renda para quem possui ativos financeiros e pressionam quem depende de crédito. Não é neutralidade técnica; é escolha institucional.
Eficiência, distribuição e responsabilidade histórica
Vilfredo Pareto (1848–1923) formulou o conceito de eficiência econômica que leva seu nome, mas jamais confundiu eficiência com justiça social. John Stuart Mill (1806–1873) escreveu que “as leis da produção são naturais; as da distribuição são obra das instituições humanas”. Juros de 15% não são fenômeno da natureza. São resultado de decisão política dentro de um arcabouço institucional.
A história do pensamento econômico mostra que políticas surgem para responder a contextos específicos. O mercantilismo confundia riqueza com metal. Smith o contestou. Keynes rompeu com a crença na autorregulação automática. Schumpeter mostrou que crescimento exige ruptura. Cada avanço teórico ocorreu quando a realidade impôs revisão.
O Brasil de 2026 enfrenta esse momento. Combater inflação é necessário. Transformar juros excepcionalmente elevados em padrão prolongado pode ser um erro estratégico. Quando o país figura de forma recorrente entre os maiores juros reais do mundo, envia mensagem clara ao investidor produtivo: aqui, o risco compensa menos do que a aplicação passiva.
Persistir nessa trajetória significa aceitar crescimento medíocre, inovação tímida e indústria fragilizada como preço da estabilidade. A economia não é um exercício de contabilidade; é projeto de nação. E juros de 15% ao ano, mantidos como regra estrutural, deixam de ser instrumento de política monetária e passam a ser definição silenciosa de destino.
https://www.brasil247.com/blog/o-brasil-se-tornou-a-nacao-do-quase-cresce-quase-inova-quase-decola
21 de fevereiro de 2025
O erro moderno de desprezar princípios antigos
A provocação é simples e incômoda: princípios registrados há dois mil anos continuam mais sólidos que muitos discursos contemporâneos sobre poder e sucesso


Há quem deseje o palco, mas não o silêncio que antecede a decisão difícil. Liderar é avançar quando o chão ainda não foi testado, sabendo que cada passo produz consequências que não cabem em relatórios trimestrais. É assumir que autoridade não é ornamento, é ônus. E ônus não se delega.
Recentemente reli uma lição de liderança atribuída ao Dr. Marcus Valen, em diálogo com seu jovem interlocutor, Daniel. O texto não nasceu em auditórios corporativos nem em workshops de fim de semana. É aconselhamento direto, quase clínico. Valen não oferece frases de efeito; oferece critérios. Ele começa pelo essencial: desejar liderar é desejar responsabilidade. Quem pleiteia o comando precisa aceitar o peso das escolhas quando elas deixam de ser teóricas e passam a afetar empregos, reputações e destinos institucionais.
É aqui que a primeira ideia se impõe com nitidez quase desconfortável: liderança é prestação de contas permanente. O líder é o ponto de convergência das pressões e o primeiro a ser cobrado quando algo falha. Em ambientes empresariais complexos, onde decisões atravessam fronteiras e impactam cadeias inteiras, não há espaço para vaidade descompromissada. Poder sem responsabilidade é fragilidade disfarçada.
Na sequência da conversa, emerge um segundo princípio menos celebrado, porém decisivo: liderar é formar gente. Valen insiste que desempenho individual, por mais brilhante que seja, é insuficiente quando não se converte em multiplicação de talentos. Organizações sólidas não dependem de protagonistas isolados, mas de culturas que ensinam e preparam sucessores. O líder que centraliza conhecimento constrói dependência; o que compartilha constrói legado. Formar pessoas é a forma mais estratégica de perpetuar resultados.
Há ainda um ponto que raramente aparece nas biografias empresariais, mas sustenta todas elas: autocontrole. A terceira dimensão da liderança, segundo Valen, é a sobriedade como prática diária. Não se trata apenas de evitar excessos evidentes, mas de governar impulsos, linguagem e postura. Em tempos de exposição contínua, uma reação intempestiva pode corroer anos de reputação. A sobriedade não é detalhe comportamental; é ativo estratégico. Quem não administra as próprias emoções dificilmente administrará crises.
Quando a conversa avança para o campo pessoal, o argumento ganha profundidade. A quarta dimensão da liderança começa longe das salas de reunião. Disciplina doméstica e organização pessoal são ensaios silenciosos para responsabilidades maiores. Coerência entre vida íntima e atuação pública não é moralismo, é fundamento de confiança. A autoridade se sustenta quando há alinhamento entre discurso e prática.
Por fim — e talvez aqui esteja o alerta mais atual — surge a quinta exigência: maturidade. Promoções apressadas, sem lastro de experiência e caráter, produzem decisões erráticas e arrogância precoce. Experiência afia julgamento; caráter delimita fronteiras éticas. E reputação — esse patrimônio invisível — acumula-se lentamente, mas pode ser dissolvida por um único ato impensado.
Esse texto me foi enviado por amigo de longa data, Luís Henrique Beust, CEO da Anima Mundi, e concordo inteiramente com ele quando afirma que certas lições atravessam séculos porque falam à arquitetura moral do ser humano, não às tendências do mercado. E aqui está o ponto que exige franqueza: se eu tivesse iniciado revelando que esses princípios foram registrados entre 63 e 65 d.C., numa orientação do apóstolo Paulo a Timóteo, muitos teriam interrompido a leitura por preconceito intelectual, confundindo antiguidade com irrelevância. Teriam julgado a origem antes de enfrentar o conteúdo.
A liderança autêntica não se curva ao calendário nem às modas corporativas. Ela se ancora em caráter. E caráter não expira, não recebe atualização de versão, não depende de algoritmo para manter pertinência. O que envelhece são as narrativas oportunistas; princípios permanecem. Liderar, afinal, é sustentar coerência quando o aplauso passa — e continuar responsável quando as luzes se apagam.
https://www.brasil247.com/blog/o-erro-moderno-de-desprezar-principios-antigos
16 de fevereiro de 2025
Antes da morte vem o sumiço que condena os que deixam de ser vistos
A invisibilidade social talvez seja a mais cruel dentre as injustiças no Brasil. Não porque mata — mas porque apaga. E quem é apagado, antes de morrer, já deixou de existir.


No Brasil, os fantasmas não vivem apenas em histórias de assombração. Circulam entre nós, atravessam calçadas, sobem elevadores de serviço, limpam escritórios, servem cafés, cuidam de nossos filhos e pais. Não vestem lençóis brancos, mas uniformes azul-marinho, cinza, marrom ou verde-escuro. Não fazem barulho — não porque não queiram, mas porque foram ensinados, desde cedo, que sua função é cumprir a tarefa e desaparecer.
O psicólogo social Fernando Braga da Costa, da Universidade de São Paulo, transformou essa percepção em pesquisa. Durante dez anos, trabalhou meio período como gari na Cidade Universitária. O que descobriu não cabia em tabelas ou gráficos: professores que o cumprimentavam pelo nome quando o encontravam sem uniforme atravessavam o corredor sem vê-lo quando ele vestia a farda laranja. O homem sumia. Ficava apenas o gari. Sua tese de doutorado batizou o fenômeno de invisibilidade pública: a cristalização do olhar que enxerga a função, mas apaga o indivíduo.
Na ficção de J.K. Rowling, a capa da invisibilidade de Harry Potter é um artefato mágico cobiçado, capaz de ocultar seu portador aos olhos de todos, oferecendo proteção e vantagem. No mundo real, porém, existe uma “capa” muito menos nobre e infinitamente mais cruel: a da invisibilidade social. Ao contrário da magia, ela não é escolhida, mas imposta — vestida, muitas vezes, pelo simples fato de exercer um trabalho considerado subalterno, de carregar a cor da pele que o preconceito rejeita ou de ocupar um espaço que a elite ignora. Essa capa não concede poder, apenas apaga a existência, tornando pessoas reais tão imperceptíveis quanto fantasmas.
A experiência de Costa é paradigmática — mas está longe de ser única. Casos recentes mostram que a invisibilidade se modernizou, diversificou e, em alguns campos, aprofundou-se.
20 de agosto de 2025
Já é hora de créditos extraordinários contra o tarifaço de Trump
Vital do Rêgo propõe ação rápida com créditos fora do arcabouço fiscal para conter danos do tarifaço ao agronegócio e à indústrias


O tarifaço de 50% imposto por Donald Trump aos produtos brasileiros, que entra em vigor em 1º de agosto de 2025, lança sombras sobre nossa economia e exige respostas firmes. Em entrevista, o presidente do TCU, Vital do Rêgo, defende o diálogo diplomático, mas aponta os créditos extraordinários como ferramenta crucial para proteger o agronegócio e a indústria. “O custo vem de forma anormal, porque ninguém deu causa a isso”, sentencia.
Concordo integralmente com esse pensamento: é exatamente para situações que coloquem a economia nacional em perigo que existe a opção de se lançar mão de recursos extraordinários. Previstos no artigo 167, §3º da Constituição, esses recursos atendem a despesas urgentes e imprevisíveis, como crises globais, sem se submeterem ao arcabouço fiscal da Lei Complementar 200/2023 ou ao teto da EC 95/2016, garantindo agilidade essencial.
Infelizmente, nem todos os filhos do Brasil vibram com seu sucesso. Alguns, nascidos aqui, mas com a alma voltada a interesses externos, não hesitam em minar a nação em disputas internacionais. Para esses oportunistas, o governo deve socorrer exportadores contra tarifas abusivas, mas nunca com recursos extraordinários – pois, para eles, quem ajuda deve ser punido.
É o pensamento econômico dos terraplanistas. É a política em sua face mais sombria, que vira as costas ao povo e ao progresso coletivo.
A tramitação dos créditos exige precisão: uma Medida Provisória (MP), editada pelo presidente, entra em vigor imediatamente. O Congresso a avalia em até 120 dias – 45 na Câmara, 45 no Senado, prorrogáveis por 30 –, convertendo-a em lei ou rejeitando-a, com atos sob escrutínio judicial (artigo 62 da CF). A celeridade é crucial: esgotar os 120 dias seria um desserviço; decisões rápidas fortalecem a União, beneficiando todos.
Com a incerteza pós-1º de agosto, o governo age com responsabilidade, elaborando um plano robusto para apoiar empresas afetadas, contendo perdas de receita e demissões. Os ministérios da Fazenda, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, da Casa Civil e o Itamaraty forjaram um pacote estratégico, sob análise de Lula, para neutralizar os impactos de Trump.
Setores como combustíveis e carne podem buscar mercados alternativos, ainda que a preços menores, sem desestímulo estatal. Já o setor de aviação, liderado pela Embraer, enfrenta desafios maiores: encontrar compradores alternativos é complexo, mas a pressão de companhias aéreas americanas, dependentes de suas aeronaves, pode abrir exceções. O café, com estoques globais baixos, também pode escapar ileso.
Crises externas já testaram esse mecanismo. A pandemia de Covid-19, surgida na China em 2019, mobilizou R$ 603,7 bilhões em créditos extraordinários em 2020, com R$ 549,64 bilhões aplicados em auxílios, saúde e suporte econômico, e R$ 75,91 bilhões cancelados por subexecução, segundo o Senado. MPs como a 969/2020 destinaram R$ 10 bilhões à saúde, enquanto a 988/2020 alocou R$ 101,6 bilhões ao auxílio emergencial.
As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, intensificadas por mudanças climáticas globais, consumiram R$ 94,38 bilhões, via MPs como a 1.218/2024 (R$ 12,2 bilhões) e a 1.244/2024 (R$ 1,25 bilhão), conforme a Casa Civil. Uma MP de setembro liberou R$ 5,1 bilhões adicionais para reconstrução.
A guerra na Ucrânia, desde 2022, elevou os preços de fertilizantes em 68% e de combustíveis em 46%, impactando bilhões em importações, segundo a Embrapa e a ANP, com ajustes via subsídios indiretos.
O tarifaço atual ameaça bilhões em exportações, e os créditos extraordinários são a resposta certa, fora das metas fiscais. Com a dívida pública em 76,1% do PIB em maio de 2025, conforme o Banco Central, moderação é essencial, mas a proposta de Vital do Rêgo é indispensável. Passei 21 anos trabalhando na Secretaria-Geral da Mesa do Senado; sei que matéria legislativa dessa monta precisa ser implementada com urgência – sem falsas batalhas legislativas – porque fortalece o Brasil contra vendavais globais, além de uni-lo em defesa de um futuro soberano.
https://www.brasil247.com/blog/ja-e-hora-de-creditos-extraordinarios-contra-o-tarifaco-de-trump
30 de julho de 2025
Futurofobia
Futurofobia paralisa jovens, que buscam causas em um mundo sufocado por telas, IA e crises globais


Futurofobia não é um susto fugaz; é um abismo que engole horizontes, como um céu engolido por nuvens de chumbo antes do amanhecer. Jovens, especialmente millennials e Geração Z, encaram o futuro como um campo minado, tecido por crises climáticas, guerras em tempo real e algoritmos que moldam destinos antes que sejam escolhidos.
Não é medo passageiro – é paralisia diante de um amanhã que parece armadilha, não promessa. Telas que devoram horas e inteligências artificiais que ameaçam ofícios alimentam um desencanto que sufoca a imaginação, roubando a ousadia de sonhar.
Renato Russo, há décadas, já via o mundo doente: “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.” A pressão por carreiras impecáveis, movida por um capitalismo insaciável, plantava sementes de esgotamento. Hoje, elas florescem em burnout epidêmico. Um estudo da Pew Research (2025) revela que 48% dos jovens de 13 a 17 anos veem redes sociais como prejudiciais, com 45% admitindo uso excessivo.
A globalização instantânea despeja tragédias – enchentes no Sul, fome em Gaza, fanatismo religioso no Irã, deportações em massa nos EUA – enquanto mudanças climáticas e desigualdades corroem esperanças. Jovens ouvem: “Vocês consertarão nosso fracasso.” Respondem, asfixiados: “Não fizeram o suficiente por que nos entregam um mundo mais quebrado que arroz de terceira.”
A Lancet (2024) aponta que 18% dos adolescentes de 12 a 17 anos tiveram episódios depressivos graves em 2023, com 12% relatando pensamentos suicidas. Outra análise (2025) destaca que megatendências como crises ambientais e automação agravam distúrbios mentais em 10% dos jovens de 5 a 24 anos.
Telas não são o único vilão, mas pesam: a APA (2024) associa maior exposição digital a riscos socioemocionais, com 60% dos jovens relatando ansiedade ligada a dispositivos. A IA amplifica temores: adolescentes confessam que máquinas podem superar sonhos profissionais. A AIM Youth Mental Health (2025) nota que telas criam ciclos de ansiedade, com 71.9% citando ansiedade e 64.9% stress/burnout.
Burnout é um colapso silencioso: exaustão crônica, com 82% dos jovens em risco (relatório 2025), por pressões financeiras (30%) e laborais (25%). Sintomas incluem apatia, insônia, cinismo e queda na concentração, levando a desempenho fraco.
Perceptivamente, distorce o futuro como inalcançável, com 40% sentindo-se passivos (PNAS, 2025), agravado por ansiedade climática. Saúde mental sofre: depressão e automutilação crescem, com 29% considerando autolesão (Youth Mental Health Tracker, 2024).
Jovens vagueiam em busca de uma causa que mereça suas vidas, infundindo sentido e razão vibrante para acordar. Nesse marasmo intergeracional, tornam-se alvos de ideologias extremistas, que prometem purificação mas semeiam ruínas, arrastando para divisão e ódio.
Minha geração pulsava com causas incendiárias: contracultura desafiando normas, paz e amor tecendo harmonia, lutas contra armas nucleares (que voltam com força), extremismo e imperialismo. Hoje, o fervor evaporou, clamando por novas chamas.
A imaginação definha: “Tech to the Future” (2025) mostra visões opressivas por automação. A literatura perde espaço para streams, corroendo foco.
Distopias como “The Last of Us” refletem angústias; redes isolam, algoritmos paralisam. Seriados mais assistidos trazem zumbis e mortos vivos em narrativas pessimistas onde simplesmente não há amanhã.
A “militância do sofá” – cliques inertes assinando manifestos e publicando nas redes sociais – substitui ação. “Girl Up” (2024) prova potencial, mas quantos glamourizam doenças via ChatGPT?
O risco é profecia autorrealizável: jovens passivos cristalizam pessimismo. Educadores falham em ferramentas contra o caos. “Curtida Aí” (2025) escuta: “O algoritmo me define.” “Jovens carregam crises sem manuais,” diz Vivek Murthy. “Sem sonhos, o futuro escurece,” alerta Yuval Harari. “Tecnologia pode ser corrente ou ferramenta,” reflete Satya Nadella.
Futurofobia é um grito urgente, um chamado para reacender a busca por causas que valham dias. Ignorar é condenar gerações a um vazio onde o amanhã se dissolve.
https://revistaforum.com.br/opiniao/2025/7/27/futurofobia-184157.html
27 de julho de 2025
Revolução silenciosa dos invisíveis que fazem a diferença
Em um mundo corroído pela indiferença, 'Abdu'l-Bahá, Mohamed Mashali e Peter Tabichi emergiram como raízes profundas de humanidade - três homens que transformaram a doação em ato de insurreição silenciosa contra a aridez de nosso tempo


Num mundo onde o tempo corre e o egoísmo muitas vezes dita o compasso, há quem escolha caminhar contra a corrente, carregando a chama da generosidade. No Egito, sob um sol que parece queimar até os sonhos, o Dr. Mohamed Mashali (1944-2020), aos 80 anos, atravessava ruas poeirentas rumo à sua modesta clínica.
Sem carro, sem celular, apenas com um coração imenso, ele atendia filas de rostos sofridos. Cada consulta custava menos de um dólar, e muitas vezes ele abria mão até disso, pagando remédios do próprio bolso. Conhecido como o “médico dos pobres”, Mashali viveu por mais de 50 anos com quase nada, recusando fama e fortuna, mas jamais um paciente. Sua vida mudou para sempre quando um menino diabético, desesperado por não querer ser um fardo para a família faminta, ateou fogo em si mesmo.
A dor daquele garoto, que morreu em seus braços, tornou-se um juramento: dedicar-se aos que nada tinham. Até seus últimos dias, em 2020, mesmo com a saúde frágil, ele cumpriu essa promessa, deixando um legado que hoje brilha em murais na Síria e no Marrocos.
Em um canto remoto do Quênia, onde a pobreza engole esperanças e a eletricidade é um luxo, Peter Tabichi (1982-vivo), um monge franciscano de 36 anos, escolheu ser luz. Em uma escola com 58 alunos por sala, um único computador e internet precária, ele transformou o ensino de matemática e física com criatividade e compaixão.
Seus estudantes, muitos órfãos que caminham sete quilômetros para estudar, venceram competições nacionais de ciências e chegaram a uma feira de engenharia nos Estados Unidos. Peter doa quase todo o seu salário aos pobres, promove a paz entre tribos outrora divididas e empodera alunos cegos.
Quando recebeu o Global Teacher Prize, com seu milhão de dólares, ele já sabia: o dinheiro voltaria para sua vila, para erguer futuros. “Este prêmio é para a juventude da África”, disse, com um sorriso sereno, vestindo seu simples hábito franciscano.
Em 'Akká, no coração de um exílio imposto pelo Império Otomano, ‘Abbas Effendi, conhecido como ‘Abdu’l-Bahá (1844-1921), transformou prisões em fontes de esperança. Sob a vigilância de guardas e o peso de décadas de confinamento, ele, aos 77 anos, carregava um coração que não conhecia limites.
Sem riquezas, sem liberdade plena, apenas com uma fé inabalável no serviço, ele acolhia peregrinos, pobres e doentes, compartilhando o pouco pão que tinha. Conhecido como o “Mestre de 'Akká’”, ele viveu para os outros, recusando honrarias, mas jamais um necessitado. Sua vida mudou ainda jovem, quando, aos 8 anos, testemunhou a prisão de sua família por suas crenças bahá’ís, jurando dedicar-se aos esquecidos.
Em Bagdá, ele cuidava de órfãos, oferecendo-lhes comida e abrigo; em Haifa, distribuía mantimentos aos famintos nas ruas, muitas vezes tirando do próprio prato. Durante a Primeira Guerra Mundial, quando a fome devastava a Palestina, ele organizou a distribuição de grãos armazenados, salvando milhares de vidas, independentemente de credo, raça ou origem. Ele visitava leprosos rejeitados, levando-lhes conforto e dignidade, e consolava prisioneiros com palavras que reacendiam a esperança.
‘Abdu’l-Bahá promovia a unidade entre religiões, reunindo muçulmanos, cristãos e judeus em diálogos de paz, desafiando séculos de divisão. Em suas viagens ao Ocidente, entre 1911 e 1913, ele falava a multidões sobre igualdade racial e justiça social, abraçando os marginalizados, como os afro-americanos nos Estados Unidos, em tempos de segregação. Mesmo exausto, ele caminhava pelas vilas, atendendo a cada alma que o procurava, do mendigo ao erudito, com o mesmo amor.
Quando líderes o convidavam para banquetes, ele preferia os humildes, compartilhando seu tempo e consolo. “A verdadeira felicidade está em servir”, dizia, com um sorriso sereno, vestindo sua túnica simples. Até seus últimos dias, em 1921, com a saúde fragilizada, ele continuou servindo, deixando um legado que ecoa em comunidades bahá’ís e além, inspirando milhões a viver para o outro.
Mashali, Tabichi e ‘Abdu’l-Bahá, separados por continentes e eras, são unidos por uma verdade eterna: generosidade é resistência. Eles viram a dor – a do menino que se foi, a dos alunos esquecidos, a dos exilados famintos – e escolheram transformá-la em pontes para a esperança.
A generosidade não precisa de grandes gestos; é o pão dividido, o tempo doado, a mão estendida.
É o médico que paga pelo remédio, o professor que ensina a sonhar, o servo que alimenta os famintos. Suas histórias nos desafiam: o que oferecemos ao mundo? Num tempo de divisões, eles nos mostram que a verdadeira riqueza não se acumula, mas se compartilha. Possam seus legados – pintados em murais, gravados em corações ou ecoados em atos – nos inspirem como bússolas para o bem viver, a dar sem esperar, a viver para o outro. Porque, no fim, é isso que nos faz humanos.
21 de julho de 2025
A indiferença que cerca quem está vivo, mas perdeu o lugar
Preconceito contra idosos apaga vidas e experiências, sustenta exclusões e impede que a longevidade seja celebrada como conquista coletiva


No início dos anos 1990, Norberto Bobbio, então um jurista italiano de 80 anos, subiu lentamente ao palco da aula magna do curso de Direito em Palermo. Diante de 5 mil estudantes vindos de toda a Itália, ele abriu sua conferência com uma reflexão desconcertante: “Vocês devem ter notado que entrei devagar, talvez pensando o que esse velho tem a nos ensinar. Meu único medo era cair, pois, na minha idade, uma queda pode ser fatal. E confesso: meu coração acelera quando o telefone toca, temendo a notícia da morte de mais um amigo de juventude. Mas agradeço por estarem aqui. Se forem felizes, alcançarão minha idade, ou até mais. Do contrário, morrerão jovens, sem viver tudo que poderiam".
A plateia, em uníssono, ergueu-se em aplausos por longos minutos, tocada pela sabedoria de quem transformava a fragilidade em força. Recomendo que busquem O Tempo da Memória, coletânea de conferências de Bobbio prefaciada no Brasil por José Guilherme Merquior.
Essa história, esse convite à vida, é o que me move, aos 66 anos, a enfrentar o etarismo e celebrar a longevidade.
O etarismo, termo cunhado em 1969 por Robert Butler, é mais que um conceito; é uma violência que desvaloriza a experiência.
Em 24 de junho de 2025, a 3ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST) manteve a condenação de um banco do Amapá ao pagamento de R$ 100 mil por etarismo. A funcionária foi chamada de “velha” e humilhada publicamente.
O etarismo não fere só um; apaga muitos, reforçando a ideia de que a juventude é sinônimo de competência e a velhice, de obsolescência. A longevidade, por outro lado, é uma revolução silenciosa.
No Brasil, a expectativa de vida saltou de 52 anos em 1960 para 77 hoje, com 34 milhões de idosos, 15% da população, segundo o IBGE.
No Canadá, com média de 82 anos, 19% são idosos, amparados por saúde pública robusta.
A China, com 78 anos, enfrenta um envelhecimento acelerado — 14% acima dos 65 — que pressiona sua economia.
Nos Estados Unidos, com 79 anos, desigualdades limitam a saúde para 17% de idosos.
A França, com 83 anos, brilha com políticas inclusivas, mas tensiona sua previdência com 20% de idosos.
Esses números são mais que dados; são vidas prolongadas, nem sempre respeitadas. O etarismo se infiltra em esferas que moldam a existência. No mercado de trabalho, 4 milhões de idosos brasileiros trabalham na informalidade, preteridos por estereótipos de “falta de inovação”. Planos de saúde impõem custos exorbitantes, enquanto a mídia retrata idosos como frágeis, ignorando sua vitalidade.
Na educação, iniciativas como o vestibular para maiores de 60 da UnB são raras; idosos são desencorajados, vistos como “deslocados”. No lazer, a falta de acessibilidade rouba sua alegria.
A OMS aponta que 1 em 6 idosos sofre violência etária globalmente. Isso não é sensibilidade exagerada; é exclusão sistêmica que nega a sabedoria acumulada. Leis tentam combater essa sombra. No Brasil, o Estatuto da Pessoa Idosa (2003) pune discriminação com até um ano de prisão. O Canadá protege via Canadian Human Rights Act, com reforços provinciais. A China, com sua lei de 2012, garante direitos, mas falha na aplicação. Nos EUA, o Age Discrimination in Employment Act (1967) ampara trabalhadores acima de 40, mas deixa brechas. A França promove inclusão com seu Código do Trabalho, mas enfrenta desafios previdenciários.
Leis são passos, mas a mudança exige coragem cultural.
Bobbio é minha bússola. Após os 65, ele escreveu Direita e Esquerda (1994), aos 85, e lecionou até os 90, provando que a mente não envelhece.
Cícero, em De Senectute (44 a.C.), também desafiou o etarismo, vendo a velhice como tempo de sabedoria, não de declínio. Desmond Tutu e Margaret Chan moldaram o mundo após os 65.
David Attenborough, aos 98 anos, inspira o mundo com seus documentários, como Planeta Azul e Nosso Planeta, mobilizando milhões a combater a crise climática com sua voz incansável pela preservação ambiental.
Yayoi Kusama, aos 96, lota museus; Fernanda Montenegro, aos 95, brilha no cinema; Warren Buffett, aos 95, lidera fortunas.
Eles mostram: a idade não limita, o preconceito sim.
A idade não enfraquece — revela.
O caso da funcionária humilhada expõe uma estrutura que descarta quem já entregou tanto. Desvalorizar a experiência é sabotar o futuro. O etarismo é um mecanismo de exclusão que se disfarça de eficiência.
Não importa a idade, viver com lucidez e propósito é resistência. Nada é mais alarmante que a indiferença diante de quem ainda está vivo, mas já não é visto.
https://www.brasil247.com/blog/a-indiferenca-que-cerca-quem-esta-vivo-mas-perdeu-o-lugar
18 de julho de 2025
Cuidadores invisíveis: a base esquecida do Brasil que envelhece
A figura do cuidador de idosos tornou-se indispensável em milhões de lares brasileiros.


Quando Donald Trump tomou posse como 47º presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2025, após derrotar Kamala Harris nas eleições de 5 de novembro de 2024, o mundo sentiu o peso de um déjà-vu turbulento. Seu retorno ao Salão Oval, quase uma década após seu primeiro mandato (2017-2021), reacendeu temores de rupturas na ordem global. O The New York Times, em editorial de 21 de janeiro de 2025, chamou sua volta de “um teste existencial à democracia e à cooperação internacional”, enquanto o Le Monde alertou em 22 de janeiro: “O multilateralismo está sob ataque, e Trump é o aríete.” Até 28 de março de 2025, os primeiros 68 dias de seu governo mostram sinais claros de sua agenda – protecionismo econômico, nacionalismo exacerbado e desprezo por instituições globais –, mas ainda é cedo para eventos concretos além de discursos e nomeações. Este artigo mergulha nos fatos verificáveis até hoje, analisa as implicações geopolíticas com dados estatísticos robustos e traz vozes como Noam Chomsky e Elon Musk para iluminar um planeta à beira do caos.
O Retorno de Trump: Um Golpe no Multilateralismo
Trump venceu com 51% dos votos populares (CNN, 6 de novembro de 2024), prometendo “colocar a América em primeiro lugar” e revisar acordos internacionais. Em seu primeiro mandato, ele retirou os EUA do Acordo de Paris (2017) e da OMS (2020), cortando US$ 893 milhões anuais em contribuições (OMS, 2020). Em 2024, ele chamou a ONU de “um clube de burocratas inúteis” durante um comício em Ohio, e seu discurso de posse em 20 de janeiro de 2025 reforçou: “Não vamos mais financiar organizações que nos sugam.” O Financial Times estimou em 15 de novembro de 2024 que os EUA, responsáveis por 22% do orçamento da ONU (US$ 3,4 bilhões em 2024), poderiam reduzir isso em 50%, esvaziando a organização.
A China, com PIB de US$ 18,5 trilhões em 2024 (FMI), cresce 4,8% ao ano, contra 2,2% dos EUA e 1,5% da UE (Banco Mundial). Ela já investiu US$ 1 trilhão na Iniciativa Cinturão e Rota desde 2013, conectando 140 países (Banco Mundial, 2023). Noam Chomsky, em entrevista à Truthout em 25 de outubro de 2023, alertou: “O isolacionismo de Trump é um presente à China, que está pronta para liderar onde os EUA recuam.” Yuval Noah Harari, em palestra na London School of Economics em 2023, complementou: “A ordem multilateral, já frágil, não sobreviverá a outra onda de unilateralismo americano.” O The Atlantic previu em 10 de fevereiro de 2025 que a saída de fundos americanos pode cortar 30% dos programas de paz da ONU, como os US$ 1,2 bilhão gastos em missões no Sudão do Sul (ONU, 2024).
Protecionismo Econômico: Tarifas e o Choque Global
Trump prometeu em 2024 tarifas de 20% sobre todas as importações e até 60% contra a China, revisitando sua guerra comercial de 2018-2020, quando impôs taxas de 25% sobre US$ 250 bilhões em bens chineses (USTR, 2020). O The Economist calculou em 12 de dezembro de 2024 que novas tarifas poderiam reduzir o PIB global em 0,8% (US$ 800 bilhões) em 2025, com os EUA perdendo US$ 200 bilhões devido a retaliações. A China, maior exportadora mundial com US$ 3,2 trilhões em 2024 (Banco Mundial), contra US$ 1,6 trilhão dos EUA, retaliou em 2018 com tarifas de 25% sobre soja americana, custando US$ 11 bilhões aos agricultores (USDA, 2019).
A UE, com exportações de US$ 2,3 trilhões, teme um impacto de US$ 50 bilhões, segundo o Financial Times (20 de janeiro de 2025). Jeff Bezos, em entrevista à Bloomberg em 14 de novembro de 2023, criticou: “Protecionalismo é um imposto disfarçado sobre os pobres – o comércio global nos deu prosperidade.” Elon Musk, apoiador de Trump, rebateu em tuíte de 15 de novembro de 2024: “Tarifas protegem empregos – a China joga sujo há décadas.” O Le Monde analisou em 25 de janeiro de 2025 que a Alemanha, com 8% de seu PIB (US$ 350 bilhões) vindo de exportações aos EUA, pode entrar em recessão se Trump agir. O Brasil, com exportações de US$ 280 bilhões (2024), já perdeu 10% em vendas de soja para a China desde 2018 (Ministério da Economia, 2023).
OTAN e Europa: Uma Aliança sob Pressão
Trump, desde 2016, critica a OTAN, chamando-a de “obsoleta” em entrevista à Times of London (15 de janeiro de 2017). Em 2024, ele ameaçou sair da aliança se os 31 membros não elevassem gastos militares a 2% do PIB. Em 2024, apenas 11 países atingiram essa meta (NATO, 2024), com gastos totais de US$ 1,2 trilhão – 67% (US$ 804 bilhões) dos EUA (SIPRI, 2024). O Der Spiegel relatou em 22 de janeiro de 2025 que a Europa precisaria de US$ 300 bilhões extras para substituir os EUA, algo inviável com crescimento de 1,5% (Eurostat, 2024). Olaf Scholz, em discurso em 2022, disse: “A OTAN é nossa âncora – perdê-la é um desastre.” Bernie Sanders, em comício em Vermont em 15 de setembro de 2023, alertou: “Trump quer destruir a OTAN, entregando a Europa a Putin.”
A Rússia, com orçamento militar de US$ 86 bilhões (SIPRI, 2024), pressiona a Ucrânia, enquanto a China, com US$ 230 bilhões, expande sua presença no Indo-Pacífico. O Financial Times estimou em 10 de fevereiro de 2025 que um enfraquecimento da OTAN pode custar à UE 2% de seu PIB (US$ 360 bilhões) em segurança e comércio.
Ucrânia e Rússia: Um Frágil Equilíbrio
A invasão russa da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, matou mais de 40.000 civis (ONU, 2024) e deslocou 14 milhões (UNHCR, 2024). Os EUA forneceram US$ 175 bilhões em ajuda desde então (Departamento de Defesa, 2024), mas Trump, em 2024, disse em comício em Iowa: “Posso acabar essa guerra em 24 horas.” O The Atlantic sugeriu em 5 de fevereiro de 2025 que ele pode pressionar Kiev a ceder territórios ocupados (18% da Ucrânia, segundo o Instituto de Estudos de Guerra, 2024). J.D. Vance, vice-presidente eleito, declarou em entrevista à Fox News em 10 de outubro de 2024: “A Ucrânia não vale nosso dinheiro – temos problemas em casa.” Yuval Noah Harari, em 21 Lessons for the 21st Century (2018), escreveu: “Conflitos como esse expõem a impotência da ordem global.”
Imigração: Economia em Risco, Medo nas Ruas
Trump prometeu em 2024 “a maior deportação da história”, mirando 11 milhões de indocumentados (Pew Research, 2023). O Time estimou em 2023 que imigrantes contribuem com US$ 1,6 trilhão ao PIB anual dos EUA, incluindo 60% da força agrícola (USDA, 2024). Um estudo da American Immigration Council (2022) mostrou que deportações em massa poderiam custar US$ 1 trilhão em dez anos. Justin Trudeau, em discurso de 2021, disse: “Imigrantes são o coração de nossas economias.” Bernie Sanders, em 2020, afirmou em entrevista à NPR: “Deportar milhões é cruel e vai quebrar nossa economia.” Noam Chomsky, em Who Rules the World? (2016), escreveu: “A xenofobia de Trump é uma arma contra os mais vulneráveis e contra nós mesmos.”
Big Tech e Imprensa: Poder e Polarização
Elon Musk doou US$ 50 milhões a um PAC pró-Trump em 2024 (The Guardian, 15 de outubro), enquanto Jeff Bezos, dono do Washington Post, disse em 2016: “Trump é uma ameaça à liberdade de imprensa” (CNN, 2016). O The Atlantic alertou em 10 de janeiro de 2025 que a Fox News, com 50 milhões de espectadores semanais (Nielsen, 2024), amplifica a agenda de Trump. Musk tuitou em 2023: “A mídia tradicional morreu – a verdade está nas redes.” J.D. Vance, em 2024, disse à Newsmax: “Big Tech e Trump são aliados naturais contra o establishment.”
Análise das Implicações da Cena Mundial
China: A nova hegemonia
A China, com exportações de US$ 3,2 trilhões e reservas de US$ 3,3 trilhões (Banco Mundial, 2024), supera os EUA (exportações de US$ 1,6 trilhão). O Financial Times prevê em 2025 que ela dominará manufatura até 2030, com 40% da produção global (UNCTAD, 2024). Musk, em 2023, tuitou: “A China está anos à frente – acordem.”
Ordem Mundial: Um Sistema em Ruínas
A ONU, com orçamento de US$ 3,4 bilhões, perdeu 15% de fundos dos EUA desde 2017 (ONU, 2024). Harari, em palestra de 2023, disse: “Sem cooperação, enfrentaremos colapso climático e guerras.” O The Guardian relatou em 2024 que a extrema direita ganhou 20% mais votos na Europa desde 2019, com partidos como o AfD (Alemanha) e RN (França) crescendo.
Direitos Humanos: Um Luxo em Extinção
A Human Rights Watch (2024) alertou que cortes em ajuda externa dos EUA (US$ 40 bilhões em 2020) enfraquecem direitos globais. Bezos, em 2022, disse à Bloomberg: “O populismo sufoca a empatia.”
Os ecos de “A Era da Insensatez” ressoam nas páginas de Galbraith e Hobsbawm, mestres em capturar tempos de ruptura. Em “A Era da Incerteza”, Galbraith destruiu a instabilidade do século XX, como a Grande Depressão, que derrubou o PIB dos EUA em 25% (Bureau of Economic Analysis), um mundo em crise refletido hoje no isolacionismo de Trump em 2025. Hobsbawm, em “A Era dos Extremos”, narra os 60 milhões de mortos nas guerras mundiais (ONU, 2020), enquanto “A Era do Capital” e “A Era das Revoluções” mostra revoluções que abalaram monarquias e ergueram o capitalismo. O retorno de Trump, com a China crescendo 4,8% ao ano (FMI, 2024), sinalizando uma nova tormenta global.
A queda de velhos sistemas conecta histórias ao caos de hoje. Hobsbawm viu o fim do comunismo em 1991 e das monarquias em 1848, com o imperialismo como força caótica. Galbraith, na incerteza do capitalismo, notou a desigualdade americana saltando de 0,35 para 0,41 no índice Gini (Census Bureau, 1970-1977). Hoje, a ordem multilateral pós-1945 rui: a ONU perdeu 15% dos fundos dos EUA desde 2017 (ONU, 2024), e a extrema direita na Europa ganhou 20% mais votos desde 2019 ( The Guardian). Trump, cortando US$ 893 milhões da OMS em 2020, acelera esse desequilíbrio.
A insensatez humana é o fio condutor. Galbraith critica a fé cega no mercado; Hobsbawm, uma ganância que deslocou 50 milhões em 1848-1875. Trump repete o padrão: tarifas de 2018 custaram US$ 11 bilhões (USDA), e sua xenofobia ameaça 11 milhões de imigrantes (Pew, 2023). É um eco das escolhas que Hobsbawm ligaria às guerras mundiais.
Por fim, todos veem o poder global em xeque. Hobsbawm traçou a industrialização e o colapso soviético; Galbraith, a economia em mutação. “A Era da Insensatez” mostra a China, com US$ 3,2 trilhões em exportações (Banco Mundial, 2024), desafiando um EUA que recua – um prenúncio de viradas históricas.
Desde 20 de janeiro de 2025, Trump acendeu o pavio de um mundo em frangalhos. Seus 68 dias iniciais não são apenas ecos de promessas e histórico, mas sirenes de rupturas que nos encaram. Esta era da insensatez, um quebra-cabeça de escolhas tresloucadas, só ganhará contornos claros quando os historiadores, com o luxo do tempo, decifrarem suas cicatrizes. As declarações gritaram: a ordem mundial, essa colcha de retalhos defeituosa, desmorona enquanto a ONU se esvaziava, a extrema direita floresce em França e no Brasil, e os direitos humanos viram relíquia empoeirada. Tudo o que fere a parte, sangra o todo.
Mas não nos enganemos: o preço dessa temeridade não será uma mera ressaca histórica. Estamos flertando com uma nova idade das trevas – não de castelos e pestes, mas de drones assassinos, cadeias econômicas em colapso e um planeta sufocado por suas próprias febres.
A questão não é se a conta virá, mas até onde deixaremos o saldo escalar. A ordem vigente, cambaleante em convulsões, é um castelo de cartas à beira do vento. Como já se profetizou em meados do século XIX, “quando uma estrutura falha, ela é descartada, e uma nova tomará seu lugar”. Resta saber: que mundo ousaremos construir das cinzas dessa insensatez?
https://www.brasil247.com/blog/se-a-incerteza-era-um-problema-a-insensatez-e-a-tragedia
24 de abril de 2025
Se a incerteza era um problema, a insensatez é a tragédia
A questão não é se a conta virá, mas até onde deixaremos o saldo escalar.


Quando Donald Trump tomou posse como 47º presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2025, após derrotar Kamala Harris nas eleições de 5 de novembro de 2024, o mundo sentiu o peso de um déjà-vu turbulento. Seu retorno ao Salão Oval, quase uma década após seu primeiro mandato (2017-2021), reacendeu temores de rupturas na ordem global. O The New York Times, em editorial de 21 de janeiro de 2025, chamou sua volta de “um teste existencial à democracia e à cooperação internacional”, enquanto o Le Monde alertou em 22 de janeiro: “O multilateralismo está sob ataque, e Trump é o aríete.” Até 28 de março de 2025, os primeiros 68 dias de seu governo mostram sinais claros de sua agenda – protecionismo econômico, nacionalismo exacerbado e desprezo por instituições globais –, mas ainda é cedo para eventos concretos além de discursos e nomeações. Este artigo mergulha nos fatos verificáveis até hoje, analisa as implicações geopolíticas com dados estatísticos robustos e traz vozes como Noam Chomsky e Elon Musk para iluminar um planeta à beira do caos.
O Retorno de Trump: Um Golpe no Multilateralismo
Trump venceu com 51% dos votos populares (CNN, 6 de novembro de 2024), prometendo “colocar a América em primeiro lugar” e revisar acordos internacionais. Em seu primeiro mandato, ele retirou os EUA do Acordo de Paris (2017) e da OMS (2020), cortando US$ 893 milhões anuais em contribuições (OMS, 2020). Em 2024, ele chamou a ONU de “um clube de burocratas inúteis” durante um comício em Ohio, e seu discurso de posse em 20 de janeiro de 2025 reforçou: “Não vamos mais financiar organizações que nos sugam.” O Financial Times estimou em 15 de novembro de 2024 que os EUA, responsáveis por 22% do orçamento da ONU (US$ 3,4 bilhões em 2024), poderiam reduzir isso em 50%, esvaziando a organização.
A China, com PIB de US$ 18,5 trilhões em 2024 (FMI), cresce 4,8% ao ano, contra 2,2% dos EUA e 1,5% da UE (Banco Mundial). Ela já investiu US$ 1 trilhão na Iniciativa Cinturão e Rota desde 2013, conectando 140 países (Banco Mundial, 2023). Noam Chomsky, em entrevista à Truthout em 25 de outubro de 2023, alertou: “O isolacionismo de Trump é um presente à China, que está pronta para liderar onde os EUA recuam.” Yuval Noah Harari, em palestra na London School of Economics em 2023, complementou: “A ordem multilateral, já frágil, não sobreviverá a outra onda de unilateralismo americano.” O The Atlantic previu em 10 de fevereiro de 2025 que a saída de fundos americanos pode cortar 30% dos programas de paz da ONU, como os US$ 1,2 bilhão gastos em missões no Sudão do Sul (ONU, 2024).
Protecionismo Econômico: Tarifas e o Choque Global
Trump prometeu em 2024 tarifas de 20% sobre todas as importações e até 60% contra a China, revisitando sua guerra comercial de 2018-2020, quando impôs taxas de 25% sobre US$ 250 bilhões em bens chineses (USTR, 2020). O The Economist calculou em 12 de dezembro de 2024 que novas tarifas poderiam reduzir o PIB global em 0,8% (US$ 800 bilhões) em 2025, com os EUA perdendo US$ 200 bilhões devido a retaliações. A China, maior exportadora mundial com US$ 3,2 trilhões em 2024 (Banco Mundial), contra US$ 1,6 trilhão dos EUA, retaliou em 2018 com tarifas de 25% sobre soja americana, custando US$ 11 bilhões aos agricultores (USDA, 2019).
A UE, com exportações de US$ 2,3 trilhões, teme um impacto de US$ 50 bilhões, segundo o Financial Times (20 de janeiro de 2025). Jeff Bezos, em entrevista à Bloomberg em 14 de novembro de 2023, criticou: “Protecionalismo é um imposto disfarçado sobre os pobres – o comércio global nos deu prosperidade.” Elon Musk, apoiador de Trump, rebateu em tuíte de 15 de novembro de 2024: “Tarifas protegem empregos – a China joga sujo há décadas.” O Le Monde analisou em 25 de janeiro de 2025 que a Alemanha, com 8% de seu PIB (US$ 350 bilhões) vindo de exportações aos EUA, pode entrar em recessão se Trump agir. O Brasil, com exportações de US$ 280 bilhões (2024), já perdeu 10% em vendas de soja para a China desde 2018 (Ministério da Economia, 2023).
OTAN e Europa: Uma Aliança sob Pressão
Trump, desde 2016, critica a OTAN, chamando-a de “obsoleta” em entrevista à Times of London (15 de janeiro de 2017). Em 2024, ele ameaçou sair da aliança se os 31 membros não elevassem gastos militares a 2% do PIB. Em 2024, apenas 11 países atingiram essa meta (NATO, 2024), com gastos totais de US$ 1,2 trilhão – 67% (US$ 804 bilhões) dos EUA (SIPRI, 2024). O Der Spiegel relatou em 22 de janeiro de 2025 que a Europa precisaria de US$ 300 bilhões extras para substituir os EUA, algo inviável com crescimento de 1,5% (Eurostat, 2024). Olaf Scholz, em discurso em 2022, disse: “A OTAN é nossa âncora – perdê-la é um desastre.” Bernie Sanders, em comício em Vermont em 15 de setembro de 2023, alertou: “Trump quer destruir a OTAN, entregando a Europa a Putin.”
A Rússia, com orçamento militar de US$ 86 bilhões (SIPRI, 2024), pressiona a Ucrânia, enquanto a China, com US$ 230 bilhões, expande sua presença no Indo-Pacífico. O Financial Times estimou em 10 de fevereiro de 2025 que um enfraquecimento da OTAN pode custar à UE 2% de seu PIB (US$ 360 bilhões) em segurança e comércio.
Ucrânia e Rússia: Um Frágil Equilíbrio
A invasão russa da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, matou mais de 40.000 civis (ONU, 2024) e deslocou 14 milhões (UNHCR, 2024). Os EUA forneceram US$ 175 bilhões em ajuda desde então (Departamento de Defesa, 2024), mas Trump, em 2024, disse em comício em Iowa: “Posso acabar essa guerra em 24 horas.” O The Atlantic sugeriu em 5 de fevereiro de 2025 que ele pode pressionar Kiev a ceder territórios ocupados (18% da Ucrânia, segundo o Instituto de Estudos de Guerra, 2024). J.D. Vance, vice-presidente eleito, declarou em entrevista à Fox News em 10 de outubro de 2024: “A Ucrânia não vale nosso dinheiro – temos problemas em casa.” Yuval Noah Harari, em 21 Lessons for the 21st Century (2018), escreveu: “Conflitos como esse expõem a impotência da ordem global.”
Imigração: Economia em Risco, Medo nas Ruas
Trump prometeu em 2024 “a maior deportação da história”, mirando 11 milhões de indocumentados (Pew Research, 2023). O Time estimou em 2023 que imigrantes contribuem com US$ 1,6 trilhão ao PIB anual dos EUA, incluindo 60% da força agrícola (USDA, 2024). Um estudo da American Immigration Council (2022) mostrou que deportações em massa poderiam custar US$ 1 trilhão em dez anos. Justin Trudeau, em discurso de 2021, disse: “Imigrantes são o coração de nossas economias.” Bernie Sanders, em 2020, afirmou em entrevista à NPR: “Deportar milhões é cruel e vai quebrar nossa economia.” Noam Chomsky, em Who Rules the World? (2016), escreveu: “A xenofobia de Trump é uma arma contra os mais vulneráveis e contra nós mesmos.”
Big Tech e Imprensa: Poder e Polarização
Elon Musk doou US$ 50 milhões a um PAC pró-Trump em 2024 (The Guardian, 15 de outubro), enquanto Jeff Bezos, dono do Washington Post, disse em 2016: “Trump é uma ameaça à liberdade de imprensa” (CNN, 2016). O The Atlantic alertou em 10 de janeiro de 2025 que a Fox News, com 50 milhões de espectadores semanais (Nielsen, 2024), amplifica a agenda de Trump. Musk tuitou em 2023: “A mídia tradicional morreu – a verdade está nas redes.” J.D. Vance, em 2024, disse à Newsmax: “Big Tech e Trump são aliados naturais contra o establishment.”
Análise das Implicações da Cena Mundial
China: A nova hegemonia
A China, com exportações de US$ 3,2 trilhões e reservas de US$ 3,3 trilhões (Banco Mundial, 2024), supera os EUA (exportações de US$ 1,6 trilhão). O Financial Times prevê em 2025 que ela dominará manufatura até 2030, com 40% da produção global (UNCTAD, 2024). Musk, em 2023, tuitou: “A China está anos à frente – acordem.”
Ordem Mundial: Um Sistema em Ruínas
A ONU, com orçamento de US$ 3,4 bilhões, perdeu 15% de fundos dos EUA desde 2017 (ONU, 2024). Harari, em palestra de 2023, disse: “Sem cooperação, enfrentaremos colapso climático e guerras.” O The Guardian relatou em 2024 que a extrema direita ganhou 20% mais votos na Europa desde 2019, com partidos como o AfD (Alemanha) e RN (França) crescendo.
Direitos Humanos: Um Luxo em Extinção
A Human Rights Watch (2024) alertou que cortes em ajuda externa dos EUA (US$ 40 bilhões em 2020) enfraquecem direitos globais. Bezos, em 2022, disse à Bloomberg: “O populismo sufoca a empatia.”
Os ecos de “A Era da Insensatez” ressoam nas páginas de Galbraith e Hobsbawm, mestres em capturar tempos de ruptura. Em “A Era da Incerteza”, Galbraith destruiu a instabilidade do século XX, como a Grande Depressão, que derrubou o PIB dos EUA em 25% (Bureau of Economic Analysis), um mundo em crise refletido hoje no isolacionismo de Trump em 2025. Hobsbawm, em “A Era dos Extremos”, narra os 60 milhões de mortos nas guerras mundiais (ONU, 2020), enquanto “A Era do Capital” e “A Era das Revoluções” mostra revoluções que abalaram monarquias e ergueram o capitalismo. O retorno de Trump, com a China crescendo 4,8% ao ano (FMI, 2024), sinalizando uma nova tormenta global.
A queda de velhos sistemas conecta histórias ao caos de hoje. Hobsbawm viu o fim do comunismo em 1991 e das monarquias em 1848, com o imperialismo como força caótica. Galbraith, na incerteza do capitalismo, notou a desigualdade americana saltando de 0,35 para 0,41 no índice Gini (Census Bureau, 1970-1977). Hoje, a ordem multilateral pós-1945 rui: a ONU perdeu 15% dos fundos dos EUA desde 2017 (ONU, 2024), e a extrema direita na Europa ganhou 20% mais votos desde 2019 ( The Guardian). Trump, cortando US$ 893 milhões da OMS em 2020, acelera esse desequilíbrio.
A insensatez humana é o fio condutor. Galbraith critica a fé cega no mercado; Hobsbawm, uma ganância que deslocou 50 milhões em 1848-1875. Trump repete o padrão: tarifas de 2018 custaram US$ 11 bilhões (USDA), e sua xenofobia ameaça 11 milhões de imigrantes (Pew, 2023). É um eco das escolhas que Hobsbawm ligaria às guerras mundiais.
Por fim, todos veem o poder global em xeque. Hobsbawm traçou a industrialização e o colapso soviético; Galbraith, a economia em mutação. “A Era da Insensatez” mostra a China, com US$ 3,2 trilhões em exportações (Banco Mundial, 2024), desafiando um EUA que recua – um prenúncio de viradas históricas.
Desde 20 de janeiro de 2025, Trump acendeu o pavio de um mundo em frangalhos. Seus 68 dias iniciais não são apenas ecos de promessas e histórico, mas sirenes de rupturas que nos encaram. Esta era da insensatez, um quebra-cabeça de escolhas tresloucadas, só ganhará contornos claros quando os historiadores, com o luxo do tempo, decifrarem suas cicatrizes. As declarações gritaram: a ordem mundial, essa colcha de retalhos defeituosa, desmorona enquanto a ONU se esvaziava, a extrema direita floresce em França e no Brasil, e os direitos humanos viram relíquia empoeirada. Tudo o que fere a parte, sangra o todo.
Mas não nos enganemos: o preço dessa temeridade não será uma mera ressaca histórica. Estamos flertando com uma nova idade das trevas – não de castelos e pestes, mas de drones assassinos, cadeias econômicas em colapso e um planeta sufocado por suas próprias febres.
A questão não é se a conta virá, mas até onde deixaremos o saldo escalar. A ordem vigente, cambaleante em convulsões, é um castelo de cartas à beira do vento. Como já se profetizou em meados do século XIX, “quando uma estrutura falha, ela é descartada, e uma nova tomará seu lugar”. Resta saber: que mundo ousaremos construir das cinzas dessa insensatez?
https://www.brasil247.com/blog/se-a-incerteza-era-um-problema-a-insensatez-e-a-tragedia
29 de março de 2025
Obsolescência programada: o segredo sujo das empresas
A obsolescência programada não apenas mudou a forma como os produtos são feitos, mas também como as pessoas consomem


A durabilidade dos produtos que utilizamos diariamente é uma questão de crescente preocupação, tanto para os consumidores quanto para o meio ambiente. Historicamente, práticas como a obsolescência programada têm sido adotadas por empresas para reduzir a vida útil dos produtos, incentivando o consumo contínuo. Essa estratégia, que começou como uma decisão empresarial no início do século XX, transformou-se em uma prática global com impactos profundos na economia, na sociedade e no meio ambiente.
A obsolescência programada não surgiu por acaso; foi uma decisão calculada por empresas que buscavam maximizar lucros em um mercado saturado. Um dos exemplos mais emblemáticos é o Cartel Phoebus, formado em 1924 por grandes fabricantes de lâmpadas, incluindo a General Electric, a Philips e a Osram. O cartel estabeleceu um acordo para limitar a vida útil das lâmpadas a 1.000 horas, reduzindo drasticamente a durabilidade de produtos que antes duravam 2.500 horas. O objetivo era claro: aumentar as vendas ao garantir que os consumidores precisassem substituir suas lâmpadas com mais frequência.
Essa prática não se limitou ao setor de iluminação. Na década de 1920, a General Motors introduziu a obsolescência de estilo, lançando novos modelos de carros a cada ano com pequenas alterações estéticas, mas sem melhorias significativas no desempenho. Alfred Sloan Jr., presidente da empresa na época, afirmou que a estratégia era "vender mais carros, não melhores carros". Essa abordagem foi rapidamente adotada por outras indústrias, consolidando a obsolescência programada como uma norma no sistema capitalista.
Hoje, a obsolescência programada está presente em praticamente todos os setores, desde eletrônicos até vestuário. Um dos exemplos mais recentes e controversos é o das atualizações de software que deliberadamente reduzem o desempenho de dispositivos eletrônicos. Em 2017, a Apple admitiu que desacelerava iPhones mais antigos para "preservar a vida útil da bateria". A empresa foi multada em €25 milhões na França por não informar os consumidores sobre essa prática.
Outro exemplo é o dos fones de ouvido sem fio, como os AirPods da Apple, que possuem baterias não substituíveis. Quando a bateria se esgota após 2 a 3 anos, o consumidor é forçado a comprar um novo par, gerando mais resíduos eletrônicos. Segundo a ONU, o mundo produz 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, e apenas 20% são reciclados.
A obsolescência programada não apenas mudou a forma como os produtos são feitos, mas também como as pessoas consomem. No passado, os produtos eram projetados para durar. Por exemplo:
- Lâmpadas: No início do século XX, as lâmpadas duravam até 2.500 horas. Após o Cartel Phoebus, essa duração foi reduzida para 1.000 horas.
- Automóveis: Nos anos 1950, um carro durava em média 20 anos. Hoje, a vida útil média de um veículo é de 8 a 12 anos, segundo a IHS Markit.
- Eletrodomésticos: Geladeiras e lavadoras modernas têm uma vida útil média de 7 a 10 anos, enquanto nos anos 1970 esses aparelhos duravam até 25 anos.
Essa redução na durabilidade não é coincidência; é o resultado de decisões empresariais que priorizam o lucro em detrimento da sustentabilidade.
Impactos da Obsolescência Programada
A obsolescência programada tem impactos significativos em várias áreas:
Ambiental: A produção e o descarte frequente de produtos geram resíduos e aumentam a pegada de carbono. Segundo a Ellen MacArthur Foundation, a indústria da moda é responsável por 10% das emissões globais de CO2, em grande parte devido à moda rápida (fast fashion), que produz roupas com tecidos de baixa qualidade que duram apenas 10 a 20 lavagens.
Econômico: Os consumidores gastam mais ao substituir produtos com frequência. Por exemplo, os americanos trocam de smartphone a cada 21,7 meses, segundo a Electronic Recyclers International.
Social: A obsolescência programada alimenta uma cultura de consumo insustentável, onde o valor de um produto está mais em sua novidade do que em sua utilidade. Uma pesquisa da Harris revelou que 74% dos estadunidenses estão constantemente em busca de novas oportunidades, refletindo uma sociedade insatisfeita e sempre em busca do próximo "grande lançamento".
Benefícios de Produtos Duráveis
A adoção de produtos mais duráveis oferece benefícios significativos:
1. Redução de Resíduos Eletrônicos:
Produtos com maior vida útil diminuem a quantidade de lixo eletrônico, que atualmente atinge 50 milhões de toneladas anuais.
2. Economia Financeira:
Consumidores economizam ao não precisar substituir produtos com frequência.
3. Preservação de Recursos Naturais:
Menos produção implica em menor extração de matérias-primas, preservando o meio ambiente.
4. Redução de Emissões de Carbono:
A fabricação e o transporte de novos produtos aumentam a pegada de carbono; produtos duráveis mitigam esse impacto.
5. Fortalecimento da Confiança do Consumidor:
Marcas que oferecem produtos duráveis conquistam maior lealdade dos clientes.
6. Valorização do Mercado de Reparos:
Produtos reparáveis fomentam a economia local e criam empregos no setor de manutenção.
7. Educação para o Consumo Consciente:
Incentiva-se uma cultura de valorização e cuidado com os bens adquiridos.
8. Inovação Sustentável:
Empresas são motivadas a desenvolver tecnologias que aumentem a durabilidade sem comprometer a eficiência.
9. Competitividade no Mercado:
Marcas que priorizam a durabilidade destacam-se positivamente perante consumidores conscientes.
10. Contribuição para a Economia Circular:
Produtos duráveis e reparáveis facilitam a reutilização e reciclagem, promovendo um ciclo de vida mais sustentável.
Felizmente, algumas empresas estão desafiando a obsolescência programada e promovendo a sustentabilidade, mostrando que é possível compensar o ciclo de vida dos produtos sem sacrificar a qualidade ou o lucro. A Patagônia, por exemplo, é uma marca de roupas outdoor que se destaca por sua iniciativa “Worn Wear”, que incentiva os consumidores a reparar, reutilizar e reciclar suas peças, prolongando a vida útil das roupas e reduzindo o impacto ambiental da indústria da moda, responsável por 10% das emissões globais de CO2, segundo a Ellen MacArthur Foundation.
Outro exemplo é a Fairphone, que produz smartphones modulares e reparáveis, com baterias substituíveis e materiais éticos, permitindo que os usuários atualizem ou consertem seus dispositivos facilmente, o que reduz a geração de lixo eletrônico — um problema que atinge 50 milhões de toneladas anuais, conforme dados da ONU. Além disso, a Epson, conhecida por seus equipamentos de impressão, é dinâmica a linha EcoTank, com tanques de tinta recarregáveis que diminuem o desperdício de cartuchos e os custos a longo prazo, proporcionando uma alternativa mais durável e econômica para os consumidores. Esses exemplos demonstram que é possível aliar lucratividade à responsabilidade ambiental, oferecendo aos consumidores produtos de qualidade que não apenas atendem às suas necessidades, mas também reduzidos para a preservação do planeta e para a construção de uma economia mais circular.
A obsolescência programada é um fenômeno complexo que reflete as dinâmicas do capitalismo moderno, onde a busca incessante por transformação de produtos em especial, enquanto os consumidores e o meio ambiente arcam com as consequências. As empresas lucraram bilhões ao reduzir especificamente a vida útil de bens, como lâmpadas que duram menos ou smartphones que se tornam obsoletos em poucos anos, alimentando uma cultura de consumo insustentável que gera 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico anualmente, segundo a ONU. No entanto, com consciência e mudanças de comportamento, é possível desafiar essa lógica e promover um modelo de consumo mais sustentável e ético, começando pelo reconhecimento do problema e pela ação responsável dos consumidores e cidadãos.
Esse estado de coisas é ainda mais aterrador porque a cultura do controle transcendeu os bens materiais e se infiltrou nas relações humanas. Nas últimas três décadas, não apenas produtos foram projetados para serem aplicados por decisões empresariais pautadas na gestão e na sede de consumo, mas também os vínculos interpessoais passaram a ser tratados com a mesma lógica de efemeridade. Casou? Sim. Está dando certo? Não muito. Qual a próxima fase? Me separar e partir para outro. Esse tipo de diálogo, que pode parecer familiar a muitos, reflete como a mentalidade do "usar e descartar" se estende às relações, refletindo a mesma falta de valorização e durabilidade que vemos em bens de consumo.
Assim como uma geladeira dos anos 1970 durou 25 anos e hoje mal chega aos 10, os relacionamentos humanos também parecem ter perdido a ênfase na construção e na manutenção, sendo frequentemente substituídos em busca de algo novo, mais conveniente ou menos desafiador, o que levanta uma questão preocupante: até que ponto a lógica do equilíbrio moldará o futuro das nossas conexões humanas?
https://www.brasil247.com/blog/obsolescencia-programada-o-segredo-sujo-das-empresas
27 de março de 2025
Que em 2016 seja realidade no Brasil o Imposto sobre Grandes Fortunas
Longe de ser "mais um" imposto, o IGF poderia estipular parâmetros visando excluir com robusta folga as classes média e média alta, como também um conjunto de famílias que podem ser consideradas ricas, mas não milionárias


A ordem do dia é ouvir o clamor das ruas. A presidenta Dilma Rousseff diz que ouviu e vem pontuando gestos, atitudes e ações em consonância com o que se escuta do meio-fio.
Por enquanto, dois gritos ainda não tomaram forma de gritos unânimes por mudanças: a regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) e a regulamentação que trata da democratização dos meios de comunicação.
Longe de ser "mais um" imposto, o IGF poderia estipular parâmetros visando excluir com robusta folga as classes média e média alta, como também um conjunto de famílias que podem ser consideradas ricas, mas não milionárias. A regulamentação do IGF pode definir com clareza cristalina que sua incidência atinja tão somente aqueles que apresentam grandes fortunas, estimados em cerca de 10 mil famílias e, principalmente, dentro desse universo de contribuintes, as cinco mil famílias que teriam um patrimônio equivalente a 40% do PIB.
A colocação da tributação da riqueza novamente na agenda política nacional reflete a tomada de consciência gradativa de que as iniqüidades geradas pela adoção de políticas que glorificam o Deus-Mercado, acentuadamente de extrações neoliberais, nas últimas décadas, agora se defrontam com o clamor crescente das ruas.
A cobrança de imposto sobre grandes fortunas, prevista no artigo 153 da Constituição de 1988 e nunca regulamentada, voltou ao debate nacional após as manifestações de rua exigindo melhorias na qualidade de vida da população.
É uma demanda antiga. E nunca conseguiu eficácia por sempre esbarrar nos velhos corporativismos:
- A classe política não tem interesse em regulamentar porque, quando não alcançaria boa parte da riqueza dos senhores parlamentares e chefes dos executivos estaduais e municipais, abocanharia parte dos rendimentos dos empresários que em grande medida financiam as campanhas políticas no país ao longo de sua história. Constatação: os titulares de grandes fortunas, se não estão investidos de poder, possuem inegável influência sobre os que exercem.
- Os meios de comunicação, dentre estes, aqueles com maior audiência televisiva e maior número de tiragem impressa – revistas e jornais – nunca demonstraram permeabilidade ao reclame da sociedade por uma singela motivação – qual seja, dado o grau de extrema concentração da propriedade dos veículos de comunicação (canais de tevê, canais de tevê a cabo, revistas semanais, jornais diários, emissoras de rádio, e portais na Internet), eles próprios integrariam um público-alvo de 907 indivíduos e empresas que detêm patrimônio igual ou superior a R$ 150.000.000,00 e, além de levar a própria carne ao corte, iria contrariar frontalmente interesses de suas principais fontes de receita publicitária, o cobiçado mercado publicitário, que inclui conglomerados financeiros, grupos econômicos transnacionais diversos. indústria da construção civil, agronegócio, segmento automotivo;
- Os principais nós a serem desatados tem a ver com a definição para "grande fortuna", a base de cálculo e a alíquota por faixa de riqueza patrimonial.
É fato que se trata de um imposto de grande impacto para a realização de justiça social no Brasil, pois sua existência e regulação possibilita a redistribuição de renda em favor dos segmentos da população mais vulneráveis social e economicamente.
A própria inclusão deste artigo em nossa Constituição Cidadã de 1988 está colocada de forma cristalina e assertiva nos Atos e Disposições Constitucionais Transitórias que, em seu art. 80, inciso III, estipula:
"Art. 80. Compõem o Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza:
[...] III – o produto da arrecadação do imposto de que trata o Art. 153, inciso VII, da Constituição".
A discussão e também a adoção do Imposto sobre Grandes Fortunas não é nossa primazia nem possui o ineditismo da nossa jabuticaba. Com o chamado Éden do capitalismo mundial em crise acentuada, o fato é que a tributação sobre grandes fortunas voltou à agenda de discussão dos povos de que nunca o adotaram, como os EUA, ou em países que o revogaram e agora discutem sua reintrodução, como a Alemanha.
Existe em alguns países, como os Estados Unidos e alguns países europeus. No exterior, tem sido comum que este IGF passa a ser exigido apenas sobre os ganhos auferidos no ano, enquanto que no Brasil todos os debates apontam para a necessidade de se regulamentar o IGF de forma a que este incidiria sobre a totalidade do patrimônio dos indivíduos.
A fragilidade argumentativa dos que se opõem ao IGF é gritante:
- a sonegação fiscal no Brasil seria incentivada, ao fazer com que contribuintes não declarassem seu patrimônio por receio do imposto;
- seria uma forma de o governo criar mais um imposto, diminuindo o patrimônio dos contribuintes, sem garantias que o dinheiro seria usado diretamente na saúde (como a CPMF também não era integralmente aplicada na saúde);
- seria injusto optar por incidir sobre a totalidade do patrimônio já acumulado, algo que atingiria indivíduos que já haviam pagado todos os impostos para sua acumulação.
A contraargumentação parece-nos sólida, robusta. E madura. Se não, vejamos:
- sonegadores contumazes existirão sempre, assim como existem os sonegadores habituais do Imposto de Renda, portanto, com a criação do IGF neste momento, a Receita Federal detêm todos os meios necessários para acessar dados e cifras do patrimônio real de cada brasileiro, de forma estabilizada, mas ainda assim, parece-nos óbvio que os donos de grandes fortunas a serem tributados - e que viessem a sonegar o pagamento do IGF - há muito vêm sonegando também o Imposto de Renda; portanto, a existência ou não do IGF teria impacto nulo no aspecto sonegação fiscal;
- inferir que a existência de um imposto – qualquer que seja - tenha relação direta com sua correta aplicação é não mais que diversionismo tosco e instrumentos de fiscalização precisam ser aprimorados - ou criados - para assegurar a aplicação dos recursos de acordo com o que prevê o texto constitucional; no caso do IGF seriam aplicados para fortalecer políticas públicas de erradicação da pobreza.
- não seria injusto, sob quaisquer aspectos, que o IGF incida sobre o patrimônio acumulado do indivíduo e não sobre os ganhos anuais destes, porque é até do conhecimento vegetal a falta de lisura, a corrupção e o mau uso do próprio poder econômico visando auferir e acumular ao longo do tempo tanto ganhos de capital quanto ganhos patrimoniais.
Economistas e tributaristas informam que caso seja criado esse imposto o país terá aporte adicional de, pelo menos, R$ 14 bilhões, dinheirama que poderia ser facilmente direcionado para a saúde. E recursos que viriam, em grande parte, de apenas 907 contribuintes com patrimônio superior a R$150 milhões.
Resta saber se a imprensa que tanto se diz alinhada na missão de amplificar o grito das ruas, estádios, avenidas, praças e também das redes sociais, estaria disposta a encampar em sua seletiva agenda noticiosa a criação do IGF, assim como fez com a demanda por uma reforma política e o arquivamento da PEC 37/2013.
Caso nossos principais defensores da liberdade de expressão, guardiães autonomeados da liberdade de imprensa, optem por uma sintonia realmente fina com os anseios populares, logo nos habituaremos a ver a regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas nas capas da revista Veja, carro-chefe do conservadorismo; matérias alentadas na revista Época; editoriais inflamados nos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e o Estado de São Paulo. E também, não ficaremos surpresos se ao mudarmos de canal de tevê em uma tarde de domingo qualquer nos depararmos com a voz rouqenha e os olhos esbugalhados do global Faustão clamando pela imediata existência do Imposto Robin Hood. E daí será um passo para ouvirmos os sermões em forma de vitupérios e sandices do Arnaldo Jabor, além das habituais previsões apocalípticas - e sempre furadas - de Merval Pereira.
https://www.brasil247.com/blog/que-em-2016-seja-realidade-no-brasil-o-imposto-sobre-grandes-fortunas
01 de janeiro de 2016
