Economia
Oitocentos milhões depois, a experiência chinesa ainda exige estudo sério
Banco Mundial, ONU, economistas e jornais ocidentais convergem num ponto: a redução chinesa da pobreza alterou profundamente a própria medida do progresso social nas últimas décadas.


Em 23 de julho de 2026, o Conselho de Diretores do Banco Mundial discutiu em Washington sua nova estratégia de parceria com a China para o período 2026–2031. O documento poderia ter aberto o diagnóstico pelo avanço tecnológico, pelos carros elétricos, pelos painéis solares, pelo comércio exterior ou pela condição chinesa de segunda maior economia do planeta. Preferiu registrar logo no início uma transformação construída durante quatro décadas: mais de 800 milhões de pessoas deixaram a extrema pobreza. Em agosto de 2026, considero esse número uma das informações econômicas e humanas mais impressionantes do nosso tempo. Sua força aumenta porque continua sendo citado pelas instituições que medem a pobreza mundial muito depois de encerradas as campanhas que o produziram.
O presente torna essa história ainda mais relevante. Em fevereiro, o FMI confirmou que a economia chinesa crescera 5% em 2025 e projetou expansão de 4,5% para este ano. Kristalina Georgieva, diretora-gerente da instituição, estimou que a China responde atualmente por cerca de 30% do crescimento econômico mundial. O país atravessa dificuldades conhecidas — demanda doméstica fraca, crise imobiliária prolongada, envelhecimento populacional —, mas continua ocupando posição decisiva na economia internacional. A pobreza extrema caiu durante o mesmo ciclo histórico em que a China passou de país pobre e predominantemente rural a potência industrial capaz de influenciar preços, cadeias produtivas, comércio e tecnologia em praticamente todos os continentes.
É desse presente que olho para trás. Meu interesse está numa questão que ultrapassa a China: como um país consegue fazer o crescimento atravessar a distância entre a conta nacional e a mesa de uma família pobre?
O número que mudou o mundo
Em 1º de abril de 2022, o Banco Mundial publicou, em parceria com o Ministério das Finanças chinês e o Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento do Conselho de Estado, o relatório Four Decades of Poverty Reduction in China. Li suas conclusões procurando os mecanismos que sustentaram tamanho deslocamento social. O estudo resulta de dois anos de pesquisas, trabalhos de campo em Ningxia e Zhejiang, análise de dados e debates com especialistas chineses e estrangeiros. Sua conclusão central permanece formidável: quase 800 milhões de chineses ultrapassaram a linha internacional de extrema pobreza, respondendo por mais de 75% de toda a redução mundial observada naquele período.
Parei algumas vezes nesse percentual porque ele contém uma informação maior do que aparenta. De cada quatro pessoas que deixaram a extrema pobreza no mundo durante aquelas décadas, aproximadamente três viviam na China. Sem o componente chinês, a dimensão do progresso global cairia drasticamente. Isso ajuda a entender a frase pronunciada em 2016 por Jim Yong Kim, então presidente do Banco Mundial: “sem a China, não teríamos sequer condições de pensar” em acabar com a extrema pobreza. Ele falava durante as reuniões anuais do Banco Mundial e do FMI, em Washington, diante da meta internacional de erradicá-la até 2030.
A metodologia mudou desde então, como deve ocorrer numa ciência que procura medir realidades em transformação. Em junho de 2025, o Banco Mundial elevou sua linha internacional de extrema pobreza para US$ 3 por pessoa ao dia, calculados segundo as paridades de poder de compra de 2021, e refez a série histórica. A atualização alterou números, mas reforçou um aspecto essencial: o progresso mundial desde 1990 foi impulsionado principalmente pelo Leste Asiático e, de maneira destacada, pela China. Na nova série, 83,1% dos chineses estavam abaixo dessa linha em 1990; em 2021, a proporção registrada era zero.
Um país mudou de tamanho
A mudança econômica caminhou ao lado da social. As reformas iniciadas em 1978 elevaram a produtividade agrícola e a renda rural. A industrialização absorveu trabalhadores em escala gigantesca; cidades cresceram; zonas econômicas especiais aproximaram produção e mercados estrangeiros; estradas, portos, energia e ferrovias modificaram a geografia econômica. Quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio, em dezembro de 2001, seu PIB girava em torno de US$ 1,3 trilhão. Duas décadas depois, ultrapassava US$ 17 trilhões.
Esse percurso possui uma dimensão que as taxas anuais escondem. Crescer 8%, 9% ou 10% durante alguns anos impressiona economistas. Fazer isso durante décadas altera biografias. A criança que nasceu numa aldeia chinesa em 1978 está hoje perto dos 50 anos e atravessou uma transformação econômica que seus pais dificilmente poderiam imaginar. Viu a renda aumentar, estradas chegarem, cidades se aproximarem, universidades se multiplicarem e novas ocupações surgirem. O país ao redor dela mudou enquanto sua própria vida avançava.
O Le Monde captou essa distância histórica em novembro de 2019. Ao analisar as quatro décadas anteriores, o jornal francês destacou o ritmo de crescimento sem precedentes e lembrou uma comparação particularmente reveladora: em 1978, o chinês médio era mais pobre que o indiano; quarenta anos depois, sua renda era cerca de quatro vezes maior. A estatística interessa porque mostra o tamanho do deslocamento realizado dentro da duração de uma vida adulta.
Tenho usado uma imagem para compreender esse processo. A China construiu uma escadaria enquanto centenas de milhões de pessoas já a subiam. Primeiro surgiram alguns degraus — agricultura mais produtiva, emprego industrial, comércio. Depois vieram outros — energia, estradas, portos, crédito, escolas, hospitais, telecomunicações. Vários precisaram ser corrigidos durante a subida. O que me chama atenção é a persistência do movimento: durante quarenta anos, a escada continuou crescendo.
A pobreza ganhou nome
Nos anos 2000, políticas de proteção social ampliaram o alcance do crescimento. Sistemas de renda mínima, assistência médica rural, pensões, escolarização e programas dirigidos às regiões pobres ganharam cobertura. A partir de 2012, o combate à pobreza avançou para uma escala mais minuciosa. Famílias passaram a ser registradas individualmente; técnicos procuravam identificar as causas concretas que mantinham determinado domicílio em situação de pobreza e combinar instrumentos conforme cada dificuldade.
Uma família podia precisar de reforma habitacional. Outra enfrentava despesas médicas que consumiam sua renda. Uma aldeia permanecia isolada porque faltava estrada. Um agricultor produzia, mas perdia parte da colheita antes de conseguir vendê-la. Outras situações exigiam crédito, qualificação profissional, escola, transferência de renda ou acesso à água. Essa maneira de trabalhar me parece intelectualmente importante porque desloca a política pública da categoria abstrata “os pobres” para perguntas muito mais difíceis: quem está pobre, onde vive, o que produz, quais oportunidades possui e qual obstáculo continua fechando sua saída?
Uma história registrada pelo Banco Mundial em 2016 explica melhor essa diferença do que qualquer teoria. Xue Huating, então com 52 anos, cultivava maçãs em Kongya, aldeia da província de Shaanxi. Entre sua casa e o pomar havia um riacho que, depois de chuvas fortes, se transformava num curso de água impossível de atravessar. As enchentes podiam durar semanas. Xue via as maçãs amadurecerem do outro lado e, sem conseguir alcançá-las, encontrava muitas caídas e apodrecidas quando a água finalmente baixava.
Em 2013, moradores receberam a possibilidade de escolher como aplicar recursos de um projeto de redução da pobreza apoiado pelo Banco Mundial. Havia propostas para estrada, canal de água, iluminação e ponte. Xue votou na ponte. A maioria concordou. A obra foi construída.
Esse pequeno episódio contém uma síntese extraordinária. Para Xue, pobreza também era um riacho. Bastava água demais entre a agricultora e suas próprias maçãs para destruir renda que já estava produzida. Uma ponte de poucos metros podia valer mais para aquela família do que uma formulação nacional impecável. Política pública ganha eficácia quando consegue enxergar exatamente onde está a distância entre esforço e resultado.
Outras aldeias do projeto organizaram cooperativas financeiras. Em Zhuoli, pequenos agricultores que encontravam bancos distantes e burocracia excessiva passaram a obter empréstimos locais de valores modestos para comprar mudas e financiar a produção. Cerca de 700 aldeias em Henan, Shaanxi e Chongqing, reunindo mais de 500 mil agricultores, participaram de iniciativas semelhantes.
Foi nesse ponto que minha leitura dos 800 milhões mudou. O número gigantesco começa a ser compreendido quando o dividimos em milhões de obstáculos pequenos: a estrada ausente, a doença sem tratamento, a escola distante, o crédito que não chega, o produto que apodrece antes do mercado. O Estado pode anunciar a intenção de reduzir a pobreza a partir de Pequim. O resultado depende da capacidade de chegar a Kongya e descobrir que, para determinada agricultora, o problema tinha a largura de um riacho.
O mundo foi conferir
Jim Yong Kim percebeu cedo a relevância dessa capacidade. Médico e antropólogo, ex-presidente do Dartmouth College, especialista em saúde pública e presidente do Banco Mundial entre 2012 e 2019, chegou a Pequim poucos meses depois de assumir a instituição. Em novembro de 2012, participou da criação de um centro de conhecimento destinado a estudar e compartilhar com outros países experiências chinesas de desenvolvimento. Cerca de 600 milhões de chineses já haviam deixado a pobreza. Kim classificou aquela transformação como “sem paralelo na história da humanidade”.
Quatro anos mais tarde, em Washington, produziu a formulação que considero mais poderosa sobre o tema. Ao avaliar a possibilidade de o mundo acabar com a extrema pobreza até 2030, disse que sem o desempenho chinês essa meta sequer poderia ser concebida. A frase ganha densidade porque vinha do dirigente da instituição que acompanhava a evolução da pobreza em mais de uma centena de países. Kim estava reconhecendo que um processo doméstico havia alterado a estatística social do planeta.
O mundo percebeu a excepcionalidade dessa trajetória e foi vê-la de perto. Em 2008, o Banco Mundial levou 30 altos funcionários africanos à China para estudar experiências de desenvolvimento. Parte do grupo percorreu Guangxi e Guangdong, visitando fazendas, governos locais, empresas e zonas econômicas. Um dos participantes relatou que chegara cético e terminara a viagem dizendo que precisara “ver para acreditar”.
Em 2013, técnicos e gestores da China, Coreia do Sul, Singapura, Laos e Vietnã reuniram-se em Pequim para discutir aquilo que o Banco Mundial chamou de science of delivery, a ciência da implementação: como uma decisão administrativa atravessa ministérios, províncias e burocracias até produzir uma mudança verificável na vida cotidiana. Em 2018, uma delegação de alto nível, formada por representantes do Oriente Médio e do Norte da África, visitou Pequim, Hebei e Shandong para estudar agricultura, gestão da água, desenvolvimento rural e redução da pobreza.
Esse interesse continua em 2026. Em 27 de maio, o PNUD participou da criação da Global Partnership for Poverty Alleviation and Development, reunindo instituições dedicadas à cooperação nessa área. James George, representante interino do PNUD na China, lembrou na ocasião que 1,1 bilhão de pessoas continuam vivendo em pobreza multidimensional e que três quartos da extrema pobreza mundial permanecem concentrados em regiões rurais. A experiência chinesa passou, portanto, a integrar uma discussão internacional que está longe de terminar.
Quando a comparação aperta
A comparação com outras regiões ajuda a compreender por quê. O Banco Mundial calcula que, entre 1990 e 2024, mais de 800 milhões de pessoas deixaram a extrema pobreza na China. Na África Subsaariana ocorreu uma trajetória oposta em números absolutos: a população nessa condição passou de cerca de 282 milhões em 1990 para 464 milhões em 2024, apesar da redução proporcional alcançada em vários países. Crescimento demográfico, conflitos, fragilidade institucional e desenvolvimento econômico insuficiente pesaram nessa conta.
A Índia oferece outro ponto de comparação importante. Também registrou avanço expressivo. Segundo a metodologia atualizada pelo Banco Mundial, sua taxa de extrema pobreza estava em 5,3% em 2022. O progresso indiano das últimas décadas merece estudo próprio e demonstra que a redução da miséria asiática ultrapassa a experiência chinesa. Ainda assim, a escala acumulada pela China permanece singular pela combinação entre população gigantesca, velocidade e duração.
Essas diferenças me levam a uma conclusão que considero incômoda para muitos governos: pobreza também revela capacidade administrativa. Dinheiro importa. Crescimento importa. Recursos naturais, inserção internacional e circunstâncias históricas importam. Mas, diante de problemas que duram gerações, a qualidade do Estado para aprender, executar e persistir passa a ocupar lugar decisivo. Países podem conhecer perfeitamente suas carências e continuar convivendo com elas durante décadas.
O Estado aprende ou fracassa
Yuen Yuen Ang dedicou boa parte de sua pesquisa justamente a essa capacidade chinesa de adaptação. Professora de economia política na Johns Hopkins University e autora de How China Escaped the Poverty Trap, livro premiado nos Estados Unidos, entrevistou centenas de burocratas e empresários para compreender como instituições e mercados se transformaram simultaneamente. Sua interpretação chama atenção para experimentações locais, incentivos variados e processos de adaptação antes que experiências bem-sucedidas fossem ampliadas.
Essa leitura ajuda a retirar a experiência chinesa de explicações simplificadoras. Durante décadas, províncias e cidades testaram soluções diferentes, cometeram erros, aproveitaram oportunidades específicas e ajustaram políticas. A direção nacional encontrava formas diversas de implementação local. A continuidade do objetivo conviveu com mudanças nos instrumentos.
Outra voz chinesa acrescenta uma dimensão econômica relevante. Tao Wang, economista-chefe para a China do UBS em Hong Kong, ex-economista do FMI e autora de Making Sense of China’s Economy, estudou detalhadamente as reformas iniciadas no fim dos anos 1970. Ao conversar com a Brookings Institution sobre seu livro, destacou que a abertura econômica e a integração da China ao mundo foram “tremendamente benéficas” para o crescimento do país. Sua leitura atribui importância às reformas rurais, ao investimento estrangeiro, à urbanização e à progressiva utilização de mecanismos de mercado.
Gosto dessa diversidade de interpretações porque ela impede que 800 milhões sejam transformados em slogan. Há economistas que enfatizam mercado, pesquisadores que destacam instituições locais, especialistas do Banco Mundial que dão peso à infraestrutura e estudiosos da pobreza que lembram as condições sociais existentes antes das reformas. O fenômeno permanece grande o suficiente para comportar explicações complementares.
Martin Ravallion, um dos mais respeitados estudiosos da pobreza contemporânea, ex-diretor de pesquisa do Banco Mundial e autor de The Economics of Poverty, ressaltou um ponto particularmente importante: em 1980, a China era extremamente pobre em renda, mas possuía níveis de educação e saúde relativamente favoráveis em comparação com países de renda semelhante. A distribuição da terra era também mais igualitária e a poupança doméstica, elevada. Quando as oportunidades econômicas começaram a crescer, milhões de pessoas já possuíam condições mínimas para aproveitá-las.
Essa observação deveria estar afixada nas salas onde se discutem estratégias de desenvolvimento. Uma escola construída vinte anos antes pode aparecer silenciosamente na produtividade futura de uma fábrica. Uma criança bem alimentada e alfabetizada carrega consigo um ativo econômico que nenhuma planilha de curto prazo consegue registrar adequadamente. Saúde e educação pertencem à infraestrutura produtiva de um país tanto quanto portos e ferrovias.
Oitocentos milhões depois
A imprensa internacional reconheceu, em diferentes momentos, a dimensão do acontecimento. No Observer, então ligado ao Guardian, o ensaísta britânico Kenan Malik escreveu em outubro de 2018 que 800 milhões de chineses haviam saído da pobreza em quarenta anos. Classificou os números como “extraordinários e dignos de aplauso”. A origem da avaliação interessa: Malik escreve dentro de uma tradição jornalística crítica diante do sistema político chinês. O dado mostrou-se grande demais para ser submetido às preferências políticas do observador.
O Le Monde também registrou a profundidade da transformação e sua relação com o crescimento econômico. Em 2019, ao examinar quatro décadas de desenvolvimento, destacou que centenas de milhões de chineses haviam alcançado condições de vida superiores às existentes no início das reformas. A França observava uma China que já tinha percorrido uma distância econômica difícil de imaginar em 1978.
Em Nova York, a jornalista chinesa Li Yuan, colunista do New York Times, escreveu em junho de 2025 que mais de 800 milhões de chineses haviam deixado a pobreza desde os anos 1980 e que a classe média crescera de praticamente inexistente para cerca de 400 milhões de pessoas. Acrescentou duas imagens sociais poderosas: moradores de aldeias transferiram-se para cidades e dezenas de milhões tornaram-se os primeiros integrantes de suas famílias a chegar à universidade. Seu artigo se dedicava aos desafios recentes da mobilidade social chinesa, mas partia do reconhecimento explícito da extraordinária ascensão ocorrida nas décadas anteriores.
Esse detalhe me interessa porque devolve a transformação à escala familiar. Ser o primeiro universitário de uma família altera muito mais que um currículo. Muda referências, expectativas, vocabulário, relacionamentos, oportunidades profissionais e, frequentemente, o futuro educacional dos filhos. Quatrocentos milhões de pessoas numa classe média inexistente algumas décadas antes significam milhões de histórias privadas reescritas silenciosamente.
Em 2026, a China já entrou em outra etapa. O Banco Mundial descreveu, em julho, a necessidade de crescimento mais orientado pela produtividade, melhores empregos e proteção social adaptada ao envelhecimento populacional. O FMI projeta desaceleração e pede maior participação do consumo doméstico. A sociedade que conseguiu retirar centenas de milhões da extrema pobreza terá agora de lidar com expectativas muito superiores às do passado.
Isso também faz parte do desenvolvimento. A família que ontem procurava alimentação suficiente hoje procura boa escola. Depois reivindica universidade, emprego qualificado, moradia melhor, segurança para envelhecer. O progresso desloca a fronteira das necessidades e aumenta a cobrança sobre governos. Uma sociedade que sobe alguns degraus passa a enxergar outros.
O feito anterior permanece. Cerca de 800 milhões atravessaram a extrema pobreza enquanto a China caminhava da periferia da economia mundial para seu centro. A coincidência dessas duas curvas constitui, para mim, a questão fundamental. Crescimento adquiriu consequência histórica porque alcançou milhões de casas.
O que outros países podem aprender dessa experiência começa por uma palavra pouco sedutora: continuidade.
Governos trabalham sob calendários curtos. Pobreza trabalha com gerações. Uma estrada interrompida pode ficar quinze anos esperando; o agricultor perde quinze safras. Uma escola deficiente cobra seu preço durante toda a vida adulta de quem estudou nela. Um posto de saúde ausente transforma tempo burocrático em doença. Uma política que recomeça a cada administração obriga os pobres a recomeçar junto com ela.
Quarenta anos representam duas gerações políticas e quase uma geração humana inteira. Durante esse período, a China alterou reformas agrícolas, abriu mercados, ingressou na OMC, industrializou-se, urbanizou-se, construiu infraestrutura, ampliou serviços públicos e passou, na etapa final, a procurar famílias pobres quase casa por casa. Houve mudanças de método sem abandono da prioridade de elevar a renda e reduzir a privação material.
Volto então a Xue Huating e à sua plantação de maçãs em Shaanxi. Entre ela e sua renda havia um riacho que as chuvas tornavam intransponível. Durante anos, as frutas amadureciam do outro lado enquanto ela esperava a água baixar. Depois veio uma ponte.
O percurso de 800 milhões de pessoas pode ser imaginado assim: milhões de pontes diferentes construídas diante de obstáculos diferentes.
Algumas foram de concreto. Outras tiveram a forma de uma escola, de um emprego industrial, de um posto médico, de um pequeno empréstimo, de uma ferrovia, de uma universidade ou de uma estrada que finalmente chegou à aldeia.
Essa é a parte da experiência chinesa que mais me interessa. Países costumam discutir durante anos quanto custa construir essas pontes. Raramente calculam com a mesma precisão quanto custa deixar gerações inteiras esperando na outra margem.
https://revistaforum.com.br/opiniao/oitocentos-milhoes-depois-a-experiencia-chinesa-ainda-exige-estudo-serio/
29 de agosto de 2026
Canadá impõe pesadas tarifas sobre 700 produtos e desafia Trump
Ottawa responde a Washington com tarifas, apoio às empresas e novos mercados, enquanto consumidores mudam hábitos e a integração econômica começa a perder sua antiga previsibilidade.


O Canadá decidiu retaliar os Estados Unidos com tarifas de 15%, 25% e 50% sobre C$ 27,6 bilhões (cerca de US$ 20 bilhões) em importações americanas. Cerca de 700 produtos serão atingidos a partir de 8 de setembro, enquanto Ottawa mobilizará C$ 7,5 bilhões (aproximadamente US$ 5,4 bilhões) para empresas e trabalhadores afetados. A resposta acompanha, dólar por dólar, as novas barreiras impostas pelo governo Donald Trump.
A crise atinge uma relação que movimentou aproximadamente US$ 715,5 bilhões apenas em mercadorias em 2025 — quase US$ 2 bilhões por dia.
A dimensão dessa ruptura aparece também no mapa. Canadá e Estados Unidos compartilham 8.891 quilômetros de fronteira, a mais extensa entre dois países no planeta. Por ela passam petróleo, peças automotivas, alimentos, máquinas e outras mercadorias de cadeias produtivas profundamente integradas.
Agora, cada tarifa acrescenta custo e cada nova exigência política acrescenta incerteza. A linha no mapa permanece a mesma; a natureza da relação que a atravessa mudou.
O fracasso das negociações explica a contundência canadense. Washington e Ottawa chegaram a discutir a redução das tarifas americanas sobre veículos canadenses de 25% para 15% e sobre aço e alumínio de 50% para 25%. Nos últimos dias das conversas, porém, os Estados Unidos apresentaram novas condições. Mark Carney interrompeu as tratativas, mandou os negociadores de volta para Ottawa e resumiu o impasse: “Eles pediram demais e ofereceram de menos.”
As exigências americanas avançaram para áreas que o governo canadense considera parte de sua soberania interna. Washington pressionou por mudanças em regras destinadas a promover conteúdo nacional e francófono em serviços digitais e plataformas de streaming. Empresas americanas contestam obrigações de financiamento, visibilidade e promoção de produções canadenses, inclusive em francês, e a Casa Branca tentou levar esse tema para a mesa das negociações comerciais.
Carney fechou essa porta: “Não estávamos dispostos a fazer concessões sobre a proteção da língua francesa e de nossa cultura.” Não se discutia proibir o francês, reduzir seu estatuto oficial ou impedir empresas americanas de operar no Canadá.
Discutia-se se tarifas sobre aço, alumínio e automóveis poderiam ser usadas para induzir Ottawa a alterar políticas culturais e linguísticas internas. No Quebec, onde o francês ocupa lugar central na educação, na comunicação, na legislação e na identidade pública, aceitar essa pressão teria um significado político evidente.
A lista das contramedidas canadenses leva o confronto diretamente ao comércio cotidiano. Entre os cerca de 700 produtos alcançados estão aço, alumínio, móveis, vestuário, queijos e outros laticínios, eletrodomésticos, máquinas e equipamentos agrícolas, papel e celulose, eletrônicos, pescados e outros bens industriais. As alíquotas variam de 15% a 50%.
O Canadá afirma ter calibrado a resposta para atingir produtores americanos e, ao mesmo tempo, reduzir o dano aos próprios consumidores. E, a meu ver, teve êxito nisso.
A dependência corta nos dois sentidos
Trump possui a economia maior, mas tamanho não elimina vulnerabilidades. Em 2025, os Estados Unidos importaram do Canadá cerca de 3,9 milhões de barris de petróleo bruto por dia. O Canadá continuou sendo, com larga vantagem, a principal origem do petróleo estrangeiro consumido pelos americanos. A agricultura dos Estados Unidos depende igualmente da potassa canadense, fertilizante indispensável à produtividade de lavouras como milho, soja e trigo. Em levantamento recente do USGS, o Canadá respondeu por 79% das importações americanas de potassa.
Petróleo e potassa ajudam a compreender a natureza da disputa. Um abastece refinarias, transportes e indústrias; a outra sustenta o rendimento das lavouras. Trump resolveu pressionar comercialmente um país que participa tanto do tanque de combustível quanto da fertilidade dos campos americanos. Geografia e economia, ao contrário dos discursos, costumam cobrar a conta inteira.
A indústria automobilística amplia a exposição dos dois lados. Peças canadenses entram em veículos produzidos nos Estados Unidos e podem atravessar a fronteira repetidas vezes antes da montagem final. Trump já ameaçou elevar para 50%, a partir de janeiro de 2027, as tarifas sobre carros, caminhões e autopeças canadenses. Executivos do setor alertam que o efeito alcançaria também montadoras, fornecedores e consumidores americanos. O imposto lançado contra Ottawa pode terminar estacionado na garagem de Michigan ou Ohio.
É aqui que a política de pressão encontra seu próprio limite. A Casa Branca pretende demonstrar quanto o Canadá precisa dos Estados Unidos. Já o Canadá responde enumerando quanto os Estados Unidos também precisam do Canadá. Desde meados do século passado ficou bem estabelecido na história econômica mundial o conceito de interdependência. Nenhuma nação é autossuficiente, assim como os membros do corpo humano e seus órgãos são interdependentes também. (Fugir do óbvio é apenas enxugar gelo e contar nuvens no céu. E o mundo está muito perigoso para essas duas últimas atividades.)
A integração econômica produz eficiência enquanto cada lado reconhece a utilidade do outro. Transformada em instrumento de coerção, ela fornece a ambos um inventário bastante detalhado das fragilidades do vizinho. Vivemos uma época confusa.
O carrinho também entrou na guerra comercial
A resposta canadense ultrapassou Ottawa. Pesquisa recente do Angus Reid Institute mostrou que 40% dos consumidores que compram alimentos verificam ativamente a procedência das mercadorias e procuram evitar produtos fabricados nos Estados Unidos. Redes varejistas passaram a destacar produtos produzidos no Canadá, consumidores substituem marcas americanas e várias províncias mantiveram bebidas dos Estados Unidos fora de lojas públicas depois da deterioração das relações comerciais.
A mudança interessa menos como febre nacionalista do momento do que pelo hábito que pode produzir. Quem passa a examinar a origem de um queijo, um cereal, um vinho ou um eletrodoméstico acrescenta uma informação política à decisão de consumo. E quem experimenta uma alternativa canadense, europeia, asiática ou latino-americana pode descobrir uma obviedade comercial: existem outros produtos, outros fornecedores e outros mercados.
O turismo mostra processo semelhante. Em 2025, os canadenses fizeram quase 10 milhões de viagens a menos aos Estados Unidos, queda de aproximadamente 25% em relação ao ano anterior; nas viagens terrestres, a retração chegou a 30%. Parte desse gasto migrou para destinos dentro do próprio Canadá e para outros países.
Hotéis, restaurantes, lojas e postos americanos sentem uma decisão tomada milhões de vezes sem necessidade de decreto oficial. O governo pode negociar amanhã; uma família que encontrou novas férias não precisa esperar pelo comunicado diplomático.
O perigo também abre caminhos
Desde os anos 1980 tornou-se recorrente no Ocidente afirmar que o ideograma chinês para crise reúne perigo e oportunidade. A tradução literal é mais complexa: wēijī combina perigo com a ideia de momento crítico, ponto de mudança ou inflexão. A velha imagem, apesar da simplificação linguística, descreve bem o dilema atual.
Protecionismo e nacionalismo econômico chegam primeiro acompanhados de tarifas, preços maiores, insegurança e cadeias produtivas pressionadas. São duas forças que estreitam relações entre povos justamente num mundo que necessita ampliar cooperação.
No médio prazo, porém, podem produzir uma reação pouco conveniente aos seus formuladores: empresas encontram novos fornecedores, governos aceleram acordos, mercados antes secundários tornam-se atraentes e velhas dependências perdem a aparência de inevitabilidade.
Dependência econômica é frequentemente apresentada como destino. Na prática, dura enquanto substituir fornecedor, comprador ou mercado custa mais que permanecer.
Quando a fonte tradicional aumenta obstáculos, exige concessões políticas ou encarece artificialmente a relação, as alternativas deixam de parecer distantes. Algumas acabam mais baratas, outras mais seguras e algumas até mais lucrativas. A pressão destinada a prender o parceiro pode ser justamente aquilo que o ensina a procurar a saída.
O Brasil aparece no novo mapa
O Canadá já vinha ampliando essas alternativas. As negociações para um acordo de livre comércio com o Mercosul estão novamente ativas.
Em julho, os governos canadense e brasileiro reafirmaram formalmente o compromisso de avançar “o mais rapidamente possível” para uma conclusão mutuamente vantajosa. O Brasil é o maior parceiro comercial do Canadá na América do Sul, e o comércio bilateral de mercadorias chegou a C$ 14,7 bilhões (cerca de US$ 10,6 bilhões) em 2025, crescimento de 15,7% sobre o ano anterior.
Esse movimento ganhou novo peso depois do confronto com Washington. Quanto mais os Estados Unidos tentam condicionar escolhas comerciais canadenses, mais racional se torna para Ottawa ampliar relações com Brasil, Mercosul, Europa e Ásia.
A pressão destinada a preservar influência americana pode acelerar precisamente sua redução. Em uma época de insensatez acelerada, analisar as relações internacionais não é coisa de Amador. Longe disso, requer conhecimentos de história, vantagens competitivas econômicas, bens culturais disponíveis e preocupação sincera de elevar a qualidade de vida dos povos sem ser detrimento do progresso dos demais.
Carney já formulou essa estratégia de maneira explícita: “Construir em casa e diversificar o comércio no exterior não é nosso plano B. Tem sido nosso plano A desde o início.” A frase contém algo maior que a resposta de um primeiro-ministro a uma rodada tarifária. Uma empresa canadense que encontra novo fornecedor pode manter o contrato depois que a crise acabar. Um consumidor que troca de marca pode não retornar. Um governo que abre mercado no Brasil ou em outro continente dificilmente fecha essa porta apenas porque Washington decidiu voltar a ser cordial.
A conta imediata da retaliação canadense é de cerca de US$ 20 bilhões. A conta política levará mais tempo para aparecer. Trump pode impor perdas pesadas ao Canadá, e seria ingênuo negar a enorme assimetria entre as duas economias. Mas poder econômico mal administrado também ensina os parceiros a procurar saídas.
A ironia atravessa os quase nove mil quilômetros da fronteira comum: ao tentar provar quanto o Canadá precisa dos Estados Unidos, Trump pode estar oferecendo aos canadenses razões concretas para descobrir quanto podem precisar menos.
26 de agosto de 2026
Galípolo em Gallipoli
Gallipoli fracassou quando a insistência superou a estratégia; Galípolo arrisca repetir o erro ao transformar juros excepcionais em obstáculo permanente ao desenvolvimento brasileiro por anos demais


O Brasil parece ter transformado o combate à inflação numa guerra de desgaste contra a própria economia. Em 5 de agosto, o Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo. A direção finalmente mudou, mas o patamar continua extraordinário. Depois de alcançar 15%, o país segue submetido a um custo do dinheiro capaz de alterar decisões empresariais, adiar investimentos, encarecer a dívida pública e premiar aplicações financeiras numa escala que deveria provocar uma discussão nacional muito mais dura sobre os limites da política monetária.
Gabriel Galípolo preside o Banco Central desde 1º de janeiro de 2025. Antes disso, desde julho de 2023, comandava a Diretoria de Política Monetária.
Seu sobrenome produz uma associação histórica difícil de ignorar. Gallipoli foi uma das campanhas mais desastrosas da Primeira Guerra Mundial. O objetivo aliado parecia estrategicamente sedutor: atravessar os Dardanelos, pressionar Constantinopla, abrir uma rota marítima para a Rússia e retirar o Império Otomano da guerra. Em fevereiro de 1915 começou a ofensiva naval; em abril vieram os desembarques. O que deveria ser uma operação decisiva converteu-se em oito meses de trincheiras, impasse, sucessivas ofensivas e perdas gigantescas. Em janeiro de 1916, os últimos soldados aliados deixaram a península. O objetivo central jamais foi alcançado.
Os mortos daquela guerra merecem respeito absoluto e jamais podem ser convertidos em ornamento retórico. O que me interessa em Gallipoli é a anatomia de uma decisão pública que se prolonga depois que seus custos começam a alterar a própria natureza da estratégia.
Os aliados não fracassaram porque lhes faltaram homens, navios ou coragem. Fracassaram também porque planejamento deficiente, conhecimento insuficiente do terreno, objetivos mal definidos e confiança excessiva encontraram uma defesa otomana preparada e uma geografia que transformou avanço em imobilidade. Persistir começou a parecer mais fácil do que admitir que a estratégia precisava ser revista.
É impossível olhar para quatro anos de juros excepcionalmente elevados no Brasil sem reconhecer uma pergunta semelhante. Em que momento firmeza deixa de ser virtude e se transforma em obstinação? Quantos custos adicionais uma política pode impor antes que sua própria continuidade se torne parte do problema?
Nossa Gallipoli monetária não está nos Dardanelos. Está nas fábricas adiadas, nas empresas que desistiram de expandir, no crédito proibitivo, na dívida pública encarecida e numa economia obrigada a correr com um peso amarrado às pernas.
Quatro anos sob juros de emergência
Em agosto de 2022, a Selic chegou a 13,75% e permaneceu naquele nível durante um ano. Em dezembro de 2023 havia recuado para 11,75%. Em 2024 chegou a 10,50%, mas a trégua durou pouco: subiu para 10,75% em setembro, 11,25% em novembro e 12,25% em dezembro. Galípolo já integrava o Copom e participou da nova escalada. Ao assumir a presidência do Banco Central, em janeiro de 2025, encontrou a taxa em 12,25%. No fim daquele mês ela chegou a 13,25%; depois vieram 14,25% em março, 14,75% em maio e 15% em junho.
O que interessa nessa cronologia não é apenas a sucessão de números. É a duração do tratamento e, sobretudo, aquilo que a duração produz. O Brasil atravessou aproximadamente quatro anos com juros básicos de dois dígitos e extensos períodos acima de 12%.
Uma política monetária restritiva pode ser necessária durante determinado ciclo inflacionário. O que não pode ser aceito sem um questionamento forte, duro, contundente é a conversão da excepcionalidade em paisagem. Uma sociedade acaba adaptando decisões, investimentos e expectativas àquilo que deveria ser provisório.
Foi justamente o que aconteceu em Gallipoli. O plano inicial imaginava rapidez; o terreno produziu imobilidade. Depois de desembarcar, milhares de soldados ficaram confinados em faixas estreitas de território, submetidos a uma guerra que já não se parecia com a operação concebida nos gabinetes. A estratégia continuou, mas a realidade que deveria legitimá-la havia mudado.
No Brasil, uma política desenhada para comprimir inflação e reancorar expectativas passou a conviver durante anos com outro efeito: a reorganização dos incentivos econômicos em favor de quem empresta e contra quem precisa produzir, investir, contratar ou financiar.
Há uma diferença profunda entre esfriar uma demanda excessiva por algum tempo e tornar a expansão econômica estruturalmente cara. A primeira decisão pertence ao arsenal normal de qualquer Banco Central.
A segunda começa a definir que país conseguiremos construir. Empresas aprendem a adiar projetos, famílias abandonam compras financiadas, governos veem crescer o custo da dívida e investidores descobrem que podem receber remuneração extraordinária sem assumir os riscos de criar riqueza nova. Depois de quatro anos, já não estamos discutindo apenas inflação. Estamos discutindo qual comportamento econômico o Estado brasileiro decidiu premiar.
A economia real não vive de atas do Copom
É preciso retirar a política monetária por alguns minutos da linguagem das atas, projeções e gráficos e colocá-la no balcão de uma empresa, na planilha de uma indústria e no orçamento de uma família. Muita cabeça de planilha decidindo a vida de um país. Uma lástima.
É ali, que aquele senhores de cavanhaque, cartolas e com olho nas tais planilhas alimentadas minuto a minuto que a Selic deixa de ser porcentagem e se transforma em escolhas canceladas, contratos revistos e projetos que morrem antes mesmo de receber um protocolo numa repartição ou uma assinatura num banco.
Para uma indústria, juros dessa magnitude podem transformar uma nova linha de produção em projeto economicamente inviável. A empresa que pretendia investir R$ 50 milhões numa unidade produtiva precisa recalcular financiamento, prazo de retorno e risco. A incorporadora revê o edifício porque o crédito encareceu para quem constrói e para quem compra. O comerciante vê o capital de giro consumir parcela crescente da margem. O agricultor posterga a renovação de máquinas. Uma empresa tecnológica reduz pesquisa porque inovação exige paciência, enquanto o capital financeiro oferece remuneração imediata.
As famílias conhecem a mesma política por outro vocabulário.
Ela chega na prestação do automóvel, no financiamento imobiliário, no empréstimo pessoal, no rotativo do cartão, na compra parcelada e no custo de uma emergência doméstica. Para uma família de renda média, décimos de juros discutidos tecnicamente em Brasília podem representar centenas de reais a mais por mês. Para uma família pobre, crédito caro não reduz apenas consumo; muitas vezes elimina a possibilidade de substituir uma geladeira, financiar uma motocicleta usada para trabalhar ou enfrentar uma despesa inesperada sem cair numa dívida que se reproduz.
O efeito mais revelador aparece quando o empresário compara o retorno de uma atividade produtiva com a remuneração de uma aplicação financeira.
Construir uma fábrica significa contratar pessoas, comprar máquinas, administrar estoques, enfrentar câmbio, impostos, concorrência, logística e incerteza. Aplicar capital em títulos de baixo risco exige infinitamente menos. Se a segunda opção oferece remuneração extraordinária, a política monetária altera o significado econômico do risco e começa a ensinar que produzir pode ser menos racional do que esperar.
Esse cálculo não nasce de falta de espírito empreendedor. Nasce do próprio sistema de incentivos criado pelo Estado. Uma economia que remunera magnificamente a imobilidade financeira e cobra pedágio extraordinário de quem deseja transformar capital em máquinas, tecnologia, obras e empregos está dizendo, mesmo que nunca tenha coragem de escrever isso numa ata, qual forma de acumulação considera mais vantajosa.
Nem os banqueiros defendem essa trincheira
Existe um dado particularmente revelador para quem pretende apresentar a crítica aos juros como reclamação previsível de industriais, sindicatos ou setores interessados em crédito barato.
Dirigentes dos maiores bancos privados começaram a dizer publicamente que esse nível de juros prejudica negócios e economia. Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú Unibanco, afirmou que é equivocada a percepção de que bancos desejam juros elevados e disse preferir trabalhar com juros de um dígito, relacionando taxas muito altas à redução do consumo, do investimento e da demanda por crédito.
A declaração deveria obrigar o Banco Central a ouvir com especial atenção porque o Itaú não representa uma indústria pleiteando financiamento subsidiado. Estamos falando do maior banco privado do país. Quando o presidente de uma instituição que conhece por dentro milhões de operações de crédito afirma que taxas elevadas reduzem consumo e investimento, ele descreve a partir do coração do sistema financeiro o mesmo mecanismo que costuma ser tratado como dano lateral inevitável da política monetária.
O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, avançou pela mesma direção depois do corte de agosto ao afirmar que não via razão para o Copom interromper a redução dos juros. Meses antes, já havia chamado a atenção para o peso do custo financeiro sobre empresas mais endividadas.
E não paramos por aí. Luiz Carlos Trabuco, presidente do Conselho de Administração do banco e uma das figuras mais experientes do sistema financeiro brasileiro, foi ainda mais categórico ao considerar juros reais próximos de 10% proibitivos para empresas, pessoas e para o próprio Tesouro Nacional.
Não considero essas falas argumentos de autoridade. Considero-as evidências oriundas de testemunhas que conhecem profundamente o terreno.
Na guerra de Gallipoli, um dos erros foi permitir que concepções construídas longe do campo de batalha sobrevivessem ao que o próprio terreno demonstrava. No Brasil, bancos acompanham diariamente inadimplência, concessão de crédito, capacidade de pagamento das empresas, disposição de investir e endividamento das famílias. Ignorar os sinais emitidos desse observatório seria uma forma singular de arrogância técnica.
Quando até quem vive de emprestar dinheiro começa a advertir que o dinheiro ficou caro demais, a controvérsia deixa de caber na caricatura entre defensores da estabilidade e irresponsáveis interessados em baixar juros a qualquer preço.
Há algo muito maior em curso: uma parcela relevante da própria engrenagem financeira está dizendo que a trincheira já se tornou funda demais.
Até quando a diretoria de Gabriel Galípolo fará ouvidos de mercador?
Crescer pouco também custa caro, muito caro
O próprio Banco Central reconheceu em agosto uma moderação gradual da atividade econômica. O boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 24 de agosto, reduziu para 1,95% a expectativa de crescimento do PIB brasileiro em 2026. Para 2027, a projeção está em apenas 1,50%. São números que poderiam parecer toleráveis numa economia rica, com infraestrutura consolidada e produtividade elevada. Não são números tranquilizadores para um país que ainda precisa construir uma parte decisiva do próprio futuro.
Continuamos precisando de ferrovias, portos modernos, saneamento, habitação, infraestrutura urbana, energia, digitalização, indústria avançada, ciência, pesquisa e produtividade. Cada uma dessas tarefas exige investimento continuado. Crescer 1,5% ou 2% durante anos significa transformar décadas de atraso em décadas adicionais de espera.
Um país com carências históricas não pode tratar baixo crescimento como simples imperfeição estatística. A verdade é que estamos diante de uma situação não apenas anômala. O buraco aí é bem mais embaixo. Sigamos.
Um ponto percentual a menos de crescimento significa bilhões de reais que deixam de circular, empresas que faturam menos, trabalhadores que não são contratados, impostos que não são arrecadados e investimentos que não amadurecem. E existe uma crueldade estatística nesse processo: sabemos calcular com grande precisão aquilo que existe, mas somos muito piores em contabilizar aquilo que deixou de nascer. A fábrica cancelada não aparece como fábrica perdida. O centro de pesquisa abandonado não aparece como inovação morta. O emprego que jamais foi criado não entra na fila do desemprego.
Por isso considero insuficiente perguntar apenas se juros elevados ainda produzem algum efeito sobre a inflação. Evidentemente produzem.
A questão adulta é outra: qual o custo marginal de continuar produzindo esse efeito num país que já vem pagando a conta há anos? Uma política pública não pode reivindicar sucesso olhando apenas para o indicador que pretende reduzir e mantendo fora do balanço tudo aquilo que destrói ou posterga no caminho.
O Estado paga a taxa que o país suporta
Existe outra dimensão que torna essa política ainda mais contraditória. Em junho, a dívida pública federal alcançou aproximadamente R$ 9,3 trilhões, com 49,32% vinculada à Selic. O Estado brasileiro não observa de longe a taxa definida pelo Banco Central. Ele é um dos maiores pagadores dessa conta.
Nos 12 meses encerrados em junho, os juros nominais pagos pelo setor público chegaram a 8,80% do PIB, enquanto o déficit nominal aproximou-se de 10%. O debate público brasileiro consegue transformar alguns bilhões destinados a programas sociais em escândalo fiscal e, ao mesmo tempo, tratar centenas de bilhões consumidos pelo serviço da dívida como se fossem força da natureza, uma estação do ano sobre a qual nenhuma decisão humana exercesse influência.
Essa naturalização é intelectualmente insustentável. Cada ponto percentual da Selic possui consequência fiscal. Cada mês adicional em patamares extraordinários aumenta a remuneração de parte relevante da dívida.
Não afirmo que todo real economizado em juros seria automaticamente transformado em hospital ou ferrovia. A questão é mais elementar: dinheiro destinado ao serviço da dívida deixa de integrar o espaço fiscal disponível para outras prioridades.
A contradição chega então ao limite do absurdo. O Brasil precisa investir mais para aumentar produtividade, mas mantém um custo de capital que dificulta investimento privado. Precisa recuperar capacidade fiscal, mas remunera parcela relevante da dívida por uma taxa extraordinária. Precisa crescer para melhorar a relação dívida/PIB, mas sustenta uma política que reduz a força desse crescimento.
É uma engrenagem que cobra do paciente energia para suportar o próprio tratamento. Ninguém consegue sobreviver depois de quatro anos recebendo quimioterapia. A metáfora é dura, mas é absolutamente verdadeira, correta e principalmente factual.
Quem paga e quem recebe
Juros elevados possuem uma dimensão distributiva que precisa deixar de ser tratada como nota de rodapé. Eles não castigam todos da mesma maneira e tampouco distribuem benefícios de forma neutra. Quem depende de crédito paga mais; quem financia uma casa paga mais; quem abre uma empresa assume custo maior; quem precisa de capital de giro entrega parcela adicional de sua margem; quem procura emprego encontra uma economia menos expansiva.
Na outra ponta, quem dispõe de grande patrimônio financeiro encontra uma oportunidade excepcional de remuneração. Não é preciso construir uma teoria conspiratória para enxergar isso. Basta seguir o dinheiro. Há pagadores e recebedores, e uma taxa extraordinária amplia a distância entre aquilo que sai de uns e entra no patrimônio de outros.
Numa sociedade marcada por uma desigualdade brutal, essa consequência deveria estar no centro do debate sobre juros. Toda decisão econômica distribui custos e benefícios. A Selic também distribui. O tecnicismo não suspende a realidade social. Uma decisão tomada por especialistas continua sendo uma decisão que produz vencedores e perdedores.
É nesse ponto que considero cínica uma política que cobra sacrifícios generalizados em nome de um bem coletivo enquanto distribui de maneira profundamente desigual tanto esses sacrifícios quanto suas recompensas.
O trabalhador não recebe 14% ao ano sobre seu salário. A pequena empresária não recebe 14% sobre o estoque parado. A família endividada não recebe 14% sobre a prestação da casa. Quem possui capital financeiro, porém, conhece muito bem a generosidade dessa taxa.
O cavalo entrou pela porta certa
Séculos antes de Gallipoli, outra guerra deixou uma imagem ainda mais poderosa sobre a diferença entre aparência e consequência. Segundo a tradição narrada na literatura antiga, os gregos não conseguiram conquistar Troia pela força depois de uma guerra prolongada. A cidade resistia protegida por suas muralhas. A solução veio por meio de um enorme cavalo de madeira apresentado como oferta. Os troianos o levaram para dentro da cidade. Escondidos em seu interior estavam guerreiros gregos que, durante a noite, saíram, abriram os portões e permitiram a entrada do exército inimigo.
O poder do mito atravessou milênios porque descreve algo muito maior do que uma artimanha militar. Descreve o perigo daquilo que entra sob a aparência de benefício e carrega dentro de si consequências opostas à promessa que permitiu sua entrada.
É assim que vejo parte da política monetária brasileira: uma arquitetura concebida em nome de um objetivo legítimo, mas que pode produzir internamente efeitos incompatíveis com o projeto de país que diz proteger.
O cavalo entra pela porta correta. Chama-se estabilidade da moeda. É um objetivo indispensável, porque inflação prolongada destrói salários, reduz poder de compra, penaliza os pobres e desorganiza expectativas. Nenhuma sociedade responsável deveria rejeitar esse objetivo. O problema está no que foi colocado dentro dele e em quanto tempo se pretende mantê-lo alojado no coração da economia.
Dentro dos juros extraordinários viajam crédito proibitivo, investimentos adiados, empresas mais vulneráveis, famílias pagando prestações maiores, dívida pública encarecida, crescimento comprimido e uma remuneração financeira que favorece quem já acumulou patrimônio. O instrumento chega anunciado como proteção da renda popular, mas alguns de seus efeitos atingem precisamente a renda, o emprego e as oportunidades daqueles que possuem menos instrumentos para se proteger.
Essa é a perversidade que precisa ser nomeada. Enquanto políticas públicas tentam retirar pessoas da pobreza, o custo financeiro do país trabalha na direção contrária ao encarecer crédito e reduzir dinamismo econômico. Enquanto o Estado procura construir infraestrutura, a conta de juros disputa recursos com investimento. Enquanto o discurso público exige indústria moderna e inovação, a remuneração financeira oferece ao capital um caminho mais fácil que produzir.
No cavalo de Troia monetário brasileiro, os soldados do mito deram lugar a contradições econômicas que atravessam crédito, investimento, dívida pública, emprego e desigualdade. E existe uma ironia ainda mais dura: foram as próprias instituições brasileiras que abriram os portões.
A autonomia do Banco Central foi concebida para proteger a moeda contra conveniências políticas de curto prazo. Essa proteção institucional é legítima. O que jamais poderia estar embutido nela é uma autorização para que o custo de proteger a moeda fique fora do escrutínio democrático, como se crescimento, emprego e investimento fossem variáveis menores diante de uma única missão.
Troia caiu porque percebeu tarde demais que havia confundido presente com ameaça. O Brasil não precisa cometer o erro inverso: aceitar indefinidamente como proteção uma política cujos efeitos acumulados já começaram a atingir aquilo que deveria proteger.
Autonomia não pode ser um cheque em branco
O Banco Central possui autonomia operacional, não soberania sobre o destino econômico do Brasil. Foi protegido contra interferências políticas imediatas para tomar decisões sem submissão ao calendário eleitoral. Essa autonomia pode ser importante para a credibilidade da moeda. Mas nenhuma autonomia republicana transforma dirigentes públicos em autoridades imunes ao julgamento sobre as consequências de seus atos.
Uma Selic de 14% é uma decisão sobre inflação, mas também sobre investimento, emprego, habitação, pequenas empresas, arrecadação, dívida e desigualdade. Por isso considero pobre um debate que quase sempre fica aprisionado entre integrantes do Copom, economistas de bancos, gestores de fundos e analistas do mercado financeiro.
A sociedade tem o direito de exigir não somente a explicação de por que os juros continuam altos, mas a demonstração de por que precisam continuar tão altos. Tem o direito de conhecer o custo estimado dessa escolha, saber quais alternativas foram consideradas e perguntar quanto crescimento é aceitável perder para conseguir alguns décimos adicionais de desinflação.
Esse questionamento não enfraquece a autonomia do Banco Central. É precisamente o preço democrático da autonomia.
Quanto mais poder uma instituição recebe para influenciar a vida de milhões de pessoas, mais rigorosa precisa ser sua prestação de contas. Isso me parece inegociável.
Galípolo não é espectador dessa história
Seria factualmente incorreto atribuir a Gabriel Galípolo todo o ciclo iniciado em 2022. Seria igualmente incorreto apresentar o atual presidente do Banco Central como alguém que apenas recebeu uma política construída por outros e agora administra seus efeitos.
Galípolo integra o Copom desde 2023. Participou das decisões que voltaram a elevar a Selic em 2024. Assumiu a presidência em janeiro de 2025 e comandou o Banco Central durante a escalada que levou a taxa a 15%. Agora conduz a redução iniciada em 2026. Sua responsabilidade começa exatamente onde começa sua capacidade efetiva de decidir.
Os quatro cortes realizados até agosto levaram a Selic apenas a 14%. O Brasil continua no território da excepcionalidade. Continuamos pagando juros de uma economia em emergência enquanto necessitamos agir como um país que precisa construir infraestrutura, modernizar indústria, financiar tecnologia, elevar produtividade e criar oportunidades durante as próximas décadas.
É nesse ponto que o sobrenome do presidente do Banco Central deixa de ser apenas coincidência sonora e se transforma numa provocação histórica irresistível.
A trincheira e o cavalo
Gallipoli e Troia oferecem imagens diferentes para o mesmo problema brasileiro. Gallipoli fala da estratégia que continua porque admitir seus limites parece mais difícil que prolongá-la. Troia fala da política que entra legitimada por uma promessa e, depois de aceita, revela consequências que seus defensores preferem apresentar como acidentes inevitáveis.
Na Gallipoli monetária brasileira, permanecemos há anos numa trincheira de juros extraordinários esperando que a permanência produza aquilo que o tempo já deveria ter permitido alcançar por meios menos destrutivos. No cavalo de Troia monetário, aceitamos em nome da estabilidade um mecanismo que carrega dentro de si custos capazes de trabalhar contra o crescimento, o emprego, o investimento público e a inclusão social.
As duas imagens convergem para uma pergunta que o Banco Central precisa responder: quem decide que o preço já ficou alto demais? Em Gallipoli, os aliados demoraram oito meses para abandonar uma campanha incapaz de realizar seu objetivo estratégico. As forças evacuaram a península entre dezembro de 1915 e janeiro de 1916 depois de perdas enormes. O fracasso produziu consequências políticas profundas e atingiu diretamente a reputação de Winston Churchill, um dos principais defensores da operação.
A comparação aqui se limita aos mecanismos de decisão; perdas humanas de uma guerra pertencem a outra ordem de grandeza e merecem respeito absoluto. Instituições poderosas desenvolvem enorme capacidade de justificar a continuidade das próprias estratégias. Cada novo custo pode ser apresentado como razão para perseverar, porque mudar significaria admitir que se perseverou além do razoável.
É justamente essa armadilha que o Banco Central precisa evitar. O Brasil não pode chegar ao ponto em que baixar juros pareça uma concessão depois de anos em que mantê-los extraordinariamente altos foi tratado como demonstração de virtude. Prudência monetária não consiste em escolher sempre a alternativa mais severa. Consiste em saber quando a severidade deixou de produzir benefício proporcional ao dano provocado.
Não precisamos escolher entre inflação e desenvolvimento, como se estabilidade monetária e crescimento pertencessem a países diferentes. Precisamos exigir competência suficiente para preservar ambos. Por isso já não considero suficiente perguntar a Gabriel Galípolo qual será a próxima redução da Selic. A pergunta mais importante é quando o Banco Central pretende retirar o Brasil desta trincheira e começar a desmontar o cavalo que ajudou a colocar dentro da economia.
Quantas fábricas ainda serão adiadas?
Quantas empresas deixarão de contratar?
Quantos investimentos serão abandonados?
Quantos bilhões serão acrescentados à despesa financeira do Estado?
Quantas famílias continuarão pagando crédito proibitivo?
Quantos jovens encontrarão uma economia incapaz de produzir as oportunidades que poderia produzir?
Quantos anos de crescimento medíocre podem ser sacrificados antes que alguém reconheça que a conta deixou de ser razoável?
Essas perguntas pertencem ao debate mais sério sobre estabilidade porque obrigam a incluir o país inteiro na conta. Gallipoli ensina que uma estratégia pode continuar sendo executada depois de perder sua racionalidade original; Troia, que aquilo que entra sob o nome de proteção pode carregar dentro de si a própria ameaça. O Banco Central deveria prestar atenção às duas histórias.
O Brasil corre o risco de descobrir que passou anos defendendo sua economia da inflação enquanto mantinha, dentro dela, uma política monetária cínica e perversa que cobrava do investimento, do emprego, das famílias e do Estado um preço incompatível com qualquer projeto sério de desenvolvimento.
Galípolo ainda pode retirar o país dessa Gallipoli, mas para isso precisa reconhecer que a verdadeira derrota já não seria reduzir os juros cedo demais. Seria perceber tarde demais que a trincheira virou política permanente e que o cavalo de Troia já estava dentro dos portões. Enquanto isso, os anos Campos Neto/Gabriel Galípolo serão lembrados pelo que são: o período do maior retrocesso econômico do país.
25 de agosto de 2026
O tempo aproxima pessoas, mas somente a confiança transforma conhecidos em amigos de verdade
Hall quantificou o tempo necessário para aprofundar vínculos; Aristóteles, Nietzsche e Kundera oferecem três respostas distintas sobre amizade, caráter e reconhecimento


Certas amizades parecem começar muito antes do primeiro encontro; outras terminam depois de décadas sem que ninguém consiga dizer quando começaram a morrer. Conversamos com elas e logo sentimos que certas histórias poderiam ter sido contadas muitos anos antes. Em pouco tempo, conhecem nossas fraquezas, nossos medos, nossas contradições, e nós passamos a conhecer as delas. Existem outras que atravessam conosco a escola, o trabalho, os almoços, as mudanças de cidade e quatro décadas de vida sem jamais deixar de ocupar o lugar reservado aos conhecidos. A diferença entre essas duas experiências contém uma das perguntas mais antigas e menos resolvidas sobre a vida em sociedade: o que faz alguém deixar de ser apenas conhecido e tornar-se parte de nossa existência?
Em março de 2018, a Universidade do Kansas divulgou uma pesquisa de Jeffrey A. Hall, professor de Estudos da Comunicação, que tentou colocar números nessa transformação. O trabalho, publicado no Journal of Social and Personal Relationships, estimou cerca de 50 horas de convivência para uma relação avançar de conhecido a amigo casual, aproximadamente 90 horas para chegar à condição de amigo e mais de 200 horas para alcançar a amizade próxima.
O primeiro estudo reuniu 355 adultos que haviam mudado de cidade recentemente e precisavam reconstruir sua vida social. O segundo acompanhou 112 estudantes do primeiro ano universitário durante nove semanas, período em que muitos estavam formando novos vínculos. Hall analisou não apenas o tempo passado juntos, mas também as atividades compartilhadas e o tipo de interação. Conversar, brincar, sair e dividir experiências favoreciam a aproximação mais que a simples presença decorrente de obrigações profissionais ou acadêmicas.
Os números são reveladores, mas deixam intacta a pergunta mais interessante. Se o tempo fosse o principal ingrediente da amizade, aqueles que conhecemos desde a infância seriam sempre nossos amigos mais íntimos e os colegas que atravessaram conosco trinta anos de trabalho seriam quase irmãos. A experiência humana demonstra o contrário. O relógio registra presença; não consegue registrar intimidade.
O tempo não basta
A amizade contém um salto que o calendário não consegue explicar. Há encontros nos quais duas pessoas reconhecem uma na outra alguma coisa que nem sempre conseguem definir. Uma conversa produz confiança, uma confidência encontra outra confidência, uma dificuldade compartilhada revela caráter e, quando percebemos, aquela pessoa deixou de ser alguém que conhecemos para tornar-se alguém cuja ausência modifica nossa vida. O tempo oferece oportunidades; a intimidade depende da maneira como essas oportunidades são vividas.
Uma pesquisa de Soyeon Choi e Joshua M. Ackerman, publicada em 2026 em Evolution and Human Behavior, acrescentou outra peça ao problema. Em quatro pesquisas com 2.266 participantes, os autores encontraram associação entre maior aversão a germes e redes menores de amizade, sobretudo entre amigos casuais e conhecidos. O resultado mostra que a aproximação social também sofre influência de disposições psicológicas individuais e da maneira como cada pessoa avalia os riscos e benefícios do contato.
A amizade se constrói antes de ser declarada. Depende da disposição para permitir que outra pessoa atravesse sucessivas fronteiras pessoais. Primeiro compartilhamos uma opinião; depois, uma lembrança; mais adiante, talvez uma vergonha, uma perda, uma dúvida ou uma decisão que ainda não conseguimos contar a ninguém. A cada etapa, oferecemos ao outro uma parcela da nossa intimidade e observamos o que ele fará com aquilo.
É por isso que a amizade ocupa lugar tão importante na história da filosofia. Aristóteles, na Ética a Nicômaco, distinguiu as relações baseadas na utilidade, no prazer e na virtude. Para ele, a forma mais elevada surge quando duas pessoas desejam o bem uma da outra pelo que cada uma é. Nietzsche tomou outra direção. Em Assim Falou Zaratustra, escreveu: “No amigo deves ter o teu melhor inimigo”. A amizade, para ele, comporta confronto; o verdadeiro amigo não precisa confirmar nossas certezas e pode nos obrigar a enfrentar aquilo que preferiríamos esconder de nós mesmos. Aristóteles procura na amizade a reciprocidade do bem; Nietzsche encontra nela uma força capaz de nos tirar da acomodação.
Três ideias sobre amizade
Milan Kundera acrescentou uma dimensão ligada ao tempo e à memória. Em A Insustentável Leveza do Ser, escreveu: “A amizade é indispensável ao homem, porque o homem é um ser que precisa de testemunhas”. O amigo, nessa visão, não é somente companhia no presente. É quem conhece diferentes versões da mesma pessoa e consegue reconhecer continuidade onde o mundo costuma enxergar apenas mudanças. O amigo sabe quem fomos antes de nossa profissão, antes do casamento, antes dos filhos, antes das perdas e das escolhas que passaram a definir nossa imagem pública. Aristóteles fala do bem que desejamos ao outro; Nietzsche, da verdade que aceitamos ouvir; Kundera, da memória que confiamos a alguém. Uma amizade profunda talvez dependa da reunião dessas três exigências.
Existe, porém, uma relação que Aristóteles já conhecia e que continua entre nós: a amizade de conveniência. O amigo de conveniência não procura necessariamente a pessoa; procura aquilo que existe ao redor dela. Pode buscar acesso, influência, prestígio, contatos, proteção ou projeção. Aprende a utilizar a linguagem da admiração e da lealdade para conservar uma posição que não conseguiria ocupar por mérito próprio. Enquanto o benefício permanece, a relação parece sólida.
Esse tipo de amizade pode assumir uma forma ainda mais corrosiva quando o beneficiário passa a considerar ameaça qualquer pessoa que receba atenção semelhante ou superior daquela figura de quem depende. Um novo amigo, um colega competente, um parente que se aproxima ou alguém que desperta admiração pode ser tratado como concorrente. Começam as pequenas desqualificações, os comentários feitos em privado, a informação omitida no momento certo, a suspeita lançada como pergunta inocente. A finalidade é conservar espaço, influência e exclusividade.
Nesse comportamento existe uma diferença moral importante entre admiração e utilização. Quem admira alguém deseja que essa pessoa cresça, amplie suas relações e encontre pessoas capazes de acrescentar alguma coisa à sua vida. Quem depende da posição do outro precisa controlar o acesso a ele. A presença de um terceiro ameaça o lugar que considera seu. A amizade deixa de ser relação entre duas liberdades e passa a funcionar como mecanismo de posse.
Quando penso nisso, percebo que a lealdade verdadeira contém uma prova que raramente aparece nos momentos de celebração: saber ficar feliz quando o amigo encontra outras pessoas capazes de ajudá-lo, admirá-lo e amá-lo. O amigo leal não precisa ser o único. O oportunista precisa ser indispensável.
Quando a confiança racha
Existe, entretanto, uma ruptura ainda mais devastadora porque ocorre dentro de uma relação que parecia construída sobre confiança.
Imagine dois amigos que se conheceram aos vinte anos e chegam aos cinquenta e cinco depois de atravessar juntos três décadas e meia. Durante esse período, passaram férias juntos, viajaram ao exterior, encontraram-se em aniversários e celebrações, participaram de eventos importantes na vida um do outro, acompanharam mudanças profissionais, conheceram novos relacionamentos, conversaram sobre dinheiro, filhos, perdas, projetos e dificuldades que jamais compartilhariam com um conhecido. Um deles confia ao outro uma informação que jamais contou fora daquele círculo. Anos depois, descobre que o amigo utilizou aquela confidência numa conversa para prejudicá-lo profissionalmente. Quando questionado, o outro nega, mesmo diante das evidências.
O que se rompe naquele momento ultrapassa o episódio. A pessoa traída começa a rever a própria memória. Aquele conselho dado vinte anos antes ainda era amizade? Aquele elogio tinha sinceridade? Aquele gesto de proteção escondia algum cálculo? A descoberta presente altera a leitura do passado, porque confiança não organiza apenas o futuro; ela também dá sentido às lembranças que construímos com alguém.
Como psicanalista, presto atenção também ao que acontece dentro daquele que foi traído. A pergunta não é somente “por que ele fez isso?”, mas “por que não percebi antes?”. Essa segunda pergunta pode ser mais devastadora, porque introduz a dúvida sobre o próprio julgamento. O amigo que durante décadas representou segurança passa a ocupar um lugar ambíguo na memória: alguém que foi amado, em quem confiamos e que julgávamos conhecer, mas que ocultava uma parte de si. A ruptura acontece, então, em dois níveis: termina uma relação no presente e começa uma investigação dolorosa sobre o passado.
Não se perde apenas alguém; perde-se também a confiança depositada na própria capacidade de reconhecer o caráter daquele alguém. A deslealdade pode obrigar uma pessoa a reler vários anos inteiras. O favor pode parecer cálculo. O elogio pode parecer encenação. A preocupação pode adquirir outro significado. Não porque todas aquelas lembranças tenham sido falsas, mas porque a descoberta introduziu uma dúvida que antes não existia.
É por isso que uma amizade de 8, 20, 26 ou 40 anos pode congelar em uma tarde. O passado continua existindo nas fotografias, nas viagens, nas histórias familiares e nas lembranças compartilhadas, mas deixa de funcionar como garantia para o futuro. O tempo explica a dimensão da perda; não possui poder para restaurar a confiança.
Amizades antigas podem sobreviver à distância, aos casamentos, aos filhos, às mudanças profissionais, às diferenças políticas e aos longos períodos sem encontro. Podem sobreviver até a divergências profundas. O que atinge sua raiz é a percepção de que o pacto de confiança foi rompido, sobretudo quando a deslealdade vem acompanhada de hipocrisia e negação.
O que fica depois da ruptura
Volto, então, à pesquisa de Jeffrey Hall. Suas 50, 90 ou 200 horas ajudam a compreender quanto tempo uma relação costuma precisar para avançar, mas não explicam por que alguém recém-chegado pode tornar-se indispensável enquanto outra pessoa, presente há quarenta anos, permanece estranha. Talvez porque amizade seja menos uma questão de duração do que de reconhecimento: encontramos alguém, mostramos quem somos e descobrimos que podemos continuar sendo nós mesmos diante daquela pessoa.
O tempo constrói uma história, acumula lembranças e oferece oportunidades de aproximação. A confiança transforma essa história em vínculo. A lealdade permite que ele atravesse os anos. Quando entram em seu lugar o cálculo, a hipocrisia ou a traição, as décadas deixam de funcionar como argumento.
É possível conhecer alguém durante quarenta anos e nunca ter sido seu amigo. Também é possível conhecer alguém há poucos meses e descobrir que aquela pessoa já ocupa um lugar que muitos jamais conseguiram alcançar. O “calendário” mede a duração de uma relação. A confiança revela sua profundidade. A lealdade mostra se ela merece continuar.
15 de agosto de 2026
Zohran Mamdani enfrenta Amazon e desafia o modelo de entregas terceirizadas (por Washington Araújo)
Nova York expõe engrenagem de metas, acidentes, salários desiguais e contratos que afastam responsabilidade de quem controla diretamente os serviços


Nova York decidiu enfrentar uma engrenagem que durante anos cresceu à sombra da conveniência. Em 10 de agosto de 2026, o prefeito Zohran Mamdani anunciou apoio ao ‘Delivery Protection Act’, projeto apresentado pela vereadora Tiffany Cabán e registrado no Conselho Municipal como Int. 518-2026.
A proposta alcança diretamente o modelo de distribuição adotado por empresas como Amazon e FedEx. Pretende estabelecer regras de segurança, treinamento, licenciamento e responsabilidade trabalhista nos centros chamados de “última milha”, o ponto final da cadeia que leva a mercadoria do armazém à porta do consumidor.
A discussão ganhou força porque Nova York passou a conviver com a expansão acelerada desses centros. Ao menos 18 grandes instalações foram abertas desde 2017, 11 delas a partir de 2020. O Relatório do Controlador da cidade constatou que 78% das áreas próximas a esses depósitos registraram aumento de acidentes com feridos depois de sua instalação. Num raio de meia milha, o crescimento médio dessas ocorrências chegou a 16%. Entre 2022 e 2024, mais de 2 mil lesões de trabalhadores foram registradas em 38 das 50 instalações examinadas.
O custo da pressa
Os números retiram o debate do terreno da propaganda corporativa. A compra feita em poucos segundos no telefone atravessa depósitos, ruas congestionadas, metas de produtividade, sistemas eletrônicos de acompanhamento e jornadas definidas ao minuto.
A rapidez que seduz o consumidor depende de uma infraestrutura humana quase sempre invisível. Cada promessa de entrega acelerada acrescenta pressão a uma cadeia que funciona longe dos olhos de quem apenas acompanha no aplicativo o trajeto de uma encomenda. A Amazon construiu parte importante dessa operação por meio das chamadas ‘Delivery Service Partners’. Essas empresas contratam motoristas e assumem formalmente responsabilidades trabalhistas e operacionais.
Segundo documentos e investigações citados pela prefeitura de Nova York, a Amazon interfere, porém, em elementos centrais do serviço: define rotas, estabelece metas, padroniza uniformes, impõe procedimentos e acompanha o desempenho das entregas. Surge daí a questão que Nova York resolveu colocar no centro da mesa. Quanto controle uma corporação pode exercer sobre o trabalho de milhares de pessoas antes de assumir também as consequências desse controle?
O motorista veste a marca, dirige um veículo associado à marca e entrega o produto vendido pela marca. Segue uma rota organizada dentro do sistema da companhia e trabalha submetida a indicadores ligados à operação. No contrato, porém, seu empregador pode ser uma pequena empresa colocada entre ele e a corporação que organiza toda a cadeia. Essa distância jurídica passa a ter enorme importância justamente quando surgem acidentes, afastamentos e disputas trabalhistas.
Poder terceirizado
A terceirização passou a desempenhar, nesse sistema, função maior que a simples divisão administrativa de tarefas. Ela distribui obrigações entre vários níveis justamente onde o comando permanece concentrado.
O modelo reduz a exposição jurídica de quem dispõe de maior capacidade econômica e transfere riscos para empresas menores e trabalhadores com menor poder de negociação. Essa engenharia contratual ajuda a explicar por que a discussão nova-iorquina ganhou dimensão muito maior que a de uma simples controvérsia sobre entregas.
O projeto de Tiffany Cabán procura interferir nessa arquitetura. A proposta determina que atividades consideradas centrais de entrega e armazenamento sejam executadas, em regra, por trabalhadores diretamente vinculados aos operadores dos centros de última milha.
Também estabelece treinamento periódico, proteção contra retaliações, registros obrigatórios e fiscalização municipal. A intenção é aproximar a responsabilidade formal de quem efetivamente organiza e controla a operação.
Os salários ampliam a distância entre os modelos empresariais. Pesquisa do Shift Project, ligado à Harvard Kennedy School, analisou quase 10 mil trabalhadores da Amazon, da UPS e da FedEx. A remuneração média encontrada entre motoristas vinculados à rede da Amazon ficou próxima de US$ 19 por hora. Na FedEx, alcançou cerca de US$ 25. Na UPS, aproximadamente US$ 35.
Menos da metade dos trabalhadores ligados à Amazon tinha acesso a benefícios como plano de saúde, férias remuneradas e aposentadoria. Entre os motoristas pesquisados da UPS, esses benefícios estavam presentes quase universalmente.
Guerra de números
A Amazon respondeu recorrendo ao argumento apresentado com frequência diante de regulações mais severas: empregos poderão desaparecer, serviços poderão encarecer e operações poderão ser transferidas.
Uma análise da consultoria AKRF estimou que famílias nova-iorquinas poderiam gastar US$ 664 a mais por ano com entregas caso a legislação produza mudanças significativas na logística. O dado merece ser publicado acompanhado de sua origem: o estudo foi encomendado por uma coalizão empresarial contrária ao projeto. A procedência modifica a leitura. Estudos financiados por partes interessadas podem conter metodologia legítima, mas exigem transparência absoluta.
Saber quem pagou pela pesquisa faz parte da própria informação. O leitor tem direito de conhecer tanto o número apresentado quanto os interesses presentes na disputa em que esse número será utilizado. A controvérsia alcança uma questão que deverá aparecer cada vez mais nas economias organizadas por plataformas digitais. Grandes empresas aperfeiçoaram extraordinariamente sua capacidade de controlar processos sem absorver, na mesma proporção, as responsabilidades geradas por eles.
Algoritmos distribuem tarefas, sistemas acompanham produtividade, aplicativos determinam trajetos e métricas estabelecem ritmos de trabalho que seriam inimagináveis poucas décadas atrás. A sofisticação tecnológica passou a permitir níveis de supervisão cada vez mais precisos sobre pessoas que, juridicamente, podem continuar vinculadas a outra empresa.
Comando e risco
A tecnologia ampliou o alcance do comando empresarial. A legislação terá de decidir se a responsabilidade acompanhará esse mesmo movimento. Durante anos, o consumidor foi educado a enxergar apenas a última cena: um pacote diante da porta. A cadeia inteira permanecia fora do enquadramento. Quem descarregou, separou, empilhou, transportou e correu contra o relógio desaparecia atrás da promessa de entrega rápida. Mamdani e Cabán colocaram esses trabalhadores de volta dentro da fotografia.
O Conselho Municipal de Nova York ainda decidirá o destino do Int. 518-2026. A Amazon exercerá sua influência, sindicatos pressionarão, empresas apresentarão projeções e vereadores calcularão consequências econômicas. Esse embate faz parte da democracia e precisa acontecer às claras. O desafio será impedir que a disputa de interesses esconda a pergunta essencial sobre quem controla o trabalho e quem responde pelos danos produzidos durante sua execução.
Responsabilidade integral
O princípio em jogo deveria sobreviver à batalha de números: poder empresarial e responsabilidade precisam caminhar juntos. Uma corporação capaz de determinar como o trabalho será executado, a que ritmo, por quais rotas e segundo quais metas dificilmente pode reivindicar distância absoluta quando surgem acidentes, lesões e conflitos trabalhistas.
A entrega pode terminar na porta de uma casa. A responsabilidade precisa começar muito antes.
(*) Jornalista, professor universitário e mestre em Comunicação e Cinema.
13 de agosto de 2026
Enquanto o PIB sobe, a floresta, a saúde e a dignidade continuam caindo
A crítica de Thomas Piketty ganha força quando florestas preservadas, vidas salvas e crianças educadas seguem invisíveis para o cálculo do Produto Interno Bruto


Em 31 de janeiro de 2026, o economista francês Thomas Piketty publicou no Le Monde um texto que devolveu à agenda pública uma pergunta antiga e urgente. O Produto Interno Bruto, escreveu ele, tornou-se um instrumento inadequado para sociedades atravessadas pela crise climática, pela desigualdade crescente e pelo desmonte silencioso dos serviços públicos.
Um país pode crescer no papel enquanto adoece na prática. A produção sobe, os hospitais registram gastos maiores, as escolas ampliam matrículas, e ainda assim a saúde da população piora, o tempo livre encolhe, a água some das torneiras e a segurança vira memória de outra época distante.
Em abril de 2026, o IBGE registrou desemprego em 5,8%, alta frente aos 5,4% do trimestre anterior, mesmo com o rendimento médio batendo recorde de R$ 3.732. O país produziu mais riqueza agregada enquanto reduzia em 338 mil o número de pessoas ocupadas, prova de que crescimento e inclusão nem sempre caminham juntos.
Carrego a convicção de que essa distância entre crescer e adoecer nasce de uma civilização ensinada a valorizar o ter mais do que o ser. Aprendi, em décadas de estrada por outros povos, que a pátria verdadeira de cada ser humano é o planeta inteiro, e que toda família encontrada pelo caminho pertence à mesma linhagem.
O que o crescimento esconde
O Produto Interno Bruto nasceu nos anos 1930 como ferramenta de guerra e reconstrução. Seu criador, Simon Kuznets, avisou desde o início que renda nacional jamais deveria ser confundida com o bem-estar de um povo. A advertência ficou arquivada por noventa anos, enquanto governos aprendiam a contar mercadorias e esqueciam de contar as perdas humanas deixadas pelo caminho.
Neste ano de 2026, a Organização das Nações Unidas e a OCDE consolidaram um painel com 31 indicadores para medir aquilo que o PIB sempre ignorou. As dimensões incluem condições materiais, saúde, educação, trabalho, segurança, qualidade ambiental, equidade entre regiões e gêneros, somando a capacidade de cada país preservar seus capitais natural, humano e institucional para as gerações seguintes.
Para as economias em desenvolvimento, a mudança carrega peso financeiro concreto. Ir além do PIB só terá efeito real se a nova forma de medir progresso alterar também o acesso ao crédito barato que financia hospitais, escolas e saneamento. Métricas sem consequência orçamentária correm o risco de virar relatório engavetado em vez de bússola de governo.
O que a natureza e o corpo perdem
O exemplo mais cruel continua sendo a floresta. Quando uma madeireira derruba árvores e vende a madeira, o PIB sobe. A erosão do solo, a poluição dos rios e o desaparecimento de espécies inteiras não entram nessa conta. A destruição financia o indicador que celebra o progresso, e esse mesmo indicador jamais pergunta o preço cobrado da natureza ao redor.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais divulgou nesta sexta-feira, 7 de agosto de 2026, dados que expõem essa cegueira pelo lado inverso. O desmatamento na Amazônia caiu 36,87% entre agosto de 2025 e julho de 2026, a menor área sob alerta da série histórica iniciada em 2016. Essa vitória ecológica não move um único ponto percentual do Produto Interno Bruto.
O mesmo raciocínio vale para o corpo humano. Hospitais lotados aumentam o PIB pelos gastos que geram; a cura que produzem pesa pouco nessa conta. Uma epidemia movimenta a economia com a mesma força que movimentaria uma campanha eficiente de vacinação, ainda que os resultados sobre a vida das pessoas sejam radicalmente diferentes entre um caso e outro.
O preço da alma esquecida
O economista indiano Amartya Sen, prêmio Nobel, propôs décadas atrás que o desenvolvimento fosse medido pelas capacidades reais das pessoas de viver a vida que valorizam. A Comissão Stiglitz-Sen-Fitoussi, criada após a crise financeira de 2008, reforçou essa direção diante de governos que erraram previsões inteiras por confiarem cegamente em um só indicador.
Testemunhei salas de aula que ensinam a competir e esquecem de ensinar a servir. A espinha dorsal da formação escolar e universitária relegou a honestidade, a veracidade, a intenção pura e a solidariedade a um plano secundário, tratando esses atributos como resíduo de outra época.
Piketty avançou sobre a crítica conceitual. Seu relatório sobre justiça mundial, divulgado em 2026 pelo World Inequality Lab, propõe convergência da renda média global para cinco mil euros mensais por habitante até 2100, financiada por um fundo alimentado com taxação de vinte por cento sobre os bilionários do planeta. O próprio autor chama o plano de utópico, sem abandoná-lo.
No Brasil, o debate permanece à margem das redações econômicas. Avaliação de governo, de crise, de sucesso ou de fracasso, segue subordinada a quatro variáveis apenas: crescimento, inflação, juros e emprego. Pesquisadores como Patricio Vergara já apontam que a América Latina precisa de métricas próprias, capazes de captar desigualdade regional e informalidade que os painéis globais deixam de fora.
Os números confirmam a distância entre produzir e distribuir. O Brasil ocupa o quinto lugar entre 216 países em desigualdade de renda, segundo relatório da equipe de Piketty: os 10% mais ricos capturam 59,1% da renda nacional; a metade mais pobre fica com 9,3%. O Ministério da Fazenda mostra que 1% dos brasileiros concentra 37,3% do patrimônio declarado ao Fisco.
Outra forma de contar a vida
Cidades ficam mais ricas e mais hostis ao mesmo tempo. Trabalhadores produzem mais e adoecem mais na mesma curva ascendente. A imprensa econômica raramente cruza essas duas realidades na mesma manchete, como se riqueza agregada e sofrimento cotidiano pertencessem a mundos separados, quando na verdade nascem do mesmo processo produtivo.
Medir é uma decisão política antes de ser uma decisão técnica. Aquilo que um país escolhe registrar em seus indicadores oficiais determina aquilo que seus governos vão proteger com orçamento, lei e atenção pública. Um painel que inclui solidão, exaustão e tempo livre obriga o poder público a enxergar o que antes podia ignorar sem custo político nenhum.
Nova Zelândia e Butão já experimentam caminhos próprios nessa direção, com orçamentos organizados em torno do bem-estar e da felicidade nacional, em vez do crescimento como fim único da política pública. São experiências pequenas diante do tamanho do problema, mas indicam que outra bússola é possível para quem decide construí-la com método.
Guardo a certeza de que nenhuma estatística substitui o olhar humano de quem reconhece no estranho um irmão de mesma pátria.
A riqueza de uma nação não cabe inteira em uma tabela de produção. Ela inclui o silêncio de uma noite bem dormida, o rio que ainda pode ser bebido, a proximidade entre pais e filhos que o trabalho excessivo não consumiu. Um país progride quando aprende a contar também o que escapa ao preço e pesa sobre cada vida.
Recuso-me a aceitar um mundo governado por um número que aplaude a floresta derrubada e silencia diante da floresta que resiste de pé. Nenhum país tem o direito de chamar de progresso aquilo que humilha seus hospitais, esvazia suas escolas de vocação e reduz cidadãos a estatística de produtividade. Chega de medir uma nação pelo que ela vende e nunca pelo que ela cura, ensina e protege. A riqueza verdadeira de um povo nasce do que floresce em silêncio, e nenhum PIB tem o direito de continuar cego diante disso.
08 de agosto de 2026
Soberania digital não virá sem decisão política (por Washington Araújo)
Brasil amplia a cobertura de fibra óptica, mas segue dependente de componentes críticos, limitando sua autonomia tecnológica e competitividade global


A infraestrutura que sustenta o século XXI não é mais visível. Não se impõe como barragens, siderúrgicas ou plataformas de petróleo. Corre silenciosa, subterrânea, invisível, mas decisiva. A fibra óptica se tornou o sistema nervoso da economia global. E, como todo sistema nervoso, define quem sente, quem reage e, sobretudo, quem controla.
O mundo já compreendeu isso com clareza estratégica. Mas o Brasil ainda não compreendeu completamente e esse atraso de percepção começa a custar caro. Os números ajudam a dimensionar o jogo com precisão.
O mercado global de fibra óptica já se aproxima de US$ 100 bilhões e deve avançar de forma consistente ao longo da próxima década, impulsionado pela explosão de dados, pela inteligência artificial e pela digitalização crescente das economias. No Brasil, o setor de telecomunicações movimenta cerca de US$ 24 bilhões por ano e pode ultrapassar US$ 37 bilhões até 2034, segundo estimativas de consultorias como a IMARC Group, refletindo não apenas crescimento orgânico, mas uma demanda estrutural ainda longe de se esgotar.
A expansão impressiona. A estratégia, no entanto, ainda carece de nitidez e, sobretudo, de ambição compatível com o tamanho do país.
Cobertura não é soberania
O Brasil vive uma corrida de implantação. Redes avançam, cidades são conectadas, regiões antes isoladas passam a integrar o mapa digital. Nesse processo, um termo técnico se tornou recorrente e precisa ser compreendido com clareza fora do vocabulário especializado: backhaul.
O termo é a espinha dorsal que conecta as redes locais ao tráfego nacional e internacional de dados. É o elo que conecta torres de telefonia, provedores regionais e redes urbanas aos grandes centros de processamento e às rotas de longa distância. Sem backhaul, não há escala. Sem ele, a conectividade existe, mas não sustenta volume, velocidade e estabilidade.
A meta de levar backhaul de fibra a todos os municípios brasileiros é, sem dúvida, um avanço relevante. Mas é aqui que surge um equívoco recorrente e perigoso: confundir cobertura com autonomia. Instalar redes não significa controlar redes. Expandir infraestrutura não equivale a dominar tecnologia.
O país conecta seu território com eficiência crescente. Mas ainda não controla, de forma plena, os elementos críticos que sustentam essa conectividade e isso redefine completamente o debate sobre soberania digital.
Onde está o valor dessa cadeia
A pergunta que realmente importa desloca a análise para um terreno menos confortável, porém decisivo: onde está o valor?
A fibra óptica não é apenas um cabo de vidro extremamente fino capaz de transmitir dados à velocidade da luz. Ela integra um ecossistema tecnológico complexo que envolve materiais avançados, química de altíssima precisão, fotônica, semicondutores, lasers, softwares de gestão de rede e um conjunto de patentes altamente concentrado em poucos atores globais.
É nesse núcleo que o valor se acumula e é exatamente nesse núcleo que o Brasil ainda participa de forma limitada.
O país possui competência reconhecida na fabricação de cabos, na engenharia de implantação e na operação de redes. São ativos importantes. Mas os elementos mais estratégicos, aqueles que concentram margem, inovação e controle, permanecem majoritariamente fora do território nacional.
Na prática, o Brasil constrói uma infraestrutura robusta apoiada em fundamentos tecnológicos que não domina integralmente. Não se trata de rejeitar a integração global, que é inevitável e necessária. Trata-se de compreender que dependência estrutural prolongada reduz a capacidade de decisão e isso só se revela plenamente quando o sistema precisa evoluir, se adaptar ou responder a pressões externas.
Escala sem poder e o custo do atraso
O Brasil reúne condições que poucos países possuem: mercado interno amplo, demanda crescente, um ecossistema dinâmico de provedores regionais e uma base acadêmica capaz de responder a desafios complexos. Em tese, todos os elementos para disputar protagonismo na cadeia global da infraestrutura digital. No entanto, não disputa na intensidade que poderia e, em alguns momentos, sequer parece disposto a disputar.
Nosso país consome em escala, instala em escala, conecta em escala e ainda assim captura pouco valor estratégico. Esse é o paradoxo brasileiro. Não decorre de incapacidade técnica, mas de desarticulação estratégica.
A meu ver, o ponto mais sensível está na relação entre Estado e setor produtivo. O diálogo existe, mas ainda não é suficientemente fluido, contínuo ou orientado a resultados estruturantes. Falta intensidade, falta método e, sobretudo, falta senso de urgência.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) precisa assumir um papel mais ativo, mais presente e mais integrado com empresários, fabricantes, operadores e investidores da cadeia de fibra óptica. Não como instância burocrática, mas como articulador estratégico.
Há muito a ser feito e o tempo não trabalha a favor do país. O tempo tecnológico é implacável. Ele não espera por consensos políticos nem por acomodações institucionais. Quando um país se atrasa em decisões estruturais, o impacto não é pontual. Um atraso de meses pode gerar efeitos acumulados por décadas, comprometendo padrões tecnológicos, reduzindo competitividade industrial e, no limite, afetando a própria soberania.
Riqueza, dependência e a encruzilhada
A expansão da fibra no Brasil gera ganhos concretos. Dinamiza economias locais, fortalece provedores regionais, amplia o acesso a serviços digitais e cria empregos ao longo da cadeia. Mas há um fluxo silencioso que precisa ser observado com rigor.
Os componentes mais sofisticados, equipamentos ativos, sistemas ópticos avançados, softwares proprietários, licenças tecnológicas continuam sendo majoritariamente importados. Isso significa que parte relevante do valor gerado pela expansão da infraestrutura retorna ao exterior na forma de pagamento por tecnologia. A rede se consolida internamente. O valor estratégico, em larga medida, não.
O Estado brasileiro dispõe de instrumentos relevantes, como legislação, fundos, capacidade regulatória e poder de compra. Ainda assim, atua aquém do seu potencial como indutor tecnológico. Compra muito, investe de forma relevante, mas raramente condiciona esses investimentos ao desenvolvimento de capacidades locais mais sofisticadas.
Em economias que lideram esse processo, cada grande contrato público é também política industrial. No Brasil, essa lógica ainda não se consolidou com a consistência necessária. O investimento em pesquisa e desenvolvimento segue abaixo do patamar exigido por uma economia que pretende disputar protagonismo tecnológico. Sem avanço consistente em áreas como fotônica, semicondutores e inteligência de rede, o país continuará expandindo a cobertura sem avançar na mesma proporção em autonomia.
A geopolítica é uma camada adicional de complexidade. A disputa entre grandes potências já incorporou a infraestrutura digital como ativo estratégico. O Brasil adota uma postura pragmática, diversificando fornecedores e evitando alinhamentos rígidos. Pode ser uma escolha inteligente, desde que acompanhada de uma estratégia própria. Sem isso, o país corre o risco de se tornar apenas um espaço de operação de tecnologias externas.
Chega-se, portanto, a uma encruzilhada clara.
O Brasil pode continuar expandindo conectividade e celebrando indicadores de cobertura, mantendo dependências estruturais que se aprofundam com o tempo. Ou pode transformar essa infraestrutura em base de soberania tecnológica, industrial e econômica. A diferença entre esses dois caminhos não está na fibra. Está na decisão de tratá-la como o que ela efetivamente é: poder.
E poder, quando não é construído internamente, inevitavelmente se importa — junto com suas consequências.
07 de agosto de 2026
Os turistas mudaram de destino
Ameaça substituiu convite, e o turista foi embora dos Estados Unidos. O turismo canadense aos Estados Unidos caiu 25% neste ano, e em março quase 900 mil canadenses a menos cruzaram a fronteira em relação a 2024


Lembro da fila da embaixada americana em Brasília, num daqueles fins de manhã em que o sol já cozinha o asfalto antes do meio-dia. Vi ali, ao longo dos anos, gente ensaiando respostas no caminho, gente aliviada ao sair com o carimbo aprovado, gente frustrada ao ouvir que precisaria voltar outro dia. Era processo burocrático como outro qualquer, com a diferença de que, do outro lado, havia sempre a expectativa de ser bem recebido ao chegar. Essa expectativa foi destruída em 2025, por decisão de governo, não por acidente do destino. Os números do turismo internacional apenas confirmam, um a um, o que os relatos de fronteira já denunciavam havia meses.
O turismo internacional para os Estados Unidos caiu 5,5% no ano — quase um em cada vinte visitantes que costumavam ir para lá simplesmente desistiu —, a pior queda em quase duas décadas, superada apenas pela pandemia de 2020. E não houve vírus algum em 2025. Houve política deliberada, hostilidade anunciada em rede social, fronteira transformada em armadilha. Traduzido em gente, o número fica ainda mais brutal: quatro milhões de estrangeiros deixaram de visitar o país em relação a 2024, o equivalente a somar as populações inteiras de Fortaleza e Recife e expulsar todo mundo, de uma só vez, para outro destino do planeta. Escrevo este texto sem nenhuma vontade de suavizar a acusação: atrás de cada estatística existe uma família que decidiu, à mesa de jantar, que aquele país deixou de merecer confiança.
Por que desisti, e por que tantos desistiram comigo
Tenho amigos que cancelaram viagens de trabalho e de lazer aos Estados Unidos neste último ano, e nenhum deles o fez por falta de dinheiro. Fizeram-no por medo, palavra que uso sem eufemismo, porque é a palavra correta. Essa é a pergunta que qualquer pesquisa séria de opinião hoje responde sem rodeio: por que tanta gente deixou de querer visitar um país que, até pouco tempo, era destino de primeira escolha? Um levantamento do site especializado Skift constatou que quase metade dos viajantes consultados — 46% — disse estar menos disposta a visitar os Estados Unidos em 2025 por causa das políticas do presidente Donald Trump. Não é opinião marginal. É quase metade do planeta viajante virando as costas para um único governante.
Penso na história de Rebecca Burke, mochileira galesa que fazia a travessia da América do Norte trocando pequenas tarefas domésticas por hospedagem, arranjo comum entre jovens viajantes havia gerações, e que terminou detida por três semanas, levada ao avião de volta algemada, segundo relatou o próprio pai, como se transportassem uma criminosa perigosa. Penso também em Karen Newton, britânica que viajava com documentação legal e passou seis semanas presa por ser considerada culpada pelo visto vencido do marido — punida por vínculo afetivo, não por infração própria. São abusos, e chamo-os pelo nome certo. Relatos como esses, multiplicados aos milhares em plataformas como Threads, moldam a reputação de um país com mais eficácia do que qualquer campanha publicitária consegue desfazer. O Reino Unido e a Alemanha atualizaram seus alertas oficiais de viagem, advertindo os próprios cidadãos de que visto ou autorização eletrônica de entrada não garantem, sozinhos, a travessia da fronteira americana. Quando dois aliados históricos sentem necessidade de avisar seus cidadãos sobre o risco de entrar nos Estados Unidos, algo se rompeu que nenhum comunicado de embaixada consertará depressa.
A conta que aparece no quarto de hotel vazio
Sinto, ao reunir esses relatos, indignação que não nasce de retórica de colunista, nasce da memória de quem já atravessou dezenas de fronteiras e sabe distinguir rigor legítimo de hostilidade deliberada. O gasto de visitantes estrangeiros nos Estados Unidos somou cerca de 176 bilhões de dólares em 2025, quase 5% a menos que no ano anterior — cerca de 8 bilhões de dólares que deixaram de circular pela economia americana e foram gastos, com prazer e sem medo, em outro país. A consultoria Tourism Economics calcula que o estrago real, somado ao crescimento que se projetava antes da virada política, pode chegar à casa dos 25 bilhões de dólares. Enquanto isso, o resto do planeta viajou como há muito não viajava: o turismo internacional somou 80 milhões de deslocamentos a mais no mundo em 2025, justamente no ano em que os visitantes aos Estados Unidos recuaram. A causa não foi conjuntura global. Foi escolha de governo, tomada em Washington, paga por trabalhador em Miami e no Maine.
Essa escolha aparece, sobretudo, no quarto de hotel que ninguém ocupou. No Maine, estado que historicamente vive do turista canadense, mais de quatro em cada dez quartos de hotel ficaram vazios ao longo do ano — situação pior que a do ano anterior —, e atrás dessa diferença estão camareira sem turno de trabalho, restaurante de beira de estrada sem reserva, motorista de van de aeroporto sem corrida marcada. Ninguém no alto escalão do governo americano paga essa conta. Quem paga é gente que nunca leu um discurso presidencial na íntegra e que só percebe, no fim do mês, que o salário veio menor porque um vizinho decidiu, com toda razão, não atravessar mais a fronteira.
O vizinho que deixou de atravessar a rua rindo
Nenhum caso ilustra essa ruptura com mais eloquência do que o canadense, talvez porque nenhuma outra fronteira do mundo tenha sido, por tanto tempo, motivo de humor afetuoso entre dois povos. Pierre Trudeau, primeiro-ministro do Canadá nos anos 1970, resumiu a vizinhança numa imagem que atravessou gerações: viver ao lado dos Estados Unidos, dizia ele, é como dormir ao lado de um elefante — sente-se cada contração e cada grunhido do vizinho gigante, por mais gentil que o animal pareça ser. Décadas depois, a cultura pop transformou a mesma proximidade em piada mais leve, a de que o Canadá seria apenas “o chapéu da América”, acessório fiel colado à cabeça do vizinho maior. As duas piadas nasceram do afeto. O afeto foi tratado com desprezo, e desprezo tem preço.
Um em cada quatro canadenses que costumavam visitar os Estados Unidos deixou de fazê-lo neste ano, e mais de um terço dos que cruzavam de carro pela fronteira terrestre simplesmente parou de atravessar. Só em março, quase 900 mil canadenses a menos entraram no país vizinho em relação ao mesmo mês do ano anterior. Não houve decreto fechando passagem alguma, e por isso o estrago é ainda mais grave: bastou a palavra. Bastaram a ameaça repetida de anexar o Canadá como estado americano e a tarifa comercial usada como punição para que um povo inteiro decidisse, sem que nenhum burocrata assinasse papel algum, que a piada do elefante havia deixado de ser engraçada. O canadense que cancelou a viagem de inverno à Flórida não fez gesto de guerra. Fez gesto de dignidade, e dignidade ferida não se compra de volta com desconto de baixa temporada.
O que fica quando a hospitalidade se retira
A Copa do Mundo de 2026 deveria ter sido a prova cabal de que os Estados Unidos continuavam capazes de atrair multidões. Em parte, foi: mais de 6,8 milhões de pessoas passaram pelos estádios do torneio, número próximo do projetado. Mas o componente internacional dessa cifra fracassou de um jeito que a própria indústria do turismo não teve como esconder. A Tourism Economics havia estimado mais de 1,2 milhão de visitantes internacionais somente para as partidas em solo americano; a previsão precisou ser rebaixada depois que os Estados Unidos se tornaram o único grande país do mundo a registrar queda de turistas internacionais justamente em ano de Copa — vergonha que nenhum outro anfitrião de Mundial já colecionou. Em Seattle, cidade-sede, quase dois em cada dez visitantes internacionais esperados para os jogos simplesmente não vieram, retração puxada sobretudo pela ausência de torcedores canadenses. Uma pesquisa da associação americana de hotéis constatou que a maioria dos hotéis nas onze cidades-sede recebeu reservas abaixo do previsto — em Kansas City, quase nove em cada dez hotéis venderam menos quartos do que haviam planejado vender, apesar de sediar partidas de alto nível.
Enquanto os Estados Unidos viam suas próprias expectativas de bilheteria murchar, México e Canadá colhiam exatamente o efeito inverso, e é justo que colhessem. Analistas do setor registraram reservas mais fortes nas partidas disputadas em solo mexicano e canadense, atribuídas ao custo mais baixo de hospedagem e passagem, mas também à ausência do mesmo clima de suspeita que cercava a travessia da fronteira americana. Um levantamento do Bank of Montreal mostrou que os Estados Unidos, sediando três em cada quatro partidas do torneio, ficaram com quatro em cada cinco dólares gastos pelos torcedores — proporção que parece generosa à primeira vista, mas que, feita a conta por partida, expõe o quanto do gasto de cada torcedor se concentrou fora do território americano, em cidades mexicanas e canadenses que sediaram fração bem menor dos jogos e ainda assim atraíram torcedor disposto a gastar sem medo.
Toda nação com pretensão de protagonismo global aposta em soft power: cinema, universidade, moda, paisagem. Os Estados Unidos possuem quantidade rara desses ativos, e nenhum deles compensou fila de imigração hostil, detenção arbitrária relatada em tempo real nas redes, ou vizinho chamado repetidamente de futuro estado americano em discurso oficial. O órgão federal de turismo projeta que o número de visitantes internacionais só deve voltar ao patamar anterior à pandemia em 2029. Quatro anos de espera por uma confiança que se construiu ao longo de gerações inteiras e foi despedaçada em poucos meses de retórica hostil, por decisão de um único governo, sem que nenhuma fatalidade externa obrigasse a esse resultado.
Escrevo, ao fechar este texto, sem intenção de amenizar o veredicto: reputação de país não se repõe com evento esportivo nem com campanha publicitária de verão. Repõe-se devolvendo à porta de entrada aquilo que foi arrancado dela à força — a certeza, para quem chega de longe, de que será recebido como hóspede, e não interrogado como suspeito.
https://revistaforum.com.br/opiniao/os-turistas-mudaram-de-destino/
03 de agosto de 2026
O pão chega com juros nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, famílias recorrem cada vez mais ao crédito para comprar alimentos, enquanto preços elevados e custos financeiros comprimem o orçamento doméstico


lendo a edição digital do Washington Post, deparei-me com uma reportagem que merece atenção muito além das fronteiras dos Estados Unidos. Cresce o número de famílias que recorre ao cartão de crédito, ao sistema “compre agora, pague depois“, a empréstimos de curto prazo e até às próprias economias para comprar alimentos. A refeição termina no mesmo dia. A dívida continua presente durante semanas ou meses.
A dimensão do problema aparece nas estatísticas. Pesquisa realizada pelo Washington Post em parceria com o Ipsos mostra que dois terços dos norte-americanos consideram os alimentos caros demais para seu orçamento. O levantamento alcançou inclusive famílias com renda anual superior a US$ 100 mil, sinal de que o encarecimento da cesta básica deixou de atingir apenas os segmentos de menor renda e passou a pressionar parte expressiva da classe média.
A maior alta em décadas
Observo que esse fenômeno não nasceu de um único fator. Desde 2019, os alimentos consumidos em casa acumularam alta próxima de 33% nos Estados Unidos, o maior avanço em décadas. Em junho, a inflação anual perdeu força em relação ao mês anterior, mas permaneceu acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve. Os preços deixaram de subir no mesmo ritmo, porém continuaram elevados, preservando boa parte das perdas sofridas pelo consumidor ao longo dos últimos anos.
Vejo, nesse ponto, uma experiência brasileira que merece ser examinada. Se os Estados Unidos dispusessem de um sistema semelhante ao Pix, gratuito para pessoas físicas, com liquidação em segundos e funcionamento ininterrupto, bilhões de dólares deixariam de alimentar as taxas cobradas sobre pagamentos eletrônicos. Em Nova Iorque, comerciantes convivem com custos médios entre 1,5% e 3,5% nas operações com cartões, despesas frequentemente incorporadas ao preço final dos produtos. No fim da cadeia, o consumidor também financia a engrenagem do sistema financeiro.
Dívidas adiadas
O quadro torna-se ainda mais preocupante quando estudos mostram o crescimento do número de norte-americanos que carregam para os meses seguintes a dívida contraída na compra de alimentos. Nesse instante, o crédito deixa de antecipar investimentos, viagens ou aquisição de patrimônio. Passa a sustentar uma necessidade que nenhuma família consegue adiar: colocar comida sobre a mesa.
Enxergo nesse retrato um alerta direto para o Brasil. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, mais de 80% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de endividamento, tendo o cartão de crédito como principal modalidade. Aplicativos, crédito instantâneo e limites pré-aprovados facilitam a compra, mas reduzem a percepção do verdadeiro custo do dinheiro quando a fatura vence.
Considero que a geladeira abastecida já não representa, necessariamente, segurança financeira. Em muitos lares, ela apenas indica que alguém transferiu para o mês seguinte a conta do arroz, do leite, dos ovos e do pão comprados hoje. A pobreza contemporânea aprende a ocultar seus sinais externos enquanto a dívida cresce silenciosamente dentro de casa.
Uma economia pode registrar crescimento, inovação tecnológica e mercados financeiros sofisticados. Ainda assim, existe um indicador que continua insubstituível: a capacidade de uma família comprar alimentos com o fruto do próprio trabalho, sem recorrer ao crédito. Quando o supermercado passa a funcionar como agência bancária, deixa de estar em jogo apenas o preço da comida. A autonomia das famílias começa a ser financiada pelos juros.
https://revistaforum.com.br/opiniao/o-pao-chega-com-juros-nos-estados-unidos/
30 de julho de 2026
A história que viaja com as exportações — O que o consumidor chinês ainda não sabe sobre o Brasil
Grandes obras, portos, ferrovias e fábricas aproximam continentes, mas somente narrativas sobre quem produz, constrói e transforma realidades consolidam uma parceria verdadeiramente estratégica entre povos


A China recebe do Brasil minério de ferro, soja, café, celulose, carne, algodão e petróleo. Recebe navios carregados de produtos que ajudam a abastecer sua indústria, sua matriz energética e a segurança alimentar de sua população. O que raramente atravessa o oceano com a mesma intensidade são as histórias das pessoas que produzem essas riquezas. O comércio bilateral já alcançou uma dimensão suficiente para exigir um novo tipo de narrativa, capaz de mostrar que, por trás de cada carga desembarcada em um porto chinês, existe um território, uma comunidade, uma cadeia produtiva e milhares de brasileiros cujo trabalho permanece invisível para quem consome o resultado final.
Durante décadas, a cobertura sobre as relações entre Brasil e China concentrou-se, quase exclusivamente, nos grandes indicadores econômicos. As estatísticas são fundamentais. Informam recordes de exportação, crescimento da corrente de comércio, investimentos e participação de mercado. Mas números, por mais impressionantes que sejam, dificilmente despertam pertencimento. Eles explicam o tamanho da parceria, não a sua natureza. A economia aproxima países; as histórias aproximam sociedades.
Essa diferença ficou evidente em uma conversa ocorrida em Pequim. Diante de uma paisagem dominada por edifícios modernos, bastou comentar que parte do aço utilizado naquelas construções tinha origem no minério extraído das montanhas de Minas Gerais para despertar surpresa genuína entre empresários chineses. Naquele instante, o minério deixou de ser uma commodity negociada em escala global. Passou a ter geografia, trabalhadores, cidades e identidade. Aquele comentário transformou uma cadeia de suprimentos em uma história compartilhada.
Esse episódio ilustra uma oportunidade ainda pouco explorada pelo jornalismo dedicado às relações sino-brasileiras. A China valoriza o storytelling não como simples estratégia de comunicação, mas como instrumento para compreender pessoas, culturas e processos. Essa lógica pode enriquecer profundamente a cobertura sobre o comércio bilateral. Em vez de informar apenas quantas toneladas de café foram embarcadas, vale mostrar quem cultiva esses grãos, quais tecnologias foram incorporadas às lavouras, como cooperativas se organizaram, de que forma universidades contribuíram para aumentar a produtividade e como pequenas cidades se transformaram graças à inserção no mercado internacional.
O mesmo vale para o minério de ferro, para a celulose, para a carne bovina, para o algodão e para tantas outras cadeias produtivas que unem os dois países. Cada produto transporta conhecimento acumulado durante décadas, inovação tecnológica, desafios ambientais, investimentos privados e trabalho humano. Quando essas histórias chegam ao leitor chinês, o comércio deixa de ser uma sequência de contratos para adquirir dimensão social e cultural.
Existe uma segunda agenda igualmente importante. Ela não está nos navios, mas nas obras que estão redesenhando a integração entre a América do Sul e a Ásia. Projetos de infraestrutura apoiados por empresas chinesas vêm alterando a geografia econômica do continente e merecem acompanhamento permanente por parte de jornalistas brasileiros. Não basta registrar o anúncio de um investimento. É preciso acompanhar sua execução, ouvir as comunidades envolvidas, medir seus impactos e compreender como esses empreendimentos são percebidos pela sociedade.
O Porto de Chancay, no Peru, é um dos exemplos mais relevantes dessa transformação. Sua operação tende a reduzir custos logísticos, encurtar rotas marítimas e ampliar a competitividade de produtos sul-americanos destinados ao mercado asiático. Entretanto, a verdadeira reportagem começa depois da inauguração. Quais regiões serão beneficiadas? Como cadeias produtivas serão reorganizadas? Quais oportunidades surgirão para empresas brasileiras? Que desafios permanecem?
A mesma abordagem pode ser aplicada aos investimentos realizados no Brasil. A implantação da fábrica da BYD em Camaçari representa muito mais do que a chegada de uma montadora de veículos elétricos. Envolve formação de mão de obra, transferência de conhecimento, criação de fornecedores nacionais e novas perspectivas para a indústria brasileira. Projetos como a Ponte Salvador–Itaparica, assim como iniciativas ferroviárias, rodoviárias e energéticas associadas à cooperação sino-brasileira, também precisam ser observados para além das cifras anunciadas. São obras que modificam o cotidiano de cidades, influenciam decisões empresariais e alteram a dinâmica regional.
Há ainda uma terceira dimensão frequentemente negligenciada: a produção de conhecimento. O diálogo entre Brasil e China não depende apenas de governos ou grandes corporações. Pesquisadores, professores, especialistas em agricultura, infraestrutura, meio ambiente, logística e desenvolvimento regional produzem análises de enorme qualidade que muitas vezes permanecem restritas ao ambiente acadêmico. Incorporar essas contribuições ao debate público amplia a qualidade da cobertura jornalística e aproxima o leitor das questões que realmente moldam a parceria bilateral.
As relações entre Brasil e China entraram em uma fase de maturidade. O desafio já não consiste apenas em acompanhar recordes comerciais, mas em explicar o significado desses números para quem vive dos dois lados do oceano. O agricultor que cultiva soja no Centro-Oeste, o minerador em Minas Gerais, o pesquisador que desenvolve novas variedades agrícolas, o engenheiro envolvido em projetos logísticos e o empresário que investe em inovação participam da mesma história, embora raramente apareçam juntos na mesma reportagem.
O melhor jornalismo é aquele que consegue revelar essas conexões. Ele transforma estatísticas em pessoas, investimentos em experiências concretas e acordos internacionais em histórias compreensíveis para qualquer leitor. Ao fazer isso, contribui para que brasileiros conheçam melhor a China e para que chineses conheçam melhor o Brasil.
Os navios continuarão cruzando os oceanos carregados de mercadorias. Mas será a circulação de conhecimento, confiança e reconhecimento mútuo que determinará a profundidade dessa parceria nas próximas décadas. Produtos constroem mercados. Histórias constroem relações duradouras. É justamente nesse espaço que o jornalismo pode oferecer sua contribuição mais valiosa.
26 de julho de 2026
O tempo entrou na pauta do Brasil (por Washington Araújo)
Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta (15), revela apoio ao fim da escala 6x1 e recoloca o tempo no debate nacional


Durante décadas, a discussão sobre trabalho no Brasil foi confinada aos indicadores tradicionais da economia. Salários, inflação, desemprego, produtividade e crescimento ocuparam o centro das decisões públicas. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira (15), rompe esse enquadramento ao revelar que 69% dos eleitores defendem o fim da escala 6×1. O dado não representa apenas uma preferência sobre jornadas de trabalho. Expõe uma mudança de percepção sobre o significado do tempo na vida de milhões de brasileiros.
O aspecto mais expressivo do levantamento não está propriamente na maioria favorável à mudança, mas na justificativa apresentada pelos entrevistados. Entre eles, 53% afirmam que utilizariam o tempo conquistado para descansar e conviver com a família. A resposta merece atenção porque desmonta uma narrativa consolidada durante anos: a de que o trabalhador brasileiro estaria permanentemente disposto a trocar qualquer hora disponível por mais renda. A pesquisa revela outra realidade. Existe uma parcela crescente da sociedade que passou a enxergar o tempo como patrimônio, e não apenas como moeda de produção.
Há muito acompanho esse debate e considero um equívoco tratá-lo como disputa entre empregados e empregadores. Essa simplificação empobrece uma questão muito mais ampla. Nenhuma economia consistente pode desprezar os efeitos produzidos por jornadas prolongadas sobre a saúde, a concentração, a vida familiar e a capacidade de formar cidadãos. O custo dessa equação raramente aparece nos balanços financeiros, mas costuma chegar, mais cedo ou mais tarde, às contas públicas e ao cotidiano das empresas.
Outra contradição tornou-se evidente. O avanço tecnológico transformou profundamente os processos produtivos. Sistemas inteligentes executam, em segundos, tarefas que antes consumiam horas de trabalho humano. Empresas ampliaram eficiência, reduziram desperdícios e aceleraram decisões. Apesar disso, a organização das jornadas continua, em grande medida, submetida a uma lógica concebida para uma economia que já não existe. A tecnologia avançou. A cultura do trabalho permaneceu quase imóvel.
Não interpreto esses números como autorização para decisões precipitadas. Reformas dessa dimensão exigem estudos rigorosos, transições responsáveis e diálogo permanente com todos os setores envolvidos. Ignorar o resultado da pesquisa, porém, seria um erro político e social. Quando quase sete em cada dez eleitores convergem sobre um tema dessa natureza, o assunto deixa de ser uma reivindicação localizada e passa a integrar a agenda nacional.
Outro resultado reforça essa leitura. Quando a hipótese de redução da jornada é associada à diminuição salarial, o apoio cai de forma significativa. A mensagem transmitida pelos entrevistados é clara. Não se reivindica trabalhar menos a qualquer preço. Defende-se uma reorganização do trabalho capaz de preservar renda, competitividade e qualidade de vida. Essa distinção muda completamente o eixo da discussão e afasta interpretações superficiais.
Vejo nessa pesquisa o retrato de um país que começa a rever prioridades construídas ao longo de décadas. O debate já não se limita à quantidade de horas trabalhadas. Passa a questionar que tipo de sociedade está sendo edificada quando o tempo destinado à família, ao descanso, ao estudo e ao convívio humano se torna progressivamente escasso. Essa é a questão mais decisiva levantada pelo estudo.
O Congresso Nacional terá diante de si uma decisão que ultrapassa o campo das relações trabalhistas. Estará discutindo qual lugar o tempo ocupará no projeto de desenvolvimento brasileiro das próximas décadas. A pesquisa não oferece respostas definitivas, nem poderia fazê-lo. Mas estabelece um marco político difícil de ignorar: o país deixou de discutir apenas emprego. Começou a discutir a arquitetura da própria vida cotidiana.
https://sul21.com.br/opiniao/2026/07/o-tempo-entrou-na-pauta-do-brasil-por-washington-araujo/
16 de julho de 2026
Wall Street sente cheiro de sangue
Wall Street percebe antes dos governos onde faltarão dólares, onde empresas quebrarão e onde a população pagará, em desemprego, impostos e serviços menores, a próxima crise


Em 28 de junho de 2026, o Banco de Compensações Internacionais, sediado em Basileia e conhecido como o banco dos bancos centrais, colocou em linguagem técnica uma ameaça que o mercado já percebeu: a dívida pública recorde passou a dividir o mesmo terreno com fundos altamente alavancados, capazes de transformar uma oscilação em fuga e uma fuga em crise.
Wall Street conhece esse terreno. Quando governos precisam rolar dívidas cada vez maiores, empresas chegam ao vencimento de títulos baratos e países pobres perdem acesso a crédito razoável, o mercado não enxerga apenas risco. Enxerga fraqueza. E fraqueza, nas finanças, reduz preços, acelera vendas e transfere poder para quem ainda conserva caixa.
O Fundo Monetário Internacional calcula que a dívida pública mundial ficou próxima de 94% do PIB em 2025 e poderá alcançar 100% em 2029. A OCDE estima que governos e empresas buscarão US$ 29 trilhões nos mercados em 2026, 17% acima de 2024. Somente os governos terão de refinanciar cerca de US$ 14 trilhões. Boa parte desse dinheiro não criará uma estrada, uma fábrica ou um laboratório. Servirá para pagar compromissos antigos com juros novos e mais altos.
É nesse ponto que a dívida deixa de ser assunto de tesouraria e passa a comandar a política. Quanto maior a parcela do orçamento entregue aos credores, menor a liberdade de financiar saúde, educação, infraestrutura e proteção social. Governos endividados discursam sobre soberania diante das câmeras e negociam sob pressão diante das mesas de bancos e fundos.
Nos países de renda baixa e média, a conta já tem rosto. Entre 2022 e 2024, essas economias enviaram aos credores US$ 741 bilhões a mais do que receberam em novos financiamentos, a maior sangria em pelo menos meio século. Em 2024, a dívida externa conjunta chegou a US$ 8,9 trilhões. A escola adiada, o hospital sem equipamento e a estrada abandonada aparecem nos relatórios com um nome neutro: ajuste fiscal.
A dívida corporativa também perdeu a aparência de problema administrável. Em 2025, empresas emitiram US$ 13,7 trilhões em bônus e empréstimos sindicalizados, recorde histórico, enquanto o estoque global alcançou US$ 59,5 trilhões. Muitas companhias refinanciarão papéis contratados quando o dinheiro era barato. A diferença entre aqueles juros e os atuais será cobrada em investimento menor, demissões, venda de patrimônio e concentração econômica. Os mais frágeis não negociarão crescimento; negociarão sobrevivência sob a vigilância impaciente de seus credores.
O perigo aumentou porque mudou o perfil de quem compra títulos soberanos. Fundos de hedge operam com recursos emprestados para ampliar ganhos pequenos. Enquanto os preços permanecem estáveis, a engrenagem parece eficiente. Quando margens aumentam ou garantias perdem valor, esses fundos vendem ao mesmo tempo. Os preços caem, os juros sobem e novas vendas se tornam obrigatórias. O mercado que prometia liquidez produz pânico.
Os Estados Unidos estão no centro dessa arquitetura. Seus títulos formam a referência do preço mundial do dinheiro. Quando Washington paga mais para se financiar, hipotecas, empréstimos empresariais e dívidas soberanas encarecem do Texas à África. O privilégio do dólar protege os Estados Unidos, mas espalha suas decisões pelo planeta.
A ameaça, portanto, não reside apenas no volume da dívida. Está na coincidência entre vencimentos elevados, juros caros, crescimento fraco e investidores alavancados. Em 2008, o problema nasceu em hipotecas tratadas como seguras. Agora, a fragilidade percorre títulos públicos, crédito privado, imóveis comerciais e empresas sustentadas por promessas de lucros futuros.
Wall Street sente cheiro de sangue porque sabe quem será obrigado a vender primeiro. O fundo com liquidez comprará barato. O credor imporá condições. O concorrente absorverá ativos. E o cidadão, que nunca participou da aposta, receberá a conta em desemprego, impostos e serviços públicos menores.
As crises financeiras mudam de nome, mas preservam uma regra antiga: os prejuízos descem a escada; os ativos sobem para quem já estava no topo.
https://www.brasil247.com/blog/wall-street-sente-cheiro-de-sangue/
14 de julho de 2026
O desenvolvimento precisa ter rosto humano
Entre Yunus, Sachs, Žižek e agricultores mineiros, nasce uma pergunta dura: desenvolvimento serve à vida ou continua ainda servindo aos velhos privilegiados do país real brasileiro


Há poucos dias, em Minas Gerais, visitei dois projetos ligados à agricultura cafeeira e voltei com uma advertência que trabalha dentro de mim. Recebi números, tabelas, custos por hectare, estimativas de safra, crédito, produtividade, logística, risco climático, juros e mão de obra. Tudo era necessário, mas percebi que o excesso de informação por pouco não me transformava numa cabeça de planilha. Eu sabia mais sobre índices do que sobre a ansiedade do agricultor que olha o céu; mais sobre fluxo de caixa do que sobre a família que espera a florada.
A vida de ninguém é fácil, mas a vida do agricultor tem uma dureza que a cidade costuma olhar sem perceber. Há uma distância cruel entre a xícara de café servida com elegância e a soma de riscos que ela carrega.
O agricultor negocia com a chuva que atrasa, o sol que castiga, a praga que avança, o banco que cobra, o atravessador que aperta, o combustível que sobe, a estrada que piora e o filho que talvez não queira permanecer no campo. Quando voltei de Minas, compreendi melhor que desenvolvimento só começa a ser verdadeiro quando recupera o rosto de quem produz.
É por isso que a palavra desenvolvimento me inquieta quando chega limpa demais, cercada de eficiência, escala e metas. Não rejeito a técnica. A planilha ajuda a organizar custos, prever perdas, corrigir desperdícios, disputar crédito e planejar o futuro.
O problema nasce quando a planilha deixa de servir à vida e passa a comandá-la como se gente fosse coluna ajustável. O especialista é necessário, mas se torna perigoso quando acredita saber mais sobre a comunidade do que a própria comunidade sabe.
Aprendi a desconfiar da linguagem que promete salvar povos sem se sentar diante deles. Já vi a distância entre a promessa pública e a casa sem saneamento, entre o discurso sobre inclusão e a mulher que atravessa a cidade antes do amanhecer, entre a obra anunciada com palanque e a comunidade que seguirá pagando a conta. A teoria tem valor quando encurta essa distância; quando aumenta, transforma-se em ornamento de gabinete.
Volto a Muhammad Yunus, criador de uma experiência bancária que enxergou pobres como sujeitos econômicos. O que me interessa nele não é a celebração fácil do microcrédito, pois crédito sem proteção também pode virar armadilha, mas a mudança moral do olhar. Yunus perguntou por que pessoas pobres eram tratadas como risco absoluto, enquanto grandes devedores recebiam confiança e refinanciamento.
No Brasil, essa inversão ainda assusta porque o crédito, o imposto e a política pública não tratam todos com o mesmo rigor.
Grandes grupos econômicos chegam ao Congresso com departamentos jurídicos, consultores, lobistas, estudos sob medida e acesso direto a quem decide. Conseguem anistias fiscais, renúncias por prazos longos, regimes especiais, perdões discretos, refinanciamentos generosos e, quando o benefício está perto de vencer, articulam sua renovação como se fosse interesse nacional.
E os pequenos produtores? Enfrentam gerente de banco, cadastro, garantia, juros, atraso no repasse, assistência técnica insuficiente, estrada ruim, preço instável, clima incerto e uma burocracia que muitas vezes lhes exige mais documentos do que oferece confiança.
A desigualdade começa aí: onde o grande transforma privilégio em política de Estado, o pequeno precisa provar todos os dias que merece continuar produzindo.
Também leio Jeffrey Sachs com atenção, porque sua insistência em saúde, educação, infraestrutura e cooperação internacional lembra que a pobreza extrema não desaparece por discursos generosos. Ela exige dinheiro, Estado, planejamento, saneamento e continuidade. Mas a experiência brasileira me ensinou que planejamento sem escuta pode fracassar com orçamento aprovado e relatório impecável.
O investimento precisa saber onde pisa, que feridas toca, que poder local fortalece, que dependência cria e que comunidade pretende deixar de pé.
Žižek me interessa por outro caminho. O filósofo esloveno costuma arrancar a embalagem bondosa do capitalismo contemporâneo e mostrar a contradição escondida no consumo humanitário, na caridade como espetáculo, no marketing que transforma culpa em produto e na política que administra sintomas sem enfrentar estruturas. Quando penso nisso, vejo o nosso gosto por campanha, selo, aplicativo, prêmio, vídeo oficial e evento. Tudo parece em movimento, enquanto a justiça permanece do lado de fora.
Por isso, antes de qualquer plano, quero ouvir as raízes das comunidades. Não me basta consultar diagnósticos produzidos à distância, estudos governamentais, relatórios de confederações industriais ou apresentações destinadas a conselhos de grandes corporações. Esses instrumentos podem ajudar, mas não substituem a vida.
É preciso chegar perto, escutar sem pressa, sentir o que as pessoas sentem, descobrir o que realmente lhes falta, compreender o que já sabem fazer e reconhecer a inteligência acumulada em sua experiência. O papel aceita promessas que não sangram; a vida cobra água, renda, transporte, escola, proteção, respeito e pertencimento.
Também me alarma o sequestro do desenvolvimento pela linguagem do marketing e da publicidade. Há obras em que a placa, a campanha, o vídeo, o evento e a consultoria de imagem parecem disputar importância com a própria melhoria. A propaganda devora recursos, organiza a vaidade, escolhe o melhor ângulo e entrega ao povo menos substância do que brilho. Quando isso acontece, o desenvolvimento deixa de servir à comunidade e passa a servir à biografia de governos, empresas e administradores.
A água expõe essa fraude com brutalidade. O rio vira ativo, a nascente vira oportunidade, a comunidade vira obstáculo, e o pobre descobre que até a sede pode ser administrada por quem jamais carregou um balde no sol. A juventude também revela nosso fracasso quando é treinada apenas para disputar vagas pequenas em economias medíocres. Quero jovens capazes de pensar o bairro, a escola, a cidade, o campo, a ciência, a cultura e o poder.
Penso nos mestres do barro, da madeira, do tecido, da palha, da pesca, da agricultura familiar, das sementes e do café que me recebeu em Minas. Quando o Estado nem mede direito uma atividade, já começou a apagá-la. Quantas inteligências o Brasil perdeu porque a política pública só enxerga indústria grande, banco grande, obra grande e cidade grande?
A tecnologia merece a mesma suspeita: importa saber a quem serve, quem substitui, quem enriquece e que tipo de humanidade enfraquece.
Desenvolvimento, para merecer esse nome, precisa ter rosto, mão, memória, endereço e consequência. Quero vê-lo na água pública, no crédito acessível, no trabalho protegido, na juventude com voz, na ciência com consciência, na lavoura que sustenta cidades distraídas e nas comunidades que ainda sabem produzir sem destruir tudo ao redor.
Depois de Minas, voltei menos disposto a aceitar discursos bonitos e mais interessado em saber se a política pública consegue olhar nos olhos de quem planta, trabalha, cuida e espera.
https://www.brasil247.com/blog/o-desenvolvimento-precisa-ter-rosto-humano/
11 de julho de 2026
Fome não é destino, é decisão — e a decisão mudou
Juros, câmbio, dívida, emprego e inflação: doze mostradores no painel da economia apontam um país que sobe, ainda que sob turbulência externa


Imagine a cabine de um Boeing lotado — trezentas pessoas, tripulação e carga — no instante anterior à decolagem. Diante do piloto, doze instrumentos condensam tudo o que decide a vida de quem vai a bordo: o GPS com a rota, o radar meteorológico com as tempestades à frente, o indicador de combustível, o altímetro, o velocímetro, o horizonte artificial que revela se a aeronave está nivelada quando as nuvens engolem o chão, a bússola do rumo, o variômetro da subida e da descida, os sensores de temperatura e pressão dos motores, o alerta de proximidade do solo e o rádio com a torre. Uma luz vermelha nesse painel cala mil discursos. O bom piloto obedece aos instrumentos; a esperança de que esteja tudo bem não sustenta avião no ar.
Guardo essa imagem porque a economia de um país é exatamente isto: um voo coletivo, conduzido por pilotos que respondem por vidas que nem conhecem. Também tem o seu painel, também com doze mostradores. Vou percorrê-los da direita para a esquerda, com os números deste julho de 2026, e então farei o que todo bom comandante faz antes de agradecer a travessia: comparar este voo ao de 2022, aquele que por muito pouco não virou tragédia.
O painel de bordo
Começo pela rota e pela velocidade. A Selic, o juro interno, está em 14,25% ao ano — entre os mais altos do planeta —, o preço do dinheiro em casa, que segura a inflação e encarece o crédito. Lá fora, o Federal Reserve mantém o seu entre 3,5% e 3,75%: é o vento dominante, e, quando o dinheiro rende nos Estados Unidos, ele tende a sair daqui. O câmbio, velocímetro do voo, marca o dólar perto de R$ 5,15, estável, sinal de confiança do estrangeiro no destino brasileiro.
Nos motores, o PIB deve crescer cerca de 2% em 2026, segundo o Focus e a Fitch — altitude modesta, ascendente. O emprego é o mostrador mais quente: desemprego de 5,4%, o menor da série do IBGE, com mais de 102 milhões de ocupados. A Bolsa subiu 6,76% no semestre, e o investimento estrangeiro direto beira US$ 75 bilhões.
No combustível e no lastro, a dívida pública acende a luz âmbar: a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 81,1% do PIB, o maior nível em cinco anos, e o risco fiscal pisca junto num ano eleitoral. Contra isso, as reservas somam US$ 366,9 bilhões, e a balança comercial ruma a um superávit perto de US$ 76 bilhões. A inflação, projetada em 5,3%, ainda supera a meta de 3% — a única turbulência real do painel. E há a frente fria externa: a tarifa de 25% que os Estados Unidos jogaram sobre produtos brasileiros. Doze mostradores, um veredito: a aeronave sobe, o motor responde, o tanque aguenta.
O voo 2022, quando quase caímos
Para dimensionar este voo, é preciso lembrar o anterior. Em 2022, o mesmo painel piscava vermelho de ponta a ponta. A inflação em doze meses beirou 12,13% em abril daquele ano; o preço do arroz, da carne e do gás subia de uma semana para a outra. E o instrumento que mais dói, a renda do trabalhador, despencou ao menor valor de toda a série histórica do IBGE — entre a metade mais pobre, o rendimento caiu 15,1% num único ano, e a desigualdade, no índice de Gini, subiu de 0,524 para 0,544. No ranking das nações, o Brasil, que já saíra do grupo das dez maiores economias em 2020, arrastava-se pela 11ª posição. Em 2021, havíamos voltado ao Mapa da Fome da ONU, a vergonha que julgávamos sepultada.
Nada disso caiu do céu. Enquanto a renda do povo minguava, o governo federal daquele período escolheu o palanque. A três meses da eleição, aprovou a PEC Kamikaze — a Emenda 123 de 2022 —, que liberou R$ 41 bilhões fora do teto de gastos para turbinar benefícios de véspera de urna; o Supremo, em 2024, declararia a manobra inconstitucional, por abuso de poder eleitoral. Foi dinheiro torrado em benesse de ocasião enquanto o salário mínimo apenas repunha a inflação, sem um centavo de ganho real, enquanto faltava investimento em educação e saúde, programas sociais essenciais entravam e saíam ao sabor da conveniência e serviços públicos definhavam. Voar assim é queimar combustível para acender fogos na pista.
O painel humano
O voo 2026 inverte aquele quadro, e a inversão tem provas. Comece pela mais simbólica: em 28 de julho de 2025, a FAO anunciou que o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU — a subalimentação caiu abaixo de 2,5% da população no triênio 2022-2024. É obra de política pública: a retomada do Brasil Sem Fome, da transferência de renda, da alimentação escolar e do apoio ao pequeno agricultor. Voltar àquele mapa, em 2021, foi a nossa maior vergonha; sair dele outra vez prova que a fome, no Brasil, sempre foi escolha política antes de ser destino.
A renda voltou a subir de verdade. O salário mínimo, que em 2022 apenas repunha a inflação, passou a ter ganho real acima dela a cada ano — de R$ 1.212 então para R$ 1.621 em 2026 —, movimento que alcança quase 60 milhões de pessoas. Entre 2021 e 2024, a renda média do brasileiro cresceu mais de 25% em termos reais, o maior avanço em três anos seguidos desde o Plano Real, e o país cravou os menores índices de pobreza e de desigualdade de sua história.
Veio ainda a justiça tributária adiada por décadas: a Lei 15.270, sancionada em novembro de 2025, isenta do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil por mês e reduz o tributo até R$ 7.350, aliviando cerca de 15 milhões de contribuintes — com a conta assumida por quem recebe acima de R$ 1,2 milhão ao ano. Na prática, é mais salário no fim do mês para o professor, o enfermeiro e o motorista de aplicativo, a classe que faz o país girar.
E a saúde voltou à farmácia do bairro. Retomado em 2023, depois de anos de abandono, o Farmácia Popular tornou gratuitos, em 2025, todos os seus 41 itens — da insulina à dapagliflozina para diabéticos, das fraldas geriátricas aos remédios de colesterol e pressão —, com orçamento recorde de R$ 4,2 bilhões, 69% acima do de 2022, e quatro milhões de novos beneficiários. Braço do SUS, o programa chegou a 444 municípios que ainda não o conheciam, quase todos no Norte e no Nordeste.
Os motores da travessia
Se a cabine social se recompôs, os motores externos rugem mais forte. O agronegócio, que em 2022 parecia no teto de sua potência, decolou de novo: o Plano Safra saltou dos R$ 340,88 bilhões de 2022/2023 para R$ 525,1 bilhões na safra empresarial de 2026/2027, e a agricultura familiar — a que põe arroz e feijão na mesa — recebeu dois planos recordes seguidos, somando mais de R$ 225 bilhões, com juros de 2% a 3% para o alimento básico. O que parecia impensável ao próprio agro virou rotina.
No comércio exterior, o Brasil diversificou a rota. As trocas com a China, nosso maior parceiro desde 2003, bateram o recorde de US$ 171 bilhões em 2025 — mais que o dobro do comércio com os Estados Unidos —, com exportações de US$ 100 bilhões e superávit de US$ 29,1 bilhões, quase metade de todo o saldo brasileiro com o mundo. E, em 1º de maio de 2026, entrou em vigor a parte comercial do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, sonhado por 26 anos: tarifa zero para mais de 80% das nossas exportações a um mercado de 718 milhões de pessoas.
Some-se a isso a volta do país ao clube das dez maiores economias do planeta, com o Fundo Monetário Internacional projetando o Brasil na oitava posição até 2028. O avião que quase caiu agora ganha altitude no cenário global.
Dois olhos abertos
Encerro onde comecei, na cabine, mas confesso o que me move a escrever isto. Não é o gráfico do PIB nem a linha do câmbio: é a lembrança recente de um país que voltou ao Mapa da Fome e a certeza, hoje, de que dele saímos outra vez. Esse é o único altímetro que me interessa de verdade — a altura a que um povo consegue viver com dignidade. Ela subiu.
Digo sem rodeios: a economia brasileira vai bem, e vai muito melhor do que ia.
Mas céu limpo é justamente quando o piloto adormece, e adormecer, aqui em cima, custa vidas. Guerras que não terminam, nacionalismos estúpidos, o protecionismo ressuscitado com nome de tarifa: o horizonte segue carregado. Por isso, não solto o manche. Voo com um olho na nossa gente e outro no mundo, porque quem pilota país não tem o direito de piscar.
O voo 2026 é bom. Que a próxima geração o receba ainda mais alto do que está hoje, e que ninguém a deixe repetir o mergulho de 2022, quando por muito pouco não caímos.
https://www.brasil247.com/blog/fome-nao-e-destino-e-decisao-e-a-decisao-mudou/
09 de julho de 2026
Afinal, onde nasce, de verdade, a riqueza deste país?
Muito além do café, Patrocínio mostra como pequenas cidades brasileiras sustentam cadeias globais de valor sem receber reconhecimento proporcional à sua contribuição econômica


Existe um Brasil que abastece o mundo inteiro e permanece praticamente desconhecido dos próprios brasileiros. Patrocínio, no Alto Paranaíba mineiro, é uma dessas histórias. Enquanto milhões de pessoas começam o dia tomando um café produzido naquela região, a imensa maioria jamais ouviu falar da cidade onde aquele grão nasceu. Esse aparente detalhe ajuda a explicar um dos grandes paradoxos nacionais: exportamos produtos de excelência, mas conhecemos muito pouco os municípios que constroem diariamente essa reputação.
Durante muitos anos escrevi sobre governos, crises econômicas, eleições e relações internacionais. Em quase todos esses assuntos, as atenções se concentram nas grandes capitais. Entretanto, uma parte decisiva da economia brasileira nasce longe dos centros de poder. Ela é construída em cidades médias, onde inovação, tecnologia, pesquisa e trabalho cotidiano transformam atividades tradicionais em negócios competitivos no mercado internacional.
Patrocínio tornou-se um exemplo vibrante dessa transformação. O município integra a Região do Cerrado Mineiro, formada por 55 cidades, primeira região cafeeira brasileira a conquistar a Denominação de Origem concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Esse reconhecimento não funciona como um simples selo comercial. Ele certifica que a qualidade do café depende diretamente do território onde é produzido, da altitude superior a 800 metros, das condições climáticas, da rastreabilidade e do conhecimento acumulado pelos produtores ao longo de décadas.
A Expocacer
Esses números ajudam a compreender a dimensão dessa realidade. Criada em 1993 por cerca de cinquenta cafeicultores que decidiram adquirir coletivamente um armazém, a Expocacer transformou-se em uma das principais cooperativas cafeeiras do país. Hoje reúne mais de 760 cooperados, possui capacidade estática para armazenar um milhão de sacas, movimenta diariamente mais de 30 mil sacas entre recebimento e embarque e comercializa mais de 1,5 milhão de sacas por ano. Seus cafés chegam a mais de 35 países, e a cooperativa mantém estruturas comerciais permanentes nos Estados Unidos e na Inglaterra para aproximar produtores e compradores internacionais.
Há outro dado que me chamou atenção. A Expocacer tornou-se a primeira cooperativa de café do mundo certificada em agricultura regenerativa. Ao mesmo tempo, programas de mapeamento da qualidade analisam mais de mil amostras por safra para identificar microlotes destinados aos mercados mais exigentes. Em um segmento no qual consumidores querem conhecer a origem do produto, o nome do produtor, as práticas ambientais e até a história da fazenda, vender café passou a significar vender confiança.
Essa mudança de paradigma aparece também nas palavras de quem lidera esse processo.
O propósito central
A presidente do Conselho de Administração da cooperativa, Mariana Velloso Heitor, representante da terceira geração de uma família de cafeicultores, afirma que fortalecer continuamente a cafeicultura do Cerrado Mineiro permanece sendo o propósito central da instituição. Já o diretor-presidente executivo, Simão Pedro de Lima, resume a estratégia de forma objetiva: colocar o café de Patrocínio diretamente nas mãos dos consumidores do mundo.
Enquanto boa parte do debate nacional ainda gira em torno da exportação de commodities, Patrocínio demonstra que valor agregado, identidade territorial e cooperação podem transformar um produto agrícola em referência internacional.
Tecnologia e preservação
Mas a cidade também convida a outra reflexão. Ao lado de uma cafeicultura altamente tecnológica permanecem a antiga estação ferroviária, inaugurada entre 1917 e 1918, e a Serra Negra, conhecida por suas águas minerais e por uma estância hidromineral que durante décadas recebeu visitantes de várias regiões do país. São lembranças de que desenvolvimento econômico e preservação histórica nem sempre caminham juntos. Produzir riqueza é indispensável. Preservar a memória dos lugares onde ela nasceu também deveria ser.
No próximo dia 2 de julho estarei em Patrocínio a convite de um velho amigo, Márcio Araújo. Compartilhamos o sobrenome, embora não a família. Ele é mineiro; este articulista, potiguar. Márcio integra o grupo dos jornalistas mais respeitados de sua geração. Dirigiu durante muitos anos a área de Comunicação da Câmara dos Deputados e, mesmo aposentado, continua sendo uma das conversas mais inteligentes, generosas e bem-humoradas que Brasília me deu. Viajaremos em uma caravana de oito a dez amigos. Espero aproveitar esses dias para ouvir produtores, professores, comerciantes, trabalhadores e jovens que escolheram permanecer na cidade. É desse encontro entre pessoas, histórias e experiências que espero compreender melhor o que as estatísticas, sozinhas, nunca conseguem contar.
https://revistaforum.com.br/opiniao/afinal-onde-nasce-de-verdade-a-riqueza-deste-pais/
30 de junho de 2026
Brasil amplia autonomia ao acessar capital chinês
Diversificação financeira ganha força na política econômica brasileira com acesso ao mercado chinês, sinalizando planejamento e visão de longo prazo


Há notícias que faço questão de ler duas ou três vezes antes de escrever. Aprendi, depois de décadas acompanhando economia e relações internacionais, que algumas decisões aparentemente técnicas acabam revelando mudanças muito mais profundas do que deixam transparecer na primeira leitura. Foi exatamente essa impressão que tive ao conhecer a intenção do governo brasileiro de emitir, pela primeira vez, títulos soberanos em yuan no mercado doméstico chinês. Quem enxergar apenas uma operação financeira estará olhando para a árvore e ignorando a floresta.
Durante muito tempo, acostumei-me a ver o Brasil recorrer quase sempre aos mesmos caminhos quando precisava dialogar com o mercado internacional de capitais. Nova York ocupava posição central. Londres aparecia logo depois. Em alguns momentos, Frankfurt ampliava esse circuito. Era como se o mapa financeiro mundial tivesse poucos endereços realmente relevantes. A realidade de hoje é outra. A economia global tornou-se mais distribuída, a Ásia consolidou-se como centro de produção, investimento e inovação, e a China deixou de ser apenas a grande fábrica do planeta para transformar-se também em uma das maiores fontes de crédito e liquidez internacionais. Ignorar essa transformação seria interpretar o presente com categorias do passado.
É por isso que considero tão importante a decisão brasileira. O Tesouro Nacional prepara uma emissão de até 5 bilhões de yuans, cerca de US$ 735 milhões, por meio dos chamados Panda Bonds, títulos colocados diretamente no mercado financeiro chinês. Em termos fiscais, a operação pouco altera o perfil da dívida pública brasileira, medida em trilhões de reais. Seu alcance, porém, vai muito além do valor captado. Pela primeira vez, o Estado brasileiro convida investidores chineses a participarem diretamente do financiamento de sua dívida soberana. Isso altera a natureza da relação entre os dois países. Até agora, a China era principalmente nossa maior compradora de produtos. Passa, gradualmente, a tornar-se também financiadora do Estado brasileiro.
Não interpreto esse movimento como simples diversificação cambial. Vejo nele uma mudança estratégica de posicionamento internacional. Em abril deste ano, o Brasil voltou ao mercado europeu depois de mais de uma década sem emissões naquele ambiente, captando 5 bilhões de euros. A procura superou 16 bilhões de euros, demonstrando forte confiança dos investidores internacionais na economia brasileira. Agora surge uma terceira avenida financeira. O país deixa de depender exclusivamente dos mercados tradicionais para construir uma presença também no maior mercado de capitais da Ásia. Essa sequência não parece casual. Ela revela planejamento.
Sempre desconfiei da ideia de que autonomia nacional se constrói apenas com discursos diplomáticos. Países fortalecem sua soberania quando ampliam suas possibilidades de escolha. Quem depende de uma única moeda, de um único mercado financeiro ou de um único centro de crédito aceita, consciente ou inconscientemente, viver sob limitações que não controla. Diversificar não significa romper relações com parceiros históricos. Significa reduzir vulnerabilidades. É exatamente isso que as grandes economias procuram fazer quando o cenário internacional se torna mais imprevisível.
Os números ajudam a compreender essa decisão. Desde 2009, a China ocupa a posição de maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, o intercâmbio entre os dois países ultrapassou US$ 170 bilhões, respondendo por mais de um quarto de todo o comércio exterior brasileiro. Nenhum outro parceiro possui hoje essa dimensão econômica nas relações com o Brasil. Continuar concentrando nossas fontes de financiamento apenas nos mercados ocidentais, enquanto a maior relação comercial brasileira se fortalece na Ásia, passou a representar uma assimetria difícil de justificar.
Também não estamos diante de uma experiência isolada. Portugal abriu esse caminho em 2019, tornando-se o primeiro integrante da zona do euro a emitir títulos soberanos em yuan. A Hungria aprofundou essa estratégia e lançou uma emissão de 5 bilhões de yuans em 2025. O Egito captou 3,5 bilhões de yuans em 2023. A Eslovênia realizou uma emissão de 4 bilhões de yuans neste ano. O Cazaquistão estreou recentemente nesse mercado com 3,4 bilhões de yuans, registrando demanda muito superior à oferta. O Paquistão também prepara sua entrada. Cada país possui motivações distintas, mas todos chegaram à mesma conclusão: ampliar as alternativas de financiamento fortalece a posição internacional do Estado.
O caso brasileiro, contudo, possui uma característica própria. Diferentemente de alguns desses países, o Brasil não enfrenta sanções econômicas, não perdeu acesso aos mercados em dólar nem necessita recorrer ao yuan por falta de opções. Está fazendo uma escolha, não respondendo a uma emergência. Essa diferença muda completamente a leitura geopolítica da operação. Não se trata de procurar uma saída. Trata-se de construir novas possibilidades antes que elas se tornem indispensáveis.
Outro aspecto merece atenção. Empresas brasileiras como Vale e WEG já demonstraram interesse em acessar o mercado financeiro chinês. Para grupos que produzem, investem e vendem intensamente naquele país, captar recursos em yuan reduz riscos cambiais e aproxima receitas das obrigações financeiras. A emissão soberana do Tesouro cria uma referência importante para futuras operações privadas, funcionando como porta de entrada para um relacionamento financeiro muito mais amplo entre as duas economias.
Vejo um erro recorrente em parte do debate brasileiro. Ainda insistimos em interpretar qualquer aproximação com a China como se representasse, automaticamente, um afastamento dos Estados Unidos. Essa lógica talvez tenha feito sentido durante a Guerra Fria. Hoje ela empobrece a análise. As grandes potências defendem seus interesses nacionais com clareza. A China faz isso. Os Estados Unidos também. A União Europeia, igualmente. Não encontro razão para que o Brasil seja o único país chamado a justificar permanentemente suas escolhas estratégicas.
Ao observar essa emissão em yuan, não penso em substituição de moedas nem em disputas ideológicas. Penso em autonomia. Penso na capacidade de um país negociar simultaneamente com diferentes centros financeiros, diferentes investidores e diferentes moedas, preservando maior liberdade para tomar decisões. Essa me parece ser a verdadeira novidade.
Continuo convencido de que o futuro pertencerá às nações capazes de ampliar suas opções, e não às que permanecerem presas às estruturas que organizaram a economia mundial durante tantas décadas. O Brasil possui alimentos, energia, água, biodiversidade, capacidade industrial e um mercado interno entre os maiores do planeta. Não há razão para comportar-se como economia periférica quando pode atuar como protagonista. A emissão soberana em yuan não muda, sozinha, a posição brasileira no mundo. Mas sinaliza que começamos, finalmente, a compreender que independência econômica não nasce de discursos. Nasce da coragem de construir alternativas.
https://www.brasil247.com/blog/brasil-amplia-autonomia-ao-acessar-capital-chines#google_vignette
27 de junho de 2026
Amazon corta 14 mil vagas e amplia aposta em IA
Enquanto lucra bilhões, a Amazon dispensa 14 mil trabalhadores e aposta em máquinas que também erram, mas nunca precisarão procurar emprego


A Amazon informou que pretende, em 16 de setembro de 2026, reduzir em 14 mil pessoas seu quadro corporativo global. O corte corresponderá a cerca de 4% de seus 350 mil funcionários administrativos e representará a maior redução de pessoal promovida pela companhia desde 2023. A decisão foi comunicada aos empregados por Beth Galetti, vice-presidente sênior de Pessoas, Experiência e Tecnologia da empresa. Os trabalhadores afetados terão 90 dias para buscar recolocação interna. Aqueles que não encontrarem uma nova posição ou optarem por deixar a companhia receberão indenizações, assistência para recolocação profissional e manutenção temporária de benefícios de saúde.
O anúncio ocorre num momento em que a Amazon acelera investimentos bilionários em inteligência artificial. Nos últimos meses, a empresa comprometeu dezenas de bilhões de dólares na construção de centros de dados e infraestrutura tecnológica em estados como Carolina do Norte, Mississippi, Indiana e Ohio. Apenas o projeto da Carolina do Norte envolve investimentos estimados em US$ 10 bilhões.
O movimento já havia sido antecipado pelo diretor-presidente da companhia, Andy Jassy. Em junho, ele afirmou que a disseminação da inteligência artificial generativa reduziria a necessidade de determinados cargos corporativos nos próximos anos. Segundo Jassy, a Amazon já desenvolve mais de mil aplicações e serviços baseados em IA, número que classificou como apenas uma pequena fração dos projetos planejados para o futuro.
Os números ajudam a compreender a dimensão dessa transformação. A Amazon emprega cerca de 1,56 milhão de pessoas em todo o mundo. Sua divisão de computação em nuvem, a Amazon Web Services, registrou crescimento de 17,5% no trimestre mais recente. A empresa continua contratando trabalhadores temporários para períodos de maior demanda e mantém resultados financeiros sólidos. Ainda assim, escolhe reduzir parte de sua estrutura administrativa.
O caso Amazon interessa porque revela uma mudança que vai muito além de uma única empresa. Durante décadas, o crescimento corporativo foi associado à contratação de mais pessoas. Agora, algumas das companhias mais valiosas do planeta começam a perseguir um objetivo diferente: crescer sem ampliar proporcionalmente sua força de trabalho. Pela primeira vez, investimentos em algoritmos, centros de dados e capacidade computacional disputam espaço diretamente com empregos de alta qualificação.
Os defensores da inteligência artificial costumam lembrar que toda revolução tecnológica destruiu ocupações e criou outras. A observação é correta. O problema é a velocidade. Uma geração inteira pode ser deslocada antes que novas oportunidades sejam capazes de absorvê-la. Mercados se adaptam lentamente. Algoritmos evoluem em meses.
Os 14 mil empregos que desaparecerão na Amazon não ameaçam a estabilidade econômica da companhia. O que eles anunciam é algo maior: a transferência gradual de valor do trabalho humano para a infraestrutura tecnológica. A questão que emerge desse processo não é tecnológica, mas política. Quem ficará com os ganhos extraordinários de produtividade produzidos pela inteligência artificial? Se a resposta beneficiar apenas acionistas, investidores e gigantes digitais, estaremos diante de uma das maiores concentrações de riqueza da história moderna. Se beneficiar a sociedade como um todo, poderá inaugurar um novo ciclo de prosperidade. O século XXI será definido por essa escolha.
https://www.brasil247.com/blog/amazon-corta-14-mil-vagas-e-amplia-aposta-em-ia
08 de junho de 2026
A força de Pequim
Da pobreza extrema à liderança industrial mundial, a China consolidou um projeto nacional baseado em disciplina, estratégia e continuidade histórica


Há mais de trinta anos acompanho o desenvolvimento chinês, estudo suas estruturas de poder, observo suas reformas econômicas e procuro compreender como uma civilização milenar conseguiu atravessar guerras, humilhações externas, fome coletiva e revoluções sem perder a capacidade de planejar o futuro.
Poucos países contemporâneos demonstram tamanho senso de continuidade histórica.
Em salas de aula universitárias, congressos acadêmicos e artigos publicados ao longo dessas décadas, sempre chamaram atenção a velocidade e a profundidade das transformações chinesas. Nessas pesquisas, ensaios e análises jornalísticas, recorro permanentemente a fontes ocidentais de reconhecida credibilidade — Banco Mundial, FMI, ONU, universidades europeias e norte-americanas, relatórios econômicos internacionais, além de jornais como The New York Times, Financial Times e The Economist.
A intenção é simples.
Fugir tanto da propaganda quanto do preconceito ideológico.
A China exige observação cuidadosa.
Ao longo de mais de quatro milênios, o país atravessou guerras civis, invasões estrangeiras, rupturas dinásticas, fome e revoluções sem abandonar aquilo que talvez seja sua marca mais singular: a disposição de pensar em horizontes históricos longos.
Num planeta dominado pela ansiedade eleitoral, pelas oscilações das bolsas e pela velocidade superficial das redes sociais, Pequim opera em outro ritmo.
O governo chinês projeta ferrovias, universidades, corredores industriais e investimentos energéticos olhando para 2035, 2049 e até 2075.
Não se trata apenas de economia.
Trata-se de visão histórica.
Existe uma frase atribuída ao então primeiro-ministro chinês Zhou Enlai (1898–1976) que ajuda a compreender essa mentalidade. Questionado sobre os impactos da Revolução Francesa de 1789, Zhou teria respondido: “Ainda é cedo demais para avaliá-la.”
A frase talvez nunca tenha sido dita exatamente dessa maneira. Ainda assim, tornou-se simbólica porque traduz uma característica profunda da cultura política chinesa: processos históricos relevantes não são julgados pela espuma dos acontecimentos imediatos.
A virada econômica
Quando o presidente Xi Jinping (1953– ) declarou, em fevereiro de 2021, que a China havia eliminado a pobreza extrema em todo o país, o anúncio sintetizava um projeto iniciado décadas antes por Deng Xiaoping (1904–1997).
Entre 1978 e 2024, mais de 800 milhões de chineses deixaram a pobreza, segundo o Banco Mundial.
Nenhuma transformação social contemporânea ocorreu nessa escala.
Em 1981, quase 88% da população chinesa vivia em extrema pobreza. Hoje, a segunda maior economia do planeta abriga uma classe média estimada em mais de 400 milhões de pessoas.
O PIB chinês ultrapassou US$ 18 trilhões em 2025.
A China tornou-se o maior parceiro comercial de mais de 120 países. Também consolidou-se como principal comprador de commodities brasileiras, especialmente soja, minério de ferro e petróleo.
Tenho escrito inúmeros artigos ao longo dos anos tratando dessas mudanças da maneira mais imparcial possível, sempre estabelecendo comparações internacionais indispensáveis para compreender a velocidade da transformação chinesa.
Basta observar a inteligência artificial, os sistemas ferroviários de alta velocidade, a digitalização bancária, as cidades inteligentes e a modernização urbana de centros como Shenzhen, Xangai, Hangzhou e Chongqing.
Em várias dessas áreas, Estados Unidos e Europa passaram a correr atrás do atraso.
Diplomacia e influência
Outro aspecto que frequentemente impressiona é a consistência da diplomacia chinesa.
Ao longo dos últimos anos, em encontros acadêmicos, institucionais e culturais realizados em Brasília, tornou-se impossível não perceber o elevado preparo intelectual, o profissionalismo e a disciplina do corpo diplomático chinês no Brasil. Embaixadores, conselheiros e adidos demonstram conhecimento sólido sobre economia internacional, política brasileira e relações bilaterais.
Há método nisso.
A diplomacia chinesa raramente trabalha apenas para o presente. Ela constrói influência de forma gradual, paciente e silenciosa.
A história chinesa não pode ser analisada apenas como trajetória de um Estado moderno.
A China é uma civilização contínua.
Enquanto muitas nações contemporâneas possuem poucos séculos de existência, os chineses acumulam experiências administrativas, filosóficas e culturais que atravessaram milênios. Dinastias como Han, Tang, Song e Ming construíram sistemas sofisticados de arrecadação tributária, irrigação agrícola e burocracia profissionalizada quando boa parte da Europa ainda vivia fragmentada em feudos.
Muito antes do Ocidente discutir meritocracia, a China imperial já realizava exames públicos rigorosos para selecionar funcionários do Estado.
Também não é coincidência que invenções decisivas para a modernidade tenham surgido em território chinês. Papel, pólvora, bússola, impressão gráfica e técnicas hidráulicas avançadas nasceram ali séculos antes da Revolução Industrial europeia.
O peso das cicatrizes
Mas reduzir a história chinesa a uma sequência de êxitos seria distorcer os fatos.
O século XIX mergulhou o país numa das fases mais humilhantes de sua existência.
As Guerras do Ópio, iniciadas em 1839 pelo Império Britânico, abriram feridas que permanecem vivas na memória nacional chinesa. A derrota obrigou Pequim a aceitar tratados desiguais, ceder Hong Kong aos britânicos e abrir seus portos ao controle estrangeiro.
Quando Mao Zedong (1893–1976) proclamou a fundação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949, o país era majoritariamente rural, pobre e devastado.
A expectativa média de vida mal ultrapassava 35 anos.
Mais de 80% da população era analfabeta.
Houve erros graves.
O Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural produziram traumas humanos profundos.
Mas a virada econômica iniciada no fim dos anos 1970 alterou radicalmente o destino nacional. Deng Xiaoping compreendeu que slogans ideológicos não derrotariam a pobreza.
Sua frase mais célebre tornou-se símbolo do pragmatismo chinês moderno:
“Não importa a cor do gato, desde que ele cace ratos.”
Liderança tecnológica
Nas décadas seguintes, a economia chinesa cresceu perto de 10% ao ano durante mais de trinta anos consecutivos.
Em 2001, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio acelerou sua integração global.
Em 2010, o país ultrapassou o Japão e tornou-se oficialmente a segunda maior economia do mundo.
Hoje, a China responde por aproximadamente 30% da produção industrial global.
Possui a maior malha ferroviária de alta velocidade do planeta, com mais de 45 mil quilômetros de trilhos.
Lidera a produção mundial de painéis solares, baterias de lítio, drones comerciais, carros elétricos e minerais processados para a transição energética.
Mais de 80% dos painéis solares produzidos no mundo saem de fábricas chinesas.
Em veículos elétricos, empresas como BYD e CATL tornaram-se gigantes globais diante de uma indústria europeia enfraquecida e de uma indústria norte-americana ainda tentando reorganizar sua cadeia produtiva.
No campo da infraestrutura, os números impressionam.
A China construiu, em apenas duas décadas, mais quilômetros de metrô do que muitos países europeus edificaram em um século inteiro.
O porto de Xangai permanece o maior do mundo em movimentação de contêineres.
Pequim também lidera investimentos globais em energia limpa e disputa supremacia em inteligência artificial, computação quântica e telecomunicações avançadas.
Empresas como Huawei desafiaram diretamente a hegemonia tecnológica norte-americana.
A disputa deixou de ser apenas econômica.
Tornou-se estratégica.
Washington e Pequim
É nesse ponto que a diferença entre o atual modelo político chinês e a crise contemporânea da política norte-americana se torna mais evidente.
Enquanto Pequim trabalha com metas industriais para 2049 — ano do centenário da República Popular da China —, os Estados Unidos vivem crescente polarização institucional, tensões raciais, disputas eleitorais permanentes e conflitos culturais internos.
A comparação entre Xi Jinping (1953– ) e Donald Trump (1946– ) revela estilos radicalmente distintos de liderança.
Xi fala frequentemente em estabilidade, continuidade histórica, multipolaridade e planejamento estratégico.
Trump concentra grande parte de sua retórica em confrontos internos, imigração, disputas ideológicas domésticas e embates eleitorais permanentes.
O ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger (1923–2023), um dos maiores especialistas ocidentais em China, observou certa vez que “a China pensa em décadas; os Estados Unidos pensam em eleições”.
Kissinger compreendia que a força chinesa não nasce apenas de indicadores econômicos.
Ela repousa numa cultura estratégica consolidada ao longo dos séculos.
Literatura e cinema
Outro componente frequentemente ignorado é o papel da cultura contemporânea chinesa.
O escritor Mo Yan (1955– ) tornou-se uma das vozes literárias mais importantes da China moderna. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2012, Mo Yan construiu uma obra marcada pela mistura de realismo, memória rural, violência política e humor ácido.
Seu romance Sorgo Vermelho, publicado em 1986, transformou-se num fenômeno internacional após ser adaptado para o cinema por Zhang Yimou (1950– ). O livro retrata a brutal ocupação japonesa da China nos anos 1930, expondo fome, violência militar e resistência camponesa.
Já obras como Peitos Grandes, Quadris Largos e As Baladas do Alho mergulham nas contradições sociais produzidas pelas transformações econômicas chinesas e pelos traumas políticos do século XX.
Outro nome central da literatura chinesa contemporânea é Yu Hua (1960– ). Seu romance Viver tornou-se um clássico ao narrar a trajetória de uma família devastada pelas turbulências políticas da China maoista, incluindo guerra civil, fome e Revolução Cultural.
Outra obra de enorme repercussão foi Crônica de um Vendedor de Sangue, romance que retrata pobreza, sobrevivência e dignidade humana em meio às dificuldades econômicas da China do pós-guerra.
No cinema, poucos diretores tiveram impacto tão profundo quanto Zhang Yimou (1950– ). Filmes como Sorgo Vermelho, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 1988, Lanternas Vermelhas, indicado ao Oscar, e Hero, estrelado por Jet Li, Tony Leung e Maggie Cheung, transformaram-se em referências visuais do cinema contemporâneo.
Zhang Yimou combinou monumentalidade estética, crítica social e sofisticação visual como poucos diretores de sua geração. Em 2008, dirigiu a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, assistida por bilhões de pessoas no planeta.
Outro cineasta fundamental é Chen Kaige (1952– ), autor de Adeus Minha Concubina, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1993 e considerado um dos maiores filmes asiáticos do século XX.
A obra acompanha cinquenta anos da história chinesa através da trajetória de dois artistas da Ópera de Pequim. O filme atravessa ocupação japonesa, guerra civil e Revolução Cultural, mostrando como mudanças políticas profundas podem destruir vidas, afetos e identidades culturais.
Encontro-me neste momento iniciando a escritura do meu vigésimo primeiro livro, dedicado justamente a essas reflexões sobre China, geopolítica, inteligência artificial, modernidade urbana e transformação econômica.
O eixo do século
Depois de décadas observando o comportamento das grandes potências, tornou-se impossível ignorar que o eixo econômico, tecnológico e industrial do século XXI desloca-se rapidamente para a Ásia.
Talvez esteja exatamente aí a principal diferença chinesa.
Em um mundo dominado pela política do improviso, pela ansiedade eleitoral e pela tirania do curto prazo, Pequim trabalha com paciência histórica, disciplina estratégica e metas nacionais que atravessam gerações. Enquanto parte do Ocidente consome energia em crises internas permanentes, disputas ideológicas estéreis e polarizações que fragmentam suas próprias sociedades, a China amplia silenciosamente sua influência industrial, tecnológica, financeira, científica e diplomática.
O século XXI ainda está sendo escrito.
Mas poucos movimentos geopolíticos parecem tão claros quanto este: pela primeira vez desde a Revolução Industrial, o eixo econômico, tecnológico e estratégico do planeta desloca-se de forma acelerada para a Ásia — e nenhum país simboliza essa mudança com tanta força, organização e ambição histórica quanto a China.
22 de maio de 2026
Os infinitos tentáculos viscosos do polvo
Áudios, contratos e cifras milionárias desmontam versões sucessivas e revelam bastidores explosivos envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro — e estamos apenas no começo


Raramente escrevo por pressão de leitores. Jornalismo, para mim, deve responder antes de tudo aos fatos. Mas o caso Master continua produzindo novos personagens, novas contradições e zonas cada vez mais escuras. Já tratei do assunto em três artigos anteriores. Ainda assim, o escândalo segue crescendo como um monstrengo de águas profundas.
Desta vez, resolvi atender leitores de São Paulo, Ceará e Rio Grande do Sul. Há pautas que simplesmente se impõem. E cabe ao jornalista buscar ângulos menos óbvios sobre aquilo que já começa a contaminar o debate público brasileiro.
O bolsonarismo sempre gostou de acusar os outros de viverem de narrativas. Agora descobriu que a pior narrativa é aquela gravada em áudio, armazenada em celular alheio e vazada justamente no momento em que a fantasia eleitoral precisava parecer limpa.
A revelação central é simples e devastadora. Flávio Bolsonaro, que vinha negando proximidade com Daniel Vorcaro, negociou com o ex-banqueiro do Master cerca de US$ 24 milhões — algo próximo de R$ 134 milhões — para financiar Dark Horse, cinebiografia internacional de Jair Bolsonaro.
O número impressiona não apenas pela dimensão política, mas também pela escala cinematográfica. O valor negociado entre Flávio e Vorcaro seria suficiente para produzir aproximadamente três vezes Ainda Estou Aqui e cerca de cinco vezes O Agente Secreto. Isso ajuda a dimensionar o tamanho financeiro da operação que, inicialmente, tentava ser apresentada como simples iniciativa privada e quase artesanal de apoio cultural familiar.
Documentos e mensagens apontam que ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025. Não se trata de encontro casual. Não se trata de fotografia social. Não se trata de mera simpatia política.
A cronologia é cruel com Flávio. Em março, dizia que a “conta do Banco Master” estava longe da direita. Depois afirmou que não tinha relação relevante com Vorcaro. Em seguida, vieram mensagens tratando o banqueiro como interlocutor direto. Depois surgiram negociações milionárias. Depois apareceram áudios. Depois cronogramas financeiros.
A cada nova revelação, uma versão anterior desmoronava.
No dia em que as revelações vieram a público, Flávio reagiu primeiro com um “é mentira”, seguido de risos e evasivas. Horas depois, a própria realidade já havia desmontado a frase. Vieram áudios, mensagens, comprovantes e uma intimidade verbal incompatível com a distância política que ele tentava sustentar.
Primeiro, não havia relação. Depois, havia apenas uma aproximação privada. Primeiro, não conhecia direito. Depois, conhecia o suficiente para negociar dezenas de milhões de dólares. Primeiro, tratava-se de invenção da imprensa. Depois, virou “captação privada legítima”.
Impressiona a velocidade com que certas versões são apresentadas como verdades absolutas e, duas ou três horas depois, acabam descartadas pela sucessão dos fatos como lixo abandonado pela própria história.
A defesa de Flávio passou então a sustentar que tudo não passava de uma iniciativa privada de um filho tentando financiar um filme sobre o próprio pai. A frase tenta soar doméstica e afetiva, mas tropeça na escala do caso.
Filho costuma pedir ajuda para álbum de fotografias, homenagem familiar ou livro comemorativo. Não costuma captar cifras milionárias junto a um banqueiro cercado por investigações sobre um rombo bilionário.
Sempre entendi — e a vida tem reiteradamente confirmado isso — que toda decisão carrega consigo as consequências que inevitavelmente dela decorrem. Aproximar-se de personagens envolvidos em operações nebulosas quase nunca termina sem custo político, moral ou jurídico.
Mario Frias apareceu logo depois exercendo o velho papel de bombeiro que chega ao incêndio carregando gasolina. Disse que não existia “um único centavo” de Vorcaro no projeto.
Depois relativizou. Disse que, ainda que existisse dinheiro do banqueiro, isso não configuraria irregularidade alguma. A contradição é evidente. Primeiro, o dinheiro inexistia. Depois, sua existência deixou de ser problema.
A produtora GOUP entrou em cena tentando equilibrar o impossível. Disse que não recebeu recursos do Master. Também negou dinheiro vindo de empresas ligadas a Vorcaro.
Mas se recusou a revelar quem financiou efetivamente o projeto. Alegou cláusulas de confidencialidade. A versão cria um vazio difícil de sustentar. O dinheiro não veio do banqueiro. Mas a origem real também não pode ser conhecida.
Transparência parcial costuma ser apenas outra forma de opacidade.
Eduardo Bolsonaro também acabou tragado pelo enredo. Publicamente, sua participação parecia periférica. Bastidores e documentos começaram a indicar outra realidade.
A contradição aqui é estrondosa. Poucas horas antes da divulgação dos documentos, Eduardo sustentava que nada tinha a ver com a produção do filme. Afirmava que o projeto seguia sem seu envolvimento direto. Tentava transmitir a imagem de mero observador distante.
Então surgiu o contrato.
No documento revelado, a assinatura de Eduardo Bolsonaro aparece formalmente como produtor executivo do filme, ao lado de Mario Frias. Não como simpatizante. Não como apoiador informal. Não como alguém periférico. Produtor executivo.
A descoberta implode a versão anterior. Porque produtor executivo não é figura decorativa. Produtor executivo participa de decisões estratégicas, acompanha orçamento, avalia captação, discute cronogramas e integra o núcleo operacional do projeto.
A sequência dos fatos tornou tudo ainda mais desconfortável. Primeiro, Eduardo minimiza. Depois, documentos o colocam dentro da engrenagem central da produção. Primeiro, distância política e operacional. Depois, assinatura contratual.
Mais uma vez, os fatos caminharam numa direção e as versões públicas caminharam em outra.
Mensagens e contratos passaram a apontar envolvimento ativo no orçamento e na estrutura financeira da produção. A figura do simples apoiador informal começou a parecer pequena demais para o tamanho da engrenagem internacional que se desenhava nos bastidores.
O episódio da mansão adicionou uma camada quase caricatural ao caso. Mensagens revelaram tentativas de aproximar Jair Bolsonaro de Daniel Vorcaro em Brasília, justamente no período em que o ex-presidente enfrentava crescente pressão judicial.
Depois vieram negativas. Depois explicações parciais. Depois novas mensagens. O roteiro passou a avançar em círculos. Cada resposta criava uma nova pergunta.
Política, cinema, milionários, banqueiros investigados, mansões e produtores tentando viabilizar um épico eleitoral financiado por personagens explosivos. O roteiro parece exagerado até para streaming de baixa qualidade.
A repercussão internacional veio rapidamente porque o escândalo reúne ingredientes difíceis de ignorar. Um senador tentando negar vínculos já documentados. Um banqueiro associado a suspeitas bilionárias. Um filme político transnacional. E cifras incompatíveis com qualquer aparência de improviso artesanal.
O problema para o bolsonarismo é que a história deixou de parecer uma produção patriótica independente. Começou a adquirir o cheiro pesado de um sistema paralelo de influência, dinheiro e proteção mútua.
A ironia final talvez seja a mais dura. Dark Horse pretendia vender Jair Bolsonaro como o azarão perseguido pelo sistema.
As revelações recentes produziram justamente o oposto. Um retrato de proximidade entre poder político, dinheiro opaco e personagens mergulhados em investigações explosivas.
O filme ainda nem estreou. Mas o making of político já se transformou em um desastre de imagem difícil de controlar.
https://revistaforum.com.br/opiniao/os-infinitos-tentaculos-viscosos-do-polvo/
16 de maio de 2026
A nova economia espacial avança e o Brasil permanece fora da equação
O país transforma potencial em atraso e transfere para outras nações o controle de tecnologias essenciais ao seu próprio desenvolvimento


Há um dado que, à primeira vista, deveria nos constranger muito mais do que nos orgulhar. Brasil, Rússia, Índia, China e Estados Unidos formam um grupo raríssimo de países que combinam território continental, população acima de 100 milhões de habitantes e Produto Interno Bruto superior a US$ 1 trilhão. É uma elite objetiva da geopolítica contemporânea. No caso brasileiro, porém, essa condição tem servido menos como alavanca de poder e mais como álibi recorrente para justificar a ausência de decisões estruturais. Somos grandes nos números e pequenos nas escolhas.
Recordo a frase de Ozires Silva, fundador da Embraer, gravada na entrada do Centro Espacial do ITA: “o Brasil é grande demais para sonharmos pequeno”. A frase, frequentemente celebrada, revela hoje um contraste incômodo. Transformou-se, ao longo do tempo, em uma espécie de retórica de conforto — repetida com orgulho, mas desmentida pela prática. Porque, ao observarmos as últimas duas décadas, o que se impõe não é apenas a perda de ritmo, mas a consolidação de uma cultura política que naturaliza o atraso como se fosse inevitável.
Enquanto China e Estados Unidos estruturaram programas espaciais contínuos, com investimentos anuais que alcançam dezenas de bilhões de dólares e integração direta com suas estratégias industriais e militares, o Brasil seguiu um caminho errático, marcado por descontinuidade, contingenciamentos e ausência de visão sistêmica. Entre 2000 e 2023, a China investiu cerca de US$ 100 bilhões em seu programa espacial e realizou mais de 500 lançamentos orbitais, consolidando uma infraestrutura que combina soberania tecnológica com capacidade de influência global.
No mesmo período, o Brasil destinou aproximadamente US$ 1,5 bilhão ao setor, somando AEB, INPE e DCTA. Quando se observam os números anuais recentes, a assimetria torna-se não apenas evidente, mas estrutural: os Estados Unidos investem cerca de US$ 70 bilhões por ano; a China, entre US$ 14 e 18 bilhões; Rússia e Índia orbitam entre US$ 1,5 e 2,5 bilhões; o Brasil mal alcança US$ 50 milhões. Não se trata de atraso circunstancial, mas de uma escolha política reiterada, persistente e, sobretudo, cara em suas consequências.
Não se trata apenas de números. Trata-se de consequências concretas e cumulativas. O agronegócio brasileiro, altamente competitivo, depende cada vez mais de dados orbitais para monitoramento climático, gestão de safras e logística de exportação. A preservação da Amazônia exige sistemas sofisticados de observação da Terra e capacidade autônoma de processamento de dados. Sem investimento consistente, terceirizamos inteligência estratégica e aceitamos, de forma tácita, uma dependência tecnológica que limita nossa soberania e estreita nosso horizonte de decisão.
Quando se está atrás em uma corrida tecnológica, insistir em replicar o estágio anterior costuma ser a forma mais eficiente de permanecer atrás. A história recente da inovação mostra que saltos de paradigma são frequentemente realizados por quem reconhece cedo a obsolescência do modelo dominante. No campo espacial, isso já se desenha com clareza: arquiteturas baseadas exclusivamente em foguetes balísticos tendem a ser substituídas por sistemas híbridos, modulares e potencialmente disruptivos, como elevadores espaciais e plataformas omnidirecionais. Iniciativas como Sandaerospace e Sandaerovator indicam uma mudança de lógica — do lançamento episódico para o acesso contínuo e escalável ao espaço.
Nesse cenário, Conversando recentemente com um amigo especialista em assuntos aeroespaciais, ouvi algo que considero sábio: tecnologias ainda vistas como periféricas no Brasil podem adquirir centralidade estratégica. Microfoguetes, frequentemente tratados como soluções limitadas, podem ser integrados como módulos de sistemas maiores, compondo arquiteturas flexíveis e adaptáveis. Conceitos como estruturas cubo-esfera ou cubo-diamante, baseadas em materiais avançados como o aerografeno 3D-H2 Sandaero-Unimat, apontam para uma engenharia de massa extremamente reduzida, com implicações diretas na eficiência energética e nos custos operacionais. Não se trata apenas de lançar satélites, mas de reconfigurar a própria economia do acesso ao espaço.
As implicações dessa mudança vão muito além da engenharia e já começam a delinear uma disputa concreta por poder e recursos no século XXI. Sistemas modulares e de nova geração não apenas ampliam capacidades: reposicionam países na hierarquia tecnológica global. Operações como captura e eventual mineração de asteroides, hoje ainda em fase experimental, já mobilizam agências e consórcios privados que entendem o espaço como extensão da economia terrestre. A construção de infraestrutura orbital permanente deixou de ser hipótese — é agenda em curso. E mesmo propostas mais ousadas, como plataformas habitáveis em Vênus, entre 50 e 60 quilômetros de altitude — onde pressão e temperatura se aproximam das condições terrestres —, já migraram do imaginário para a pesquisa estruturada. Esse meu colega fez uma síntese incômoda: “quem dominar a logística do acesso contínuo ao espaço não apenas lidera — define as regras”.
Ignorar essa inflexão não é prudência; é autoexclusão deliberada da próxima fronteira econômica e estratégica do planeta.
O espaço, hoje, não é mais fronteira simbólica nem palco de disputas ideológicas da Guerra Fria. É infraestrutura crítica, tão essencial quanto redes de energia ou sistemas financeiros. Países menores, com menos recursos e menor escala econômica, já compreenderam essa mudança e priorizam o setor como vetor de desenvolvimento tecnológico e inserção internacional. O Brasil, entretanto, segue oscilando entre a retórica da grandeza e a prática do subfinanciamento crônico, como se ainda pudesse adiar indefinidamente decisões estruturais.
Nesse contexto, a distorção interna de prioridades torna-se ainda mais evidente. Enquanto o país destina valores irrisórios para áreas estratégicas, o Congresso Nacional ampliou significativamente o volume de recursos direcionados por emendas parlamentares de execução pouco transparente, conhecidas como Emendas PIX. Trata-se de dezenas de bilhões de reais alocados sem conexão clara com um projeto nacional de desenvolvimento. Não é apenas uma questão fiscal; é uma escolha política que desloca recursos do futuro para o presente imediato, reforçando uma lógica de curto prazo que inviabiliza qualquer estratégia consistente.
A percepção desse descompasso torna-se ainda mais aguda quando confrontada com experiências internacionais. Quem já teve a oportunidade de visitar a China ou acompanhar de perto sua dinâmica produtiva percebe que não se trata apenas de investimento em escala, mas de coordenação entre Estado, indústria e academia. O contraste com o Brasil não reside apenas nos números, mas na capacidade de execução, continuidade e alinhamento estratégico. É a diferença entre planejar décadas à frente e administrar crises sucessivas.
Diante desse cenário, a própria arquitetura de governança global revela sinais de anacronismo. A configuração do Conselho de Segurança da ONU, ainda baseada em um equilíbrio de poder do pós-guerra, já não reflete a distribuição real de capacidades econômicas, demográficas e tecnológicas do século XXI. A presença de países como Brasil e Índia nesse seleto grupo de grandes nações reforça a necessidade de revisão desse arranjo, sob pena de aprofundar a desconexão entre legitimidade e poder efetivo no sistema internacional.
A questão deixou de ser tecnológica há muito tempo. Tornou-se um teste implacável de lucidez histórica e de coragem política.
Persistir no subinvestimento não é erro — é decisão consciente de permanecer periférico.
E nenhuma nação do tamanho do Brasil tem o direito de escolher, deliberadamente, a irrelevância.
https://www.brasil247.com/blog/a-nova-economia-espacial-avanca-e-o-brasil-permanece-fora-da-equacao
15 de maio de 2026
E se a neutralidade econômica for a maior fraude do nosso tempo?
Em Escape from Capitalism, Mattei sustenta que cortes sociais não corrigem crises: garantem margens de lucro, aprofundam desigualdades e preservam a arquitetura do poder financeiro global.


Eu aprendi, ao longo dos anos escrevendo sobre sociologia, ética, política e poder, que toda neutralidade proclamada merece desconfiança. Foi com esse espírito que, em 2026, recebi Escape from Capitalism (Fuga do Capitalismo), lançado no Reino Unido pela Penguin Books. Não se trata de mais um título acadêmico a ocupar prateleiras especializadas. Desde a sua chegada às livrarias, o livro circula com tração incomum no debate público, atravessando universidades, think tanks e redações. Ao abri-lo, percebi rapidamente que não estava diante de um manual técnico, mas de uma acusação estruturada contra a própria ideia de que a economia seja ciência neutra, separada da disputa política. E é justamente a partir dessa suspeita inicial que o livro começa a ganhar densidade e urgência.
A economia não é neutra
Mattei, professora da The University of Tulsa e presidente do Forum for Real Economic Emancipation, sustenta algo que me fez interromper a leitura: “A economia não é neutra; é uma tecnologia de governo.” Se aceito essa premissa, todo o edifício muda de lugar. De repente, debates sobre autonomia dos bancos centrais, metas de inflação e tetos fiscais deixam de ser meras escolhas técnicas. Passam a ser dispositivos que moldam previamente o campo do possível. Quando um ministro afirma que “não há alternativa”, talvez esteja apenas reproduzindo a gramática dessa tecnologia de governo.
E é nesse ponto que a autora aprofunda o argumento, deslocando-o do plano conceitual para o terreno concreto das políticas públicas. Ela escreve: “A austeridade não é um erro. É um imperativo estrutural do lucro.” A frase exige pausa. Durante anos, ouvimos que ajustes fiscais eram necessários para restaurar confiança e estabilidade.
Mattei me obriga a inverter a lógica: e se o corte de direitos sociais não for remédio, mas sintoma? Se o sistema precisa constantemente garantir margens de rentabilidade, então a compressão de gastos sociais torna-se mecanismo previsível. O que parecia contingência revela-se engrenagem.
Essa engrenagem, porém, não funciona apenas no plano macroeconômico. Ela se infiltra no cotidiano. É nesse encadeamento que surge outra afirmação perturbadora: “O desemprego funciona como mecanismo de disciplina.” Não se trata de metáfora exagerada.
Num mundo de trabalho intermitente, aplicativos, contratos frágeis e terceirizações sucessivas, o medo da exclusão molda comportamentos. A fila invisível de substituição é permanente. Quando conecto essa ideia às estatísticas globais de precarização, percebo que o desemprego não é apenas número trimestral; é mensagem política contínua: aceite menos, questione menos.
A crítica avança, então, para um dos dogmas mais repetidos da modernidade econômica. Mattei afirma: “Crescimento, tal como medido pelo PIB, mensura acumulação, não bem-estar.” Aqui o nexo se completa. Se a austeridade disciplina e o desemprego controla, o crescimento legitima. Festejamos índices positivos mesmo quando florestas são devastadas, cidades se tornam inabitáveis e desigualdades se aprofundam. O PIB sobe; a qualidade de vida nem sempre acompanha. A métrica transforma expansão de capital em sinônimo de progresso humano.
Democracia sob tutela
E, ao chegar a esse ponto, a autora formula talvez a síntese mais desconfortável do livro: “Não há soberania democrática sob dependência de mercado.” Essa frase conecta todas as anteriores. Se políticas são limitadas por expectativas financeiras, se orçamentos são definidos pela reação de investidores, se reformas sociais precisam antes agradar mercados, então a democracia opera sob tutela. Governos eleitos tornam-se administradores de constrangimentos globais. A soberania popular passa a existir dentro de margens estreitas.
Não por acaso, o historiador Adam Tooze observou que o livro ilumina como o poder político está codificado na própria teoria econômica. Ao dialogar com análises publicadas na Jacobin por Steven Mather e Scott Aquanno, percebo que o debate ultrapassa a denúncia e entra no campo das alternativas.
Se a dependência do mercado limita a democracia, escapar dela exigiria planejamento macroeconômico coordenado e fortalecimento de capacidades estatais — sobretudo diante da urgência da transição ecológica, que o capital privado não financia na escala necessária.
Esse encadeamento de ideias já estava anunciado em The Capital Order (A Ordem do Capital), mas aqui ganha contornos mais explícitos e propositivos. Ao fechar Escape from Capitalism (Fuga do Capitalismo), não sinto que li um tratado técnico. Sinto que fui conduzido por um raciocínio que começa desmontando a neutralidade da economia, passa pela anatomia da austeridade e do desemprego, questiona o fetiche do crescimento e termina desafiando a própria arquitetura da soberania contemporânea.
O livro não oferece conforto. Ele exige reposicionamento. E talvez seja essa sua maior virtude: lembrar-me de que aquilo que aprendemos a tratar como inevitável pode, sob exame rigoroso, revelar-se apenas construção histórica — e, portanto, passível de transformação.
https://revistaforum.com.br/opiniao/e-se-a-neutralidade-economica-for-a-maior-fraude-do-nosso-tempo/
11 de maio de 2026
Imposto sobre bilionários divide os Estados Unidos
Discussão tributária expõe impasse político americano entre financiamento social crescente, limites constitucionais e concentração extrema de riqueza nacional


A desigualdade voltou ao centro da política americana carregada por uma frase de enorme apelo popular. Nas redes sociais, espalhou-se a ideia de que um imposto anual de 5% sobre os bilionários dos Estados Unidos seria suficiente para financiar programas gigantescos e ainda entregar milhares de dólares diretamente às famílias do país. A mensagem ganhou velocidade porque oferece uma solução simples para um problema real. Mas os números apresentados nela desmoronam sob uma verificação elementar.
O senador Bernie Sanders foi rapidamente associado à proposta. A relação parece natural. Sanders construiu sua carreira política defendendo aumento de impostos sobre grandes fortunas, heranças e ganhos extraordinários de capital. Sua crítica à concentração de riqueza nos Estados Unidos atravessa décadas. Ainda assim, a versão que viralizou — com arrecadação trilionária e distribuição direta de dinheiro às famílias — não aparece em nenhum projeto formal defendido por ele.
A confusão ajuda a explicar o estado atual do debate público americano. Fórmulas complexas passaram a circular comprimidas em frases curtas, desenhadas para causar impacto imediato. Nesse ambiente, detalhes fundamentais desaparecem: limites jurídicos, efeitos econômicos, dificuldades operacionais e até coerência matemática.
Os Estados Unidos concentram hoje algo entre 900 e 1.000 bilionários. O patrimônio somado desse grupo gira na faixa de US$ 5 trilhões a US$ 6 trilhões. Uma taxação anual de 5% sobre essa base produziria arrecadação estimada entre US$ 250 bilhões e US$ 300 bilhões por ano, isso antes de evasão fiscal, reestruturações patrimoniais e disputas judiciais inevitáveis.
O dado desmonta o principal valor repetido nas publicações virais: os US$ 4,4 trilhões frequentemente mencionados. A diferença não é pequena nem secundária. Em algum ponto da circulação digital, projeções de vários anos foram misturadas com arrecadação anual. Também existe a possibilidade mais direta: inflação deliberada dos números para ampliar o efeito político da mensagem.
A inconsistência reaparece na promessa de distribuição direta às famílias. Os Estados Unidos possuem cerca de 130 milhões de domicílios. Caso US$ 4,4 trilhões fossem divididos igualmente, cada família receberia aproximadamente US$ 33 mil — não os US$ 12 mil citados em milhares de postagens. A própria narrativa entra em choque com sua matemática interna.
Nada disso elimina a relevância do debate sobre taxação de grandes fortunas. A concentração de riqueza nos Estados Unidos atingiu níveis históricos nas últimas décadas, impulsionada principalmente pela valorização explosiva de empresas tecnológicas, ativos financeiros e participações acionárias. Uma parte expressiva desse patrimônio cresce continuamente sob mecanismos tributários muito menos pesados do que aqueles aplicados sobre salários e consumo.
É justamente nesse ponto que defensores de impostos sobre grandes patrimônios sustentam sua crítica. A percepção disseminada em amplos setores da sociedade americana é a de que trabalhadores comuns pagam proporcionalmente mais tributos do que indivíduos protegidos por estruturas financeiras sofisticadas, holdings familiares, fundos privados e mecanismos internacionais de blindagem patrimonial.
A discussão não pertence apenas ao campo ideológico. Ela atravessa universidades, organismos multilaterais e setores importantes da economia europeia e americana. O problema começa na tentativa de transformar esse diagnóstico em política pública concreta.
A primeira dificuldade está na natureza desses patrimônios. A riqueza dos bilionários não permanece parada em contas bancárias. Grande parte dela existe em ações, participações empresariais e ativos privados sujeitos a oscilações diárias de mercado. Avaliar permanentemente esse estoque patrimonial abriria disputas técnicas e judiciais praticamente intermináveis.
Existe ainda a questão da liquidez. Uma taxação patrimonial elevada poderia obrigar empresários e investidores a vender ativos para gerar caixa, produzindo efeitos sobre empresas, bolsas e cadeias de investimento. Economistas divergem sobre a dimensão desses impactos, mas poucos tratam o tema como algo simples.
Outro obstáculo aparece na mobilidade internacional dessas fortunas. Mudanças de residência fiscal, reorganizações societárias e transferência de ativos para jurisdições mais favoráveis fazem parte do repertório global das grandes riquezas contemporâneas.
A dimensão jurídica também pesa. Um imposto federal direto sobre patrimônio enfrentaria forte contestação constitucional nos Estados Unidos e abriria anos de batalha nos tribunais.
No fundo, a discussão expõe um impasse que atravessa a sociedade americana: o avanço extraordinário da riqueza no topo da pirâmide econômica diante de demandas sociais cada vez mais pressionadas por saúde, educação, moradia e endividamento familiar.
A questão permanece aberta. O que já se tornou evidente é outra coisa: slogans produzem engajamento com facilidade muito maior do que políticas viáveis. E números inflados ajudam mais a incendiar paixões políticas do que a esclarecer o tamanho real do problema.
https://www.brasil247.com/blog/imposto-sobre-bilionarios-divide-os-estados-unidos
11 de maio de 2026
Escala 6×1 expõe exploração disfarçada de produtividade no Brasil
Oposição à redução da jornada reproduz argumentos usados contra férias, salário-mínimo e 13º salário, já refutados


O debate sobre o fim da escala 6×1 não é uma disputa entre conforto e produtividade. É um embate direto entre evidência empírica e um padrão histórico de resistência do poder econômico a qualquer avanço civilizatório no mundo do trabalho.
O Brasil começa a discutir, com atraso crônico, aquilo que organismos multilaterais, centros de pesquisa e empresas já testaram em escala real: jornadas menores produzem trabalhadores mais saudáveis, reduzem custos sistêmicos e elevam a eficiência por hora trabalhada. O que está em jogo não é teoria. É prática comprovada — ignorada.
A escala 6×1 atinge 33,2% dos empregos formais no país, segundo dados do Ministério do Trabalho divulgados pela Agência Brasil com base em 2025. Traduzindo: cerca de um terço da força de trabalho brasileira vive sob um regime de desgaste contínuo, com apenas um dia de descanso semanal. Não é coincidência que essa parcela esteja concentrada nas camadas mais vulneráveis — comércio, serviços, logística, alimentação, segurança privada. É aí que a proteção trabalhista costuma ser mais frágil e a exploração mais naturalizada.
O primeiro argumento é econômico — e foi sequestrado por décadas por uma narrativa de medo. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou, em 2026, que a redução da jornada para 40 horas semanais elevaria o custo médio do trabalho em 7,84% no regime celetista. Esse número foi imediatamente apropriado por setores empresariais como prova de inviabilidade. O que não foi dito com a mesma ênfase — e precisa ser dito — é que esse aumento se refere ao custo por hora trabalhada, não ao custo total da empresa. Quando diluído na estrutura completa de custos — que inclui capital, insumos, tecnologia e logística — o impacto cai para menos de 1% em setores intensivos em mão de obra.
Esse detalhe técnico foi deliberadamente omitido em discursos alarmistas. Não por desconhecimento, mas por estratégia. Inflar o dado bruto e esconder sua real dimensão é uma técnica antiga: cria-se a aparência de colapso para bloquear o debate antes que ele amadureça.
O próprio histórico brasileiro desmonta essa retórica. Reajustes reais do salário mínimo, ao longo dos anos 2000, foram tratados com o mesmo alarme — e não produziram o desastre prometido. O argumento econômico, quando exposto integralmente, deixa de ser um veto e passa a ser um ajuste administrável.
O segundo argumento é sanitário — e aqui os números deixam de ser abstração. Dados divulgados pela Organização das Nações Unidas em 2025, com base em registros oficiais de 2024, mostram mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais no Brasil, um salto de 134% em relação a 2022. Não se trata de percepção subjetiva. São diagnósticos registrados: ansiedade severa, depressão, esgotamento. A escala 6×1 não é a única causa, mas funciona como acelerador desse processo. Seis dias consecutivos de trabalho comprimem o tempo de recuperação física e emocional a um intervalo insuficiente. O trabalhador não se recompõe — apenas sobrevive até o próximo ciclo.
O terceiro argumento é fiscal — e revela quem realmente paga a conta. A Central Única dos Trabalhadores, com base em dados do INSS de 2024, aponta 3,6 milhões de afastamentos do trabalho, com impacto estimado em cerca de R$ 80 bilhões anuais. Esse valor não sai do balanço das empresas que operam com jornadas exaustivas. Ele recai sobre o Estado e, portanto, sobre toda a sociedade. A lógica é simples: o modelo 6×1 privatiza ganhos e socializa prejuízos. O lucro fica concentrado; o custo do adoecimento é distribuído.
O quarto argumento é de segurança — e expõe uma negligência estrutural. O Ministério do Trabalho e Emprego registrou 724.228 acidentes de trabalho em 2024. O Observatório SmartLab contabiliza 8,8 milhões de acidentes e quase 32 mil mortes desde 2012. Esses números não são acidentes no sentido coloquial. São, em grande medida, consequências previsíveis de ambientes de trabalho marcados por fadiga crônica. Um trabalhador no sexto dia consecutivo não erra por falha individual. Erra porque o sistema foi desenhado para operar no limite da exaustão.
O quinto argumento é produtivo — e desmonta o mito central. Na Islândia, entre 2015 e 2019, testes com cerca de 2.500 trabalhadores reduziram a jornada para 35–36 horas semanais sem corte salarial. O resultado foi claro: produtividade mantida ou ampliada. A razão é conhecida na literatura econômica: produtividade está ligada à qualidade do tempo de trabalho, não à sua extensão. Jornadas longas geram dispersão, erros, retrabalho. Jornadas mais curtas forçam reorganização, foco e eficiência.
O sexto argumento vem do Reino Unido, onde, em 2022, 61 empresas e cerca de 2.900 trabalhadores participaram de um experimento de semana de quatro dias. Os resultados foram contundentes: queda de 65% nas faltas por doença, redução significativa de burnout, estabilidade ou aumento de receita e adesão permanente de 92% das empresas. Esses dados não vieram de sindicatos. Vieram de balanços empresariais.
O sétimo argumento é de retenção — e atinge diretamente o bolso das empresas. A rotatividade caiu 57% no experimento britânico. Em um país como o Brasil, onde setores como varejo e serviços convivem com alta rotatividade, isso representa economia concreta. Contratar, treinar e perder trabalhadores custa caro. Manter custa menos. Jornadas mais equilibradas funcionam como mecanismo de fidelização — algo que o discurso empresarial raramente admite, mas já começa a praticar.
O oitavo argumento é epidemiológico e global. A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho estimaram, em estudo global publicado em 2021, que jornadas iguais ou superiores a 55 horas semanais estiveram associadas a 745 mil mortes no mundo em 2016, por acidente vascular cerebral e doença cardíaca isquêmica. Trata-se de um dado global, não brasileiro. O número não é retórico. É um indicador de que jornadas extensas são, literalmente, um fator de risco à vida.
É aqui que a história brasileira precisa ser chamada à mesa — não como memória decorativa, mas como prova de padrão. Em 13 de maio de 1888, quando a Abolição da Escravidão no Brasil foi assinada, setores da elite agrária reagiram com virulência. Argumentaram que a produção entraria em colapso, que a economia rural seria destruída, que o país mergulharia no caos. A oposição não foi moderada. Foi feroz, articulada, interessada em preservar um sistema baseado em exploração extrema.
Décadas depois, o mesmo roteiro se repetiu. Em 1936, quando se estruturavam as bases do salário mínimo, a reação empresarial voltou a acionar o discurso da inviabilidade econômica. Em 1º de maio de 1943, com a criação da Consolidação das Leis do Trabalho, o país ouviu que direitos trabalhistas inviabilizariam o crescimento. Em 13 de julho de 1962, com a instituição do 13º salário, a resistência foi novamente intensa: empresários, associações comerciais e setores financeiros anunciaram desemprego em massa, retração de investimentos e falências generalizadas.
Nada disso ocorreu.
O que ocorreu foi outra coisa: adaptação. A economia incorporou direitos, reorganizou custos, expandiu consumo e consolidou um mercado interno mais robusto. A cada avanço, a mesma estratégia foi usada: amplificar o medo para conter a mudança. A cada vez, a realidade desmontou a narrativa.
Hoje, a frase reaparece com nova embalagem: “o fim da escala 6×1 vai quebrar o Brasil”. É a mesma frase que, em 1925, acompanhou o debate sobre férias remuneradas. A mesma que, em 1936, atacou o salário mínimo. A mesma que, em 1943, tentou barrar a CLT. A mesma que, em 1962, combateu o 13º salário.
A metáfora da sirene precisa ser levada às últimas consequências. Não se trata de um simples alerta. Trata-se de um dispositivo recorrente de contenção social. Uma sirene que não anuncia incêndios reais, mas tenta impedir que o prédio seja reformado. Ela soa alta, urgente, dramática — não para proteger a economia, mas para proteger um modelo de distribuição de poder.
A escala 6×1 é, hoje, uma engrenagem desse modelo. Um mecanismo que transforma tempo de vida em custo descartável. Um sistema que depende da exaustão para manter margens. Um arranjo que funciona melhor para quem paga salários do que para quem depende deles.
Persistir nele, diante de dados econômicos, sanitários, fiscais e históricos tão consistentes, não é prudência. É insistência em um erro conhecido. Um erro que o Brasil já cometeu antes — e já foi obrigado a corrigir.
A pergunta, portanto, não é se o país pode reduzir a jornada. A pergunta é por quanto tempo ainda vai fingir que não pode.
https://revistaforum.com.br/opiniao/escala-6-1-exploracao-produtividade-brasil/
02 de maio de 2026
Vorcaro, Ibaneis e os R$ 12 bilhões
Da carteira fictícia à mansão quitada, o artigo reconstrói como bilhões circularam entre Master e BRB, enquanto o poder político silenciava diante de um risco sistêmico devastador, institucional e criminoso


O escândalo BRB–Master não nasceu de um acidente bancário nem de uma aposta malsucedida. Nasceu de uma sucessão de decisões que desafiaram a prudência, empurraram um banco público para uma exposição desmedida e abriram espaço para uma engrenagem em que crédito suspeito, influência política, luxo sem freio e operações sob investigação caminharam lado a lado.
O dado central continua sendo o mesmo e não pode ser rebaixado: as apurações tratam da compra, pelo BRB, de cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras do Banco Master com ativos superfaturados ou inexistentes. Esse é o eixo do caso. O valor de R$ 11 bilhões a R$ 11,5 bilhões aparece em outro braço da investigação, ligado à REAG e a fundos usados para circular recursos. São camadas distintas de um mesmo desastre.
A cronologia, para padrões brasileiros, tem sido devastadora.
Entre julho de 2024 e outubro de 2025, as transferências entre BRB e Master somaram cerca de R$ 16,7 bilhões, segundo informações levadas ao processo e relatadas pela Reuters. Nesse período, o BRB foi puxado para o centro de uma estrutura que, mais tarde, o Banco Central e a Polícia Federal passariam a tratar como fonte de risco sistêmico e de possível fraude. A Tirreno Consultoria é peça-chave para entender esse mecanismo: segundo a Agência Brasil, o Master simulou a compra de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da Tirreno, operação que existiria apenas contabilmente, sem pagamento efetivo nem crédito real; depois, essa mesma carteira foi revendida ao BRB por R$ 12 bilhões, após manipulação da taxa de juros. O Banco Central analisou CPFs da carteira e concluiu que as operações não existiam.
Outro personagem decisivo é Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e ex-sócio do Master. Seu nome aparece ligado à estruturação de produtos que sustentaram a expansão agressiva do banco. Depois de deixar o grupo em maio de 2024, ele ficou com o antigo Voiter, rebatizado de Banco Pleno.
Em fevereiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Pleno por deterioração econômico-financeira e problemas de liquidez, ampliando a percepção de que o ecossistema que cercava o Master não era um conjunto de coincidências, mas uma rede de vasos comunicantes.
O marco público mais brutal veio em 18 de novembro de 2025. Naquele dia, a Reuters noticiou a prisão de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, ao mesmo tempo em que o Banco Central decretava a liquidação extrajudicial do Banco Master, do Banco Master de Investimento, do LetsBank e da corretora do grupo. A razão oficial foi direta: “grave crise de liquidez”, forte deterioração patrimonial e violações graves das regras do sistema financeiro.
Mais tarde, Vorcaro voltaria ao noticiário com nova detenção, em 4 de março de 2026, em investigação sobre tentativa de suborno a ex-dirigente do Banco Central, segundo a Reuters.
Em seguida, o desmonte prosseguiu.
Em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central liquidou a CBSF DTVM, ligada à REAG.
Em 21 de janeiro, foi a vez da Will Financeira, controlada pelo Master.
Em 17 de março, caiu o Banco Master Múltiplo. A Agência Brasil resumiu esse colapso com clareza: os fundos administrados pela REAG aparecem como peça central na sustentação do esquema, enquanto a liquidação do Master ocorreu quando o banco já não conseguia pagar nem 15% dos vencimentos semanais.
O retrato de Vorcaro não se limita às planilhas.
Entre 2021 e 2024, reportagens baseadas em documentos de investigação apontam gastos de cerca de R$ 892 milhões em viagens e eventos de luxo. Em novembro de 2024, seu noivado em Roma custou aproximadamente US$ 4,04 milhões, mais de R$ 20 milhões. Circula na imprensa que a rotina de festas incluía modelos internacionais, jatinhos, resorts, chefs estrelados e propriedades usadas para receber autoridades e empresários em ambiente de ostentação ostensiva.
Em Trancoso, na Bahia, a imprensa descreveu uma estrutura de villas, recepções privadas e logística voltada a transformar riqueza em influência.
Como se vê, falar em milhares de dólares para o banqueiro Vorcaro é como tratar de dinheiro de pinga.
É nesse terreno que entram as ligações familiares e religiosas.
O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, pastor ligado à Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, aparece em reportagens citadas pelo Sindicato dos Bancários com base em Folha e UOL como destinatário de R$ 485 milhões da Super Empreendimentos, empresa suspeita de funcionar como canal de pagamentos a milícia privada e agentes públicos. O mesmo material relata que Zettel transferiu R$ 40,9 milhões para a Igreja Batista da Lagoinha Belvedere, com repasses mensais que teriam chegado a R$ 8 milhões entre outubro de 2024 e janeiro de 2025.
Zettel foi preso em 4 de março de 2026, e a unidade Belvedere encerrou atividades dias depois. São fatos que ainda exigem apuração conclusiva, mas já não permitem tratar essa conexão como detalhe folclórico.
No plano político, a chamada “emenda Master” precisa ser lembrada pelo que era: uma proposta de Ciro Nogueira, apresentada em 13 de agosto de 2024, no curso da PEC 65/2023, para elevar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão por depositante. A CNN revelou mensagem atribuída a Vorcaro celebrando a iniciativa: “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes!”. O relator rejeitou a emenda por considerá-la sem relação com a PEC, mas a própria PEC 54/2024 acabou aprovada pelo Senado em 19 de dezembro de 2024, com 53 votos favoráveis no 1º turno e 55 no 2º, embora o destaque ligado à emenda tenha sido rejeitado por 48 votos a 22.
A fase penal voltou a subir de temperatura em 16 de abril de 2026, com a prisão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Segundo a Reuters, a decisão do ministro André Mendonça cita evidências de um esquema destinado a viabilizar a fabricação, venda e transferência de carteiras fictícias do Master para o BRB. Costa é suspeito de ter recebido R$ 146,5 milhões em propina, por meio de imóveis, com mais de R$ 74 milhões já rastreados; no mesmo dia, também foi preso o advogado Daniel Monteiro.
Nesse contexto, o episódio da mansão de Flávio Bolsonaro no Lago Sul volta com força. E precisa ser investigado — e para ontem, como se diz no popular. O financiamento de R$ 3,1 milhões, dentro de uma compra total de R$ 5,9 milhões, foi concedido pelo BRB em 2021, na gestão de Paulo Henrique Costa, em 360 parcelas; o empréstimo foi quitado em apenas três anos. A Justiça do DF considerou a operação regular, mas a coincidência entre o crédito generoso, a quitação acelerada e a prisão posterior do então presidente do banco torna inevitável uma investigação jornalística e institucional mais rigorosa sobre as condições concretas desse negócio. Esse assunto tem sabor de chocolate com laranja.
Por fim, não há como aliviar a responsabilidade política de Ibaneis Rocha e Celina Leão.
Ibaneis não pode se esconder atrás de negativas protocolares enquanto um banco público sob seu comando foi arrastado para uma exposição bilionária. Celina erra ao insinuar má vontade do governo federal para “salvar” o BRB. A União não existe para socializar o prejuízo de operações sob investigação por fraude, corrupção, lavagem e crimes financeiros.
Antes de qualquer conversa sobre socorro, há uma ordem de prioridade inescapável: auditoria forense, individualização de responsabilidades, bloqueio de bens e devolução integral de cada centavo.
Chama atenção, em meio a cifras bilionárias, liquidações em série e prisões já efetivadas, a postura da TV Globo. A emissora que, em outros escândalos, exibiu em horário nobre esquemas de propinoduto, imagens de dinheiro fugindo pelo ralo em alta velocidade e apresentações em PowerPoint com nomes e conexões didaticamente expostos, até aqui adota uma contenção difícil de justificar. Não se viu qualquer representação visual do fluxo de bilhões sob investigação, nem a mesma ênfase na exposição de figuras como Ciro Nogueira, Ibaneis Rocha, Celina Leão e Paulo Henrique Costa no centro dessa engrenagem. Quando os fatos existem, mas a imagem é domesticada, o silêncio deixa de ser ausência e passa a ser escolha editorial com consequências.
Quando bilhões são drenados sob suspeita de fraude e conluio, a única resposta aceitável é devastadora para os responsáveis: cadeia, perda total de bens e restituição integral — tudo o que vier abaixo disso será, na prática, legitimar o crime.
https://revistaforum.com.br/opiniao/vorcaro-ibaneis-e-os-r-12-bilhoes/
17 de abril de 2025
No esgoto do BRB-Master, puxa-se um fio e o sistema inteiro transborda
Prisão de ex-presidente do BRB expõe suspeita de R$ 146 milhões em propina, créditos sem lastro e uso de imóveis de luxo para ocultação


A engrenagem foi puxada — e não parou mais. Como nas caixas de lenços em que um único gesto arrasta vários de uma só vez, o caso que envolve o BRB e o empresário Daniel Vorcaro deixou de ser um episódio isolado para revelar uma cadeia de operações, cifras e decisões que já não suportam disfarce técnico nem a complacência que costuma proteger crimes sofisticados, onde a fraude circula com assinatura, senha e verniz institucional.
A prisão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, determinada pelo ministro André Mendonça na manhã de 16 de abril de 2026, não nasce de suposições frágeis nem de narrativas infladas. Ao contrário, se ancora em indícios financeiros contundentes, em números que ferem a inteligência de qualquer observador minimamente atento: a investigação aponta para pagamentos ilícitos que variam entre R$ 140 milhões e R$ 146,5 milhões, com mais de R$ 74 milhões já identificados em circulação concreta. Não é cifra lateral. É dinheiro suficiente para desmontar qualquer tentativa de relativização moral.
Esse volume não se espalha por acaso nem se esconde em pequenos favores.
O que a Polícia Federal descreve é um mecanismo frio, calculado, com pagamento de propina por meio de seis imóveis de alto padrão, usados como disfarce para dar aparência de legalidade a recursos cuja origem, segundo os investigadores, está contaminada por acordos subterrâneos. Longe de configurar erro técnico, trata-se de sofisticação criminosa aplicada à gestão de recursos públicos.
A decisão de André Mendonça adiciona um elemento que não pode ser suavizado: a referência direta à possível “fabricação, venda e transferência de carteiras de crédito fictícias”.
Em linguagem direta, e dando já a real, isso significa manipular a essência do sistema financeiro, criar ativos sem substância e empurrá-los como se fossem legítimos, deslocando riscos e produzindo uma ficção contábil que beneficia poucos e ameaça muitos. Isso não é desvio administrativo, mas sim grosseira fraude estrutural.
Quando a apuração menciona até R$ 12 bilhões em créditos de baixa qualidade ou sem lastro consistente, o debate deixa de ser sobre irregularidade pontual e passa a ser sobre escala de impacto. Não se está diante de um episódio periférico, porque o que vemos é uma engrenagem azeitada capaz de comprometer a integridade de uma instituição pública inteira, transferindo riscos privados para o colo do interesse coletivo com uma naturalidade que beira o cinismo.
Até agora, o palco expôs o vigário — não confundir com sicário — e o chefe do coro. Ainda faltam o governador de traço maquiavélico e a sacerdotisa dos imbróglios. Atenção; O Boeing BRB-Master já está em aproximação final.
O que mais revolta não é apenas o montante, mas o desenho da operação. A decisão do Supremo Tribunal Federal aponta que Paulo Henrique Costa não atuou como espectador eventual, mas como agente ativo na viabilização dessas operações dentro do BRB, criando ambiente interno para que interesses privados encontrassem abrigo institucional. Isso rompe qualquer tentativa de narrativa defensiva baseada em erro, excesso de confiança ou falha de julgamento. Aqui há método, há direção e há escolha.
Mensagens interceptadas agravam ainda mais o quadro ao indicar que, diante do risco de exposição, houve ordem para “travar tudo”. Essa expressão não é à toa. Ela carrega a consciência do que estava em jogo e a tentativa de interromper rastros quando a possibilidade de responsabilização se tornou concreta. Quem age assim não está em zona cinzenta; está plenamente ciente de que cruzou limites.
O pano de fundo institucional torna o caso ainda mais intragável e indigesto.
O Banco Central já havia rejeitado a aquisição do Banco Master pelo BRB em setembro de 2025. Pouco depois, o Master colapsou e foi liquidado. À luz do que agora se investiga, ganha força a hipótese de que houve uma tentativa de sustentar artificialmente essa estrutura, deslocando ativos problemáticos e mascarando fragilidades com operações que não resistiriam ao teste mais elementar de consistência.
Quando práticas dessa natureza se instalam no interior de um banco público, o dano não se limita a cifras ou balanços. Ele destrói a confiança, distorce o papel da instituição e expõe o contribuinte a riscos que nunca escolheu assumir.
O mais perturbador é a sensação recorrente de que esse tipo de operação se repete com novos personagens, novas estruturas e a mesma lógica de captura do interesse público por circuitos privados.
Parece uma dízima periódica tresloucada sempre levando à cena do crime com dinheiro público.
A defesa nega, como sempre nega, e classifica a prisão como desnecessária. É previsível. O que não pode ser tratado como previsível é a naturalização desse padrão de comportamento. Porque, quando cifras dessa magnitude circulam sob disfarces patrimoniais, quando bilhões são deslocados com base em ativos questionáveis e quando decisões estratégicas são contaminadas por interesses externos, não estamos diante de um desvio — estamos diante de um modelo.
A metáfora inicial não apenas se sustenta, como se impõe com mais força ao final. O primeiro lenço foi puxado e expôs outros, muitos outros, que estavam cuidadosamente dobrados para não chamar atenção. E o que essa caixa revela não são pedaços isolados de papel, mas camadas sucessivas de um sistema que aprendeu a esconder o essencial à vista de todos.
A pergunta que permanece não é mais se há mais lenços ali dentro. É quantos ainda sairão — e quanto estrago continuarão a causar — antes que alguém tenha coragem de virar a caixa inteira e encarar, sem disfarces, tudo o que foi empurrado para dentro dela.
https://www.brasil247.com/blog/no-esgoto-do-brb-master-puxa-se-um-fio-e-o-sistema-inteiro-transborda
17 de abril de 2025
Ascensão e queda silenciosa sob o domínio da sombra corporativa
Teoria da sombra, de Carl Gustav Jung, ajuda a compreender como conteúdos psíquicos reprimidos influenciam decisões e deformam culturas organizacionais


A vida empresarial costuma ser descrita como território de metas, inovação e expansão de mercado. Mas, por trás das apresentações em PowerPoint e dos relatórios trimestrais, existe um dado menos confortável: empresas não quebram apenas por erro técnico ou crise externa. Muitas desmoronam por erosão interna — quando a confiança deixa de ser o eixo invisível que sustenta decisões e relações.
Pesquisas globais de consultorias como McKinsey e PwC vêm mostrando, há anos, que a maioria das grandes transformações corporativas fracassa. A Gallup registra índices persistentes de desengajamento no trabalho. Não se trata apenas de estratégia mal executada. Trata-se de cultura corroída.
Alguns colapsos corporativos tornaram-se emblemáticos justamente por isso.
A Enron era uma gigante norte-americana do setor de energia. Atuava na comercialização de eletricidade e gás natural e foi celebrada, nos anos 1990, como símbolo de inovação financeira. Em 2001, revelou-se que seus lucros eram sustentados por fraudes contábeis complexas e ocultação de dívidas bilionárias. O resultado foi uma das maiores falências da história dos Estados Unidos, com milhares de empregos perdidos e a destruição da confiança de investidores. Não foi apenas um problema técnico: era uma cultura que premiava agressividade, silêncio e manipulação.
A Theranos prometia revolucionar exames laboratoriais com uma tecnologia capaz de realizar centenas de testes com poucas gotas de sangue. Fundada no Vale do Silício, atraiu bilhões de dólares em investimentos e conselheiros influentes. A tecnologia, porém, não funcionava como anunciado. Funcionários que questionavam eram isolados ou pressionados. A empresa entrou em colapso, e sua fundadora foi condenada por fraude. Ali, o problema não foi apenas científico; foi cultural: um ambiente onde discordar era sinônimo de traição.
Já a WeWork, empresa de compartilhamento de escritórios, cresceu rapidamente oferecendo espaços flexíveis para startups e grandes companhias. Chegou a ser avaliada em cerca de 47 bilhões de dólares antes de tentar abrir capital. Quando documentos financeiros vieram a público, revelaram prejuízos bilionários e práticas de governança questionáveis. A imagem de liderança visionária ocultava decisões erráticas e conflitos de interesse. O valor despencou, investidores recuaram, e a empresa precisou de resgate financeiro.
Esses episódios não interessam apenas ao mercado financeiro. Eles interessam à psicologia organizacional. Porque, em todos eles, houve algo além de má gestão: houve sombra operando sem controle.
Carl Jung definiu a sombra como o conjunto de conteúdos psíquicos reprimidos ou não reconhecidos pelo ego consciente. Não é apenas “o lado mau”. Inclui inseguranças, vaidades, ambições desmedidas, ressentimentos e medos de perda de poder.
Quando esses conteúdos não são reconhecidos, tendem a se manifestar por projeção: atribuímos aos outros aquilo que recusamos admitir em nós.
No ambiente corporativo, isso se traduz de forma concreta.
Um gestor que se enxerga como exemplo de equilíbrio pode, inconscientemente, ser governado por intensa necessidade de aprovação. Quando se sente ameaçado por um funcionário competente, reage com hostilidade velada. Atribui ao subordinado “falta de espírito de equipe”, quando o incômodo real é sua própria insegurança.
Outro exemplo: o executivo que construiu sua imagem sobre rigor ético, mas que não suporta falhar. Diante de metas inalcançáveis, começa a relativizar números, a maquiar resultados “temporariamente”.
Como não admite a contradição interna, torna-se excessivamente crítico com erros alheios. A sombra atua como mecanismo de compensação.
Há ainda o caso do líder carismático cuja identidade pública é a da ousadia visionária. Internamente, porém, teme perder centralidade. Oscila entre entusiasmo contagiante e desqualificação abrupta de ideias que não partem dele. A equipe aprende a ler o humor antes de falar. Decisões deixam de ser técnicas e passam a ser emocionais.
Mas há uma forma ainda mais cruel da sombra corporativa: aquela que se converte em sabotagem deliberada, sobretudo quando parte de um dos donos da empresa.
Quando um sócio relevante — consumido por ressentimento, inveja ou desejo de controle absoluto — permite que sua sombra o governe, a sabotagem pode assumir feições sofisticadas. Ele não precisa gritar. Pode simplesmente atrasar aprovações estratégicas, questionar repetidamente projetos já validados, retirar apoio financeiro no momento decisivo, desautorizar lideranças diante de equipes, disseminar dúvidas sobre a competência de colegas.
A sabotagem raramente se anuncia; ela se infiltra.
Nesse cenário, a sombra atua como sabotador silencioso. Primeiro, mina reputações. Depois, fragmenta alianças internas. Por fim, paralisa decisões críticas. Projetos promissores morrem não por inviabilidade técnica, mas por boicote emocional. O ambiente torna-se campo de suspeitas. Funcionários passam a evitar iniciativas que possam desagradar o centro de poder instável.
O medo substitui a criatividade empresarial.
Os efeitos são perniciosos e cumulativos. Talentos pedem demissão. Parceiros externos percebem incoerências. Investidores identificam ruídos estratégicos. A empresa, ainda que financeiramente saudável no curto prazo, começa a sofrer derrocada em termos de imagem e no dia a dia.
A sombra de um único dirigente pode contaminar todo o ecossistema corporativo.
A hipocrisia e a falsidade cotidianas nascem justamente dessa distância entre autoimagem e realidade interna — mas não são falhas menores de caráter; são agentes corrosivos. O elogio estratégico em público, seguido de desqualificação nos bastidores; o discurso inflamado sobre meritocracia, acompanhado de favorecimentos silenciosos; a defesa de transparência praticada com retenção seletiva de informações: tudo isso produz um ambiente moralmente instável. A consequência não é apenas desconforto. É cinismo estrutural. Funcionários passam a trabalhar protegendo-se, não colaborando. Reuniões tornam-se teatros. A criatividade recua diante do medo. A confiança, quando submetida à duplicidade reiterada, não se desgasta lentamente — ela rompe. E, quando rompe, a empresa deixa de ser comunidade produtiva e transforma-se em território de autopreservação.
“Aquilo que negamos em nós mesmos governa-nos por trás do palco.” A frase resume o risco. Em empresas, esse “governo oculto” se manifesta em favoritismos inexplicáveis, punições desproporcionais e decisões impulsivas.
“Projetar a própria sombra é transformar colegas em inimigos imaginários.” Quando líderes veem ameaça em toda divergência, instalam clima de suspeita permanente.
“A confiança não resiste à duplicidade prolongada.” Comentário necessário: equipes percebem incoerências. Podem tolerar erros; não toleram deslealdade repetida.
A sombra não pode ser eliminada. Ela é parte estrutural da personalidade. O que pode ser feito é torná-la consciente. Isso exige prática deliberada de autocrítica, abertura a feedback real — inclusive desconfortável —, processos transparentes de decisão e governança clara.
Empresas que investem apenas em tecnologia e ignoram o fator humano correm risco semelhante ao de gigantes que ruíram por dentro. A unidade básica entre funcionários — a confiança — depende da coerência entre discurso e prática, da previsibilidade ética e da disposição de reconhecer limites.
Um escritório é mais do que espaço físico. É território psicológico compartilhado. Quando a sombra é ignorada, transforma-se em força desagregadora que mina decisões, contamina relações e sabota estratégias cuidadosamente desenhadas.
Nenhuma organização quebra apenas por fatores externos; muitas apodrecem por dentro enquanto celebram resultados trimestrais. A diferença entre ascensão sustentável e colapso abrupto raramente está apenas no mercado — está na maturidade moral de quem lidera. Empresas que se recusam a examinar sua própria escuridão podem crescer rapidamente, mas caminham sobre terreno instável. As que enfrentam suas contradições constroem bases sólidas.
No mundo corporativo, não é a ausência de sombra que garante longevidade — é a coragem de reconhecê-la antes que ela assuma o controle.
https://www.brasil247.com/blog/ascensao-e-queda-silenciosa-sob-o-dominio-da-sombra-corporativa
12 de abril de 2025
A conta da publicidade finalmente chegou
Durante décadas, agências venderam criatividade protegidas do fracasso comercial. Agora grandes anunciantes começam a exigir outra lógica


Durante décadas, a indústria da publicidade operou dentro de uma confortável blindagem econômica. As agências vendiam criatividade, planejamento estratégico e compra de mídia — mas raramente dividiam o risco real do negócio. Se uma campanha elevava vendas, ótimo. Se fracassava, o pagamento da agência continuava praticamente garantido. O cliente absorvia o prejuízo; a agência preservava o contrato. Esse arranjo, que estruturou a publicidade global desde o pós-guerra, começa a apresentar rachaduras evidentes.
Um contrato recente entre o conglomerado britânico WPP e a montadora Jaguar Land Rover tornou visível uma mudança que vinha fermentando nos bastidores da indústria. Parte relevante da remuneração da agência passou a depender diretamente do desempenho comercial das campanhas. O princípio é brutalmente simples: resultados concretos geram pagamento maior; desempenho fraco reduz a remuneração. Em outras palavras, a publicidade começa a dividir o risco que durante décadas pertenceu exclusivamente ao anunciante.
Não se trata de um experimento marginal. A WPP continua sendo uma das maiores potências da comunicação global. O grupo, que reúne redes como Ogilvy, VML, Mindshare e GroupM, registrou receitas superiores a €13,5 bilhões em 2025. Quando uma empresa desse porte altera o modelo de remuneração, o sinal para o mercado é inequívoco: o contrato psicológico entre marcas e agências entrou em revisão.
Os números ajudam a compreender o ambiente dessa transição. Segundo dados da IBISWorld, a indústria global de agências de publicidade movimentou cerca de US$ 444,7 bilhões em 2025, crescendo a uma taxa média anual de 3,8% desde o início da década. As projeções indicam que o setor poderá alcançar US$ 529 bilhões até 2030.
O crescimento, contudo, esconde uma disputa silenciosa por poder econômico. Hoje, o eixo da publicidade global deslocou-se para plataformas tecnológicas. Google, Meta e Amazon concentram uma parcela crescente do investimento em mídia digital e oferecem ferramentas capazes de medir com precisão quase cirúrgica cada clique, cada conversão e cada venda.
Durante anos ensinando em cursos de publicidade, observava um fenômeno curioso nas salas de aula: muitos estudantes imaginavam a publicidade como um território quase artístico, um espaço de ideias brilhantes capazes de alterar comportamentos coletivos. Parte disso continua verdadeira. Mas sempre procurei lembrar que publicidade, antes de tudo, é economia aplicada à persuasão.
Nesse sentido, o contrato entre WPP e Jaguar Land Rover apenas torna explícito algo que a lógica de mercado vinha exigindo há tempo: se a publicidade promete impacto econômico, precisa aceitar avaliação econômica.
Alguns dos nomes mais respeitados da indústria reconhecem essa mudança. David Droga, fundador da Droga5 e hoje executivo do grupo Accenture Song, costuma repetir uma frase que sintetiza bem o novo ambiente: “criatividade sem impacto de negócio tornou-se apenas entretenimento caro”.
Outro veterano da indústria, Sir Martin Sorrell, fundador da própria WPP, tem sido ainda mais direto ao analisar o futuro do setor: “clientes não compram mais campanhas; compram crescimento”.
Essa mudança de linguagem revela algo mais profundo. A publicidade deixou de ser apenas narrativa de marca para tornar-se infraestrutura de vendas. Dados, algoritmos, inteligência artificial e plataformas digitais passaram a ocupar o espaço que antes era monopolizado pela intuição criativa.
Isso não significa o fim da criatividade. Significa apenas que ela perdeu o privilégio de não prestar contas.
O novo modelo que começa a emergir transforma as agências em algo mais próximo de parceiras comerciais. Compartilham risco, dividem resultados, assumem responsabilidade direta pelo desempenho.
Talvez seja o ajuste mais duro que a indústria publicitária enfrentou desde a revolução digital.
Durante décadas, a publicidade funcionou como um laboratório protegido da economia real. Agora a porta desse laboratório foi aberta.
E quando o ar da realidade entra, não traz aplausos — traz balanços, métricas e consequências.
A publicidade começa a atravessar esse corredor.
E ele não se parece com os corredores iluminados dos festivais de criatividade. Parece mais com o interior de um relógio mecânico aberto sobre a mesa: engrenagens expostas, cada peça obrigada a provar que realmente move o tempo.
https://revistaforum.com.br/opiniao/a-conta-da-publicidade-finalmente-chegou/
08 de abril de 2025
Pix ameaça o lucro das multinacionais financeiras
Pix expõe as multinacionais do dinheiro que cobram em silêncio, acumulam bilhões e resistem a qualquer sistema que elimine seu pedágio global


O dinheiro raramente revela onde está o poder. Ele apenas circula, silencioso, como se obedecesse a uma ordem natural das coisas. Mas basta tocar na engrenagem certa para que o desconforto apareça. Foi exatamente isso que o Pix fez.
O Pix não é uma sigla tradicional; o nome, criado pelo Banco Central do Brasil, remete a “pixel” e à ideia de rapidez, traduzindo um sistema simples, instantâneo e pensado para uso cotidiano sem barreiras.
Criado pelo Banco Central do Brasil, o sistema não se limitou a modernizar pagamentos. Ele reorganizou hábitos, reduziu custos a quase zero e, sobretudo, eliminou intermediários que por décadas lucraram com a fricção.
Em poucos anos, mais de 170 milhões de brasileiros passaram a operar dentro dessa lógica. Não se trata de adesão voluntária apenas — trata-se de um deslocamento estrutural do cotidiano econômico.
Esse tipo de mudança não passa despercebido fora do país.
Nos Estados Unidos, empresas de pagamentos reagiram. Alegaram favorecimento institucional, distorções concorrenciais, riscos ao mercado, o Diabo quatro. Argumentos previsíveis, repetidos sempre que um modelo consolidado começa a ser pressionado por uma alternativa mais eficiente. Nenhum sistema gosta de sair de sua zona de conforto.
O ponto central está longe desses termos formais. O sistema financeiro internacional foi desenhado para operar sob uma lógica específica de centralidade. A rede SWIFT é o exemplo mais evidente: uma infraestrutura que organiza fluxos, mas também condiciona acessos. Ao longo dos anos, seu uso ultrapassou o campo técnico e entrou no terreno das decisões políticas, servindo como mecanismo de pressão e isolamento em momentos de conflito.
É nesse contexto que o Pix adquire um significado que vai além do Brasil.
Ele demonstra, com dados e escala, que é possível construir sistemas eficientes fora desse eixo tradicional. Rússia e China avançaram por razões evidentes de sobrevivência geopolítica. O Brasil chega por outro caminho: eficiência operacional, inclusão financeira e adoção massiva. Tem o que podemos chamar de o molho brasileiro…
O economista Josafat Hernández observou que o Pix pode evoluir para uma alternativa regional ao SWIFT. A afirmação ecoa porque encontra respaldo na prática. Sistemas de pagamento não precisam ser globais para serem decisivos. Basta que sejam confiáveis, baratos e amplamente utilizados dentro de um espaço econômico relevante.
Há um elemento adicional que torna essa discussão mais sensível.
O Pix não depende de tarifas elevadas, não cria barreiras artificiais e não exige que o usuário compreenda sua complexidade para utilizá-lo. Ele simplifica. E, ao simplificar, retira poder de estruturas que prosperam na complexidade.
A reação externa segue um roteiro conhecido. Questiona-se a forma, tensiona-se o ambiente regulatório, constrói-se a narrativa. Nada disso altera o ponto essencial: o que está em jogo é quem captura valor no percurso do dinheiro. Não por acaso, nos últimos dias o presidente colombiano Gustavo Petro deu entrevistas dizendo que seu país irá adotar o Pix. E aí temos literalmente um “barata voa”: é se vários outros países adotarem o Pix proximamente?
Quem tem medo do Pix?
A resposta começa pelos números — e por quem os publica. No relatório anual de 2023 da Visa, a própria companhia informa ter processado cerca de 14,8 trilhões de dólares em volume total de pagamentos no período. Esse montante, isoladamente, supera o Produto Interno Bruto de economias inteiras como a da Alemanha ou do Japão em determinados anos recentes — países industriais, complexos, com décadas de acumulação produtiva. No mesmo ano, a Mastercard reportou aproximadamente 9 trilhões de dólares em seu relatório oficial aos investidores, um valor comparável ao PIB combinado de várias economias médias da Europa ou da América Latina. Somadas, essas duas redes privadas concentram algo próximo de 24 trilhões de dólares por ano.
Para dimensionar, trata-se de uma cifra que rivaliza com o próprio PIB dos Estados Unidos, a maior economia do planeta. É uma escala de poder.
Sobre cada transação, incidem taxas que, segundo estudos amplamente citados por entidades como a Merchant Payments Coalition e análises do setor financeiro norte-americano, variam entre 1,5% e 3%, dependendo do tipo de cartão, do país e do contrato com o comerciante. Esse percentual não aparece de forma transparente ao consumidor final, mas está embutido no preço de praticamente tudo o que se compra. Trata-se de uma renda contínua, previsível, globalizada.
É nesse ponto que o Pix se torna incômodo de verdade.
Ele não apenas reduz custos operacionais; ele desloca a captura de valor para dentro do sistema doméstico e elimina uma intermediação que, até aqui, parecia inevitável.
Cada transferência instantânea e gratuita representa uma pequena fratura em um modelo que depende da repetição massiva dessas tarifas ao redor do mundo.
Há ainda um aspecto que raramente entra no debate público com a devida clareza:
As redes de cartões operam como infraestruturas de dados em escala planetária. Cada transação gera informação detalhada sobre comportamento, localização, frequência, vínculos econômicos. Esse acúmulo não é passivo. Em determinados contextos, ele pode ser mobilizado para bloqueios, restrições e pressões — um tipo de poder que não se anuncia, mas que existe e já foi utilizado em diferentes cenários internacionais.
Quando Washington levanta questionamentos sobre o Pix, o movimento ganha outra leitura. Não se trata apenas de competição entre tecnologias. O que está sendo defendido é um arranjo que combina receita, informação e capacidade de influência. O Pix, ao reduzir drasticamente a dependência de intermediários estrangeiros, não mexe apenas em tarifas — ele atinge um sistema que lucra com cada transação e que, ao mesmo tempo, acompanha em detalhe como, onde e com quem o dinheiro circula. Menos intermediação significa menos cobrança, mas também menos visibilidade externa sobre a vida econômica de milhões de pessoas e empresas.
É essa dupla perda — de receita e de alcance — que ajuda a explicar por que um sistema doméstico de pagamentos passou a ser tratado como questão estratégica fora do Brasil.
https://www.brasil247.com/blog/pix-ameaca-o-lucro-das-multinacionais-financeiras
08 de abril de 2025
A arquitetura esquecida do desenvolvimento social
Mais do que teoria, experiências em bairros espanhóis demonstram que desenvolvimento social nasce quando moradores assumem responsabilidade coletiva e instituições públicas passam a atuar como parceiras


Durante décadas, o debate internacional sobre desenvolvimento social foi dominado por uma premissa confortável: bastaria aperfeiçoar políticas públicas, ampliar orçamentos e desenhar programas mais sofisticados para que desigualdades estruturais começassem a ceder. A realidade tem sido menos dócil. Em muitos países, planos tecnicamente irrepreensíveis produzem resultados modestos porque ignoram uma variável decisiva: sociedades não se transformam apenas por decisão administrativa. Quando comunidades se tornam espectadoras da própria vida coletiva, nenhum desenho institucional — por mais engenhoso que seja — consegue sustentar mudanças duradouras.
Foi precisamente essa lacuna que uma declaração apresentada em 10 de fevereiro de 2026, durante a 64ª sessão da Commission for Social Development das United Nations, em New York, decidiu enfrentar de forma direta. O documento, intitulado “Parcerias para a Transformação Social: os papéis complementares das instituições, das comunidades e dos indivíduos”, foram apresentados pela Bahá’í International Community, organização da sociedade civil com status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social da ONU.
Mais do que um texto conceitual, a declaração parte de experiências observadas nas Canary Islands, arquipélago espanhol no Atlântico, especialmente na região de Las Palmas de Gran Canaria e na cidade vizinha de Telde. A partir dessas experiências, o documento formula uma tese simples e, ao mesmo tempo, desafiadora para grande parte das políticas sociais contemporâneas.
O desenvolvimento social ganha consistência quando três atores operam em complementaridade: indivíduos, comunidades e instituições públicas. Quando um deles se impõe sobre os demais, surgem distorções. Quando aprendem a agir em cooperação, abre-se um campo social capaz de produzir mudanças mais profundas e duradouras.
Essa ideia não nasce no plano abstrato.
Depois da pandemia de Covid-19, autoridades locais começaram a observar um fenômeno que se repetiu em muitas cidades europeias: retração da vida comunitária, enfraquecimento das redes de solidariedade e queda na participação cívica. Nos bairros populares de Las Palmas e Telde, esse processo era visível. Associações locais perdiam vitalidade, atividades coletivas diminuíam e o sentimento de pertencimento enfraquecia.
Imigração e diversidade
Ao mesmo tempo, o crescimento da imigração africana e latino-americana ampliava a diversidade cultural da região, mas também alimentava tensões e episódios de desconfiança entre grupos sociais.
Era um terreno fértil para fragmentação social.
Foi nesse contexto que algo inesperado começou a acontecer.
A partir de 2022, grupos de moradores passaram a organizar encontros de formação comunitária voltados ao fortalecimento de capacidades humanas e sociais. Não se tratava de cursos convencionais nem de programas oficiais. O foco estava em algo mais elementar e mais exigente: transformar valores como confiabilidade, cooperação, responsabilidade e serviço ao bem comum em práticas cotidianas.
A iniciativa não nasceu dentro de gabinetes governamentais. Nasceu entre vizinhos.
Instituto para Formação e Desenvolvimento Comunitário
Em poucos anos, mais de três mil moradores participaram diretamente dessas atividades em bairros da região metropolitana de Las Palmas, envolvendo jovens, famílias migrantes, educadores, trabalhadores e aposentados.
Dessa base emergiram projetos diversos: programas de empoderamento feminino, reforço escolar, iniciativas ambientais, apoio à parentalidade, integração de imigrantes e ações de saúde comunitária.
Para coordenar esse crescimento foi criado o Instituto para Formação e Desenvolvimento Comunitário (ICTD).
Um detalhe distingue essa experiência de muitos projetos sociais tradicionais: o instituto nasceu praticamente sem financiamento externo. O motor das atividades foi o voluntariado e o senso de responsabilidade coletiva.
Em vez de esperar programas governamentais ou recursos institucionais, moradores decidiram começar com aquilo que já possuíam — tempo, conhecimento e disposição para agir.
À medida que as atividades ganharam escala, o envolvimento das autoridades públicas tornou-se inevitável.
Prefeituras, escolas públicas e unidades de saúde passaram a oferecer infraestrutura, espaços físicos e apoio logístico. Não como substituição da ação comunitária, mas como complemento.
Jinámar
Essa interação tornou-se particularmente visível no bairro de Jinámar, localizado entre os municípios de Telde e Las Palmas.
Durante as férias escolares de 2024 e 2025, programas comunitários passaram a ocorrer diariamente envolvendo cerca de 700 crianças e adolescentes, acompanhados por aproximadamente 80 voluntários locais.
As atividades incluíam oficinas culturais, práticas esportivas, debates sobre convivência social e projetos de serviço comunitário.
O conteúdo era organizado pelos próprios moradores. As autoridades municipais ofereciam espaços e infraestrutura.
O resultado foi mais profundo do que simples ocupação do tempo livre. Criou-se um ambiente onde relações sociais começaram a se recompor após anos de retração comunitária.
Outro episódio ocorrido no bairro de San Matías ajuda a compreender o impacto desse processo.
A prefeitura havia proposto a criação de um mural artístico coletivo. A ideia era positiva, mas inicialmente recebeu pouca adesão. Muitos moradores percebiam a iniciativa como mais um projeto oficial distante da realidade local.
O cenário mudou quando jovens envolvidos nas atividades comunitárias decidiram assumir o projeto como parte de sua própria aprendizagem social. Convidaram vizinhos, elaboraram desenhos e transformaram a atividade em um encontro aberto.
A participação cresceu rapidamente.
O mural deixou de ser um projeto institucional e tornou-se expressão coletiva do bairro.
Esse tipo de experiência começou a alterar também a percepção de gestores públicos.
Funcionários municipais passaram a enxergar o ICTD não como grupo que solicita apoio, mas como parceiro capaz de mobilizar cidadãos em torno de objetivos construtivos.
Parte do processo
Uma das coordenadoras do instituto, citada na declaração apresentada à ONU, resume a mudança de perspectiva com precisão: quando autoridades se percebem parte de um processo comunitário vivo, o apoio institucional deixa de ser concessão e passa a ser cooperação.
O educador comunitário José Miguel Hernández, também mencionado no documento, descreve o aprendizado de forma ainda mais direta: “durante muito tempo acreditamos que desenvolvimento era algo que governos entregam. Descobrimos que ele começa quando pessoas comuns decidem agir juntas”.
Ao examinar atentamente esse documento, uma conclusão se impõe com força crescente: políticas públicas são indispensáveis, mas raramente são suficientes. O que realmente desloca sociedades de um ponto de estagnação para um horizonte de progresso é a capacidade de alinhar energia institucional, iniciativa comunitária e responsabilidade individual em torno de um propósito compartilhado.
Essa talvez seja a contribuição mais provocadora do texto apresentado na ONU.
Transformação coletiva
Ele desloca o eixo do debate sobre desenvolvimento social. Em vez de perguntar apenas o que os governos devem fazer, o documento convida a perguntar como sociedades inteiras podem reorganizar suas relações para produzir transformação coletiva.
Indivíduos deixam de ser apenas beneficiários de políticas públicas e tornam-se agentes ativos de mudança.
Comunidades deixam de ser apenas receptoras de serviços e passam a ser ambientes de construção de soluções.
Instituições públicas deixam de operar isoladamente e passam a atuar como facilitadoras de processos sociais mais amplos.
Essa reorganização não elimina responsabilidades distintas entre Estado e sociedade. Mas cria uma arquitetura de cooperação capaz de multiplicar capacidades humanas e institucionais.
Num mundo marcado por fragmentação social, desconfiança institucional e polarização política, essa lição merece atenção.
O desenvolvimento sustentável não depende apenas de políticas bem desenhadas. Depende da capacidade das sociedades de reconstruir os vínculos que tornam possível a ação coletiva.
Quando indivíduos redescobrem o hábito de agir juntos, comunidades recuperam sua força organizadora e instituições públicas encontram parceiros reais para suas políticas.
É nesse ponto que o documento apresentado na ONU revela sua dimensão mais profunda.
Ele nos lembra que o desenvolvimento não começa em relatórios, conferências ou resoluções diplomáticas. Começa quando sociedades redescobrem algo elementar: a capacidade de cooperar conscientemente para construir o bem comum.
https://revistaforum.com.br/opiniao/a-arquitetura-esquecida-do-desenvolvimento-social/
06 de março de 2025
No Brasil, a cor da pele ainda define salários
Trabalhadores brancos recebem até 67% a mais por hora que pretos ou pardos, expondo uma desigualdade estrutural que atravessa gerações no Brasil


O debate sobre desigualdade no Brasil costuma ser envolvido por uma névoa confortável de opiniões e suposições. Mas há um território onde a retórica perde espaço: o das estatísticas oficiais. Quando os números entram em cena, o argumento deixa de ser retórico e passa a ser factual. E quem os produz com regularidade, método e responsabilidade institucional é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Este texto nasce de um incômodo que não desaparece ao longo dos anos de observação das estatísticas sociais brasileiras. Há algo profundamente revelador na regularidade desses números. Eles se repetem com pequenas variações, mas com o mesmo desenho estrutural.
A base desses dados é a PNAD Contínua, a principal pesquisa sobre mercado de trabalho no país. Na Síntese de Indicadores Sociais divulgada em 6 de dezembro de 2023, com base no ano de 2022, o IBGE apresentou um dado direto: o rendimento médio por hora de trabalhadores brancos era de R$ 20, enquanto pretos ou pardos recebiam R$ 12,40. A diferença alcançava 61,4%.
Não se tratava de uma anomalia estatística. Na atualização divulgada em dezembro de 2024, já com dados de 2023, a distância havia aumentado. O rendimento médio por hora chegou a R$ 23,02 para trabalhadores brancos e R$ 13,73 para pretos ou pardos, ampliando o diferencial para 67,7%.
Esses números dizem algo que o discurso público muitas vezes tenta suavizar: a desigualdade racial no mercado de trabalho brasileiro não está desaparecendo. Ela permanece incrustada na estrutura econômica.
Quem acompanha essas estatísticas percebe rapidamente que não se trata de números neutros. Cada decimal traduz escolhas sociais acumuladas ao longo de décadas. Cada diferença salarial revela como uma sociedade distribui valor e reconhecimento entre seus trabalhadores.
O recorte de gênero amplia ainda mais a fratura. Mulheres continuam recebendo cerca de um quarto a menos que homens, mesmo quando apresentam níveis de escolaridade iguais ou superiores. Quando raça e gênero se cruzam, o padrão torna-se brutalmente previsível: mulheres negras permanecem na base da pirâmide de renda do país.
Esse quadro não surge por acaso. O sociólogo Florestan Fernandes já alertava que o Brasil aboliu juridicamente a escravidão, mas não desfez a estrutura social que a sustentava. Em outras palavras, a liberdade formal não foi acompanhada de uma redistribuição real de oportunidades.
Ao observar a série histórica da PNAD Contínua, torna-se impossível ignorar a persistência desse padrão. A desigualdade salarial atravessa níveis de educação, setores econômicos e posições ocupacionais. Mesmo entre trabalhadores com ensino superior completo, a diferença salarial entre brancos e pretos ou pardos continua elevada, frequentemente superior a 40% no rendimento por hora.
Há também outro indicador revelador: o acesso ao poder dentro das empresas. Pretos e pardos representam mais da metade da força de trabalho brasileira, mas continuam sub-representados em cargos de direção e gerência.
Esse descompasso indica que o problema não está apenas no salário recebido ao final do mês. Ele está no acesso às posições onde as decisões econômicas são tomadas.
Analisando esse cenário, o economista ganhador do Nobel Amartya Sen observa que desigualdades persistentes no trabalho não refletem apenas imperfeições de mercado, mas restrições sociais que impedem milhões de pessoas de desenvolver plenamente suas capacidades. Quando essas restrições se tornam sistemáticas, a própria ideia de meritocracia começa a desmoronar.
Negar a existência de racismo estrutural no Brasil tornou-se uma espécie de ilusão de ótica coletiva. Só não enxerga o fenômeno quem decide olhar para outro lado. O Brasil que aparece nos dados não é o país idealizado em discursos sobre cordialidade racial. É um país em que o valor da hora de trabalho ainda é afetado pela cor da pele e pelo gênero de quem trabalha.
A historiadora Lilia Schwarcz tem insistido que o Brasil construiu ao longo do século XX uma narrativa confortável sobre si mesmo, celebrando a miscigenação como prova de harmonia social. As estatísticas contemporâneas, porém, contam outra história: uma sociedade em que desigualdades raciais continuam profundamente entranhadas na economia.
Se produtividade e esforço fossem os únicos critérios determinantes, não haveria razão estatística para que a cor da pele e o gênero continuassem funcionando como marcadores tão previsíveis de renda.
O que os dados revelam é outra coisa: o mercado de trabalho brasileiro ainda opera com hierarquias silenciosas herdadas da história social do país. Hierarquias que começaram na escravidão, atravessaram a industrialização e permanecem incrustadas na economia contemporânea.
Essas desigualdades não são apenas um problema ético. São também um problema econômico.
Uma sociedade que paga menos a milhões de trabalhadores por razões sociais — e não produtivas — desperdiça talento, reduz mobilidade social e limita seu próprio crescimento.
Economias modernas prosperam quando conseguem mobilizar plenamente o potencial humano de sua população. O Brasil, ao manter barreiras salariais previsíveis por raça e gênero, escolhe fazer exatamente o contrário.
Os números do IBGE, portanto, não são apenas estatísticas. Eles funcionam como um diagnóstico incômodo sobre como o país continua distribuindo valor, oportunidade e reconhecimento.
Enquanto essas diferenças permanecerem estruturalmente intactas, qualquer discurso sobre igualdade de oportunidades continuará incompleto.
Porque não existe mercado realmente competitivo quando o preço da hora de trabalho ainda é influenciado pela cor da pele ou pelo gênero de quem trabalha.
E não existe projeto sério de desenvolvimento nacional enquanto a economia brasileira continuar aceitando — quase como se fosse natural — que milhões de trabalhadores precisem produzir mais, resistir mais e esperar mais apenas para continuar recebendo menos. Quando um país normaliza essa lógica, não está diante de uma imperfeição estatística do mercado. Está diante de uma escolha histórica sobre quem merece prosperar e quem será condenado a sustentar, silenciosamente, a base da pirâmide social.
https://www.brasil247.com/blog/no-brasil-a-cor-da-pele-ainda-define-salarios
05 de março de 2025
Redes Sociais: o futuro dos sindicatos entre a tarrafa e o ruído
Entidades trabalhistas que não assumirem transformação urgente e estratégica perderão relevância pública, capacidade de mobilização e presença efetiva nas disputas contemporâneas


Oprimeiro sindicato de trabalhadores de Macau, no Rio Grande do Norte, surgiu ainda na década de 1930. Foi lançado em 1938 e reconhecido oficialmente pelo Ministério do Trabalho em 1948. Chamava-se Sindicato dos Trabalhadores na Extração de Sal de Macau — também conhecido como Sindicato dos Operários Salineiros — e foi criado por meu avô, Venâncio Zacarias de Araújo, que anos depois se tornaria prefeito da cidade, em 1957. Macau consolidava-se como polo estratégico da salina brasileira. Sede da Salinor, líder nacional com mais de 40% da produção, a cidade explora um conjunto singular de fatores naturais — sol intenso, ventos firmes e geografia plana — que explicam por que o Rio Grande do Norte responde por cerca de 95% do sal produzido no país.
A atividade salineira de Macau remonta ao século XVII e moldou a economia local por gerações. No auge, entre as décadas de 1950 e 1960, o sindicato reunia milhares de associados, tornou-se uma das entidades mais fortes da região, lutou por direitos trabalhistas, criou o SESTIS (Serviço Social dos Trabalhadores da Indústria do Sal) e influenciou diretamente a política local. Cresci ouvindo relatos sobre greves, negociações coletivas e assembleias acaloradas. Minha familiaridade com o universo sindical não nasceu apenas da pesquisa acadêmica, mas da memória viva de casa.
Antes da consolidação do sindicato salineiro, o Rio Grande do Norte já registrava experiências organizativas relevantes. O Sindicato do Garrancho, fundado em 1933, organizou trabalhadores da extração e do assentamento de pedras e marcou um momento importante na articulação coletiva no estado. Essa mobilização ajudou a pavimentar o sindicalismo potiguar e antecedeu a criação do Sindicato dos Salineiros de Macau, em 1938, ampliando a luta por direitos na cadeia produtiva do sal e fortalecendo a consciência política em uma região historicamente desigual.
Novos desafios
Hoje, como professor universitário e estudioso das organizações sociais de trabalhadores no Brasil, observo que os desafios mudaram de forma, mas não de essência. A luta por direitos permanece. O que se transformou radicalmente foi o ambiente em que essa luta se dá. Se no passado o sindicato precisava de sede física, jornal impresso e carro de som, agora precisa compreender algoritmos, métricas de engajamento e segmentação digital.
As eleições de 2022 revelaram um dado relevante para qualquer análise institucional: a dificuldade de converter capilaridade organizativa em presença digital coordenada. Diversas entidades buscaram estruturar comissões e brigadas digitais, com a meta ambiciosa de formar milhares de núcleos interligados. O resultado ficou muito abaixo do esperado. O problema não foi ausência de militância, mas falta de método, integração e planejamento sistêmico.
Predominaram redes fragmentadas, muitas vezes vinculadas a lideranças específicas ou a mandatos parlamentares isolados.
Do ponto de vista sociológico, isso expõe uma tensão contemporânea: instituições concebidas para ação coletiva enfrentando um ambiente tecnológico que privilegia personalização, velocidade e comunicação descentralizada. A cultura sindical, historicamente baseada em assembleias e decisões colegiadas, encontra dificuldade para se adaptar à lógica instantânea das plataformas.
A reflexão aqui não é partidária. É estrutural. A democracia contemporânea é atravessada por fluxos informacionais intensos. Quem não domina a lógica das redes perde capacidade de disputar narrativas públicas. Produzir conteúdo não é suficiente. Há abundância de posts, vídeos curtos, cards e declarações circulando diariamente. O gargalo está na arquitetura de distribuição.
Formato de tarrafa
Entre as propostas debatidas em círculos sindicais e acadêmicos está a criação de sistemas organizados no formato de “tarrafa”: um núcleo central articulando redes estaduais, setoriais e municipais. A imagem é precisa. A tarrafa só cumpre sua função quando cada nó está conectado. Na prática, isso significa coordenação de listas de transmissão, definição de horários estratégicos de envio e integração entre diferentes plataformas — WhatsApp, Instagram, Facebook, X e outras.
Estudos sobre comportamento digital indicam que a simultaneidade de postagens amplia o alcance orgânico. Quando milhares de perfis replicam uma mensagem em curto intervalo, os algoritmos identificam relevância e ampliam visibilidade. Essa lógica exige disciplina — algo que sempre foi virtude das organizações trabalhistas —, mas que precisa ser traduzido para o ambiente virtual.
Segmentação
Outro elemento central é a segmentação de público. Trabalhadores na ativa têm demandas distintas das de aposentados. Jovens sindicalizados interagem de forma diferente em comparação a dirigentes históricos. Ferramentas de Big Data e inteligência artificial permitem personalizar mensagens. Contudo, seu uso deve respeitar rigorosamente a Lei Geral de Proteção de Dados. Bases públicas como RAIS e SIDRA oferecem subsídios estatísticos, mas dados pessoais só podem ser utilizados com autorização expressa. Estratégia sem ética compromete legitimidade.
O Brasil possui dezenas de milhares de dirigentes sindicais espalhados pelo território. Se cada um operar como ponto de rede, compartilhando conteúdos em listas próprias e redes sociais, o potencial de difusão é expressivo. Mas isso não se constrói por improviso. Exige formação continuada, definição clara de responsabilidades e acompanhamento permanente de resultados.
Tecnologia e legitimidade
Há também um risco evidente: acreditar que tecnologia substitui legitimidade.
Redes bem estruturadas ampliam alcance, mas não substituem propostas consistentes nem diálogo real com a base.
A confiança permanece sendo o ativo central de qualquer organização social.
Quando recordo as histórias de Macau e da entidade fundada por meu avô, percebo que o elemento decisivo sempre foi organização. Na década de 1930, estruturar uma entidade de trabalhadores exigia coragem diante de um Estado ainda centralizador e de relações laborais assimétricas. Nos anos 1950, ampliar direitos significava enfrentar resistências econômicas e políticas locais. Hoje, o cenário mudou, mas a necessidade de método e visão estratégica permanece.
O século XXI impõe às organizações trabalhistas um duplo movimento: preservar sua identidade histórica e incorporar competência tecnológica.
A assembleia física continua relevante, mas precisa dialogar com a assembleia digital. O panfleto tornou-se post; o jornal mural, feed; a palavra de ordem ecoa agora em timelines.
Como pesquisador, vejo que a capacidade de coordenação será determinante para o futuro das organizações sociais de trabalhadores no Brasil. Não se trata apenas de disputar eleições, mas de manter presença qualificada no debate público. Comunicação deixou de ser acessório; tornou-se infraestrutura.
Método e coordenação
Entre as salinas potiguares e o universo dos algoritmos, há uma linha contínua: a organização coletiva como instrumento de dignidade. Sem método, há dispersão. Com método, há voz. A história demonstra que trabalhadores organizados transformam realidades — não por retórica, mas por estrutura, método e continuidade. O ambiente mudou de forma vertiginosa; a exigência de coordenação, contudo, permanece intacta. E agora é imperativo elevá-la de patamar. Não há espaço para inércia institucional.
Água parada acumula lodo; organização que apenas reage, que se acomoda à rotina burocrática ou se fecha à inovação, degrada-se silenciosamente. Sindicato desmotivado, refratário à mudança e desmobilizado perde relevância, perde base, perde voz. No mundo dos algoritmos e da disputa permanente por atenção, quem não circula, não articula e não se renova, evapora.
A nova organização sindical mais adequada ao tempo atual não pode ser um edifício vertical com salas isoladas, mas um sistema nervoso distribuído, no qual cada dirigente funciona como neurônio ativo, capaz de receber, processar e retransmitir informação em sincronia com o todo. Se o modelo antigo era a praça pública cercada por paredes físicas, o modelo contemporâneo precisa assemelhar-se a uma constelação interligada por fibras invisíveis: cada estrela mantém sua identidade própria, mas só produz orientação quando conectada às demais. Sem conexão, há pontos de luz dispersos; com conexão, forma-se o mapa que guia a travessia coletiva.
https://revistaforum.com.br/opiniao/redes-sociais-o-futuro-dos-sindicatos-entre-a-tarrafa-e-o-ruido/
03 de março de 2025
Quando a ganância derruba impérios tecnológicos
Sem inteligência estratégica, liderança vira soberba; a recusa chinesa expôs fragilidade americana e mostrou que mercado global recompensa cálculo frio


O mundo empresarial não é território para amadores nem para vaidades infladas. É campo de visão longa, cálculo frio e inteligência estratégica permanente. Quem administra olhando apenas o trimestre seguinte já está atrasado. Quem negocia pensando exclusivamente na própria margem pode estar assinando o próprio obituário corporativo. O mercado não pune ingenuidade ética; pune erros estratégicos. E o caso da GoPro é uma aula crua sobre como se perder o trono ao confundir liderança com invulnerabilidade.
Em junho de 2014, a GoPro estreava na Nasdaq sob aplausos. Captou cerca de US$ 427 milhões em sua oferta pública inicial. Em poucos meses, seu valor de mercado se aproximava de US$ 10 bilhões. Vendia aproximadamente 6,6 milhões de câmeras por ano. Havia criado um mercado do zero. Mais do que uma câmera, era um ecossistema: acessórios, softwares de edição, comunidade global, presença maciça no YouTube e nas redes sociais.
Enquanto o Vale do Silício celebrava, Shenzhen trabalhava. A DJI, fundada em 2006 por Frank Wang, consolidava sua hegemonia nos drones civis. Em 2015, estimativas da Skylogic Research indicavam que a empresa chinesa já detinha mais de 70% do mercado global de drones. O modelo Phantom popularizou a captura aérea — e carregava câmeras da própria GoPro.
A negociação que poderia ter redesenhado o setor fracassou por uma exigência considerada desproporcional: a empresa americana queria dois terços de todo o lucro do drone chinês acoplado com a GoPro. A resposta foi fulminante. Os executivos da DJI não precisaram sequer de uma hora para dizer não. Recusaram na mesma conversa. Ali morreu a possibilidade de uma fusão tecnológica que poderia ter consolidado uma hegemonia conjunta.
Benchmarking, nesse contexto, não é copiar o concorrente. É analisar sistematicamente suas melhores práticas, identificar vantagens estruturais e, sobretudo, decidir quando integrar competências para ampliar escala e utilidade. Produtos muitas vezes atingem seu auge quando se fundem a outros e criam novas categorias.
A DJI compreendeu isso. Investiu pesado na estabilização de imagem — gimbals de três eixos, integração total entre hardware e software, domínio de vibração. Internalizou a competência crítica. Depois, trouxe essa tecnologia para o solo, criando câmeras próprias com estabilização avançada.
A GoPro lançou o drone Karma em 2016. O resultado foi constrangedor. Poucas semanas após o lançamento, a empresa anunciou recall global por falhas que levavam à perda súbita de energia. Os drones, não raramente, simplesmente caíam do céu. A cobertura da imprensa internacional foi implacável. O impacto financeiro e e o altíssimo prejuízo para reputação da empresa foi severo.
O valor de mercado que orbitara US$ 10 bilhões despencou vertiginosamente. Em poucos meses, a empresa viu sua capitalização encolher para cerca de US$ 200 milhões. O mercado não perdoa decisões estratégicas equivocadas.
Casos semelhantes ecoam hoje. A Microsoft investe bilhões para integrar inteligência artificial da OpenAI ao seu ecossistema de produtos, fundindo software tradicional com modelos generativos. A Apple avança na integração entre hardware, serviços e inteligência embarcada para ampliar retenção e valor agregado. Em ambos os casos, a lógica é clara: unir competências para expandir utilidade e receita.
Empresário precisa enxergar quilômetros além do ponto onde está. Margem exagerada pode ser cegueira estratégica. Ganância não é apenas um desvio comportamental; é risco estrutural. Quando ultrapassa o limite do razoável, compromete rentabilidade, marca e futuro.
O pioneirismo não garante imunidade. Garante apenas a obrigação de continuar aprendendo antes que outro aprenda por você.
https://www.brasil247.com/blog/quando-a-ganancia-derruba-imperios-tecnologicos
23 de fevereiro de 2025
O Brasil se tornou a nação do quase cresce, quase inova, quase decola
Selic em 15% mantém país no topo global dos juros reais, favorece o rentismo, pressiona o investimento produtivo e impõe custo direto às empresas e às famílias


A Selic em 15% ao ano não é apenas um número técnico decidido a cada 45 dias pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil. Ela se transformou em símbolo de um modelo. Em janeiro de 2026, o Copom manteve a taxa nesse patamar, consolidando o nível mais alto desde 2006. A justificativa formal permanece a mesma: assegurar a convergência da inflação à meta. No entanto, quando a inflação projetada para os próximos 12 meses orbita em torno de 4% e a taxa nominal é 15%, o que se estabelece é um juro real ex-ante próximo de dois dígitos — um dos mais elevados do planeta.
Convém explicar com precisão técnica o que significa essa expressão. “Juro real ex-ante” é a taxa nominal descontada da inflação esperada para os próximos 12 meses. Não se trata de inflação passada, mas de expectativa futura. É esse indicador que investidores globais utilizam para comparar retorno efetivo entre países. Sob esse critério, o Brasil figura consistentemente entre as duas maiores taxas reais do mundo. A liderança pode variar conforme metodologia e horizonte — em alguns rankings aparece a Turquia, em outros a Rússia —, mas o fato incontornável é que o Brasil está no topo global de remuneração real do capital financeiro.
Para evitar qualquer generalidade, é necessário olhar os números concretos das principais economias. O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, manteve nos últimos três meses a taxa básica (Fed Funds) no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano. O Banco Central Europeu (BCE — Banco Central Europeu), responsável pela política monetária dos 20 países que utilizam o euro, opera com taxa de depósito em 2,00% e taxa principal de refinanciamento em torno de 2,15%.
No caso latino-americano, os dados são igualmente objetivos. O Banco de México (Banxico) mantém a taxa básica em 11,00% ao ano no início de 2026. O Banco Central do Chile trabalha com taxa de política monetária em torno de 6,50% ao ano. Não há adjetivos aqui — há números. O Brasil opera com 15%. México, 11%. Chile, 6,50%. O diferencial é estrutural.
Diante desse quadro, a pergunta que se impõe não é se juros combatem inflação — combatem, em determinadas circunstâncias —, mas se o Brasil está pagando um preço desproporcional por uma estabilidade que já apresenta sinais de consolidação.
Quando o cofre rende mais que a fábrica
Adam Smith (1723–1790) escreveu em A Riqueza das Nações que “o trabalho anual de cada nação é o fundo que originalmente lhe fornece todas as coisas necessárias e convenientes da vida”. Smith desmontou o mercantilismo ao mostrar que riqueza não é metal acumulado, mas produção gerada. Ao manter juros reais de dois dígitos, o Brasil sinaliza que o retorno do capital financeiro supera, com folga, o retorno do investimento produtivo médio. Isso cria um desalinhamento estrutural.
David Ricardo (1772–1823), ao formular a teoria das vantagens comparativas, partiu da ideia de que o capital flui para onde a produtividade relativa é maior. Mas essa lógica pressupõe um custo de oportunidade compatível com o risco produtivo. Quando o título público brasileiro remunera a 15%, projetos industriais, tecnológicos e exportadores precisam oferecer retornos extraordinários apenas para empatar com o risco soberano. O efeito não é abstrato: investimentos são adiados, cadeias produtivas perdem densidade, inovação é comprimida. Isso significa menos fábricas abertas, menos startups financiadas, menos empregos qualificados gerados. Significa também crédito imobiliário mais caro, financiamento estudantil mais restrito e consumo das famílias permanentemente pressionado. A vida cotidiana sente o impacto na prestação do carro, na taxa do cartão, no custo do capital de giro da padaria da esquina.
A sedução do capital volátil e a fragilidade estrutural
Joseph Schumpeter (1883–1950) afirmava que “o crédito é essencialmente criação de poder de compra para fins de inovação”. Sem crédito acessível e previsível, a destruição criativa se enfraquece. Juros elevados atraem capital de curto prazo interessado no diferencial de taxa — o chamado carry trade — mas não necessariamente capital produtivo de longo prazo. Esse fluxo pode apreciar o câmbio temporariamente, reduzir competitividade industrial e tornar o país mais dependente de commodities.
Essa dependência não é abstrata nem recente. Soja, minério de ferro, petróleo bruto, milho e carnes representam parcela central da pauta exportadora brasileira. O agronegócio responde por cerca de 25% do PIB, direta e indiretamente, e mais de 45% das exportações totais. A concentração em produtos primários, embora gere divisas, limita a sofisticação tecnológica da economia. Juros elevados reforçam essa dinâmica ao desestimular indústria de transformação e setores intensivos em inovação. Parte do atraso industrial e tecnológico brasileiro nasce justamente desse círculo vicioso: capital caro, indústria enfraquecida, dependência crescente de produtos básicos.
O trilhão que não vira escola, hospital ou estrada
Em 2025, as despesas com juros nominais do setor público brasileiro ultrapassaram um trilhão de reais. Traduzindo para linguagem direta: para cada 100 reais produzidos pelo país em um ano, quase 8 reais foram destinados apenas ao pagamento de juros da dívida pública. Esse dinheiro não constrói pontes, não amplia universidades, não financia pesquisa científica, não fortalece hospitais. Ele remunera o estoque da dívida.
John Maynard Keynes (1883–1946) advertiu que “a dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das antigas”. Persistir em taxas excepcionalmente elevadas pode transformar prudência monetária em rigidez estrutural. Michal Kalecki (1899–1970) foi ainda mais incisivo ao sustentar que decisões macroeconômicas refletem conflitos distributivos. Juros elevados transferem renda para quem possui ativos financeiros e pressionam quem depende de crédito. Não é neutralidade técnica; é escolha institucional.
Eficiência, distribuição e responsabilidade histórica
Vilfredo Pareto (1848–1923) formulou o conceito de eficiência econômica que leva seu nome, mas jamais confundiu eficiência com justiça social. John Stuart Mill (1806–1873) escreveu que “as leis da produção são naturais; as da distribuição são obra das instituições humanas”. Juros de 15% não são fenômeno da natureza. São resultado de decisão política dentro de um arcabouço institucional.
A história do pensamento econômico mostra que políticas surgem para responder a contextos específicos. O mercantilismo confundia riqueza com metal. Smith o contestou. Keynes rompeu com a crença na autorregulação automática. Schumpeter mostrou que crescimento exige ruptura. Cada avanço teórico ocorreu quando a realidade impôs revisão.
O Brasil de 2026 enfrenta esse momento. Combater inflação é necessário. Transformar juros excepcionalmente elevados em padrão prolongado pode ser um erro estratégico. Quando o país figura de forma recorrente entre os maiores juros reais do mundo, envia mensagem clara ao investidor produtivo: aqui, o risco compensa menos do que a aplicação passiva.
Persistir nessa trajetória significa aceitar crescimento medíocre, inovação tímida e indústria fragilizada como preço da estabilidade. A economia não é um exercício de contabilidade; é projeto de nação. E juros de 15% ao ano, mantidos como regra estrutural, deixam de ser instrumento de política monetária e passam a ser definição silenciosa de destino.
https://www.brasil247.com/blog/o-brasil-se-tornou-a-nacao-do-quase-cresce-quase-inova-quase-decola
21 de fevereiro de 2025
O erro moderno de desprezar princípios antigos
A provocação é simples e incômoda: princípios registrados há dois mil anos continuam mais sólidos que muitos discursos contemporâneos sobre poder e sucesso


Há quem deseje o palco, mas não o silêncio que antecede a decisão difícil. Liderar é avançar quando o chão ainda não foi testado, sabendo que cada passo produz consequências que não cabem em relatórios trimestrais. É assumir que autoridade não é ornamento, é ônus. E ônus não se delega.
Recentemente reli uma lição de liderança atribuída ao Dr. Marcus Valen, em diálogo com seu jovem interlocutor, Daniel. O texto não nasceu em auditórios corporativos nem em workshops de fim de semana. É aconselhamento direto, quase clínico. Valen não oferece frases de efeito; oferece critérios. Ele começa pelo essencial: desejar liderar é desejar responsabilidade. Quem pleiteia o comando precisa aceitar o peso das escolhas quando elas deixam de ser teóricas e passam a afetar empregos, reputações e destinos institucionais.
É aqui que a primeira ideia se impõe com nitidez quase desconfortável: liderança é prestação de contas permanente. O líder é o ponto de convergência das pressões e o primeiro a ser cobrado quando algo falha. Em ambientes empresariais complexos, onde decisões atravessam fronteiras e impactam cadeias inteiras, não há espaço para vaidade descompromissada. Poder sem responsabilidade é fragilidade disfarçada.
Na sequência da conversa, emerge um segundo princípio menos celebrado, porém decisivo: liderar é formar gente. Valen insiste que desempenho individual, por mais brilhante que seja, é insuficiente quando não se converte em multiplicação de talentos. Organizações sólidas não dependem de protagonistas isolados, mas de culturas que ensinam e preparam sucessores. O líder que centraliza conhecimento constrói dependência; o que compartilha constrói legado. Formar pessoas é a forma mais estratégica de perpetuar resultados.
Há ainda um ponto que raramente aparece nas biografias empresariais, mas sustenta todas elas: autocontrole. A terceira dimensão da liderança, segundo Valen, é a sobriedade como prática diária. Não se trata apenas de evitar excessos evidentes, mas de governar impulsos, linguagem e postura. Em tempos de exposição contínua, uma reação intempestiva pode corroer anos de reputação. A sobriedade não é detalhe comportamental; é ativo estratégico. Quem não administra as próprias emoções dificilmente administrará crises.
Quando a conversa avança para o campo pessoal, o argumento ganha profundidade. A quarta dimensão da liderança começa longe das salas de reunião. Disciplina doméstica e organização pessoal são ensaios silenciosos para responsabilidades maiores. Coerência entre vida íntima e atuação pública não é moralismo, é fundamento de confiança. A autoridade se sustenta quando há alinhamento entre discurso e prática.
Por fim — e talvez aqui esteja o alerta mais atual — surge a quinta exigência: maturidade. Promoções apressadas, sem lastro de experiência e caráter, produzem decisões erráticas e arrogância precoce. Experiência afia julgamento; caráter delimita fronteiras éticas. E reputação — esse patrimônio invisível — acumula-se lentamente, mas pode ser dissolvida por um único ato impensado.
Esse texto me foi enviado por amigo de longa data, Luís Henrique Beust, CEO da Anima Mundi, e concordo inteiramente com ele quando afirma que certas lições atravessam séculos porque falam à arquitetura moral do ser humano, não às tendências do mercado. E aqui está o ponto que exige franqueza: se eu tivesse iniciado revelando que esses princípios foram registrados entre 63 e 65 d.C., numa orientação do apóstolo Paulo a Timóteo, muitos teriam interrompido a leitura por preconceito intelectual, confundindo antiguidade com irrelevância. Teriam julgado a origem antes de enfrentar o conteúdo.
A liderança autêntica não se curva ao calendário nem às modas corporativas. Ela se ancora em caráter. E caráter não expira, não recebe atualização de versão, não depende de algoritmo para manter pertinência. O que envelhece são as narrativas oportunistas; princípios permanecem. Liderar, afinal, é sustentar coerência quando o aplauso passa — e continuar responsável quando as luzes se apagam.
https://www.brasil247.com/blog/o-erro-moderno-de-desprezar-principios-antigos
16 de fevereiro de 2025
Antes da morte vem o sumiço que condena os que deixam de ser vistos
A invisibilidade social talvez seja a mais cruel dentre as injustiças no Brasil. Não porque mata — mas porque apaga. E quem é apagado, antes de morrer, já deixou de existir.


No Brasil, os fantasmas não vivem apenas em histórias de assombração. Circulam entre nós, atravessam calçadas, sobem elevadores de serviço, limpam escritórios, servem cafés, cuidam de nossos filhos e pais. Não vestem lençóis brancos, mas uniformes azul-marinho, cinza, marrom ou verde-escuro. Não fazem barulho — não porque não queiram, mas porque foram ensinados, desde cedo, que sua função é cumprir a tarefa e desaparecer.
O psicólogo social Fernando Braga da Costa, da Universidade de São Paulo, transformou essa percepção em pesquisa. Durante dez anos, trabalhou meio período como gari na Cidade Universitária. O que descobriu não cabia em tabelas ou gráficos: professores que o cumprimentavam pelo nome quando o encontravam sem uniforme atravessavam o corredor sem vê-lo quando ele vestia a farda laranja. O homem sumia. Ficava apenas o gari. Sua tese de doutorado batizou o fenômeno de invisibilidade pública: a cristalização do olhar que enxerga a função, mas apaga o indivíduo.
Na ficção de J.K. Rowling, a capa da invisibilidade de Harry Potter é um artefato mágico cobiçado, capaz de ocultar seu portador aos olhos de todos, oferecendo proteção e vantagem. No mundo real, porém, existe uma “capa” muito menos nobre e infinitamente mais cruel: a da invisibilidade social. Ao contrário da magia, ela não é escolhida, mas imposta — vestida, muitas vezes, pelo simples fato de exercer um trabalho considerado subalterno, de carregar a cor da pele que o preconceito rejeita ou de ocupar um espaço que a elite ignora. Essa capa não concede poder, apenas apaga a existência, tornando pessoas reais tão imperceptíveis quanto fantasmas.
A experiência de Costa é paradigmática — mas está longe de ser única. Casos recentes mostram que a invisibilidade se modernizou, diversificou e, em alguns campos, aprofundou-se.
20 de agosto de 2025
Já é hora de créditos extraordinários contra o tarifaço de Trump
Vital do Rêgo propõe ação rápida com créditos fora do arcabouço fiscal para conter danos do tarifaço ao agronegócio e à indústrias


O tarifaço de 50% imposto por Donald Trump aos produtos brasileiros, que entra em vigor em 1º de agosto de 2025, lança sombras sobre nossa economia e exige respostas firmes. Em entrevista, o presidente do TCU, Vital do Rêgo, defende o diálogo diplomático, mas aponta os créditos extraordinários como ferramenta crucial para proteger o agronegócio e a indústria. “O custo vem de forma anormal, porque ninguém deu causa a isso”, sentencia.
Concordo integralmente com esse pensamento: é exatamente para situações que coloquem a economia nacional em perigo que existe a opção de se lançar mão de recursos extraordinários. Previstos no artigo 167, §3º da Constituição, esses recursos atendem a despesas urgentes e imprevisíveis, como crises globais, sem se submeterem ao arcabouço fiscal da Lei Complementar 200/2023 ou ao teto da EC 95/2016, garantindo agilidade essencial.
Infelizmente, nem todos os filhos do Brasil vibram com seu sucesso. Alguns, nascidos aqui, mas com a alma voltada a interesses externos, não hesitam em minar a nação em disputas internacionais. Para esses oportunistas, o governo deve socorrer exportadores contra tarifas abusivas, mas nunca com recursos extraordinários – pois, para eles, quem ajuda deve ser punido.
É o pensamento econômico dos terraplanistas. É a política em sua face mais sombria, que vira as costas ao povo e ao progresso coletivo.
A tramitação dos créditos exige precisão: uma Medida Provisória (MP), editada pelo presidente, entra em vigor imediatamente. O Congresso a avalia em até 120 dias – 45 na Câmara, 45 no Senado, prorrogáveis por 30 –, convertendo-a em lei ou rejeitando-a, com atos sob escrutínio judicial (artigo 62 da CF). A celeridade é crucial: esgotar os 120 dias seria um desserviço; decisões rápidas fortalecem a União, beneficiando todos.
Com a incerteza pós-1º de agosto, o governo age com responsabilidade, elaborando um plano robusto para apoiar empresas afetadas, contendo perdas de receita e demissões. Os ministérios da Fazenda, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, da Casa Civil e o Itamaraty forjaram um pacote estratégico, sob análise de Lula, para neutralizar os impactos de Trump.
Setores como combustíveis e carne podem buscar mercados alternativos, ainda que a preços menores, sem desestímulo estatal. Já o setor de aviação, liderado pela Embraer, enfrenta desafios maiores: encontrar compradores alternativos é complexo, mas a pressão de companhias aéreas americanas, dependentes de suas aeronaves, pode abrir exceções. O café, com estoques globais baixos, também pode escapar ileso.
Crises externas já testaram esse mecanismo. A pandemia de Covid-19, surgida na China em 2019, mobilizou R$ 603,7 bilhões em créditos extraordinários em 2020, com R$ 549,64 bilhões aplicados em auxílios, saúde e suporte econômico, e R$ 75,91 bilhões cancelados por subexecução, segundo o Senado. MPs como a 969/2020 destinaram R$ 10 bilhões à saúde, enquanto a 988/2020 alocou R$ 101,6 bilhões ao auxílio emergencial.
As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, intensificadas por mudanças climáticas globais, consumiram R$ 94,38 bilhões, via MPs como a 1.218/2024 (R$ 12,2 bilhões) e a 1.244/2024 (R$ 1,25 bilhão), conforme a Casa Civil. Uma MP de setembro liberou R$ 5,1 bilhões adicionais para reconstrução.
A guerra na Ucrânia, desde 2022, elevou os preços de fertilizantes em 68% e de combustíveis em 46%, impactando bilhões em importações, segundo a Embrapa e a ANP, com ajustes via subsídios indiretos.
O tarifaço atual ameaça bilhões em exportações, e os créditos extraordinários são a resposta certa, fora das metas fiscais. Com a dívida pública em 76,1% do PIB em maio de 2025, conforme o Banco Central, moderação é essencial, mas a proposta de Vital do Rêgo é indispensável. Passei 21 anos trabalhando na Secretaria-Geral da Mesa do Senado; sei que matéria legislativa dessa monta precisa ser implementada com urgência – sem falsas batalhas legislativas – porque fortalece o Brasil contra vendavais globais, além de uni-lo em defesa de um futuro soberano.
https://www.brasil247.com/blog/ja-e-hora-de-creditos-extraordinarios-contra-o-tarifaco-de-trump
30 de julho de 2025
Futurofobia
Futurofobia paralisa jovens, que buscam causas em um mundo sufocado por telas, IA e crises globais


Futurofobia não é um susto fugaz; é um abismo que engole horizontes, como um céu engolido por nuvens de chumbo antes do amanhecer. Jovens, especialmente millennials e Geração Z, encaram o futuro como um campo minado, tecido por crises climáticas, guerras em tempo real e algoritmos que moldam destinos antes que sejam escolhidos.
Não é medo passageiro – é paralisia diante de um amanhã que parece armadilha, não promessa. Telas que devoram horas e inteligências artificiais que ameaçam ofícios alimentam um desencanto que sufoca a imaginação, roubando a ousadia de sonhar.
Renato Russo, há décadas, já via o mundo doente: “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.” A pressão por carreiras impecáveis, movida por um capitalismo insaciável, plantava sementes de esgotamento. Hoje, elas florescem em burnout epidêmico. Um estudo da Pew Research (2025) revela que 48% dos jovens de 13 a 17 anos veem redes sociais como prejudiciais, com 45% admitindo uso excessivo.
A globalização instantânea despeja tragédias – enchentes no Sul, fome em Gaza, fanatismo religioso no Irã, deportações em massa nos EUA – enquanto mudanças climáticas e desigualdades corroem esperanças. Jovens ouvem: “Vocês consertarão nosso fracasso.” Respondem, asfixiados: “Não fizeram o suficiente por que nos entregam um mundo mais quebrado que arroz de terceira.”
A Lancet (2024) aponta que 18% dos adolescentes de 12 a 17 anos tiveram episódios depressivos graves em 2023, com 12% relatando pensamentos suicidas. Outra análise (2025) destaca que megatendências como crises ambientais e automação agravam distúrbios mentais em 10% dos jovens de 5 a 24 anos.
Telas não são o único vilão, mas pesam: a APA (2024) associa maior exposição digital a riscos socioemocionais, com 60% dos jovens relatando ansiedade ligada a dispositivos. A IA amplifica temores: adolescentes confessam que máquinas podem superar sonhos profissionais. A AIM Youth Mental Health (2025) nota que telas criam ciclos de ansiedade, com 71.9% citando ansiedade e 64.9% stress/burnout.
Burnout é um colapso silencioso: exaustão crônica, com 82% dos jovens em risco (relatório 2025), por pressões financeiras (30%) e laborais (25%). Sintomas incluem apatia, insônia, cinismo e queda na concentração, levando a desempenho fraco.
Perceptivamente, distorce o futuro como inalcançável, com 40% sentindo-se passivos (PNAS, 2025), agravado por ansiedade climática. Saúde mental sofre: depressão e automutilação crescem, com 29% considerando autolesão (Youth Mental Health Tracker, 2024).
Jovens vagueiam em busca de uma causa que mereça suas vidas, infundindo sentido e razão vibrante para acordar. Nesse marasmo intergeracional, tornam-se alvos de ideologias extremistas, que prometem purificação mas semeiam ruínas, arrastando para divisão e ódio.
Minha geração pulsava com causas incendiárias: contracultura desafiando normas, paz e amor tecendo harmonia, lutas contra armas nucleares (que voltam com força), extremismo e imperialismo. Hoje, o fervor evaporou, clamando por novas chamas.
A imaginação definha: “Tech to the Future” (2025) mostra visões opressivas por automação. A literatura perde espaço para streams, corroendo foco.
Distopias como “The Last of Us” refletem angústias; redes isolam, algoritmos paralisam. Seriados mais assistidos trazem zumbis e mortos vivos em narrativas pessimistas onde simplesmente não há amanhã.
A “militância do sofá” – cliques inertes assinando manifestos e publicando nas redes sociais – substitui ação. “Girl Up” (2024) prova potencial, mas quantos glamourizam doenças via ChatGPT?
O risco é profecia autorrealizável: jovens passivos cristalizam pessimismo. Educadores falham em ferramentas contra o caos. “Curtida Aí” (2025) escuta: “O algoritmo me define.” “Jovens carregam crises sem manuais,” diz Vivek Murthy. “Sem sonhos, o futuro escurece,” alerta Yuval Harari. “Tecnologia pode ser corrente ou ferramenta,” reflete Satya Nadella.
Futurofobia é um grito urgente, um chamado para reacender a busca por causas que valham dias. Ignorar é condenar gerações a um vazio onde o amanhã se dissolve.
https://revistaforum.com.br/opiniao/2025/7/27/futurofobia-184157.html
27 de julho de 2025
Revolução silenciosa dos invisíveis que fazem a diferença
Em um mundo corroído pela indiferença, 'Abdu'l-Bahá, Mohamed Mashali e Peter Tabichi emergiram como raízes profundas de humanidade - três homens que transformaram a doação em ato de insurreição silenciosa contra a aridez de nosso tempo


Num mundo onde o tempo corre e o egoísmo muitas vezes dita o compasso, há quem escolha caminhar contra a corrente, carregando a chama da generosidade. No Egito, sob um sol que parece queimar até os sonhos, o Dr. Mohamed Mashali (1944-2020), aos 80 anos, atravessava ruas poeirentas rumo à sua modesta clínica.
Sem carro, sem celular, apenas com um coração imenso, ele atendia filas de rostos sofridos. Cada consulta custava menos de um dólar, e muitas vezes ele abria mão até disso, pagando remédios do próprio bolso. Conhecido como o “médico dos pobres”, Mashali viveu por mais de 50 anos com quase nada, recusando fama e fortuna, mas jamais um paciente. Sua vida mudou para sempre quando um menino diabético, desesperado por não querer ser um fardo para a família faminta, ateou fogo em si mesmo.
A dor daquele garoto, que morreu em seus braços, tornou-se um juramento: dedicar-se aos que nada tinham. Até seus últimos dias, em 2020, mesmo com a saúde frágil, ele cumpriu essa promessa, deixando um legado que hoje brilha em murais na Síria e no Marrocos.
Em um canto remoto do Quênia, onde a pobreza engole esperanças e a eletricidade é um luxo, Peter Tabichi (1982-vivo), um monge franciscano de 36 anos, escolheu ser luz. Em uma escola com 58 alunos por sala, um único computador e internet precária, ele transformou o ensino de matemática e física com criatividade e compaixão.
Seus estudantes, muitos órfãos que caminham sete quilômetros para estudar, venceram competições nacionais de ciências e chegaram a uma feira de engenharia nos Estados Unidos. Peter doa quase todo o seu salário aos pobres, promove a paz entre tribos outrora divididas e empodera alunos cegos.
Quando recebeu o Global Teacher Prize, com seu milhão de dólares, ele já sabia: o dinheiro voltaria para sua vila, para erguer futuros. “Este prêmio é para a juventude da África”, disse, com um sorriso sereno, vestindo seu simples hábito franciscano.
Em 'Akká, no coração de um exílio imposto pelo Império Otomano, ‘Abbas Effendi, conhecido como ‘Abdu’l-Bahá (1844-1921), transformou prisões em fontes de esperança. Sob a vigilância de guardas e o peso de décadas de confinamento, ele, aos 77 anos, carregava um coração que não conhecia limites.
Sem riquezas, sem liberdade plena, apenas com uma fé inabalável no serviço, ele acolhia peregrinos, pobres e doentes, compartilhando o pouco pão que tinha. Conhecido como o “Mestre de 'Akká’”, ele viveu para os outros, recusando honrarias, mas jamais um necessitado. Sua vida mudou ainda jovem, quando, aos 8 anos, testemunhou a prisão de sua família por suas crenças bahá’ís, jurando dedicar-se aos esquecidos.
Em Bagdá, ele cuidava de órfãos, oferecendo-lhes comida e abrigo; em Haifa, distribuía mantimentos aos famintos nas ruas, muitas vezes tirando do próprio prato. Durante a Primeira Guerra Mundial, quando a fome devastava a Palestina, ele organizou a distribuição de grãos armazenados, salvando milhares de vidas, independentemente de credo, raça ou origem. Ele visitava leprosos rejeitados, levando-lhes conforto e dignidade, e consolava prisioneiros com palavras que reacendiam a esperança.
‘Abdu’l-Bahá promovia a unidade entre religiões, reunindo muçulmanos, cristãos e judeus em diálogos de paz, desafiando séculos de divisão. Em suas viagens ao Ocidente, entre 1911 e 1913, ele falava a multidões sobre igualdade racial e justiça social, abraçando os marginalizados, como os afro-americanos nos Estados Unidos, em tempos de segregação. Mesmo exausto, ele caminhava pelas vilas, atendendo a cada alma que o procurava, do mendigo ao erudito, com o mesmo amor.
Quando líderes o convidavam para banquetes, ele preferia os humildes, compartilhando seu tempo e consolo. “A verdadeira felicidade está em servir”, dizia, com um sorriso sereno, vestindo sua túnica simples. Até seus últimos dias, em 1921, com a saúde fragilizada, ele continuou servindo, deixando um legado que ecoa em comunidades bahá’ís e além, inspirando milhões a viver para o outro.
Mashali, Tabichi e ‘Abdu’l-Bahá, separados por continentes e eras, são unidos por uma verdade eterna: generosidade é resistência. Eles viram a dor – a do menino que se foi, a dos alunos esquecidos, a dos exilados famintos – e escolheram transformá-la em pontes para a esperança.
A generosidade não precisa de grandes gestos; é o pão dividido, o tempo doado, a mão estendida.
É o médico que paga pelo remédio, o professor que ensina a sonhar, o servo que alimenta os famintos. Suas histórias nos desafiam: o que oferecemos ao mundo? Num tempo de divisões, eles nos mostram que a verdadeira riqueza não se acumula, mas se compartilha. Possam seus legados – pintados em murais, gravados em corações ou ecoados em atos – nos inspirem como bússolas para o bem viver, a dar sem esperar, a viver para o outro. Porque, no fim, é isso que nos faz humanos.
21 de julho de 2025
A indiferença que cerca quem está vivo, mas perdeu o lugar
Preconceito contra idosos apaga vidas e experiências, sustenta exclusões e impede que a longevidade seja celebrada como conquista coletiva


No início dos anos 1990, Norberto Bobbio, então um jurista italiano de 80 anos, subiu lentamente ao palco da aula magna do curso de Direito em Palermo. Diante de 5 mil estudantes vindos de toda a Itália, ele abriu sua conferência com uma reflexão desconcertante: “Vocês devem ter notado que entrei devagar, talvez pensando o que esse velho tem a nos ensinar. Meu único medo era cair, pois, na minha idade, uma queda pode ser fatal. E confesso: meu coração acelera quando o telefone toca, temendo a notícia da morte de mais um amigo de juventude. Mas agradeço por estarem aqui. Se forem felizes, alcançarão minha idade, ou até mais. Do contrário, morrerão jovens, sem viver tudo que poderiam".
A plateia, em uníssono, ergueu-se em aplausos por longos minutos, tocada pela sabedoria de quem transformava a fragilidade em força. Recomendo que busquem O Tempo da Memória, coletânea de conferências de Bobbio prefaciada no Brasil por José Guilherme Merquior.
Essa história, esse convite à vida, é o que me move, aos 66 anos, a enfrentar o etarismo e celebrar a longevidade.
O etarismo, termo cunhado em 1969 por Robert Butler, é mais que um conceito; é uma violência que desvaloriza a experiência.
Em 24 de junho de 2025, a 3ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho (TST) manteve a condenação de um banco do Amapá ao pagamento de R$ 100 mil por etarismo. A funcionária foi chamada de “velha” e humilhada publicamente.
O etarismo não fere só um; apaga muitos, reforçando a ideia de que a juventude é sinônimo de competência e a velhice, de obsolescência. A longevidade, por outro lado, é uma revolução silenciosa.
No Brasil, a expectativa de vida saltou de 52 anos em 1960 para 77 hoje, com 34 milhões de idosos, 15% da população, segundo o IBGE.
No Canadá, com média de 82 anos, 19% são idosos, amparados por saúde pública robusta.
A China, com 78 anos, enfrenta um envelhecimento acelerado — 14% acima dos 65 — que pressiona sua economia.
Nos Estados Unidos, com 79 anos, desigualdades limitam a saúde para 17% de idosos.
A França, com 83 anos, brilha com políticas inclusivas, mas tensiona sua previdência com 20% de idosos.
Esses números são mais que dados; são vidas prolongadas, nem sempre respeitadas. O etarismo se infiltra em esferas que moldam a existência. No mercado de trabalho, 4 milhões de idosos brasileiros trabalham na informalidade, preteridos por estereótipos de “falta de inovação”. Planos de saúde impõem custos exorbitantes, enquanto a mídia retrata idosos como frágeis, ignorando sua vitalidade.
Na educação, iniciativas como o vestibular para maiores de 60 da UnB são raras; idosos são desencorajados, vistos como “deslocados”. No lazer, a falta de acessibilidade rouba sua alegria.
A OMS aponta que 1 em 6 idosos sofre violência etária globalmente. Isso não é sensibilidade exagerada; é exclusão sistêmica que nega a sabedoria acumulada. Leis tentam combater essa sombra. No Brasil, o Estatuto da Pessoa Idosa (2003) pune discriminação com até um ano de prisão. O Canadá protege via Canadian Human Rights Act, com reforços provinciais. A China, com sua lei de 2012, garante direitos, mas falha na aplicação. Nos EUA, o Age Discrimination in Employment Act (1967) ampara trabalhadores acima de 40, mas deixa brechas. A França promove inclusão com seu Código do Trabalho, mas enfrenta desafios previdenciários.
Leis são passos, mas a mudança exige coragem cultural.
Bobbio é minha bússola. Após os 65, ele escreveu Direita e Esquerda (1994), aos 85, e lecionou até os 90, provando que a mente não envelhece.
Cícero, em De Senectute (44 a.C.), também desafiou o etarismo, vendo a velhice como tempo de sabedoria, não de declínio. Desmond Tutu e Margaret Chan moldaram o mundo após os 65.
David Attenborough, aos 98 anos, inspira o mundo com seus documentários, como Planeta Azul e Nosso Planeta, mobilizando milhões a combater a crise climática com sua voz incansável pela preservação ambiental.
Yayoi Kusama, aos 96, lota museus; Fernanda Montenegro, aos 95, brilha no cinema; Warren Buffett, aos 95, lidera fortunas.
Eles mostram: a idade não limita, o preconceito sim.
A idade não enfraquece — revela.
O caso da funcionária humilhada expõe uma estrutura que descarta quem já entregou tanto. Desvalorizar a experiência é sabotar o futuro. O etarismo é um mecanismo de exclusão que se disfarça de eficiência.
Não importa a idade, viver com lucidez e propósito é resistência. Nada é mais alarmante que a indiferença diante de quem ainda está vivo, mas já não é visto.
https://www.brasil247.com/blog/a-indiferenca-que-cerca-quem-esta-vivo-mas-perdeu-o-lugar
18 de julho de 2025
Cuidadores invisíveis: a base esquecida do Brasil que envelhece
A figura do cuidador de idosos tornou-se indispensável em milhões de lares brasileiros.


Quando Donald Trump tomou posse como 47º presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2025, após derrotar Kamala Harris nas eleições de 5 de novembro de 2024, o mundo sentiu o peso de um déjà-vu turbulento. Seu retorno ao Salão Oval, quase uma década após seu primeiro mandato (2017-2021), reacendeu temores de rupturas na ordem global. O The New York Times, em editorial de 21 de janeiro de 2025, chamou sua volta de “um teste existencial à democracia e à cooperação internacional”, enquanto o Le Monde alertou em 22 de janeiro: “O multilateralismo está sob ataque, e Trump é o aríete.” Até 28 de março de 2025, os primeiros 68 dias de seu governo mostram sinais claros de sua agenda – protecionismo econômico, nacionalismo exacerbado e desprezo por instituições globais –, mas ainda é cedo para eventos concretos além de discursos e nomeações. Este artigo mergulha nos fatos verificáveis até hoje, analisa as implicações geopolíticas com dados estatísticos robustos e traz vozes como Noam Chomsky e Elon Musk para iluminar um planeta à beira do caos.
O Retorno de Trump: Um Golpe no Multilateralismo
Trump venceu com 51% dos votos populares (CNN, 6 de novembro de 2024), prometendo “colocar a América em primeiro lugar” e revisar acordos internacionais. Em seu primeiro mandato, ele retirou os EUA do Acordo de Paris (2017) e da OMS (2020), cortando US$ 893 milhões anuais em contribuições (OMS, 2020). Em 2024, ele chamou a ONU de “um clube de burocratas inúteis” durante um comício em Ohio, e seu discurso de posse em 20 de janeiro de 2025 reforçou: “Não vamos mais financiar organizações que nos sugam.” O Financial Times estimou em 15 de novembro de 2024 que os EUA, responsáveis por 22% do orçamento da ONU (US$ 3,4 bilhões em 2024), poderiam reduzir isso em 50%, esvaziando a organização.
A China, com PIB de US$ 18,5 trilhões em 2024 (FMI), cresce 4,8% ao ano, contra 2,2% dos EUA e 1,5% da UE (Banco Mundial). Ela já investiu US$ 1 trilhão na Iniciativa Cinturão e Rota desde 2013, conectando 140 países (Banco Mundial, 2023). Noam Chomsky, em entrevista à Truthout em 25 de outubro de 2023, alertou: “O isolacionismo de Trump é um presente à China, que está pronta para liderar onde os EUA recuam.” Yuval Noah Harari, em palestra na London School of Economics em 2023, complementou: “A ordem multilateral, já frágil, não sobreviverá a outra onda de unilateralismo americano.” O The Atlantic previu em 10 de fevereiro de 2025 que a saída de fundos americanos pode cortar 30% dos programas de paz da ONU, como os US$ 1,2 bilhão gastos em missões no Sudão do Sul (ONU, 2024).
Protecionismo Econômico: Tarifas e o Choque Global
Trump prometeu em 2024 tarifas de 20% sobre todas as importações e até 60% contra a China, revisitando sua guerra comercial de 2018-2020, quando impôs taxas de 25% sobre US$ 250 bilhões em bens chineses (USTR, 2020). O The Economist calculou em 12 de dezembro de 2024 que novas tarifas poderiam reduzir o PIB global em 0,8% (US$ 800 bilhões) em 2025, com os EUA perdendo US$ 200 bilhões devido a retaliações. A China, maior exportadora mundial com US$ 3,2 trilhões em 2024 (Banco Mundial), contra US$ 1,6 trilhão dos EUA, retaliou em 2018 com tarifas de 25% sobre soja americana, custando US$ 11 bilhões aos agricultores (USDA, 2019).
A UE, com exportações de US$ 2,3 trilhões, teme um impacto de US$ 50 bilhões, segundo o Financial Times (20 de janeiro de 2025). Jeff Bezos, em entrevista à Bloomberg em 14 de novembro de 2023, criticou: “Protecionalismo é um imposto disfarçado sobre os pobres – o comércio global nos deu prosperidade.” Elon Musk, apoiador de Trump, rebateu em tuíte de 15 de novembro de 2024: “Tarifas protegem empregos – a China joga sujo há décadas.” O Le Monde analisou em 25 de janeiro de 2025 que a Alemanha, com 8% de seu PIB (US$ 350 bilhões) vindo de exportações aos EUA, pode entrar em recessão se Trump agir. O Brasil, com exportações de US$ 280 bilhões (2024), já perdeu 10% em vendas de soja para a China desde 2018 (Ministério da Economia, 2023).
OTAN e Europa: Uma Aliança sob Pressão
Trump, desde 2016, critica a OTAN, chamando-a de “obsoleta” em entrevista à Times of London (15 de janeiro de 2017). Em 2024, ele ameaçou sair da aliança se os 31 membros não elevassem gastos militares a 2% do PIB. Em 2024, apenas 11 países atingiram essa meta (NATO, 2024), com gastos totais de US$ 1,2 trilhão – 67% (US$ 804 bilhões) dos EUA (SIPRI, 2024). O Der Spiegel relatou em 22 de janeiro de 2025 que a Europa precisaria de US$ 300 bilhões extras para substituir os EUA, algo inviável com crescimento de 1,5% (Eurostat, 2024). Olaf Scholz, em discurso em 2022, disse: “A OTAN é nossa âncora – perdê-la é um desastre.” Bernie Sanders, em comício em Vermont em 15 de setembro de 2023, alertou: “Trump quer destruir a OTAN, entregando a Europa a Putin.”
A Rússia, com orçamento militar de US$ 86 bilhões (SIPRI, 2024), pressiona a Ucrânia, enquanto a China, com US$ 230 bilhões, expande sua presença no Indo-Pacífico. O Financial Times estimou em 10 de fevereiro de 2025 que um enfraquecimento da OTAN pode custar à UE 2% de seu PIB (US$ 360 bilhões) em segurança e comércio.
Ucrânia e Rússia: Um Frágil Equilíbrio
A invasão russa da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, matou mais de 40.000 civis (ONU, 2024) e deslocou 14 milhões (UNHCR, 2024). Os EUA forneceram US$ 175 bilhões em ajuda desde então (Departamento de Defesa, 2024), mas Trump, em 2024, disse em comício em Iowa: “Posso acabar essa guerra em 24 horas.” O The Atlantic sugeriu em 5 de fevereiro de 2025 que ele pode pressionar Kiev a ceder territórios ocupados (18% da Ucrânia, segundo o Instituto de Estudos de Guerra, 2024). J.D. Vance, vice-presidente eleito, declarou em entrevista à Fox News em 10 de outubro de 2024: “A Ucrânia não vale nosso dinheiro – temos problemas em casa.” Yuval Noah Harari, em 21 Lessons for the 21st Century (2018), escreveu: “Conflitos como esse expõem a impotência da ordem global.”
Imigração: Economia em Risco, Medo nas Ruas
Trump prometeu em 2024 “a maior deportação da história”, mirando 11 milhões de indocumentados (Pew Research, 2023). O Time estimou em 2023 que imigrantes contribuem com US$ 1,6 trilhão ao PIB anual dos EUA, incluindo 60% da força agrícola (USDA, 2024). Um estudo da American Immigration Council (2022) mostrou que deportações em massa poderiam custar US$ 1 trilhão em dez anos. Justin Trudeau, em discurso de 2021, disse: “Imigrantes são o coração de nossas economias.” Bernie Sanders, em 2020, afirmou em entrevista à NPR: “Deportar milhões é cruel e vai quebrar nossa economia.” Noam Chomsky, em Who Rules the World? (2016), escreveu: “A xenofobia de Trump é uma arma contra os mais vulneráveis e contra nós mesmos.”
Big Tech e Imprensa: Poder e Polarização
Elon Musk doou US$ 50 milhões a um PAC pró-Trump em 2024 (The Guardian, 15 de outubro), enquanto Jeff Bezos, dono do Washington Post, disse em 2016: “Trump é uma ameaça à liberdade de imprensa” (CNN, 2016). O The Atlantic alertou em 10 de janeiro de 2025 que a Fox News, com 50 milhões de espectadores semanais (Nielsen, 2024), amplifica a agenda de Trump. Musk tuitou em 2023: “A mídia tradicional morreu – a verdade está nas redes.” J.D. Vance, em 2024, disse à Newsmax: “Big Tech e Trump são aliados naturais contra o establishment.”
Análise das Implicações da Cena Mundial
China: A nova hegemonia
A China, com exportações de US$ 3,2 trilhões e reservas de US$ 3,3 trilhões (Banco Mundial, 2024), supera os EUA (exportações de US$ 1,6 trilhão). O Financial Times prevê em 2025 que ela dominará manufatura até 2030, com 40% da produção global (UNCTAD, 2024). Musk, em 2023, tuitou: “A China está anos à frente – acordem.”
Ordem Mundial: Um Sistema em Ruínas
A ONU, com orçamento de US$ 3,4 bilhões, perdeu 15% de fundos dos EUA desde 2017 (ONU, 2024). Harari, em palestra de 2023, disse: “Sem cooperação, enfrentaremos colapso climático e guerras.” O The Guardian relatou em 2024 que a extrema direita ganhou 20% mais votos na Europa desde 2019, com partidos como o AfD (Alemanha) e RN (França) crescendo.
Direitos Humanos: Um Luxo em Extinção
A Human Rights Watch (2024) alertou que cortes em ajuda externa dos EUA (US$ 40 bilhões em 2020) enfraquecem direitos globais. Bezos, em 2022, disse à Bloomberg: “O populismo sufoca a empatia.”
Os ecos de “A Era da Insensatez” ressoam nas páginas de Galbraith e Hobsbawm, mestres em capturar tempos de ruptura. Em “A Era da Incerteza”, Galbraith destruiu a instabilidade do século XX, como a Grande Depressão, que derrubou o PIB dos EUA em 25% (Bureau of Economic Analysis), um mundo em crise refletido hoje no isolacionismo de Trump em 2025. Hobsbawm, em “A Era dos Extremos”, narra os 60 milhões de mortos nas guerras mundiais (ONU, 2020), enquanto “A Era do Capital” e “A Era das Revoluções” mostra revoluções que abalaram monarquias e ergueram o capitalismo. O retorno de Trump, com a China crescendo 4,8% ao ano (FMI, 2024), sinalizando uma nova tormenta global.
A queda de velhos sistemas conecta histórias ao caos de hoje. Hobsbawm viu o fim do comunismo em 1991 e das monarquias em 1848, com o imperialismo como força caótica. Galbraith, na incerteza do capitalismo, notou a desigualdade americana saltando de 0,35 para 0,41 no índice Gini (Census Bureau, 1970-1977). Hoje, a ordem multilateral pós-1945 rui: a ONU perdeu 15% dos fundos dos EUA desde 2017 (ONU, 2024), e a extrema direita na Europa ganhou 20% mais votos desde 2019 ( The Guardian). Trump, cortando US$ 893 milhões da OMS em 2020, acelera esse desequilíbrio.
A insensatez humana é o fio condutor. Galbraith critica a fé cega no mercado; Hobsbawm, uma ganância que deslocou 50 milhões em 1848-1875. Trump repete o padrão: tarifas de 2018 custaram US$ 11 bilhões (USDA), e sua xenofobia ameaça 11 milhões de imigrantes (Pew, 2023). É um eco das escolhas que Hobsbawm ligaria às guerras mundiais.
Por fim, todos veem o poder global em xeque. Hobsbawm traçou a industrialização e o colapso soviético; Galbraith, a economia em mutação. “A Era da Insensatez” mostra a China, com US$ 3,2 trilhões em exportações (Banco Mundial, 2024), desafiando um EUA que recua – um prenúncio de viradas históricas.
Desde 20 de janeiro de 2025, Trump acendeu o pavio de um mundo em frangalhos. Seus 68 dias iniciais não são apenas ecos de promessas e histórico, mas sirenes de rupturas que nos encaram. Esta era da insensatez, um quebra-cabeça de escolhas tresloucadas, só ganhará contornos claros quando os historiadores, com o luxo do tempo, decifrarem suas cicatrizes. As declarações gritaram: a ordem mundial, essa colcha de retalhos defeituosa, desmorona enquanto a ONU se esvaziava, a extrema direita floresce em França e no Brasil, e os direitos humanos viram relíquia empoeirada. Tudo o que fere a parte, sangra o todo.
Mas não nos enganemos: o preço dessa temeridade não será uma mera ressaca histórica. Estamos flertando com uma nova idade das trevas – não de castelos e pestes, mas de drones assassinos, cadeias econômicas em colapso e um planeta sufocado por suas próprias febres.
A questão não é se a conta virá, mas até onde deixaremos o saldo escalar. A ordem vigente, cambaleante em convulsões, é um castelo de cartas à beira do vento. Como já se profetizou em meados do século XIX, “quando uma estrutura falha, ela é descartada, e uma nova tomará seu lugar”. Resta saber: que mundo ousaremos construir das cinzas dessa insensatez?
https://www.brasil247.com/blog/se-a-incerteza-era-um-problema-a-insensatez-e-a-tragedia
24 de abril de 2025
Se a incerteza era um problema, a insensatez é a tragédia
A questão não é se a conta virá, mas até onde deixaremos o saldo escalar.


Quando Donald Trump tomou posse como 47º presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2025, após derrotar Kamala Harris nas eleições de 5 de novembro de 2024, o mundo sentiu o peso de um déjà-vu turbulento. Seu retorno ao Salão Oval, quase uma década após seu primeiro mandato (2017-2021), reacendeu temores de rupturas na ordem global. O The New York Times, em editorial de 21 de janeiro de 2025, chamou sua volta de “um teste existencial à democracia e à cooperação internacional”, enquanto o Le Monde alertou em 22 de janeiro: “O multilateralismo está sob ataque, e Trump é o aríete.” Até 28 de março de 2025, os primeiros 68 dias de seu governo mostram sinais claros de sua agenda – protecionismo econômico, nacionalismo exacerbado e desprezo por instituições globais –, mas ainda é cedo para eventos concretos além de discursos e nomeações. Este artigo mergulha nos fatos verificáveis até hoje, analisa as implicações geopolíticas com dados estatísticos robustos e traz vozes como Noam Chomsky e Elon Musk para iluminar um planeta à beira do caos.
O Retorno de Trump: Um Golpe no Multilateralismo
Trump venceu com 51% dos votos populares (CNN, 6 de novembro de 2024), prometendo “colocar a América em primeiro lugar” e revisar acordos internacionais. Em seu primeiro mandato, ele retirou os EUA do Acordo de Paris (2017) e da OMS (2020), cortando US$ 893 milhões anuais em contribuições (OMS, 2020). Em 2024, ele chamou a ONU de “um clube de burocratas inúteis” durante um comício em Ohio, e seu discurso de posse em 20 de janeiro de 2025 reforçou: “Não vamos mais financiar organizações que nos sugam.” O Financial Times estimou em 15 de novembro de 2024 que os EUA, responsáveis por 22% do orçamento da ONU (US$ 3,4 bilhões em 2024), poderiam reduzir isso em 50%, esvaziando a organização.
A China, com PIB de US$ 18,5 trilhões em 2024 (FMI), cresce 4,8% ao ano, contra 2,2% dos EUA e 1,5% da UE (Banco Mundial). Ela já investiu US$ 1 trilhão na Iniciativa Cinturão e Rota desde 2013, conectando 140 países (Banco Mundial, 2023). Noam Chomsky, em entrevista à Truthout em 25 de outubro de 2023, alertou: “O isolacionismo de Trump é um presente à China, que está pronta para liderar onde os EUA recuam.” Yuval Noah Harari, em palestra na London School of Economics em 2023, complementou: “A ordem multilateral, já frágil, não sobreviverá a outra onda de unilateralismo americano.” O The Atlantic previu em 10 de fevereiro de 2025 que a saída de fundos americanos pode cortar 30% dos programas de paz da ONU, como os US$ 1,2 bilhão gastos em missões no Sudão do Sul (ONU, 2024).
Protecionismo Econômico: Tarifas e o Choque Global
Trump prometeu em 2024 tarifas de 20% sobre todas as importações e até 60% contra a China, revisitando sua guerra comercial de 2018-2020, quando impôs taxas de 25% sobre US$ 250 bilhões em bens chineses (USTR, 2020). O The Economist calculou em 12 de dezembro de 2024 que novas tarifas poderiam reduzir o PIB global em 0,8% (US$ 800 bilhões) em 2025, com os EUA perdendo US$ 200 bilhões devido a retaliações. A China, maior exportadora mundial com US$ 3,2 trilhões em 2024 (Banco Mundial), contra US$ 1,6 trilhão dos EUA, retaliou em 2018 com tarifas de 25% sobre soja americana, custando US$ 11 bilhões aos agricultores (USDA, 2019).
A UE, com exportações de US$ 2,3 trilhões, teme um impacto de US$ 50 bilhões, segundo o Financial Times (20 de janeiro de 2025). Jeff Bezos, em entrevista à Bloomberg em 14 de novembro de 2023, criticou: “Protecionalismo é um imposto disfarçado sobre os pobres – o comércio global nos deu prosperidade.” Elon Musk, apoiador de Trump, rebateu em tuíte de 15 de novembro de 2024: “Tarifas protegem empregos – a China joga sujo há décadas.” O Le Monde analisou em 25 de janeiro de 2025 que a Alemanha, com 8% de seu PIB (US$ 350 bilhões) vindo de exportações aos EUA, pode entrar em recessão se Trump agir. O Brasil, com exportações de US$ 280 bilhões (2024), já perdeu 10% em vendas de soja para a China desde 2018 (Ministério da Economia, 2023).
OTAN e Europa: Uma Aliança sob Pressão
Trump, desde 2016, critica a OTAN, chamando-a de “obsoleta” em entrevista à Times of London (15 de janeiro de 2017). Em 2024, ele ameaçou sair da aliança se os 31 membros não elevassem gastos militares a 2% do PIB. Em 2024, apenas 11 países atingiram essa meta (NATO, 2024), com gastos totais de US$ 1,2 trilhão – 67% (US$ 804 bilhões) dos EUA (SIPRI, 2024). O Der Spiegel relatou em 22 de janeiro de 2025 que a Europa precisaria de US$ 300 bilhões extras para substituir os EUA, algo inviável com crescimento de 1,5% (Eurostat, 2024). Olaf Scholz, em discurso em 2022, disse: “A OTAN é nossa âncora – perdê-la é um desastre.” Bernie Sanders, em comício em Vermont em 15 de setembro de 2023, alertou: “Trump quer destruir a OTAN, entregando a Europa a Putin.”
A Rússia, com orçamento militar de US$ 86 bilhões (SIPRI, 2024), pressiona a Ucrânia, enquanto a China, com US$ 230 bilhões, expande sua presença no Indo-Pacífico. O Financial Times estimou em 10 de fevereiro de 2025 que um enfraquecimento da OTAN pode custar à UE 2% de seu PIB (US$ 360 bilhões) em segurança e comércio.
Ucrânia e Rússia: Um Frágil Equilíbrio
A invasão russa da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, matou mais de 40.000 civis (ONU, 2024) e deslocou 14 milhões (UNHCR, 2024). Os EUA forneceram US$ 175 bilhões em ajuda desde então (Departamento de Defesa, 2024), mas Trump, em 2024, disse em comício em Iowa: “Posso acabar essa guerra em 24 horas.” O The Atlantic sugeriu em 5 de fevereiro de 2025 que ele pode pressionar Kiev a ceder territórios ocupados (18% da Ucrânia, segundo o Instituto de Estudos de Guerra, 2024). J.D. Vance, vice-presidente eleito, declarou em entrevista à Fox News em 10 de outubro de 2024: “A Ucrânia não vale nosso dinheiro – temos problemas em casa.” Yuval Noah Harari, em 21 Lessons for the 21st Century (2018), escreveu: “Conflitos como esse expõem a impotência da ordem global.”
Imigração: Economia em Risco, Medo nas Ruas
Trump prometeu em 2024 “a maior deportação da história”, mirando 11 milhões de indocumentados (Pew Research, 2023). O Time estimou em 2023 que imigrantes contribuem com US$ 1,6 trilhão ao PIB anual dos EUA, incluindo 60% da força agrícola (USDA, 2024). Um estudo da American Immigration Council (2022) mostrou que deportações em massa poderiam custar US$ 1 trilhão em dez anos. Justin Trudeau, em discurso de 2021, disse: “Imigrantes são o coração de nossas economias.” Bernie Sanders, em 2020, afirmou em entrevista à NPR: “Deportar milhões é cruel e vai quebrar nossa economia.” Noam Chomsky, em Who Rules the World? (2016), escreveu: “A xenofobia de Trump é uma arma contra os mais vulneráveis e contra nós mesmos.”
Big Tech e Imprensa: Poder e Polarização
Elon Musk doou US$ 50 milhões a um PAC pró-Trump em 2024 (The Guardian, 15 de outubro), enquanto Jeff Bezos, dono do Washington Post, disse em 2016: “Trump é uma ameaça à liberdade de imprensa” (CNN, 2016). O The Atlantic alertou em 10 de janeiro de 2025 que a Fox News, com 50 milhões de espectadores semanais (Nielsen, 2024), amplifica a agenda de Trump. Musk tuitou em 2023: “A mídia tradicional morreu – a verdade está nas redes.” J.D. Vance, em 2024, disse à Newsmax: “Big Tech e Trump são aliados naturais contra o establishment.”
Análise das Implicações da Cena Mundial
China: A nova hegemonia
A China, com exportações de US$ 3,2 trilhões e reservas de US$ 3,3 trilhões (Banco Mundial, 2024), supera os EUA (exportações de US$ 1,6 trilhão). O Financial Times prevê em 2025 que ela dominará manufatura até 2030, com 40% da produção global (UNCTAD, 2024). Musk, em 2023, tuitou: “A China está anos à frente – acordem.”
Ordem Mundial: Um Sistema em Ruínas
A ONU, com orçamento de US$ 3,4 bilhões, perdeu 15% de fundos dos EUA desde 2017 (ONU, 2024). Harari, em palestra de 2023, disse: “Sem cooperação, enfrentaremos colapso climático e guerras.” O The Guardian relatou em 2024 que a extrema direita ganhou 20% mais votos na Europa desde 2019, com partidos como o AfD (Alemanha) e RN (França) crescendo.
Direitos Humanos: Um Luxo em Extinção
A Human Rights Watch (2024) alertou que cortes em ajuda externa dos EUA (US$ 40 bilhões em 2020) enfraquecem direitos globais. Bezos, em 2022, disse à Bloomberg: “O populismo sufoca a empatia.”
Os ecos de “A Era da Insensatez” ressoam nas páginas de Galbraith e Hobsbawm, mestres em capturar tempos de ruptura. Em “A Era da Incerteza”, Galbraith destruiu a instabilidade do século XX, como a Grande Depressão, que derrubou o PIB dos EUA em 25% (Bureau of Economic Analysis), um mundo em crise refletido hoje no isolacionismo de Trump em 2025. Hobsbawm, em “A Era dos Extremos”, narra os 60 milhões de mortos nas guerras mundiais (ONU, 2020), enquanto “A Era do Capital” e “A Era das Revoluções” mostra revoluções que abalaram monarquias e ergueram o capitalismo. O retorno de Trump, com a China crescendo 4,8% ao ano (FMI, 2024), sinalizando uma nova tormenta global.
A queda de velhos sistemas conecta histórias ao caos de hoje. Hobsbawm viu o fim do comunismo em 1991 e das monarquias em 1848, com o imperialismo como força caótica. Galbraith, na incerteza do capitalismo, notou a desigualdade americana saltando de 0,35 para 0,41 no índice Gini (Census Bureau, 1970-1977). Hoje, a ordem multilateral pós-1945 rui: a ONU perdeu 15% dos fundos dos EUA desde 2017 (ONU, 2024), e a extrema direita na Europa ganhou 20% mais votos desde 2019 ( The Guardian). Trump, cortando US$ 893 milhões da OMS em 2020, acelera esse desequilíbrio.
A insensatez humana é o fio condutor. Galbraith critica a fé cega no mercado; Hobsbawm, uma ganância que deslocou 50 milhões em 1848-1875. Trump repete o padrão: tarifas de 2018 custaram US$ 11 bilhões (USDA), e sua xenofobia ameaça 11 milhões de imigrantes (Pew, 2023). É um eco das escolhas que Hobsbawm ligaria às guerras mundiais.
Por fim, todos veem o poder global em xeque. Hobsbawm traçou a industrialização e o colapso soviético; Galbraith, a economia em mutação. “A Era da Insensatez” mostra a China, com US$ 3,2 trilhões em exportações (Banco Mundial, 2024), desafiando um EUA que recua – um prenúncio de viradas históricas.
Desde 20 de janeiro de 2025, Trump acendeu o pavio de um mundo em frangalhos. Seus 68 dias iniciais não são apenas ecos de promessas e histórico, mas sirenes de rupturas que nos encaram. Esta era da insensatez, um quebra-cabeça de escolhas tresloucadas, só ganhará contornos claros quando os historiadores, com o luxo do tempo, decifrarem suas cicatrizes. As declarações gritaram: a ordem mundial, essa colcha de retalhos defeituosa, desmorona enquanto a ONU se esvaziava, a extrema direita floresce em França e no Brasil, e os direitos humanos viram relíquia empoeirada. Tudo o que fere a parte, sangra o todo.
Mas não nos enganemos: o preço dessa temeridade não será uma mera ressaca histórica. Estamos flertando com uma nova idade das trevas – não de castelos e pestes, mas de drones assassinos, cadeias econômicas em colapso e um planeta sufocado por suas próprias febres.
A questão não é se a conta virá, mas até onde deixaremos o saldo escalar. A ordem vigente, cambaleante em convulsões, é um castelo de cartas à beira do vento. Como já se profetizou em meados do século XIX, “quando uma estrutura falha, ela é descartada, e uma nova tomará seu lugar”. Resta saber: que mundo ousaremos construir das cinzas dessa insensatez?
https://www.brasil247.com/blog/se-a-incerteza-era-um-problema-a-insensatez-e-a-tragedia
29 de março de 2025
Obsolescência programada: o segredo sujo das empresas
A obsolescência programada não apenas mudou a forma como os produtos são feitos, mas também como as pessoas consomem


A durabilidade dos produtos que utilizamos diariamente é uma questão de crescente preocupação, tanto para os consumidores quanto para o meio ambiente. Historicamente, práticas como a obsolescência programada têm sido adotadas por empresas para reduzir a vida útil dos produtos, incentivando o consumo contínuo. Essa estratégia, que começou como uma decisão empresarial no início do século XX, transformou-se em uma prática global com impactos profundos na economia, na sociedade e no meio ambiente.
A obsolescência programada não surgiu por acaso; foi uma decisão calculada por empresas que buscavam maximizar lucros em um mercado saturado. Um dos exemplos mais emblemáticos é o Cartel Phoebus, formado em 1924 por grandes fabricantes de lâmpadas, incluindo a General Electric, a Philips e a Osram. O cartel estabeleceu um acordo para limitar a vida útil das lâmpadas a 1.000 horas, reduzindo drasticamente a durabilidade de produtos que antes duravam 2.500 horas. O objetivo era claro: aumentar as vendas ao garantir que os consumidores precisassem substituir suas lâmpadas com mais frequência.
Essa prática não se limitou ao setor de iluminação. Na década de 1920, a General Motors introduziu a obsolescência de estilo, lançando novos modelos de carros a cada ano com pequenas alterações estéticas, mas sem melhorias significativas no desempenho. Alfred Sloan Jr., presidente da empresa na época, afirmou que a estratégia era "vender mais carros, não melhores carros". Essa abordagem foi rapidamente adotada por outras indústrias, consolidando a obsolescência programada como uma norma no sistema capitalista.
Hoje, a obsolescência programada está presente em praticamente todos os setores, desde eletrônicos até vestuário. Um dos exemplos mais recentes e controversos é o das atualizações de software que deliberadamente reduzem o desempenho de dispositivos eletrônicos. Em 2017, a Apple admitiu que desacelerava iPhones mais antigos para "preservar a vida útil da bateria". A empresa foi multada em €25 milhões na França por não informar os consumidores sobre essa prática.
Outro exemplo é o dos fones de ouvido sem fio, como os AirPods da Apple, que possuem baterias não substituíveis. Quando a bateria se esgota após 2 a 3 anos, o consumidor é forçado a comprar um novo par, gerando mais resíduos eletrônicos. Segundo a ONU, o mundo produz 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, e apenas 20% são reciclados.
A obsolescência programada não apenas mudou a forma como os produtos são feitos, mas também como as pessoas consomem. No passado, os produtos eram projetados para durar. Por exemplo:
- Lâmpadas: No início do século XX, as lâmpadas duravam até 2.500 horas. Após o Cartel Phoebus, essa duração foi reduzida para 1.000 horas.
- Automóveis: Nos anos 1950, um carro durava em média 20 anos. Hoje, a vida útil média de um veículo é de 8 a 12 anos, segundo a IHS Markit.
- Eletrodomésticos: Geladeiras e lavadoras modernas têm uma vida útil média de 7 a 10 anos, enquanto nos anos 1970 esses aparelhos duravam até 25 anos.
Essa redução na durabilidade não é coincidência; é o resultado de decisões empresariais que priorizam o lucro em detrimento da sustentabilidade.
Impactos da Obsolescência Programada
A obsolescência programada tem impactos significativos em várias áreas:
Ambiental: A produção e o descarte frequente de produtos geram resíduos e aumentam a pegada de carbono. Segundo a Ellen MacArthur Foundation, a indústria da moda é responsável por 10% das emissões globais de CO2, em grande parte devido à moda rápida (fast fashion), que produz roupas com tecidos de baixa qualidade que duram apenas 10 a 20 lavagens.
Econômico: Os consumidores gastam mais ao substituir produtos com frequência. Por exemplo, os americanos trocam de smartphone a cada 21,7 meses, segundo a Electronic Recyclers International.
Social: A obsolescência programada alimenta uma cultura de consumo insustentável, onde o valor de um produto está mais em sua novidade do que em sua utilidade. Uma pesquisa da Harris revelou que 74% dos estadunidenses estão constantemente em busca de novas oportunidades, refletindo uma sociedade insatisfeita e sempre em busca do próximo "grande lançamento".
Benefícios de Produtos Duráveis
A adoção de produtos mais duráveis oferece benefícios significativos:
1. Redução de Resíduos Eletrônicos:
Produtos com maior vida útil diminuem a quantidade de lixo eletrônico, que atualmente atinge 50 milhões de toneladas anuais.
2. Economia Financeira:
Consumidores economizam ao não precisar substituir produtos com frequência.
3. Preservação de Recursos Naturais:
Menos produção implica em menor extração de matérias-primas, preservando o meio ambiente.
4. Redução de Emissões de Carbono:
A fabricação e o transporte de novos produtos aumentam a pegada de carbono; produtos duráveis mitigam esse impacto.
5. Fortalecimento da Confiança do Consumidor:
Marcas que oferecem produtos duráveis conquistam maior lealdade dos clientes.
6. Valorização do Mercado de Reparos:
Produtos reparáveis fomentam a economia local e criam empregos no setor de manutenção.
7. Educação para o Consumo Consciente:
Incentiva-se uma cultura de valorização e cuidado com os bens adquiridos.
8. Inovação Sustentável:
Empresas são motivadas a desenvolver tecnologias que aumentem a durabilidade sem comprometer a eficiência.
9. Competitividade no Mercado:
Marcas que priorizam a durabilidade destacam-se positivamente perante consumidores conscientes.
10. Contribuição para a Economia Circular:
Produtos duráveis e reparáveis facilitam a reutilização e reciclagem, promovendo um ciclo de vida mais sustentável.
Felizmente, algumas empresas estão desafiando a obsolescência programada e promovendo a sustentabilidade, mostrando que é possível compensar o ciclo de vida dos produtos sem sacrificar a qualidade ou o lucro. A Patagônia, por exemplo, é uma marca de roupas outdoor que se destaca por sua iniciativa “Worn Wear”, que incentiva os consumidores a reparar, reutilizar e reciclar suas peças, prolongando a vida útil das roupas e reduzindo o impacto ambiental da indústria da moda, responsável por 10% das emissões globais de CO2, segundo a Ellen MacArthur Foundation.
Outro exemplo é a Fairphone, que produz smartphones modulares e reparáveis, com baterias substituíveis e materiais éticos, permitindo que os usuários atualizem ou consertem seus dispositivos facilmente, o que reduz a geração de lixo eletrônico — um problema que atinge 50 milhões de toneladas anuais, conforme dados da ONU. Além disso, a Epson, conhecida por seus equipamentos de impressão, é dinâmica a linha EcoTank, com tanques de tinta recarregáveis que diminuem o desperdício de cartuchos e os custos a longo prazo, proporcionando uma alternativa mais durável e econômica para os consumidores. Esses exemplos demonstram que é possível aliar lucratividade à responsabilidade ambiental, oferecendo aos consumidores produtos de qualidade que não apenas atendem às suas necessidades, mas também reduzidos para a preservação do planeta e para a construção de uma economia mais circular.
A obsolescência programada é um fenômeno complexo que reflete as dinâmicas do capitalismo moderno, onde a busca incessante por transformação de produtos em especial, enquanto os consumidores e o meio ambiente arcam com as consequências. As empresas lucraram bilhões ao reduzir especificamente a vida útil de bens, como lâmpadas que duram menos ou smartphones que se tornam obsoletos em poucos anos, alimentando uma cultura de consumo insustentável que gera 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico anualmente, segundo a ONU. No entanto, com consciência e mudanças de comportamento, é possível desafiar essa lógica e promover um modelo de consumo mais sustentável e ético, começando pelo reconhecimento do problema e pela ação responsável dos consumidores e cidadãos.
Esse estado de coisas é ainda mais aterrador porque a cultura do controle transcendeu os bens materiais e se infiltrou nas relações humanas. Nas últimas três décadas, não apenas produtos foram projetados para serem aplicados por decisões empresariais pautadas na gestão e na sede de consumo, mas também os vínculos interpessoais passaram a ser tratados com a mesma lógica de efemeridade. Casou? Sim. Está dando certo? Não muito. Qual a próxima fase? Me separar e partir para outro. Esse tipo de diálogo, que pode parecer familiar a muitos, reflete como a mentalidade do "usar e descartar" se estende às relações, refletindo a mesma falta de valorização e durabilidade que vemos em bens de consumo.
Assim como uma geladeira dos anos 1970 durou 25 anos e hoje mal chega aos 10, os relacionamentos humanos também parecem ter perdido a ênfase na construção e na manutenção, sendo frequentemente substituídos em busca de algo novo, mais conveniente ou menos desafiador, o que levanta uma questão preocupante: até que ponto a lógica do equilíbrio moldará o futuro das nossas conexões humanas?
https://www.brasil247.com/blog/obsolescencia-programada-o-segredo-sujo-das-empresas
27 de março de 2025
Que em 2016 seja realidade no Brasil o Imposto sobre Grandes Fortunas
Longe de ser "mais um" imposto, o IGF poderia estipular parâmetros visando excluir com robusta folga as classes média e média alta, como também um conjunto de famílias que podem ser consideradas ricas, mas não milionárias


A ordem do dia é ouvir o clamor das ruas. A presidenta Dilma Rousseff diz que ouviu e vem pontuando gestos, atitudes e ações em consonância com o que se escuta do meio-fio.
Por enquanto, dois gritos ainda não tomaram forma de gritos unânimes por mudanças: a regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) e a regulamentação que trata da democratização dos meios de comunicação.
Longe de ser "mais um" imposto, o IGF poderia estipular parâmetros visando excluir com robusta folga as classes média e média alta, como também um conjunto de famílias que podem ser consideradas ricas, mas não milionárias. A regulamentação do IGF pode definir com clareza cristalina que sua incidência atinja tão somente aqueles que apresentam grandes fortunas, estimados em cerca de 10 mil famílias e, principalmente, dentro desse universo de contribuintes, as cinco mil famílias que teriam um patrimônio equivalente a 40% do PIB.
A colocação da tributação da riqueza novamente na agenda política nacional reflete a tomada de consciência gradativa de que as iniqüidades geradas pela adoção de políticas que glorificam o Deus-Mercado, acentuadamente de extrações neoliberais, nas últimas décadas, agora se defrontam com o clamor crescente das ruas.
A cobrança de imposto sobre grandes fortunas, prevista no artigo 153 da Constituição de 1988 e nunca regulamentada, voltou ao debate nacional após as manifestações de rua exigindo melhorias na qualidade de vida da população.
É uma demanda antiga. E nunca conseguiu eficácia por sempre esbarrar nos velhos corporativismos:
- A classe política não tem interesse em regulamentar porque, quando não alcançaria boa parte da riqueza dos senhores parlamentares e chefes dos executivos estaduais e municipais, abocanharia parte dos rendimentos dos empresários que em grande medida financiam as campanhas políticas no país ao longo de sua história. Constatação: os titulares de grandes fortunas, se não estão investidos de poder, possuem inegável influência sobre os que exercem.
- Os meios de comunicação, dentre estes, aqueles com maior audiência televisiva e maior número de tiragem impressa – revistas e jornais – nunca demonstraram permeabilidade ao reclame da sociedade por uma singela motivação – qual seja, dado o grau de extrema concentração da propriedade dos veículos de comunicação (canais de tevê, canais de tevê a cabo, revistas semanais, jornais diários, emissoras de rádio, e portais na Internet), eles próprios integrariam um público-alvo de 907 indivíduos e empresas que detêm patrimônio igual ou superior a R$ 150.000.000,00 e, além de levar a própria carne ao corte, iria contrariar frontalmente interesses de suas principais fontes de receita publicitária, o cobiçado mercado publicitário, que inclui conglomerados financeiros, grupos econômicos transnacionais diversos. indústria da construção civil, agronegócio, segmento automotivo;
- Os principais nós a serem desatados tem a ver com a definição para "grande fortuna", a base de cálculo e a alíquota por faixa de riqueza patrimonial.
É fato que se trata de um imposto de grande impacto para a realização de justiça social no Brasil, pois sua existência e regulação possibilita a redistribuição de renda em favor dos segmentos da população mais vulneráveis social e economicamente.
A própria inclusão deste artigo em nossa Constituição Cidadã de 1988 está colocada de forma cristalina e assertiva nos Atos e Disposições Constitucionais Transitórias que, em seu art. 80, inciso III, estipula:
"Art. 80. Compõem o Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza:
[...] III – o produto da arrecadação do imposto de que trata o Art. 153, inciso VII, da Constituição".
A discussão e também a adoção do Imposto sobre Grandes Fortunas não é nossa primazia nem possui o ineditismo da nossa jabuticaba. Com o chamado Éden do capitalismo mundial em crise acentuada, o fato é que a tributação sobre grandes fortunas voltou à agenda de discussão dos povos de que nunca o adotaram, como os EUA, ou em países que o revogaram e agora discutem sua reintrodução, como a Alemanha.
Existe em alguns países, como os Estados Unidos e alguns países europeus. No exterior, tem sido comum que este IGF passa a ser exigido apenas sobre os ganhos auferidos no ano, enquanto que no Brasil todos os debates apontam para a necessidade de se regulamentar o IGF de forma a que este incidiria sobre a totalidade do patrimônio dos indivíduos.
A fragilidade argumentativa dos que se opõem ao IGF é gritante:
- a sonegação fiscal no Brasil seria incentivada, ao fazer com que contribuintes não declarassem seu patrimônio por receio do imposto;
- seria uma forma de o governo criar mais um imposto, diminuindo o patrimônio dos contribuintes, sem garantias que o dinheiro seria usado diretamente na saúde (como a CPMF também não era integralmente aplicada na saúde);
- seria injusto optar por incidir sobre a totalidade do patrimônio já acumulado, algo que atingiria indivíduos que já haviam pagado todos os impostos para sua acumulação.
A contraargumentação parece-nos sólida, robusta. E madura. Se não, vejamos:
- sonegadores contumazes existirão sempre, assim como existem os sonegadores habituais do Imposto de Renda, portanto, com a criação do IGF neste momento, a Receita Federal detêm todos os meios necessários para acessar dados e cifras do patrimônio real de cada brasileiro, de forma estabilizada, mas ainda assim, parece-nos óbvio que os donos de grandes fortunas a serem tributados - e que viessem a sonegar o pagamento do IGF - há muito vêm sonegando também o Imposto de Renda; portanto, a existência ou não do IGF teria impacto nulo no aspecto sonegação fiscal;
- inferir que a existência de um imposto – qualquer que seja - tenha relação direta com sua correta aplicação é não mais que diversionismo tosco e instrumentos de fiscalização precisam ser aprimorados - ou criados - para assegurar a aplicação dos recursos de acordo com o que prevê o texto constitucional; no caso do IGF seriam aplicados para fortalecer políticas públicas de erradicação da pobreza.
- não seria injusto, sob quaisquer aspectos, que o IGF incida sobre o patrimônio acumulado do indivíduo e não sobre os ganhos anuais destes, porque é até do conhecimento vegetal a falta de lisura, a corrupção e o mau uso do próprio poder econômico visando auferir e acumular ao longo do tempo tanto ganhos de capital quanto ganhos patrimoniais.
Economistas e tributaristas informam que caso seja criado esse imposto o país terá aporte adicional de, pelo menos, R$ 14 bilhões, dinheirama que poderia ser facilmente direcionado para a saúde. E recursos que viriam, em grande parte, de apenas 907 contribuintes com patrimônio superior a R$150 milhões.
Resta saber se a imprensa que tanto se diz alinhada na missão de amplificar o grito das ruas, estádios, avenidas, praças e também das redes sociais, estaria disposta a encampar em sua seletiva agenda noticiosa a criação do IGF, assim como fez com a demanda por uma reforma política e o arquivamento da PEC 37/2013.
Caso nossos principais defensores da liberdade de expressão, guardiães autonomeados da liberdade de imprensa, optem por uma sintonia realmente fina com os anseios populares, logo nos habituaremos a ver a regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas nas capas da revista Veja, carro-chefe do conservadorismo; matérias alentadas na revista Época; editoriais inflamados nos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e o Estado de São Paulo. E também, não ficaremos surpresos se ao mudarmos de canal de tevê em uma tarde de domingo qualquer nos depararmos com a voz rouqenha e os olhos esbugalhados do global Faustão clamando pela imediata existência do Imposto Robin Hood. E daí será um passo para ouvirmos os sermões em forma de vitupérios e sandices do Arnaldo Jabor, além das habituais previsões apocalípticas - e sempre furadas - de Merval Pereira.
https://www.brasil247.com/blog/que-em-2016-seja-realidade-no-brasil-o-imposto-sobre-grandes-fortunas
01 de janeiro de 2016
