A cada direito negado às mulheres, Tahirih é morta outra vez

Da Grécia antiga de Sappho ao Brasil de Conceição Evaristo, passando pela coragem de Tahirih, a história mostra que a liberdade feminina sempre nasceu da resistência

Washington Araújo - 07/03/2026

Sim, existem dias em que a humanidade precisa olhar para o espelho da própria consciência. O 8 de março é um desses momentos. Não é apenas uma data comemorativa. É um dia de memória, de reconhecimento e também de incômodo. Porque, enquanto discursos celebram conquistas femininas, a realidade insiste em lembrar que a liberdade das mulheres ainda é incompleta.

O mundo mudou, mas não mudou o suficiente.

Todos os anos, milhões de mulheres continuam lutando por algo elementar: viver sem medo. Trabalhar sem humilhação. Amar sem violência. Existir sem precisar pedir permissão.

Os números não permitem ilusões.

Em 2024, cerca de 83 mil mulheres e meninas foram assassinadas intencionalmente no mundo, e aproximadamente 50 mil dessas mortes ocorreram pelas mãos de parceiros íntimos ou familiares. Em termos brutais, isso significa que uma mulher ou menina é morta a cada dez minutos dentro do próprio ambiente doméstico.

O lugar que deveria oferecer proteção — a casa — muitas vezes se transforma em cenário de violência.

O feminicídio é a expressão mais cruel da desigualdade de gênero. Ele nasce de uma lógica antiga: a ideia de que a vida das mulheres vale menos.

No Brasil, esse drama assume contornos particularmente dolorosos. Em 2025 foram registrados mais de 1.500 feminicídios, número recorde desde que o crime foi tipificado na legislação brasileira. A média é brutal: quatro mulheres assassinadas por dia apenas por serem mulheres.

São mães, filhas, professoras, trabalhadoras, jovens que sonhavam com o futuro. Cada número esconde uma história interrompida.

Ao mesmo tempo, pesquisas revelam que milhões de brasileiras ainda vivem sob violência doméstica, muitas vezes em silêncio, presas entre o medo e a ausência de proteção efetiva.

Quando uma sociedade tolera esse cenário, ela não está apenas falhando com as mulheres. Está falhando consigo mesma.

Mas a história feminina nunca foi apenas uma história de sofrimento. É também uma história de coragem intelectual, criatividade e transformação cultural.

Há mais de dois milênios, na ilha grega de Lesbos, uma mulher escreveu versos que atravessariam séculos.

Sappho, filósofa da sensibilidade humana, ensinou que o amor, a memória e a palavra são forças que nenhum poder pode aprisionar. Seus fragmentos sobrevivem como centelhas de liberdade intelectual feminina.

Ela foi uma das primeiras vozes a afirmar que as emoções das mulheres merecem linguagem, poesia e dignidade. Sem Sappho, talvez a literatura ocidental fosse menos humana.

Em um de seus fragmentos mais conhecidos, Sappho escreveu algo que continua ecoando através dos séculos:

“Alguém, eu digo, lembrar-se-á de nós no futuro.”

Séculos depois, outra mulher transformaria a compaixão em método científico.

Florence Nightingale caminhou pelos corredores escuros de hospitais de guerra carregando uma lamparina e uma revolução silenciosa. Ao profissionalizar o cuidado médico, salvou vidas e mostrou que empatia também pode reorganizar a ciência.

Mas Nightingale também deixou uma lição de caráter que atravessa gerações. Em uma frase célebre, afirmou: “Atribuo meu sucesso a isto: jamais dei ou aceitei desculpas.”

Não era apenas uma frase sobre disciplina. Era um manifesto sobre responsabilidade moral diante do sofrimento humano.

Em outro continente, outra voz ergueu-se com força literária.

A escritora brasileira Conceição Evaristo transformou a experiência feminina negra em literatura de densidade histórica. Em seus textos, a memória das mulheres pobres do Brasil não aparece como estatística social, mas como narrativa viva, feita de luta, dignidade e resistência cotidiana.

Ela própria descreveu sua escrita como “escrevivência”, uma palavra que mistura vida e literatura para explicar que escrever é também sobreviver. Para Evaristo, narrar a experiência feminina negra é um ato de justiça contra séculos de silêncio.

A palavra, em suas mãos, torna-se instrumento de justiça.

Também no Brasil, a poeta Adélia Prado revelou algo essencial: a espiritualidade feminina pode nascer da vida cotidiana. Em seus versos, cozinhas, quintais e memórias domésticas transformam-se em território poético onde a experiência das mulheres ganha centralidade e beleza.

Adélia escreveu uma frase que atravessa a cultura brasileira como um gesto de afirmação feminina: “Mulher é desdobrável. Eu sou.”

E em outro momento afirmou algo que também serve como metáfora da coragem feminina diante do mundo: “Não quero faca nem queijo. Quero a fome.”

Essas palavras não falam apenas de poesia. Falam de desejo de vida, de intensidade, de liberdade.

Essas mulheres, tão diferentes entre si, têm algo em comum: provaram que a inteligência feminina não pode ser confinada.

Mas talvez nenhuma história seja tão simbólica quanto a de uma poeta persa do século XIX.

Seu nome era Tahirih.

Nascida em 1817, culta, erudita e profundamente conhecedora do Alcorão, Tahirih ousou desafiar uma ordem social que insistia em manter mulheres invisíveis.

Em uma assembleia dominada por homens religiosos, retirou o véu que cobria seu rosto. O gesto foi mais do que simbólico. Foi um ato revolucionário.

A mensagem era clara: mulheres não nasceram para viver escondidas.

Por essa ousadia, foi condenada à morte.

Em 1852, em Teerã, Tahirih foi estrangulada por seus algozes. Antes de morrer, pronunciou palavras que atravessariam gerações:

“Podeis me matar, mas não podeis impedir a emancipação das mulheres.”

Em um de seus poemas mais luminosos, Tahirih anuncia a chegada de um novo tempo:

“Nosso dia nascente dá seu primeiro fôlego;

o mundo se ilumina;

nossas almas começam a brilhar.”

Sua morte não silenciou sua voz.

Ao contrário.

Hoje, milhares de meninas em diferentes partes do mundo carregam o nome Tahirih como símbolo de liberdade.

Talvez seja essa a lição mais profunda do Dia Internacional da Mulher.

A história das mulheres é feita de perdas, mas também de persistência. Cada geração herda as batalhas da anterior e empurra um pouco mais adiante os limites da liberdade.

Por isso, sempre que uma mulher é silenciada, humilhada ou assassinada, algo antigo se repete.

Repete-se a tentativa de apagar vozes femininas que ousaram existir.

Mas a história mostra que nenhuma violência conseguiu deter essa marcha.

Sappho continua escrevendo através dos séculos.

Nightingale continua caminhando com sua lamparina.

Conceição Evaristo continua narrando a dignidade invisível.

Adélia Prado continua revelando a poesia da vida comum.

E Tahirih continua levantando o rosto diante do mundo.

Por isso, neste 8 de março, é preciso lembrar algo essencial.

Enquanto existir uma mulher vivendo com medo, a emancipação feminina ainda não estará completa.

E a cada direito negado às mulheres, em algum lugar da história, Tahirih é morta outra vez.

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