A conta que assinamos e não pagamos
Se nada mudar, cada geração herdará a fatura que a anterior não pagou, assinará embaixo e a reenviará, intacta, aos próprios filhos
Washington Araújo - 15/07/2026


Herdamos um planeta endividado e insistimos em pagá-lo com moeda vencida. As maiores pressões do nosso tempo já não cabem em mapa nenhum: nascem em toda parte, circulam por todo lado e cobram de todos. A política, porém, continua raciocinando por cercas. Governos tentam conter enchentes globais erguendo diques dentro de casa e depois se espantam quando a água entra pela porta do vizinho.
Ninguém pode alegar surpresa. Mediram o aquecimento, traçaram a curva do envelhecimento, documentaram a concentração de renda e descreveram os perigos das máquinas muito antes de tudo virar manchete. Faltou o gesto mais simples e mais raro na política: decidir a tempo, quando ainda custava barato.
No clima, o pretexto técnico já não convence. As fontes limpas amadureceram, o financiamento está à mesa, os bancos multilaterais têm fôlego para mover trilhões. O que emperra é o lucro da inércia, a fortuna de quem prospera enquanto tudo permanece igual.
A desigualdade trocou de endereço. O fosso entre nações encolheu em várias regiões, sobretudo na Ásia; o que se alargou foi a distância dentro de cada sociedade. Democracias desgastadas, tribunas em fúria e instituições sem crédito são o retrato dessa fenda interna.
O envelhecimento das populações foi anunciado com décadas de antecedência e, ainda assim, empurrado para o governo seguinte, como se a demografia aceitasse renegociar prazos com o calendário eleitoral.
A migração é mais velha que qualquer nação, e nenhum palanque a suspende. O que a organiza não é o muro, mas o método: acolher, integrar, converter deslocamento em trabalho e futuro, em vez de deixá-lo apodrecer em campos e naufrágios.
A corrupção aprendeu a nadar em águas digitais. Move-se em milissegundos, cruza jurisdições sem carimbo, enquanto a fiscalização ainda preenche formulários em papel timbrado. E os sistemas artificiais avançam num ritmo que humilha o relógio das instituições, sem regra comum que os discipline.
Sobre esse conjunto paira uma engenharia de poder desenhada em 1945, encarregada de administrar um planeta que já não é aquele. O escândalo não está no diagnóstico, farto e repetido, nem nos recursos, que existem. Está na covardia mansa de quem sabe e não faz.
Mas covardia não é sentença definitiva. Suspeito que falta pouco para admitirmos o óbvio: precisamos aprender de novo, e depressa. Nossa história é uma sucessão de círculos que se alargam. Da família ao clã, do clã à tribo, da cidade à nação, cada abertura juntou estranhos que se descobriram parentes. O passo seguinte já começou, e não foi decreto de ninguém. Desde os anos setenta experimentamos blocos continentais, com a Europa à frente e o Mercosul e o Nafta logo atrás, todos amarrados por cifras. E aqui está o defeito de origem: vantagem comercial não basta para unir povos. O cálculo que aproxima na fartura é o mesmo que separa no primeiro prejuízo. Já vi acordo desmanchar por bem menos, quando o lucro trocou de lado.
Um pacto que se pretenda duradouro precisa de alicerce mais fundo: a justiça, para começar, que impede a união de virar tutela dos fortes sobre os fracos e devolve a cada um a certeza de ser tratado por igual; a segurança partilhada, já que nenhuma ameaça respeita cerca e defender-se virou tarefa de todos ou de ninguém; e o cuidado com o que nos distingue. Digo sem rodeios: recuso a unidade que uniformiza. Quero a que abriga muitas vozes sem calar nenhuma, a que entende que um povo emudecido empobrece o mundo inteiro, e não apenas a si mesmo. A diferença não é obstáculo à união: é a matéria-prima da única união que vale a pena. Unir sem justiça é dominar. Unir sem diversidade é apagar. E unir sem coragem, como andamos fazendo há tempo demais, é apenas empurrar a conta adiante.
É aí que a fatura passa de mão em mão. Cada geração recebe a conta que a anterior deixou de honrar, confere o valor, reconhece a assinatura e, em vez de quitá-la, acrescenta os próprios juros antes de despachá-la adiante. O boleto engorda a cada repasse. Um dia, alguém abrirá o envelope e descobrirá que o prazo acabou, que o crédito secou, que não há mais a quem transferir o débito. Esse alguém não votou nas escolhas que assinaram por ele. Apenas herdou a dívida, os juros e o silêncio de quem assinou.
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