A disputa pela sombra expõe a nova crise das cidades
Quando o calor avança, a sombra revela quem a cidade protege, quem abandona sob o sol e quanto vale uma árvore diante da emergência climática. De Paris a Brasília, árvores e marquises deixaram de ser detalhes urbanos: agora definem quem pode caminhar livremente.
Washington Araújo - 27/08/2026


Dentro de poucos anos, a sombra poderá adquirir valor público comparável ao da água. Nas cidades submetidas a verões mais longos, uma árvore funcionará como abrigo, equipamento sanitário e mecanismo de justiça urbana. Seu diâmetro de copa dirá mais sobre uma administração do que muitas obras destinadas às fotografias oficiais.
Em 2 de setembro de 2025, o Banco Mundial divulgou o Handbook on Urban Heat Management in the Global South, elaborado com contribuições da UN-Habitat e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O documento projeta que, até 2050, o número de pobres urbanos expostos ao calor perigoso poderá crescer 700%, sobretudo na África e na Ásia.
A escala do benefício aparece também na arborização. Em 10 de dezembro de 2024, um estudo publicado na Communications Earth & Environment reuniu 182 pesquisas realizadas em 110 cidades ou regiões urbanas, distribuídas por 17 tipos de clima. Em determinadas condições, as árvores reduziram em até 12 °C a temperatura percebida ao nível do pedestre. Arborizar interfere em saúde, transporte, habitação, produtividade e consumo de energia.
Tratar árvores como ornamento custa caro. Significa ampliar internações, perder jornadas de trabalho, elevar a demanda por refrigeração e aceitar mortes prematuras evitáveis. Em muitas cidades, a árvore já funciona como infraestrutura de sobrevivência.
A sombra virou infraestrutura
Basta observar o que acontece nas grandes cidades para perceber que a temperatura deixou de ser apenas informação meteorológica. Ela reorganiza horários, altera trajetos, afasta idosos das ruas, castiga trabalhadores que dependem do espaço público e estabelece diferenças concretas entre bairros separados por poucos quilômetros.
Paris iniciou em 2018 o programa OASIS, que transforma pátios escolares asfaltados em áreas verdes, permeáveis e capazes de funcionar como ilhas de frescor. Em 20 de maio de 2026, a rede Eurocities registrou que 208 pátios já haviam sido redesenhados, dentro da meta de alcançar as 770 escolas parisienses até 2050.
Brasília, concebida com extensas áreas verdes, enfrenta o mesmo desafio sob características próprias. Nos dois anos, 2023 e 2024, em que fui diretor da autarquia responsável por parques e jardins da capital, acompanhei de perto algo que números e mapas nem sempre revelam: uma árvore bem localizada muda a experiência diária de uma rua, de uma praça, de um ponto de ônibus e de quem precisa atravessar a cidade a pé.
O contato direto com essa realidade tornou ainda mais claro para mim que a resposta não cabe apenas nos departamentos de parques e jardins. Uma árvore plantada hoje interfere na saúde de quem espera um ônibus, na temperatura das casas próximas, no consumo de energia, na possibilidade de uma criança caminhar até a escola e no direito de um idoso permanecer no espaço público.
A discussão sobre sombra ultrapassou o paisagismo e entrou no planejamento urbano. Governos que ainda tratam arborização como acabamento não compreenderam a emergência que já chegou às ruas. Planejar sombra passou a significar planejar saúde, mobilidade e permanência humana no espaço urbano.
O limite das grandes cidades
Em 28 de julho de 1954, nove anos depois de 1945, ano em que terminou a Segunda Guerra Mundial — a maior cicatriz no rosto da humanidade até hoje —, Shoghi Effendi escreveu em Citadel of Faith sobre a necessidade de um “verdadeiro êxodo das grandes cidades” e mencionou “perigos insuspeitados” que pairavam sobre alguns desses centros. Nove anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a possibilidade de novos conflitos continuava a definir o horizonte estratégico das grandes metrópoles e de seus habitantes.
Nas últimas décadas, outra ameaça passou a produzir mortos em escala impossível de ignorar. Entre 30 de maio e 4 de setembro de 2022, a Nature Medicine estimou 61.672 mortes relacionadas ao calor na Europa. Em 2023, foram outras 47.690. Em 4 de agosto de 2026, diante da quarta onda de calor daquele verão, a Itália colocou suas 27 principais cidades no nível máximo de alerta, com risco para toda a população. O calor extremo já fecha escolas, sobrecarrega hospitais, altera transportes e mata dentro das grandes cidades.
Diante dessa realidade, a advertência de 1954 adquire hoje uma gravidade adicional.
Seu olhar não se detinha no risco militar. Em 20 de junho daquele mesmo ano, uma carta escrita em seu nome separava explicitamente a ameaça de guerra de outra inquietação: a vida nas grandes cidades tornara-se apressada, extenuante e profundamente submetida ao materialismo. Era uma leitura da condição humana dentro da metrópole que alcançava muito além de sua vulnerabilidade estratégica.
A percepção de Shoghi Effendi sobre a evolução da civilização tinha uma qualidade rara: enxergar nas estruturas do presente tensões que só mais tarde adquiririam forma plena. Ao defender a dispersão para centros menores, Shoghi Effendi tocava numa questão que atravessa nosso tempo com força renovada: até que ponto uma cidade pode crescer, concentrar riqueza, tecnologia e população sem ultrapassar a própria capacidade de proteger a vida que abriga?
O século XXI acrescentou novos contornos a essa pergunta. Calor extremo, ilhas de calor, perda de áreas verdes, acúmulo de resíduos, proliferação de vetores e desigualdade térmica expõem uma fragilidade urbana que se manifesta no cotidiano, sem depender de guerra ou colapso súbito.
O processo avança rua por rua, bairro por bairro, transformando o cotidiano em teste permanente de resistência. A cidade permanece entre as grandes criações humanas, mas seu grau de civilização deve ser julgado pela capacidade de proteger quem a habita quando as condições ambientais se tornam mais duras.
A mesma vulnerabilidade aparece no lixo acumulado, na proliferação de ratos e outros vetores e na possibilidade de novos surtos sanitários. Densidade populacional exige capacidade permanente de cuidado coletivo. Redes de água, saneamento, transporte, hospitais e parques permitiram que multidões vivessem lado a lado; quando esses sistemas falham, a concentração urbana multiplica o dano.
O calor, por sua vez, torna a desigualdade impossível de esconder. Os bairros mais arborizados costumam coincidir com áreas de maior renda, enquanto periferias densamente ocupadas acumulam concreto, telhados que absorvem calor, pontos de ônibus desprotegidos e longos percursos a pé.
Duas pessoas podem morar na mesma cidade, consultar a mesma previsão meteorológica e atravessar experiências térmicas radicalmente diferentes. O CEP começa a funcionar também como indicador climático. A temperatura pode ser idêntica no aplicativo; o risco jamais é distribuído da mesma forma.
Quem pode caminhar?
É por isso que a futura disputa pela sombra será uma disputa por liberdade. Quem dispõe de automóvel climatizado, residência refrigerada, trabalho em ambiente fechado e dinheiro para deslocamentos sente o calor de maneira muito diferente de quem espera quarenta minutos por um ônibus, vende produtos na rua, entrega comida de bicicleta ou precisa caminhar quilômetros diariamente.
O termômetro registra a mesma temperatura; a cidade distribui suas consequências. A desigualdade climática é desenhada nas ruas, na qualidade das moradias, na presença ou ausência de árvores, no transporte oferecido e nas prioridades escolhidas para o orçamento.
Dentro de alguns anos, prefeitos poderão ser julgados também pela quantidade e pela qualidade da sombra que entregarem. Será necessário saber onde estão as árvores, quais bairros perderam cobertura vegetal, quais escolas possuem pátios expostos e quais pontos de ônibus se transformam em pequenas estufas.
Será preciso saber, sobretudo, quantos quilômetros uma pessoa consegue percorrer protegida do sol. Isso exige planejamento de décadas, porque uma árvore adulta capaz de oferecer uma copa generosa não nasce no calendário de uma eleição. A gestão urbana terá de aprender a trabalhar com um tempo maior que o mandato.
A cidade do futuro será discutida em torno de inteligência artificial, veículos autônomos, sensores, edifícios conectados e redes digitais cada vez mais sofisticadas. Tudo isso terá importância. Nenhuma cidade poderá chamar a si mesma de inteligente se obrigar seus habitantes a escolher entre permanecer em casa ou adoecer para atravessar suas ruas.
Mesmo assim, uma parte decisiva da qualidade da vida urbana continuará dependendo de algo que a humanidade conhece desde muito antes de existir qualquer tecnologia: poder caminhar sob uma árvore. Essa simplicidade torna ainda mais grave a incapacidade de garantir aquilo que deveria ser elementar.
No fim, a disputa pela sombra é uma disputa pelo valor que atribuímos à vida cotidiana. Setenta anos depois de Shoghi Effendi enxergar “perigos insuspeitados” nas grandes cidades, esses perigos já não pertencem apenas ao terreno da hipótese. Estão no calor que mata, na rua sem árvore, no ponto de ônibus sem abrigo, no bairro que concentra concreto e no corpo de quem paga por escolhas que nunca fez. O século XXI decidirá se nossas cidades permanecerão monumentos à concentração humana ou se serão capazes de se tornar, enfim, lugares onde viver não seja um ato diário de resistência.
https://revistaforum.com.br/opiniao/a-disputa-pela-sombra-expoe-a-nova-crise-das-cidades/
