A estação dos charlatães quânticos

A incerteza que Heisenberg mediu em partículas virou, na boca dos charlatões, certeza vendida sobre o destino e a sorte de quem busca algum sentido

Washington Araújo - 02/09/2026

O nome de Einstein é hoje o mais roubado da história da ciência. Escrevo de Brasília, onde recebo quase toda semana convites para debater esoterismos travestidos de vanguarda, e o físico alemão aparece, invariavelmente, como autoridade emprestada para justificar o que ele próprio jamais sustentou. Cunhou a expressão “ação fantasmagórica à distância” em 1947, numa carta a Max Born, para expressar a inquietação que sentia diante do entrelaçamento quântico — não para endossar telepatia ou energia vital. Passou décadas discordando de Niels Bohr justamente porque recusava a ideia de que o acaso governasse a realidade última. Hoje, coaches e gurus de autoajuda invocam seu nome para vender exatamente aquilo que ele combateu.

O mesmo golpe recai sobre Werner Heisenberg.

O princípio da incerteza, que formulou em 1927, estabelece apenas um limite de precisão na medição simultânea de posição e momento de uma partícula. Ainda assim, é rotineiramente distorcido para justificar a fantasia de que “observar” com a mente muda o destino, o corpo ou a sorte de alguém. Heisenberg interessou-se, é verdade, pelo pensamento indiano — ganhou até o apelido de “o Buda” entre colegas —, mas jamais confundiu sua curiosidade filosófica pessoal com uma tese científica. O físico Victor Stenger, autor de “The Unconscious Quantum”, dedicou um livro inteiro a demonstrar que nenhuma dessas apropriações resiste à matemática que sustenta a própria mecânica quântica.

Comércio do espanto

O físico Murray Gell-Mann, Nobel de 1969, cunhou o termo “flapdoodle quântico” para nomear esse encadeamento de jargão sem substância que finge explicar o cotidiano. A expressão pegou entre cientistas porque descreve com exatidão cirúrgica o produto vendido por coaches quânticos, terapeutas de “reprogramação vibracional” e gurus de autoajuda corporativa que hoje lotam auditórios e planilhas de faturamento.

O astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser, professor em Dartmouth e vencedor do Prêmio Templeton, oferece o diagnóstico mais contundente de todos: quanto mais cientistas abandonam o diálogo público, mais crescem o negacionismo e a ignorância científica. Vivemos exatamente esse abandono — numa década em que o público que ironiza terraplanistas aplaude, sem perceber a contradição, o coach que promete alterar o DNA por vibração.

O fenômeno tem data de nascimento. Em 1975, o físico Fritjof Capra publicou “O Tao da Física”, propondo paralelos entre mecânica quântica e misticismo oriental sem qualquer lastro experimental. Desde então, o vocabulário técnico — superposição, colapso da função de onda, emaranhamento — migrou do laboratório para a prateleira, e o dano deixou de ser apenas retórico.

No Brasil, esse deslocamento já rendeu o “colchão quântico” (sim aquele em que dormimos!), anunciado com infravermelho longo e “energia bioquântica”; uma disciplina obrigatória de “Perspectiva Quântica para o Cuidado de Enfermagem”, registrada em ata pela Universidade Federal do Rio Grande; e congressos que prometeram curar câncer infantil sem remédio, como relatou detalhadamente a Revista Questão de Ciência — promessa que empurra famílias desesperadas para longe do tratamento oncológico que salvaria suas crianças. O termo correto para isso é fraude com verniz acadêmico, e merece ser chamado pelo nome.

Da ciência ao palanque

Confesso meu espanto ao constatar que dois nomes ligados ao universo do coaching e da autoajuda despontam hoje como pré-candidatos à Presidência da República do Brasil: um empresário e influenciador que se apresenta como coach de alta performance, e um psiquiatra transformado em fenômeno editorial de livros motivacionais.

A que ponto chegamos, quando o palanque nacional se torna extensão do palco de autoajuda, e a linguagem inspiracional que dispensa evidência migra do auditório pago para a disputa do Palácio do Planalto?

Todo cidadão tem o direito de se candidatar; o que me alarma é um país que troca debate técnico por motivação de plateia, e que aplaude no comício o mesmo vocabulário vazio que ridiculariza quando vendido em colchão.

O critério que sobra

Resta um critério simples: peça a equação. Fenômenos quânticos são verificados por experimentos controlados e repetíveis; supraconsciência e visualização jamais passaram por contrastação empírica alguma.

Catedráticos como Héctor Marín Manrique, que recentemente dissecou esse mesmo comércio do espanto nas páginas do jornal espanhol Heraldo de Aragón, mostram que o fenômeno atravessa oceanos com a mesma gramática — porque a ignorância que ele explora não tem fronteira nem sotaque.

Meu ofício de anos cobrindo cultura, geopolítica e comportamento me ensinou que o charlatanismo raramente mente sobre fatos isolados — mente sobre a natureza da prova, trocando réplica laboratorial por testemunho emocionado.

Cabe a universidades, editores e emissoras reabrir essa distinção ao público: cada minuto de antena cedido ao curinga quântico é um minuto roubado da alfabetização científica que o país ainda constrói, numa época em que o negacionismo já matou, por sarampo e por Covid, gente que a ciência sabia como salvar.

Está mais que evidente, patente, que ninguém busca esse curinga por ignorância pura — busca por uma fome legítima de sentido, que a ciência, moderada e honesta, jamais prometeu satisfazer sozinha. Querer significado diante da doença ou da perda é da condição humana; o abuso começa quando esse significado passa a ser vendido com etiqueta de laboratório, cobrando por uma certeza que a própria física recusa oferecer.

Reconhecer essa fome, sem alimentá-la com fraude, é o verdadeiro trabalho pendente do jornalismo científico brasileiro — e, ao que parece, também da nossa democracia.

https://revistaforum.com.br/opiniao/a-estacao-dos-charlataes-quanticos/

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