A fábrica de pessoas obedientes

Bonhoeffer mostrou que inteligência e cultura pouco valem depois que o cidadão entrega ao poder a responsabilidade de julgar os fatos por conta própria, sozinho

Washington Araújo - 24/09/2026

Uma pessoa pode conhecer filosofia, ouvir Bach, citar Kant de memória e entregar a própria cabeça ao primeiro líder que lhe ofereça uma certeza. Foi esse o assombro que atravessou Dietrich Bonhoeffer ao observar a Alemanha culta ajoelhar-se diante de Hitler.

A inteligência permanecia ali. O que desaparecia era a disposição de usá-la contra a corrente.

Bonhoeffer escreveu “Sobre a estupidez” em 1942, no ensaio “Dez anos depois”, antes de ser preso pela Gestapo. O dado importa porque suas palavras nasceram da experiência de uma sociedade que se degradava à sua volta. Ele via professores, funcionários, religiosos e cidadãos instruídos repetirem absurdos com a serenidade de quem acreditava cumprir um dever.

Para ele, a estupidez tinha pouca relação com limitações intelectuais. Surgia assim que alguém entregava a outro o trabalho de julgar.

O sujeito continuava capaz de raciocinar, porém já raciocinava dentro da cerca. Reunia argumentos, selecionava fatos, descartava perguntas e chamava esse serviço prestado à obediência de convicção pessoal.

Servidão escolhida

A conclusão mais dura veio em seguida. A maldade pode ser denunciada, desmascarada e levada ao tribunal. Quem se rende ao poder ganha uma couraça difícil de romper: acredita agir pelo bem. A prova contrária parece perseguição; a dúvida alheia vira fraqueza; o adversário perde o direito de ser ouvido. A consciência fecha a porta e pendura uma medalha do lado de dentro.

O nazismo mostrou que educação e cultura oferecem proteção insuficiente. A terra de Goethe, Beethoven e Kant produziu técnicos para a barbárie, juristas para legalizá-la e funcionários para preencher seus formulários.

Um diploma ensina a manejar instrumentos. Nenhum diploma garante a coragem necessária para recusar uma ordem, romper com os amigos ou enfrentar a maioria.

O ambiente digital ampliou essa velha fraqueza e lhe deu velocidade industrial. Pesquisa da Unesco em 2024, com 500 influenciadores de 45 países, revelou que dois terços não verificavam sistematicamente as informações antes de publicá-las.

Quatro em cada dez tratavam curtidas e visualizações como sinais de credibilidade. A popularidade passou a funcionar como atestado de verdade emitido pela multidão.

No Brasil, o método dominou o debate público. Direita e esquerda descobriram que mobilizar identidades rende mais do que apresentar programas. Cada lado fabrica palavras de ordem, distribui inimigos e oferece aos seguidores a sensação de pertencer ao grupo dos lúcidos. Depois acusa o campo adversário de manipulação, como se a falsidade mudasse de natureza ao vestir a camisa da torcida preferida.

A política perde substância nesse comércio de certezas. Já se discute menos para compreender e mais para reconhecer senhas. Diante de uma denúncia, poucos perguntam “isso aconteceu?”. A reação mais comum é outra: “isso ajuda o meu lado?”. O cidadão imagina escolher livremente, mas muitas vezes apenas procura a voz que dirá, com segurança emprestada, aquilo que ele já decidiu aceitar.

Mas Bonhoeffer também não pode virar porrete, palmatória do diabo.

Chamar os outros de estúpidos pode se tornar outra forma de abandonar o pensamento. O conceito não autoriza ninguém a fundar uma aristocracia dos esclarecidos. Ele descreve uma captura da qual nenhum grupo está livre.

Gente brilhante sabe erguer defesas muito engenhosas para conservar velhos preconceitos. É aqui que continua morando perigo sem pagar aluguel ao longo dos tempos.

Coragem de pensar

Sair dessa prisão exige mais do que conferir notícias. Exige suportar a descoberta de que os nossos também mentem, reconhecer uma derrota num debate e desconfiar da frase que chega pronta demais. Pensar por conta própria cobra um preço social. Às vezes custa aplausos, amizades, convites e aquela paz enganosa de estar sempre cercado por pessoas que concordam conosco.

Bonhoeffer foi executado pelo regime nazista em abril de 1945. Oito décadas depois, sua advertência chegou inteira às telas do nosso tempo.

Todo autoritarismo começa a vencer antes de fechar o Congresso, censurar jornais ou ocupar tribunais. Sua primeira conquista ocorre dentro de pessoas comuns, no momento em que deixam de fazer perguntas e passam a chamar repetição de pensamento.

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