A fila e a ponte
A fila aproxima destinos distintos; a ponte os conduz adiante. Nesse percurso, o Brasil decide se alimenta o ódio ou amplia a vida digna de todos.
Washington Araújo - 08/10/2026


A fila começa antes do guichê, no reconhecimento de que outras pessoas esperam com urgências e histórias que não aparecem no documento entregue ao atendente. Numa manhã de posto de saúde, o país se deixa ver sem discurso: idades, crenças e condições distintas dividem o mesmo espaço, à espera de uma resposta que depende de todos.
A convivência nasce de uma regra aceita, de um lugar cedido, da informação compartilhada sobre a senha chamada, do cuidado para não fazer da demora licença para ferir quem está ao lado. Gestos pequenos ensinam que a vida comum pede consideração, sobretudo quando a impaciência tenta transformar o outro em obstáculo.
O Brasil cabe naquela fila, onde ninguém escolhe apenas os serviços que funcionam para si. Transporte, escola, água, segurança e saúde formam uma trama de dependências. Cada pessoa carrega uma necessidade própria; todas precisam de instituições capazes de responder com continuidade e justiça.
Uma ponte merece ser pensada para além de sua extensão. Liga margens, encurta distâncias e transforma o cotidiano de quem atravessa o rio para trabalhar, estudar ou chegar ao hospital. Sua utilidade alcança pessoas que divergem até sobre quase tudo, mas compartilham o chão e o tempo de uma mesma região. A dependência mútua atravessa os discursos e aparece na vida cotidiana.
Construir essa passagem exige planejamento, trabalho técnico e decisões públicas. Exige também que a comunidade acompanhe os prazos, fiscalize recursos e cobre explicações. A confiança cresce quando a obra sai do anúncio e chega à vida real, quando o poder presta contas e os cidadãos percebem que sua participação tem consequência. Assim, o progresso ganha forma verificável.
A fila e a ponte obedecem a uma lição semelhante. Na primeira, ninguém chega ao atendimento sozinho; na segunda, ninguém alcança a outra margem sem atravessar uma estrutura mantida por muitos. O interesse individual continua legítimo quando encontra lugar numa paisagem compartilhada. A disputa por direitos pode ser firme sem converter diferenças em inimizade.
Quando a política se alimenta de intolerância, a fila vira ocasião para suspeitar de quem está ao lado, e a ponte se torna promessa repetida. O fanatismo oferece explicações fáceis para problemas difíceis e aponta culpados com segurança que dispensa escuta. Pode render aplausos, mas não constrói caminhos, atende quem espera ou repara o que foi abandonado.
Progredir pede reconhecer a realidade sem entregar a inteligência ao ressentimento, defender convicções sem retirar do adversário sua condição humana, exigir resultados e preservar a prestação de contas. Isso requer memória, atenção e coragem para interromper a ofensa antes que ela determine a conversa e o destino das escolhas públicas.
Somos responsáveis pelo país que desejamos. Se desejamos fazê-lo regredir à Idade Média, estamos certos em assumir essa escolha; se queremos progresso e qualidade de vida para toda a sociedade, estamos certos. Que o progresso alcance todos, dos brasileiros mais pobres às elites ricas e opulentas. Somos o que pensamos e aquilo que nossas ações traduzem. A vida nos oferece distinções simples: noite e dia, verão e inverno, seca e chuva, amor e ódio.
Está em nossas mãos decidir qual realidade queremos cultivar e entregar aos que virão.
