A guerra tomou a tribuna da paz

A maior potência militar do planeta levou à ONU a ameaça de aniquilação que sua Carta foi criada para impedir há oito décadas.

Washington Araújo - 23/09/2026

A palavra “aniquilar” entrou pela porta principal das Nações Unidas. Não saiu de um general cercado de mapas, nem escapou de uma reunião secreta. Foi pronunciada pelo presidente dos Estados Unidos diante dos representantes do mundo, na tribuna construída para impedir que a força decidisse quais países merecem existir. Em 22 de setembro de 2026, Donald Trump perguntou se faria um acordo com o Irã ou aniquilaria a República Islâmica “rapidamente”.

A ameaça recebeu tradução simultânea, registro oficial e a solenidade reservada aos chefes de Estado.

A cena ultrapassa outra excentricidade verbal de Trump. A maior potência militar do planeta apresentou a destruição de um Estado-membro como alternativa de política externa. O presidente celebrou a operação armada que capturou Nicolás Maduro, converteu a Venezuela em advertência ao continente e assegurou que empregará poder militar para proteger interesses nacionais. Antes, ameaçara tomar a Groenlândia. A linguagem imperial abandonou qualquer disfarce e ocupou o microfone da instituição criada para restringi-la.

A 81ª Assembleia Geral revelou um mundo que ampliou sua capacidade científica enquanto encolhia sua imaginação política.

Sabemos alterar genes, fotografar galáxias distantes e fazer máquinas aprenderem; continuamos, porém, entregando a solução de conflitos à mesma gramática de cerco, conquista e vingança que governava tribos antigas.

O espanto maior reside nessa convivência entre inteligência técnica e indigência coletiva: as armas mudaram de século, mas muitos governantes permaneceram séculos atrás.

A febre do poder

A ameaça contra o Irã oferece o sintoma mais visível de uma doença extensa. Extremismos ideológicos cresceram prometendo certezas instantâneas a sociedades fatigadas pela complexidade.

Nacionalismos doentios e contagiosos reorganizaram o medo e ensinaram populações inteiras a enxergar o estrangeiro como suspeito, o vizinho como rival e a diferença como traição.

Líderes cercados de aplausos digitais decidem por milhões como se o futuro terminasse na próxima eleição, ou pior, como se não houvesse amanhã.

Governar virou, para muitos, administrar impulsos; pensar nas gerações seguintes parece fraqueza.

A cultura da guerra ganhou orçamentos, laboratórios, satélites, indústrias e uma poderosa rede de interesses.

A cultura da paz recebeu cerimônias, resoluções e minutos de silêncio.

Rússia, na invasão da Ucrânia; Hamas, no assassinato e sequestro de civis; Israel, na devastação de Gaza; Estados Unidos, na guerra contra o Irã e na incursão venezuelana: contextos distintos exibem a mesma permissão íntima para usar vidas alheias como material de estratégia, porque quero ser educado, mas o que pensei mesmo foi em vez de material de estratégia bucha de canhão. Pronto, escrevi. Até a paciência parece impaciente.

Cada lado ergue sua dor como absolvição e trata a dor do outro como estatística. E essas estatísticas engrossam o inventário das sombras, as massas anônimas da humanidade.

Por trás desse fracasso político opera uma ambição material desenfreada.

Petróleo, minerais, rotas, água, mercados e influência entram nos cálculos de governos que vestem interesses econômicos com palavras patrióticas.

O amor a seu país não pode ter o mesmo peso que o ódio à humanidade. Essa última afirmação em outros tempos parecia ser ópera para ser escrita. Mas há muito deixou de ser óbvia.

Ao mesmo tempo, uma parcela reduzida da população mundial, não mais que cinco dezenas de famílias, acumula fortunas maiores que economias nacionais, enquanto centenas de milhões sobrevivem sem alimentação adequada, moradia segura ou acesso regular à saúde.

O planeta é explorado como patrimônio de uma geração autorizada a gastar o capital natural de todas as seguintes.

A irresponsabilidade avança também sobre florestas, oceanos, solos e atmosfera.

Governos prometem crescimento imediato, empresas distribuem dividendos trimestrais, eleitores são convidados a escolher entre empregos e estabilidade climática. A temporada das falsas dicotômicas parece ter chegado com força, impulsionadas que são por redes transnacionais de desinformação e avalanches de notícias falsas.

A falsa escolha adia mudanças e transfere o custo aos mais pobres, justamente os que menos contribuíram para o aquecimento global. Os mesmos que tiveram no passado seus ossos alquebrados pelo peso da tirania e da injustiça.

A riqueza concentra proteção; a miséria concentra enchentes, secas, fome e deslocamento. Nesse desequilíbrio, a ausência de uma ordem mundial justa adquire geografia precisa.

A crise alcançou o próprio conceito de Justiça. Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu, um presidente e um primeiro-ministro amparados por poder militar e alianças, têm contra si mandados de prisão do Tribunal Penal Internacional por acusações que incluem crimes de guerra e, no caso israelense, crimes contra a humanidade. Ainda aguardam julgamento, mas enfrentam risco de detenção em países vinculados ao Estatuto de Roma. A diferença entre mandado e sentença precisa ser preservada. O fato político permanece estarrecedor: dirigentes transitam pelo mundo segundo o mapa dos lugares onde podem desembarcar, enquanto potências procuram enfraquecer o tribunal.

O mundo indivisível

O mundo ideal parece afastar-se do mundo real sempre que uma nação usa sua superioridade para ampliar vantagens particulares.

Num estágio mais alto de civilização, os países mobilizariam poder humano, científico, cultural, social, financeiro e até militar para defender os melhores interesses de toda a raça humana: prevenir epidemias, proteger populações, socorrer vítimas de desastres, restaurar ecossistemas e fiscalizar o desarmamento.

Essa aspiração atravessa séculos. Não é de hoje, nem foi da década nem dos recentes anos passados.

Diógenes respondeu a quem lhe perguntou de onde vinha: “Sou cidadão do mundo”.

Marco Aurélio escreveu que “o que não beneficia a colmeia não beneficia a abelha”.

Kant advertiu que “uma violação do direito em um ponto da Terra é sentida em todos os outros”.

No manifesto que escreveu com Einstein, Bertrand Russell pediu: “Lembrem-se de sua humanidade e esqueçam o resto”.

Esses pensadores viveram em épocas separadas por impérios, revoluções e guerras. Reconheceram, por caminhos diferentes, a unidade do destino coletivo. O princípio ganhou hoje confirmação física.

As fronteiras são costuras políticas num tecido atmosférico sem avesso: rasgar um ponto altera a tensão do pano inteiro. O carbono emitido num continente aquece oceanos distantes; a fuligem cruza mares; geleiras derretidas elevam o nível da água em costas que jamais participaram da decisão; radiação e vírus ignoram alfândegas, bandeiras e discursos de soberania.

Nenhum Estado nacional, por mais rico ou armado, estabiliza sozinho o clima, contém uma pandemia ou torna inofensiva uma nuvem radioativa.

A pandemia de Covid-19 deveria ter gravado essa verdade na memória política. Em poucas semanas, um agente microscópico paralisou aeroportos, fechou escolas, rompeu cadeias produtivas e obrigou adversários a depender uns dos outros por vacinas, respiradores, insumos e conhecimento.

É desolador ver que seis anos depois do início da crise, e pouco mais de três após o fim da emergência global, a Assembleia de 22 de setembro falou como se o vírus pertencesse a séculos passados.

A lição foi arquivada antes de ser compreendida.

A coragem diplomática

Defender o multilateralismo exige mais que elogiar a ONU em discursos anuais. Exige aceitar negociações demoradas, compromissos imperfeitos, fiscalização recíproca e limites reais ao poder nacional.

A diplomacia oferece o único método capaz de produzir soluções que sobrevivam aos governantes que as assinam.

Guerras podem derrubar governos e ocupar territórios; deixam famílias mutiladas, economias destruídas, ressentimentos transmitidos aos filhos e a próxima violência em estado de espera.

A paz duradoura precisa de instituições, memória e paciência.

Em 26 de junho de 1945, cinquenta países assinaram a Carta das Nações Unidas para livrar as gerações futuras do flagelo da guerra. Seu artigo 2º proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial e a independência política dos Estados. O desenho institucional, contudo, entregou a cinco vencedores da Segunda Guerra um veto capaz de bloquear decisões sobre seus próprios atos ou os de aliados.

O Conselho de Segurança funciona como uma ponte cujo pedágio é controlado por cinco engenheiros autorizados a fechar a travessia sempre que o outro lado contraria seus interesses.

Reformar essa estrutura tornou-se uma providência de sobrevivência.

O veto precisa ser suspenso em casos de agressão, anexação, genocídio e crimes contra a humanidade. África e América Latina precisam de representação permanente.

A Assembleia Geral deve reunir-se automaticamente se um membro permanente participar do conflito.

Tribunais internacionais necessitam de independência financeira, cooperação para cumprir mandados e jurisdição respeitada inclusive pelos poderosos.

A segurança coletiva fracassa sempre que uma potência acumula as funções de parte, juiz e carcereiro.

Minutos antes de Trump, António Guterres advertira contra a aplicação seletiva da Carta, os civis transformados em alvos e o direito internacional abandonado segundo a conveniência. Lula declarou que a credibilidade da ONU nunca esteve tão baixa. O discurso norte-americano forneceu a prova imediata das duas denúncias. Uma instituição incapaz de reagir à ameaça de aniquilação proferida em seu plenário concede à intimidação a aparência de normalidade.

Procuro pensar esta crise acima das ideologias e das nacionalidades porque nenhuma bandeira altera a composição do ar, a circulação dos oceanos ou a vulnerabilidade de uma criança sob bombardeio.

Os anseios por um mundo melhor conservam legitimidade precisamente porque o mundo real se tornou mais brutal.

Eles pedem escolhas verificáveis: negociar antes de atacar, repartir antes que a fome exploda, preservar antes que a natureza cobre, julgar sem selecionar réus pela força de seus aliados.

A 81ª Assembleia será lembrada pelo instante em que a guerra falou sem baixar a voz no lugar dedicado à paz.

Diante dela, esta geração já perdeu o direito de alegar desconhecimento.

Conhecemos a capacidade de propagação de um vírus, o alcance da radiação, a velocidade do aquecimento e o custo acumulado de cada guerra. A ignorância já não oferece álibi. Se a política continuar negando essas evidências, o amanhã chegará com menos justiça, menos natureza e milhões de pessoas pagando por decisões que jamais puderam tomar.

O verso é o número 199 de Stray Birds, de Tagore. No original, a flor perde “sua gota de orvalho”, sem a palavra “última”.

Nesta madrugada, ao concluir este artigo, regressa uma lembrança de dezembro de 1986. Estava em Nova Délhi, a caminho do Templo de Lótus, em Bahapur, o motorista sikh que me conduzia recitou um verso de Rabindranath Tagore, grande poeta indiano e cidadão do mundo:

— “Perdi minha gota de orvalho”, clama a flor ao céu da manhã, que perdeu todas as suas estrelas.

Quarenta anos depois, compreendo melhor o que aquele homem enxergava no verso: as nações lamentam a gota que perderam, cercam seus jardins e se armam contra as flores vizinhas, enquanto o mesmo céu perde suas estrelas. Nenhuma gota de orvalho estará a salvo sob um céu destruído.

https://revistaforum.com.br/opiniao/a-guerra-tomou-a-tribuna-da-paz/

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