A inteligência artificial oferece máscara de especialista ao ignorante e autoria ao plagiador

Relatórios impecáveis escondem uma fraude intelectual crescente: profissionais recorrem à inteligência artificial para aparentar conhecimentos que jamais estudaram, testaram ou seriam capazes de sustentar sozinhos

Washington Araújo - 08/08/2026

Imagine uma cidade em que, durante a madrugada, todas as lojas recebam a mesma fachada de mármore. A pequena oficina, o hospital, o escritório de engenharia e a banca de jornal amanhecem com portas idênticas, placas elegantes e vitrines impecáveis. Quem atravessa a rua perde uma informação importante: a aparência já não ajuda a descobrir o que existe lá dentro. A inteligência artificial começa a produzir efeito semelhante sobre o conhecimento.

Boa parte da vida profissional ensinou a reconhecer sinais de competência. Um relatório bem estruturado exigia pesquisa, domínio da linguagem, capacidade de organizar argumentos e conhecimento do assunto. Uma apresentação sofisticada revelava horas de trabalho. Um parecer técnico carregava vocabulário adquirido em anos de formação. Esses sinais jamais ofereceram garantia absoluta, mas ajudavam a identificar preparação, experiência e domínio intelectual.

A inteligência artificial generativa alterou essa relação. Uma pessoa com conhecimentos elementares de economia consegue solicitar um relatório sobre juros, produtividade e inflação e receber, em segundos, páginas organizadas, conceitos, tabelas e recomendações. Alguém sem formação jurídica pode produzir um documento com aparência de parecer. Um estudante apresenta uma análise literária usando referências e vocabulário que seria incapaz de sustentar numa conversa de dez minutos. A distância visível entre o especialista e o principiante diminuiu.

A perda de legibilidade dos sinais de competência

O fenômeno merece atenção porque sociedades complexas dependem da confiança intelectual. Entramos num avião sem conhecer engenharia aeronáutica, tomamos medicamentos sem dominar farmacologia e atravessamos uma ponte sem calcular resistência de materiais. A divisão do conhecimento tornou possível confiar em profissionais cuja competência foi construída em universidades, laboratórios, redações, hospitais, escritórios e anos de experiência submetida ao julgamento de outros profissionais.

A IA introduziu uma mudança nessa arquitetura. Parte dos sinais externos associados à competência tornou-se acessível a qualquer pessoa com um telefone. Clareza textual, organização, vocabulário técnico, referências e acabamento gráfico podem surgir sem correspondência com o conhecimento de quem assina o trabalho. Produzir aparência intelectual tornou-se barato; adquirir conhecimento continua exigindo estudo, tempo, leitura, confronto com os fatos e disposição para reconhecer erros.

Tenho observado que a diferença aparece com nitidez quando termina a apresentação e começam as perguntas. Quem conhece um assunto consegue abandonar o roteiro, identificar uma premissa falsa, perceber uma ausência importante, estabelecer relações inesperadas e explicar por que determinada conclusão sedutora está errada. Quem recebeu da máquina um texto que mal compreende pode carregar vinte páginas impecáveis nas mãos e ficar sem resposta diante de três perguntas formuladas por alguém que conhece o tema.

Desde 2022, minhas provas de Jornalismo e Sociologia têm cinco questões discursivas, com trinta linhas cada. Foi a maneira que encontrei de separar trabalhos produzidos com IA do conhecimento adquirido por cada aluno.

O especialista muda de lugar

A transformação desloca o valor da experiência humana. O médico experiente conhece exceções que escapam ao padrão estatístico. O engenheiro percebe que uma variável tratada como secundária ameaça o projeto. O jornalista reconhece quando uma informação verdadeira foi colocada num contexto capaz de deformar seu sentido. O historiador sabe que duas fontes convincentes podem possuir pesos documentais muito diferentes. Essas capacidades foram construídas pela convivência com problemas reais.

Experiência inclui erros, decisões revistas, consequências acompanhadas e hipóteses abandonadas diante de evidências melhores. Uma máquina pode percorrer uma biblioteca em segundos; o profissional competente precisa decidir qual informação merece confiança naquele caso, quais perguntas ficaram sem resposta e quanto risco existe numa conclusão. O conhecimento começa a revelar seu verdadeiro valor quando precisa responder pela realidade.

A questão ética aparece quando alguém utiliza a máquina para aparentar uma competência que não possui. Recorrer à inteligência artificial como instrumento de pesquisa, comparação ou revisão pode ampliar o trabalho intelectual. Apresentar como domínio pessoal aquilo que não se consegue compreender, verificar ou defender introduz outro problema: a pessoa passa a reivindicar uma autoridade intelectual que não construiu.

Os falsos especialistas

As fake news abalaram a confiança na informação. Um fenômeno paralelo começa a atingir a confiança na autoria intelectual. São os fake experts, ou AI impostors: profissionais que apresentam como fruto de reflexão própria aquilo que receberam pronto de sistemas de inteligência artificial, sem verificação, curadoria ou apropriação crítica. A prática imita conhecimento genuíno e compromete a relação de confiança entre quem assina uma ideia e quem acredita estar diante do pensamento daquela pessoa.

Pesquisadores encontraram uma expressão ainda mais incômoda para parte do fenômeno. Em 2024, Thomas Hannigan, Peter McCarthy e André Spicer empregaram o termo botshit para examinar conteúdo produzido por inteligência artificial e utilizado sem o necessário exame crítico, numa referência deliberadamente provocadora ao conceito de bullshit. O termo descreve uma situação cada vez mais reconhecível: alguém recebe uma resposta plausível da máquina, deixa de testar sua consistência e a incorpora ao próprio trabalho como se tivesse percorrido o caminho intelectual necessário para chegar até ela.

A gravidade aparece no engano estabelecido entre autor e público. O leitor acredita receber uma síntese amadurecida por estudo e experiência, quando pode estar diante de uma combinação probabilística de padrões linguísticos que o próprio signatário seria incapaz de explicar, sustentar ou corrigir. Falta nesse percurso algo essencial à autoridade intelectual: saber por que determinada afirmação foi feita, quais evidências a sustentam e em que circunstâncias seria necessário abandoná-la.

Jornalismo, universidade e consultoria oferecem terreno sensível para essa discussão porque trabalham com confiança. Um parecer vale pelo conhecimento de quem o assina; uma análise jornalística depende da apuração que a sustenta; um trabalho acadêmico pressupõe domínio das fontes e do método. Se o profissional entrega como elaboração própria aquilo que não verificou nem compreende, oferece ao público uma autoridade intelectual que, naquele trabalho, deixou de exercer.

Costumo prefaciar três ou quatro livros por ano, porque ainda sigo uma regra antiga: só escrevo sobre uma obra depois de lê-la por inteiro. Se percebo que parte significativa do texto foi entregue à inteligência artificial, interrompo o trabalho e explico ao autor, com toda cortesia, que usar a máquina para pesquisar, conferir dados e fortalecer argumentos pertence ao processo de criação; entregar-lhe a escrita e assinar o resultado pertence ao terreno da falsa autoria.

A prova vem nas perguntas

Os processos de seleção profissional terão de incorporar essa mudança. Currículos, cartas de apresentação, relatórios e testes escritos perderam parte da capacidade de revelar habilidades. Uma entrevista que explore raciocínio, experiência, dúvidas e julgamento pode informar mais sobre um candidato do que vinte páginas impecavelmente redigidas. Importará conhecer o caminho percorrido até determinada conclusão, as fontes consultadas, as alternativas rejeitadas e as razões de cada escolha.

Vejo nesse deslocamento uma oportunidade para recuperar critérios que a cultura profissional algumas vezes negligenciou. Segurança verbal, terminologia sofisticada e documentos visualmente impressionantes adquiriram prestígio excessivo. A facilidade com que sistemas generativos reproduzem esses sinais obriga empresas, universidades e redações a procurar indicadores mais difíceis de imitar: capacidade de formular boas perguntas, reconhecer limites, confrontar evidências, corrigir uma conclusão e responder pelas consequências do próprio trabalho.

Credibilidade sob exame

A mudança alcança também o debate público. Uma análise financeira improvisada pode chegar revestida de terminologia profissional; uma explicação médica equivocada pode apresentar referências convincentes; um artigo sem pesquisa pode assumir aparência acadêmica. O acabamento perdeu parte de seu antigo valor como indício de competência. Cresce a importância de perguntas elementares que o brilho formal muitas vezes dispensava: quem afirma, de onde retirou os dados, quais fontes consultou, qual experiência possui e como responde por eventuais erros?

A inteligência artificial ampliou o acesso a instrumentos intelectuais que poucos anos atrás pertenciam a grupos especializados. Essa conquista terá consequências positivas para milhões de pessoas, desde que acesso à ferramenta não seja confundido com domínio do conhecimento. A diferença entre usar uma inteligência poderosa e possuir competência continua aparecendo no instante em que o texto termina e a realidade apresenta uma pergunta que não estava prevista.

Volto àquela rua onde todas as fachadas amanheceram cobertas de mármore. A tarefa mais importante começa depois do espanto inicial. Será preciso entrar em cada edifício, examinar suas fundações, conversar com quem trabalha ali e descobrir se existe conhecimento por trás da aparência. A inteligência artificial tornou a fachada acessível a quase todos. O valor do especialista será demonstrado no que encontrar quando alguém abrir a porta e começar a fazer perguntas.

https://www.brasil247.com/blog/a-inteligencia-artificial-oferece-mascara-de-especialista-ao-ignorante-e-autoria-ao-plagiador/

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