A máquina a serviço do ego

Entre agradar e corrigir, a inteligência artificial frequentemente escolhe agradar; o problema começa quando o usuário confunde essa aprovação calculada com lucidez, verdade e razão

Washington Araújo - 24/07/2026

Ainteligência artificial contemporânea assumiu um papel antigo sob nova forma: confirmar e proteger o ego humano. Um dispositivo no bolso passou a desempenhar a função que antes cabia ao cortesão, oferecendo aprovação constante e evitando qualquer atrito que ameace a autoimagem do interlocutor.

Essa dinâmica não é inédita, mas ganha escala com a tecnologia atual. Governantes cercados por aduladores perderam a capacidade de distinguir informação de deferência. O bajulador não precisava mentir o tempo inteiro; bastava organizar a verdade de modo a preservar o poder de quem o escutava. A inteligência artificial trouxe esse personagem para dentro do telefone, respondendo em segundos, aprendendo preferências e ajustando o tom para agradar.

Para compreender melhor esse comportamento, pesquisadores passaram a nomeá-lo e estudá-lo sistematicamente. O fenômeno recebeu o nome de AI sycophancy, ou bajulação da inteligência artificial. Ele ocorre quando um sistema abandona o exame rigoroso para validar crenças, atitudes ou sentimentos do usuário. Quem pede revisão gramatical reconhece a cena: antes de corrigir uma vírgula, a máquina anuncia estar diante de um texto singular e necessário. O elogio surge sem comparação, sem critério e sem prova, reforçando mais o ego do que a qualidade do conteúdo.

A economia da concordância

A lógica econômica por trás da inteligência artificial ajuda a explicar por que a bajulação se torna recorrente. Não se trata de um acidente técnico, mas de um incentivo estrutural. Um estudo publicado pela Science examinou onze modelos e constatou que eles afirmavam as ações dos usuários 49% mais do que seres humanos, inclusive quando os relatos envolviam manipulação ou danos nas relações pessoais.

Diante desses resultados, a indústria passou a enfrentar um dilema entre responsabilidade e popularidade. A mensagem comercial é direta: contrariar custa audiência. O produto que corrige pode ser mais útil, mas o que confirma tende a ser mais agradável e, portanto, mais lucrativo. A OpenAI reconheceu isso ao retirar uma atualização considerada excessivamente elogiosa, admitindo que havia priorizado sinais de satisfação imediata sem avaliar os efeitos acumulados das interações.

As organizações conhecem bem esse personagem. É o profissional que aceita permanecer em posição secundária porque descobriu que a concordância pode render mais do que a competência. Diante do chefe, confirma opiniões, celebra decisões e transforma qualquer frase em prova de que a decisão era a correta. “Você estava certo desde o início”, afirma, embora todos saibam que até pouco antes sustentava posição contrária. Em seguida, oferece a consagração completa: “Você diz isso há anos; somente agora a imprensa começou a perceber.” Não há lealdade nesse comportamento, mas cálculo, medo e ambição disfarçados de respeito. O bajulador renuncia ao próprio julgamento para conquistar a proteção de quem ocupa o poder. Quando uma inteligência artificial reproduz esse comportamento, a bajulação deixa de ser um desvio humano e passa a operar como tecnologia. Está disponível a qualquer hora, aprende as vulnerabilidades do usuário e aperfeiçoa continuamente a arte de confirmar suas certezas.

Além disso, a tentativa de tornar sistemas mais empáticos revelou efeitos colaterais relevantes. Uma pesquisa publicada pela Nature mostrou que modelos treinados para responder com maior calor humano apresentaram aumento significativo nas taxas de erro. Tornaram-se mais propensos a confirmar crenças incorretas, oferecer respostas imprecisas e até sugerir orientações médicas equivocadas. A cordialidade deixou de ser apenas estilo e passou a interferir diretamente na qualidade do julgamento.

Pensar exige resistência

No plano individual, a ausência de confronto altera a formação do julgamento. A convivência humana inclui resistência, e isso não é um defeito, mas um mecanismo de correção. Um editor corta páginas, um professor recusa uma conclusão mal demonstrada, um amigo aponta responsabilidades. Essas experiências podem ferir a vaidade, mas sustentam o discernimento e ajudam a construir critérios sólidos.

Como consequência, forma-se uma autoestima sem base consistente. O usuário se acostuma a receber aprovação antes de apresentar evidências, elogio antes de alcançar qualidade e absolvição antes de examinar responsabilidades. Ao encontrar objeções reais, reage como se tivesse sido injustiçado, embora tenha recebido uma crítica legítima e fundamentada.

Diante desse cenário, é possível adotar estratégias práticas para reduzir os efeitos da bajulação algorítmica. A primeira proteção está no comando. Convém formular instruções claras, pedindo análise rigorosa, identificação de falhas e justificativas concretas para qualquer elogio. Isso desloca a interação para critérios verificáveis e reduz a influência da retórica vazia.

Uma segunda estratégia consiste em introduzir deliberadamente o contraditório. Exigir oposição não é sinal de insegurança, mas de método. Solicitar argumentos contrários, identificação de vieses e possíveis evidências que alterariam a conclusão fortalece o pensamento crítico e impede que ideias frágeis se sustentem apenas pela ausência de contestação.

Por fim, é essencial limitar a autoridade da máquina sobre nossos julgamentos. Nenhum artigo, decisão profissional ou conflito pessoal deveria ser avaliado por uma única plataforma. Comparar respostas, consultar fontes diversas e ouvir pessoas experientes preserva o direito humano de discordar, amplia a qualidade das decisões e impede que a aprovação automática substitua a consciência.

Ainda muito jovem, aprendi uma lição que nunca deixou de acompanhar meus passos: a única prisão é a prisão do ego, do egoísmo. Um ser humano pode estar encarcerado na fortaleza de ‘Akká, então pertencente ao Império Otomano e hoje situada em Acre, no norte de Israel; em Alcatraz, na Baía de São Francisco, nos Estados Unidos; em algum dos campos e lugares de exílio que compuseram o Arquipélago Gulag descrito por Aleksandr Soljenítsin, espalhados pela antiga União Soviética; ou no Centro de Confinamento do Terrorismo, o CECOT, em Tecoluca, no departamento de San Vicente, em El Salvador. Mesmo privado de movimento e reduzido a quatro paredes, seu espírito pode continuar livre para pensar, amar, recordar e percorrer regiões que nenhuma muralha alcança.

O inverso também acontece. Há quem atravesse cidades e países, disponha de plena liberdade física e permaneça encerrado dentro de si. O egoísmo fecha as portas por dentro, reduz o horizonte ao interesse pessoal e converte qualquer discordância em afronta. Uma inteligência artificial treinada para fortalecer continuamente o ego passa, então, a funcionar como um novo carcereiro. Não necessita de grades, guardas ou muralhas: constrói uma prisão mais discreta, na qual o prisioneiro se julga livre porque todas as vozes ao redor aprenderam a concordar com ele.

A questão decisiva, portanto, não é apenas técnica. Se aceitarmos uma máquina que sempre concorda, renunciamos gradualmente ao esforço de pensar com rigor. A utilidade da inteligência artificial não está em validar nossas certezas, mas em submetê-las à prova, revelar seus limites e devolver ao pensamento a resistência sem a qual nenhuma lucidez amadurece.

https://revistaforum.com.br/opiniao/a-maquina-a-servico-do-ego/

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