A margem da história onde a esperança ainda vive

Há momentos em que a humanidade redescobre sua grandeza nas mãos que se procuram, nas consciências que despertam e na coragem de recomeçar

Washington Araújo - 26/10/2026

Existem três causas pelas quais eu entregaria, sem arrependimento, os anos que ainda me restam: a justiça, o amor e a liberdade. Penso nelas com a serenidade de quem já viveu bastante para compreender que uma existência pode atravessar décadas inteiras sem jamais experimentar a grandeza de servir a alguma coisa que ultrapasse seus próprios interesses.

Durante este último ano, acompanhei, como jornalista, acontecimentos que me fizeram revisitar antigas convicções sobre a natureza humana. Escrevi diariamente, concedi entrevistas, participei de debates e conversei com centenas de pessoas. Entretanto, o que permaneceu comigo foram certos encontros, determinados gestos, algumas palavras pronunciadas com a voz embargada por quem descobria, quase surpreso, que ainda possuía coragem para transformar a própria vida.

Vi pessoas idosas caminhando ao lado de jovens que poderiam ser seus netos. Imaginei quantas dores, despedidas e desilusões aquelas mãos enrugadas já haviam conhecido. E me comoveu perceber que, apesar de tudo, continuavam disponíveis para construir um mundo que provavelmente não chegariam a conhecer por inteiro. Existe uma generosidade extraordinária em plantar árvores sabendo que outros descansarão à sua sombra.

Sócrates compreendeu que uma vida sem exame interior perde sua dimensão mais preciosa. Marco Aurélio, mesmo cercado pelas inquietações de um império, procurava preservar a responsabilidade moral diante dos semelhantes. Kant reconheceu em cada pessoa uma dignidade que jamais deveria ser negociada. Bertrand Russell, atravessando guerras e perseguições, insistiu na liberdade de pensar e na coragem de amar a humanidade apesar de suas terríveis contradições.

Esses pensadores me acompanharam enquanto observava uma sociedade fatigada, dividida por ressentimentos, habituada a desconfiar até mesmo da bondade. Havia uma desesperança antiga procurando desaparecer e uma esperança impaciente batendo às portas. O extraordinário estava nas pessoas que, depois de tantos anos, começavam a abrir essas portas por dentro.

Compreendi também que a transformação humana raramente acontece sem sofrimento. Abandonar um preconceito significa, muitas vezes, contrariar a educação recebida, enfrentar amigos, rever certezas familiares e reconhecer que ferimos pessoas enquanto acreditávamos estar defendendo princípios. Essa dolorosa honestidade constitui uma das formas mais belas de amadurecimento.

Gosto de imaginar a história como um rio imenso, cujas margens oferecem destinos diferentes. Podemos permanecer onde estamos, contemplando a correnteza e justificando nossa imobilidade, ou entrar na água, mesmo cansados, mesmo assustados, para alcançar a margem onde a dignidade humana encontra abrigo.

Depois de tantas décadas observando o mundo, conhecendo suas crueldades e testemunhando suas grandezas, ainda encontro motivos para me emocionar com a extraordinária capacidade humana de recomeçar. E guardo uma convicção que gostaria de transmitir aos meus filhos e netos: enquanto alguém for capaz de sentir como sua a injustiça cometida contra um desconhecido, de defender a liberdade de quem pensa diferente e de oferecer amor sem esperar recompensa, a humanidade conservará aquilo que nenhuma violência conseguiu destruir inteiramente: a possibilidade de construir um futuro mais digno, mais generoso e profundamente humano.

P.S. — 25 de outubro, um dia que jamais será esquecido.

https://revistaforum.com.br/opiniao/a-margem-da-historia-onde-a-esperanca-ainda-vive/

Cultura

Explorando literatura, cinema e ética contemporânea.

Podcast

contato@palavrafilmada.com

+55 61 98373 3233

© 2025. All rights reserved.