A patente da insulina atravessa um século de avanços no combate ao diabetes
Banting, Best e Collip cederam por três dólares direitos sobre uma descoberta que transformou o diabetes e hoje sustenta uma indústria farmacêutica bilionária globalmente
Washington Araújo - 18/09/2026


O diabetes atinge cerca de 589 milhões de adultos entre 20 e 79 anos, um em cada nove nessa faixa etária, e a Federação Internacional de Diabetes projeta 853 milhões em 2050. A doença ocupa parcela crescente da agenda mundial de saúde e submete centenas de milhões de pessoas a tratamento contínuo, exames periódicos, mudanças alimentares e acompanhamento rigoroso da glicose.
A farmacologia desenvolveu metformina, sulfonilureias, inibidores de DPP-4 e SGLT2, agonistas de GLP-1, insulinas humanas e análogos de ação rápida ou prolongada. Bombas de infusão, sensores contínuos e canetas ampliaram muito a capacidade de controle. Para quem vive com diabetes tipo 1, a insulina permanece indispensável à sobrevivência; parte dos pacientes com tipo 2 também precisa dela.
Esses números me interessam por uma razão pessoal.
Em novembro de 2023, fui diagnosticado com diabetes tipo 2. Desde então, minha qualidade de vida diminuiu sensivelmente. Vieram restrições alimentares, mudanças na rotina e efeitos que percebo no próprio corpo, entre eles o cansaço. Uma enfermidade sobre a qual eu lia passou a ocupar espaço diário em minha vida.
Nos últimos três anos tenho procurado ler o máximo possível sobre diabetes, seus medicamentos, riscos, pesquisas e formas de controle. Esse esforço ampliou minha percepção sobre o alcance social da doença e sobre o valor de cada avanço científico. Desde então, Leonard Thompson deixou de ser apenas um personagem da história da medicina e passou a ocupar, para mim, um lugar mais próximo, ligado à experiência concreta da doença.
Um século exato
Há uma coincidência de datas que passou a me acompanhar. Em janeiro de 1923, Frederick Banting, Charles Best e James Collip transferiram à Universidade de Toronto os direitos sobre a patente relacionada à produção da insulina por um dólar cada. Em novembro de 2023, cem anos depois, recebi meu diagnóstico. Um século separa aqueles três dólares da receita médica que passou a integrar minha rotina.
A distância entre essas duas datas permite medir o percurso da medicina. O paciente de 1923 tinha diante de si recursos escassos. O de 2023 dispõe de exames sofisticados, várias classes de medicamentos, aparelhos de monitoramento e conhecimento muito maior dos mecanismos da doença. Ainda depende, porém, de renda, disponibilidade de remédios e políticas públicas capazes de garantir continuidade ao tratamento.
Foi depois do diagnóstico que passei a observar com maior atenção uma dessas políticas. O Programa Farmácia Popular do Brasil foi criado pelo governo federal em 2004 para ampliar o acesso da população a medicamentos essenciais. Em 2006, a modalidade Aqui Tem Farmácia Popular estendeu o programa às farmácias e drogarias privadas credenciadas e ampliou sua presença no cotidiano dos brasileiros.
A expansão daquele ano já contemplava princípios ativos destinados ao tratamento do diabetes e da hipertensão, inicialmente pelo sistema de subsídio e copagamento. A insulina regular foi incorporada ao elenco em 2010. Em fevereiro de 2011, com o Saúde Não Tem Preço, medicamentos destinados a diabetes e hipertensão passaram a ser dispensados gratuitamente aos usuários dentro das regras estabelecidas pelo programa.
A política continuou sendo ampliada. Desde 14 de fevereiro de 2025, todos os 41 medicamentos e insumos integrantes do elenco do Farmácia Popular passaram a ser oferecidos gratuitamente nas farmácias credenciadas. O programa atende diferentes condições de saúde, entre elas diabetes, hipertensão, asma, osteoporose, glaucoma, rinite e doença de Parkinson. O custo é assumido pelo poder público.
Para diabetes, o elenco contempla metformina em diferentes apresentações, glibenclamida e insulinas humanas NPH e regular. A dapagliflozina de 10 miligramas também integra o programa para pacientes enquadrados nos critérios definidos pelo Ministério da Saúde. São medicamentos de uso contínuo que podem ser retirados sem pagamento pelo paciente quando cumpridas as exigências previstas.
Dois nomes comerciais conhecidos aproximam essa política da vida diária: Glifage, uma das marcas de metformina, e Forxiga, marca da dapagliflozina. O programa trabalha com princípios ativos e apresentações cadastradas, portanto a gratuidade assegura o medicamento correspondente previsto no elenco, sem obrigar a farmácia a entregar determinada marca comercial.
O efeito sobre o orçamento é concreto. Uma caixa de Glifage XR 850 mg e outra de Forxiga 10 mg podem ultrapassar, juntas, R$ 180 no varejo, dependendo da farmácia e da apresentação. Mesmo genéricos de metformina e dapagliflozina podem representar mais de R$ 100 mensais. Para quem utiliza insulina, os gastos podem subir conforme a dose prescrita.
Ao retirar gratuitamente os medicamentos contemplados, um paciente pode economizar mais de R$ 100 ou R$ 180 por mês, segundo a combinação prescrita. Em doze meses, essa diferença pode ultrapassar R$ 2 mil. Quem precisa comprar medicamentos todos os meses conhece o peso dessa conta. Uma caixa termina; outra precisa estar disponível antes que o tratamento seja interrompido.
Toronto, 1922
Para compreender como chegamos até aqui, volto a 11 de janeiro de 1922. No Toronto General Hospital, Leonard Thompson, de 14 anos, pesando cerca de 29 quilos, recebeu uma injeção produzida com extrato pancreático. Estava gravemente enfermo e submetido a uma dieta de extrema restrição calórica, uma das poucas estratégias disponíveis para prolongar a vida de crianças com diabetes tipo 1.
A primeira aplicação apresentou resultado limitado. O preparado de Banting e Best continha impurezas e provocou reação. James Collip, bioquímico ligado à equipe de John Macleod, aperfeiçoou a purificação do extrato. Em 23 de janeiro, Leonard recebeu outra dose. A glicose caiu fortemente, as cetonas desapareceram e os médicos perceberam que o curso daquela doença poderia ser modificado.
A medicina de 1922 reunia conquistas relevantes e limitações severas. Cirurgias já recorriam à anestesia, hospitais aplicavam princípios de assepsia e os raios X haviam ampliado a capacidade diagnóstica. Alexander Fleming observaria a ação da penicilina somente em 1928, e os antibióticos chegariam ao uso amplo anos depois. Pneumonias, septicemias e infecções pós-operatórias ainda levavam inúmeras vidas.
O diabetes tipo 1 impunha um desafio particularmente duro. Médicos conheciam a relação entre o pâncreas e o metabolismo da glicose, mas ainda careciam de uma forma de substituir a substância que o organismo deixava de produzir. Frederick Allen e Elliott Joslin recorriam a dietas extremamente restritivas. Algumas crianças recebiam poucas centenas de calorias durante determinados períodos.
A fome prescrita
Sempre retorno a essa imagem porque ela expõe a dimensão humana daquele tempo. A criança precisava comer para recuperar forças, enquanto seu organismo era incapaz de utilizar adequadamente a glicose. Reduzir a alimentação podia prolongar algum tempo de vida, ao preço de um emagrecimento brutal. Médicos administravam os recursos disponíveis enquanto procuravam a substância capaz de alterar esse destino.
A chegada da insulina permitiu agir diretamente sobre o mecanismo central da doença. Pacientes que definhavam começaram a recuperar peso e condições de viver. Famílias que acompanhavam a deterioração de seus filhos passaram a contar com uma possibilidade sustentada por resultado clínico. O que acontecera com Leonard em Toronto abriria caminho para uma transformação profunda no tratamento do diabetes.
A descoberta resultou de quatro contribuições decisivas. Banting levou sua hipótese a Macleod, professor da Universidade de Toronto. Macleod forneceu laboratório, animais, equipamentos e orientação científica. Best trabalhou diretamente nos experimentos. Collip tornou o extrato suficientemente puro para uso clínico. Rivalidades acompanharam o processo, mas a soma dessas competências abriu uma das grandes frentes terapêuticas do século XX.
Quatro homens
O Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1923 foi concedido apenas a Banting e Macleod. Banting dividiu sua parte financeira com Best; Macleod repartiu a sua com Collip. A distribuição do dinheiro reconheceu, de maneira informal, aquilo que a premiação oficial havia deixado incompleto: quatro pesquisadores tiveram papel fundamental na chegada da insulina aos pacientes.
Tenho pouca simpatia pelas biografias que transformam descobertas científicas em atos solitários de inspiração. Laboratórios avançam por hipóteses testadas, erros corrigidos, instrumentos, discussões, inteligência compartilhada e persistência.
A história da insulina também expõe as disputas humanas que acompanham grandes realizações: autoria, reconhecimento, ressentimentos e a luta pelo lugar que cada personagem ocupará depois.
O passo seguinte ampliou o significado daquele trabalho. Banting, Best e Collip transferiram os direitos da patente à Universidade de Toronto por três dólares no total. A instituição passou a administrar licenças e padrões de fabricação. Os pesquisadores abriram mão da exploração pessoal exclusiva no momento em que a procura pela insulina começava a crescer rapidamente em vários países.
Três dólares
Convém preservar a precisão desse episódio. Houve patentes, licenças, fabricantes e royalties. Produzir em grande escala exigia instalações, controle de qualidade, pesquisa e distribuição. O aspecto decisivo daquela escolha está no fato de os pesquisadores terem afastado de si a exploração exclusiva de um medicamento procurado por famílias para as quais cada frasco representava mais tempo de vida.
Cem anos depois, a questão econômica continua diante de nós. A ciência desenvolveu engenharia genética, novas formulações, dispositivos digitais e métodos muito mais precisos de administração.
A Organização Mundial da Saúde mantém como meta para 2030 que todas as pessoas com diabetes tipo 1 tenham acesso a insulina a preço acessível e aos meios necessários para acompanhar sua glicose.
Essa meta revela o tamanho do desafio ainda existente. A humanidade aprendeu a fabricar insulina em escala, aperfeiçoou sua composição e criou sistemas capazes de acompanhar continuamente a glicemia. Preço e disponibilidade, entretanto, continuam determinando a qualidade do tratamento em muitos países. Conhecimento científico e capacidade de produção avançaram mais depressa do que a distribuição justa de seus benefícios.
É nesse ponto que o Farmácia Popular assume significado maior. Criado em 2004, ampliado em 2006, transformado pela gratuidade para diabetes e hipertensão em 2011 e estendido a todo o seu elenco em 2025, o programa acumulou duas décadas de experiência em torno de uma decisão concreta: reduzir a distância entre a prescrição médica e o medicamento disponível na mão do paciente.
Leonard permanece
Leonard Thompson viveu mais treze anos depois das primeiras aplicações e morreu em 1935, aos 27 anos, vítima de broncopneumonia associada a complicações do diabetes. Treze anos parecem pouco diante dos tratamentos atuais. Para aquele adolescente de 1922, significaram atravessar a juventude e alcançar a vida adulta quando seu organismo já se aproximava de um limite que a medicina ainda não sabia superar.
Volto a Leonard porque hoje leio sua história também a partir da rotina de quem examina resultados laboratoriais, controla a alimentação e toma medicamentos todos os dias. Um século separa sua seringa experimental dos comprimidos que milhões de brasileiros retiram gratuitamente numa farmácia credenciada. Nesse intervalo, a medicina alterou profundamente o destino de quem recebe o diagnóstico.
A patente transferida por três dólares deixou uma pergunta que atravessou o século. Em 1922, Leonard Thompson estava morrendo porque a insulina ainda começava a chegar aos pacientes. Cem anos depois, conhecemos a doença, dispomos de medicamentos eficazes e temos políticas públicas capazes de colocá-los nas mãos de quem precisa.
Se uma pessoa interrompe hoje o tratamento porque não consegue pagar por seus remédios, o fracasso já não pertence à ciência. Pertence às escolhas de uma sociedade que dispõe dos meios para preservar aquela vida e, ainda assim, pode deixá-la sem o cuidado necessário.
