A paz sitiada
O século XXI aperfeiçoou a precisão das armas, mas continua incapaz de garantir que avanço tecnológico venha acompanhado também de igual maturidade política e humana.
Washington Araújo - 08/09/2026


Theodor Kallifatides tem 88 anos e anda repetindo uma advertência que deveria provocar mais inquietação do que as declarações costumeiras de generais e chefes de governo: em toda a sua vida, jamais presenciou tamanho movimento de preparação para a guerra. O peso dessa frase vem do tempo vivido. Kallifatides nasceu numa Europa que ainda carregava as feridas da primeira guerra e logo mergulharia na segunda. Agora vê o continente voltar a falar, com crescente naturalidade, em arsenais, recrutamento, munições, abrigos, dissuasão nuclear e conflitos prolongados.
Interessa-me especialmente o que ocorre antes de qualquer exército atravessar uma fronteira. Uma guerra precisa tornar-se pensável. Aos poucos, ganha palavras, argumentos, especialistas, orçamento e justificativas. Depois se instala no cotidiano. Governantes elevam o tom, militares reaparecem como personagens centrais do debate público e expressões antes reservadas aos quartéis passam a circular à mesa do jantar. Nesse percurso silencioso, uma sociedade pode começar a aceitar aquilo que, poucos anos antes, lhe pareceria absurdo.
Theodor Kallifatides nasceu na Grécia em 1938 e chegou à Suécia em 1964, trazendo consigo lembranças de uma infância atravessada pela ocupação alemã e pela guerra civil. Estudou Filosofia na Universidade de Estocolmo, onde também ensinou, e dirigiu uma revista literária. Sua obra cresceu justamente nesse atrito entre língua, deslocamento, memória, pertencimento e violência política do continente europeu.
Publicou mais de quarenta livros entre romances, ensaios, poesia e teatro, sempre voltando à experiência humana diante da perda, do exílio e da identidade. Uma frase sua permanece comigo: “abandonar a língua é abandonar a alma”. Leio nela uma advertência maior: povos também se desfiguram quando aceitam palavras que tornam a destruição administrável, aceitável e, depois, rotineira demais.
Essa reflexão ajuda a compreender o que está acontecendo diante de nós. Hiroshima e Nagasaki permaneceram durante décadas como nomes capazes de interromper uma conversa sobre guerra nuclear. Havia ali um limite psicológico. Hoje esse limite parece menos firme. Fala-se em armas nucleares “táticas”, respostas “proporcionais” e emprego “limitado”. O vocabulário técnico empresta asseio àquilo que continua sendo devastação humana.
Vítimas invisíveis
Vejo outro perigo na forma como acompanhamos as guerras atuais. Drones transmitem ataques quase em tempo real. Câmeras mostram a trajetória de mísseis. Mapas coloridos transformam ofensivas em movimentos geométricos. Assistimos a uma explosão com definição extraordinária e raramente conhecemos o nome de quem estava dentro do prédio. A tecnologia melhorou nossa visão do ataque e, paradoxalmente, pode empobrecer nossa percepção de suas vítimas.
A essa distância visual soma-se uma antiga operação política: retirar humanidade do adversário. Pessoas viram números, grupos, alvos, baixas previstas. Suas histórias desaparecem antes de seus corpos. É muito mais fácil consentir com uma morte depois que o morto perdeu nome, família, profissão, infância. A guerra encontra terreno fértil sempre que a imaginação deixa de alcançar a vida do outro.
Kallifatides desconfia da capacidade humana de aprender com suas tragédias. Prefiro pensar que nossa dificuldade maior está em conservar o aprendizado. Enquanto sobreviventes permanecem entre nós, a lembrança possui voz, rosto e hesitação. Depois vêm os monumentos, os aniversários oficiais, os capítulos dos livros escolares. A memória permanece documentada, mas sua temperatura baixa. E antigas tentações encontram espaço para regressar vestidas com palavras novas.
O testemunho de uma geração
Daí minha resistência à velocidade com que o militarismo recupera respeitabilidade intelectual. Preparar a defesa de um país pode ser necessário; transformar a guerra em horizonte permanente produz outra sociedade. Recursos, talentos, universidades, indústrias e imaginação política começam a organizar-se em torno da possibilidade de matar e sobreviver. Chega um momento em que a preparação passa a alimentar a própria ameaça que pretendia conter.
Escuto Kallifatides como quem recebe o testemunho de uma geração que viu cidades destruídas e milhões de mortos se transformarem em estatísticas. A paz está sitiada muito antes do primeiro bombardeio. Ela perde espaço quando a violência adquire linguagem elegante, o medo se converte em instrumento político e a sociedade já consegue discutir uma próxima guerra sem sentir o peso da anterior. O sinal mais perigoso talvez seja justamente esse: começarmos a achar normal conversar sobre o fim do mundo.
