A política da insônia

O noticiário invadiu o quarto, prolongou o medo até a madrugada. Nunca tantas crises chegaram tão depressa ao travesseiro, transformando medo internacional, escândalos políticos e insegurança econômica em companheiros permanentes da madrugada

Washington Araújo - 14/09/2026

São 1h23. O quarto está escuro, mas um rosto iluminado fala dentro do celular. Anuncia uma fraude, prevê o fim do país e promete documentos devastadores para a manhã. Quem assiste teme perder algo decisivo se dormir.

A política brasileira encontrou o caminho do travesseiro. Já ocupava as ruas, os almoços de família e os grupos de mensagens. Agora permanece acesa ao lado da cama. O país grita a poucos centímetros do rosto.

Tenho percebido como se tornou difícil encerrar o dia. Sempre existe uma última notícia, seguida por outra supostamente mais grave. O sono fica para depois, enquanto a madrugada vira extensão clandestina do horário eleitoral.

No Brasil, a noite traz uma pergunta explosiva: o celular de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro preso e antigo controlador do Banco Master, revelará novas relações suspeitas com André Mendonça, ministro do STF e relator do inquérito sobre Dark Horse? A Polícia Federal afirma que enviou uma cópia por solicitação formal do gabinete do ministro. Também investiga o destino dos US$ 12,3 milhões remetidos ao Havengate sob a justificativa de financiar o filme sobre Jair Bolsonaro, inclusive a possível destinação de recursos às despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, ataques ligados à guerra contra o Irã atingiram navios no Estreito de Ormuz e elevaram o petróleo Brent a US$ 107,51. O americano deita sabendo que a explosão vista no telefone chegará depois ao posto de combustível, ao supermercado e ao orçamento familiar.

Na França, Marine Le Pen, líder da extrema direita e candidata à Presidência em 2027, abriu a campanha defendendo prioridade aos franceses em moradias, benefícios e empregos públicos. Avança num país cuja dívida ultrapassou € 3,5 trilhões e aprofunda a divisão entre nacionalismo e democracia plural.

No Reino Unido, os bilionários das criptomoedas Ben Delo e Christopher Harborne entregaram £ 72 milhões ao Reform UK, liderado por Nigel Farage. A cifra recorde e a investigação policial sobre possíveis violações anteriores das regras de financiamento reacenderam o medo de uma democracia comprada por fortunas privadas.

Durante muito tempo, o noticiário possuía limites físicos. O jornal terminava na última página, o rádio silenciava e a televisão encerrava a programação. Mesmo as crises concediam algumas horas de trégua. Ninguém levava um comício inteiro para debaixo do lençol.

O telefone destruiu essa fronteira. Sua luz interfere no sono, mas a carga emocional pesa ainda mais. Medo e fúria prolongam a vigília. O algoritmo desconhece democracia; precisa apenas descobrir qual aflição mantém o dedo em movimento e os olhos abertos.

Pesquisas eleitorais registram preferências e rejeições. Gostaria de conhecer outro dado: quantos brasileiros chegarão às urnas esgotados? A exaustão reduz a paciência para argumentos, apaga nuances e transforma qualquer explicação mais longa em obstáculo.

O eleitor cansado deseja que alguém encerre a discussão. Procura uma frase definitiva, um culpado visível e uma saída rápida. Nesse terreno, o autoritarismo apresenta-se como descanso e prospera entre pessoas sem energia para pensar um país complexo.

Vejo um perigo ainda ausente do debate eleitoral. A democracia exige atenção, comparação e dúvida. Estamos produzindo cidadãos fisicamente despertos durante a noite e mentalmente exauridos durante o dia. Campanhas, influenciadores e plataformas lucram com a vigília; a urna recebe o cansaço.

Tenho procurado estabelecer uma fronteira: depois de certa hora, nenhuma notícia política merece entrar no quarto. Um fato realmente decisivo continuará existindo pela manhã. Se desaparecer antes disso, serviu somente para alimentar quem converte ansiedade em audiência e poder.

A vida espiritual ajuda a ordenar o que nos atravessa. Ensina a libertar o coração das imagens inúteis e aceitar que ninguém possui forças para vigiar o mundo inteiro. Sanidade também nasce do reconhecimento de nossos limites.

Meditação, gratidão e serviço reorganizam a escala de valores. A denúncia da noite perde o tamanho artificial adquirido na tela; família, saúde, justiça e cuidado recuperam sua dimensão. A esperança madura vê o sofrimento e trabalha para que ele deixe de comandar o futuro.

Recuso-me a conceder à turbulência externa o governo da minha vida interior. Nenhuma democracia sobrevive por muito tempo apoiada em cidadãos exaustos e amedrontados. A política que invade o quarto prepara a obediência antes de pedir o voto. Apagar a tela tornou-se defesa pessoal. Dormir, neste mundo febril, é retirar o sistema nervoso das mãos de quem lucra com o medo.

https://www.brasil247.com/blog/a-politica-da-insonia/#goog_rewarded

Cultura

Explorando literatura, cinema e ética contemporânea.

Podcast

contato@palavrafilmada.com

+55 61 98373 3233

© 2025. All rights reserved.