A pressa da máquina, a lentidão do mundo

Em Genebra, a ONU abre um diálogo global sobre inteligência artificial já sabendo que chega atrasada

Washington Araújo - 10/07/2026

Há uma cena que se repete na história das grandes transformações: a técnica avança em linha reta enquanto as instituições avançam em círculos. Foi assim com a imprensa, com a energia nuclear, com a internet. É assim, agora, com a inteligência artificial. No dia 6 de julho de 2026, começou em Genebra o Diálogo Mundial da ONU sobre Governança da Inteligência Artificial. O gesto é louvável. O calendário, cruel. A máquina que se pretende governar já roda em velocidade que nenhuma diplomacia acompanha.

O painel científico das Nações Unidas partiu de uma constatação de rara honestidade: a inteligência artificial não carrega, em si, virtude ou vício, e seu destino dependerá das decisões que governos, empresas e sociedades tomarem hoje. Reconforta e assusta na mesma frase. Reconforta porque devolve ao humano a autoria do próprio futuro. Assusta porque essa autoria está distribuída de forma desigual — e a desigualdade é, aqui, o coração do problema.

Hegemonia

Os números expõem a assimetria sem cerimônia. Os Estados Unidos concentram cerca de 75% da capacidade computacional das principais supercomputadoras de IA do planeta; a China, aproximadamente 15%. Juntos, os dois países detêm perto de 90% de todo esse poder de processamento. O desequilíbrio se repete no dinheiro e no concreto: dos quase 11.800 data centers em operação no mundo, mais de 5.400 estão em solo americano, contra 449 na China, e os Estados Unidos abocanham cerca de 45% do investimento global em infraestrutura de IA. O restante do mundo — o Brasil incluído — observa da arquibancada, consumidor de sistemas que não projeta, não audita e não adapta às próprias circunstâncias.

E essa infraestrutura cobra um preço físico brutal. O consumo mundial de eletricidade dos data centers deve subir 26% em 2026, alcançando 565 terawatts-hora, rumo a mais de 1.200 até 2030 — patamar comparável ao gasto elétrico de países inteiros. A sede acompanha a fome: essas instalações já bebem cerca de 560 bilhões de litros de água por ano, cifra que pode dobrar até o fim da década. Quem controla os data centers controla energia, água e o poder de nomear o mundo.

Dependência

Essa concentração tem nome antigo: dependência. E a história latino-americana conhece bem o roteiro. Vendemos matéria-prima, importamos tecnologia, aceitamos regras escritas alhures. A IA arrisca reproduzir, em código, a velha divisão internacional do trabalho. Só que agora a matéria-prima é o próprio dado que produzimos, extraído de cada gesto nosso na rede.

Os diplomatas reunidos em Genebra enfrentam o que os especialistas chamam de dilema da evidência. Para regular com prudência, um governo precisa de dados confiáveis sobre os efeitos da tecnologia. Quando esses dados finalmente amadurecem, a tecnologia já mudou de forma, e a norma nasce obsoleta. Existem hoje mais de quarenta arcabouços éticos espalhados pelo globo, todos fragmentados, nenhum capaz de falar em nome da humanidade inteira.

A nova gramática

Aqui está o ponto que me interessa. A pergunta central é civilizatória antes de técnica. Estamos diante de uma ferramenta que já mapeou a estrutura de mais de 200 milhões de proteínas com precisão superior a 90%, acelerando tratamentos oncológicos e vacinas — e que, ao mesmo tempo, ameaça aprofundar abismos entre quem programa e quem é programado. A ONU, com toda a sua lentidão, faz o gesto que lhe cabe: convocar a conversa. Sem ela, o vácuo será ocupado por quem já detém o poder — e o poder, quando não encontra freio, tende à arrogância.

O Sul Global precisa entender que soberania, no século XXI, se escreve também em linguagem de máquina. O mercado global de IA deve superar 900 bilhões de dólares ainda este ano e movimentar 4,8 trilhões até 2033. Diante desse oceano, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê apenas 23 bilhões de reais até 2028 — e o país abriga cerca de 200 data centers, nenhum concebido para IA. Não haverá dignidade possível para nações que terceirizem por completo a inteligência que orientará suas decisões.

O medo antigo era o da máquina que se revolta. A rebelião verdadeira é mais silenciosa: a da máquina que obedece — a alguém que não somos nós. Enquanto Genebra rascunha as primeiras linhas, dois países já escrevem a gramática com que o século inteiro será obrigado a pensar. O resto do mundo ainda procura o dicionário. E, no ritmo desta carruagem que se descobre trem-bala, quando enfim o encontrarmos o idioma já será outro.

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