A rolagem infinita da ansiedade e da angústia

O algoritmo tomou o lugar das redações, passou a escolher o que pensamos e nos serve, sob medida, o veneno que ninguém pediu

Washington Araújo - 30/09/2026

Brasília chega a esta quarta-feira, 30 de setembro, a quatro dias do primeiro turno, com os celulares em brasa. Cortes de debate, vídeos fabricados por inteligência artificial e correntes de indignação disputam cada segundo do eleitor. A pergunta decisiva da campanha raramente aparece nos debates: quem, afinal, escolhe o que pensamos antes de escolhermos em quem votar?

A resposta passa por uma liberdade que costuma se esconder atrás de outra. Celebramos a liberdade de imprensa em discursos e esquecemos que, por trás dela, sempre prosperou uma liberdade maior, a de empresa. O que mudou nas últimas décadas foi o endereço desse poder.

Ele saiu das redações e se instalou nos servidores de meia dúzia de plataformas globais que decidem, por fórmulas secretas, o que milhões de pessoas verão ao abrir os olhos pela manhã. Nenhum dono de jornal, em qualquer época, sonhou com tamanho alcance.

Os números confirmam a mudança. O Digital News Report 2026, do Instituto Reuters, registrou pela primeira vez que redes sociais e plataformas de vídeo superaram os sites e aplicativos dos próprios veículos como porta de entrada para as notícias: 54% contra 51%. No Brasil, a confiança no noticiário caiu ao nível mais baixo em doze anos.

A gramática da raiva

Quando o poder muda de mãos, muda também a gramática. As redações, com todos os seus vícios, ainda respondiam a critérios de relevância, apuração e interesse público. O algoritmo responde a um único critério: manter o usuário na tela. E nada prende tanto quanto a raiva, o medo e o escândalo.

Por isso a Idade Mídia em que vivemos guarda traços tão nítidos da Idade Média. A intolerância com o pensamento divergente voltou a ser moeda corrente, agora recompensada em curtidas e compartilhamentos. Todos conquistaram o direito de falar. Poucos alcançam o estágio seguinte, o direito de ser ouvido.

Essa gramática mede tudo pelo alcance, e quem mede tudo pelo tamanho acaba confundindo o anão com a criança, iguais na altura e distantes em todo o resto. Uma verdade complexa, que exige tempo para ser compreendida, perde para uma mentira simples que cabe em quinze segundos.

As consequências recaem primeiro sobre quem já tinha pouca voz. Os movimentos sociais, oxigênio de qualquer sociedade que pretenda evoluir, passam a depender de engajamento para existir. As minorias que a exclusão fabrica sem parar erguem suas barricadas em telas de seis polegadas e ali disputam espaço com dancinhas, apostas e promessas de enriquecimento rápido.

Do ter ao parecer

O motor dessa engrenagem tem nome: a economia da atenção. Nosso tempo diante da tela é o produto vendido aos anunciantes, e para vendê-lo melhor as plataformas precisam nos transformar em consumidores permanentemente insatisfeitos, sempre à espera do próximo estímulo, da próxima compra, da próxima notificação.

Você é o que possui, e agora também o que exibe. O ser foi nocauteado pelo ter, e o ter acaba de ceder lugar ao parecer. A vida vira vitrine, a vitrine exige renovação diária, e quem deixa de se expor corre o risco de simplesmente desaparecer.

O preço dessa troca é a autonomia. Somos guiados pelo aplicativo de mapas, escolhidos pela loja virtual, recomendados pelo algoritmo que decide o próximo vídeo. Nossa tragédia consiste em nos transformarmos em ferramentas de nossas ferramentas. Antes do primeiro passo, cada criança já carrega uma etiqueta invisível, um perfil de dados à venda.

E o que se perde no indivíduo se perde também na vida comum. As cidades nasceram para responder a um desejo humano elementar, o de estar com os outros, trocar ideias na praça, reconhecer o vizinho, celebrar e sofrer em companhia.

As de hoje são imensos estacionamentos atravessados por motoqueiros de entrega, e nós, carregando no lado esquerdo do peito duas ou três utopias que ainda fazem a vida valer a pena, arrastamos solidões diante de telas acesas até de madrugada. O círculo se fecha: quanto mais sós, mais conectados; quanto mais conectados, mais sós.

A violência como rotina

Nesse ambiente, o anônimo ganha visibilidade quando um vídeo seu viraliza, quase sempre para ser ridicularizado, cancelado ou linchado em praça digital. Milhões vivem como se estivessem numa única e interminável pegadinha. Estamos roucos, e roucos de tanto ouvir. Pode faltar o almoço, e jamais falta a dose diária de violência servida pelo feed.

A repetição anestesia, e a anestesia contamina a própria linguagem. As palavras andam embriagadas. Guerras que custam milhares de vidas recebem nomes como operação especial ou missão humanitária, e quase ninguém estranha. O eufemismo virou a língua oficial dos conflitos armados.

Segundo o Instituto de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, Estados Unidos, França, Rússia, Alemanha e China responderam por 70% das exportações globais de armas entre 2021 e 2025. Quatro deles ocupam assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Quem aceita chamar guerra de paz aceita também que os guardiões da paz administrem o negócio da guerra.

O preço na alma

Todo esse processo deixa marcas no psiquismo, e é aí que ele revela sua face mais cruel. Freud observou que a angústia se distingue do medo por sua indeterminação: o medo tem objeto definido, a angústia paira sem ele. O feed produz exatamente isso, uma ameaça difusa que nunca se nomeia e nunca termina.

Kierkegaard chamou a angústia de vertigem da liberdade. Nossa vertigem carrega uma ironia a mais: diante de possibilidades infinitas, entregamos a escolha a uma máquina, e ela escolhe sempre aquilo que nos mantém inquietos, porque a inquietação rende mais atenção, e a atenção rende mais lucro.

Os números acompanham a clínica. O psicólogo Jonathan Haidt, em A geração ansiosa, mostrou como a infância trocada pelo celular coincidiu com uma explosão de ansiedade e depressão entre adolescentes. A Organização Mundial da Saúde já apontava o Brasil como o país com a maior proporção de pessoas vivendo com transtornos de ansiedade.

Vejo todos os dias o que essas estatísticas escondem: gente exausta de um mundo que nunca desliga, jovens que medem o próprio valor pelo número de visualizações, adultos que acordam de madrugada para conferir se algo terrível aconteceu enquanto dormiam.

Por isso a saída passa pela cidadania. Ela chegará às minorias quando tiverem voz ativa nos meios de comunicação, e isso significa enfrentar o poder das plataformas, cobrar transparência dos algoritmos e regular um mercado de atenção que opera sem freios.

O Brasil deu um passo em março, quando entrou em vigor a lei que protege crianças e adolescentes no ambiente digital. O caminho é longo, e sem interlocução real entre a sociedade e esse novo poder continuaremos enxugando gelo.

No domingo, cada eleitor levará à urna aquilo que o feed lhe serviu durante meses. Antes de votar, vale desligar o telefone por uma hora e fazer a si mesmo duas perguntas: quem escolheu os pensamentos que carrego? A quem interessa que eu pense assim?

Os historiadores que um dia se debruçarem sobre nosso tempo encontrarão a causa mortis de nossa civilização. As massas da humanidade comeram e beberam, por tempo demais, doses maciças de ansiedade e angústia, entregues em domicílio, sob medida, com notificação sonora e sem hora para acabar.

https://revistaforum.com.br/opiniao/a-rolagem-infinita-da-ansiedade-e-da-angustia/

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