A soma das decisões perigosas
Retórica de segurança nacional encobre o essencial: normalizamos escaladas militares que atravessam fronteiras, alianças e continentes
Washington Araújo - 09/05/2026


Uma guerra mundial pode começar sem que ninguém a queira. Escrevo isso sem metáfora gratuita e sem gosto pelo alarmismo. Escrevo porque, ao observar os movimentos do sistema internacional nestes dias tensos de março, com a nova guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, percebo que o perigo real não está na vontade explícita de destruir, mas na sucessão de decisões calculadas que, somadas, empurram o mundo para um ponto de não retorno.
O abismo raramente se anuncia como abismo; ele se disfarça de racionalidade estratégica.
Tenho estudado conflitos há décadas, acompanho discursos oficiais, relatórios estratégicos, declarações inflamadas e notas diplomáticas cuidadosamente redigidas.
Em quase nenhuma delas encontro a confissão explícita de um desejo de catástrofe global. O que encontro é outra coisa: convicções rígidas, certezas morais absolutas, líderes persuadidos de que estão apenas “respondendo”, sociedades convencidas de que ainda controlam o ritmo da escalada.
Cada gesto é apresentado como reação, nunca como passo inaugural de algo maior.
A guerra raramente nasce de um plano transparente.
Ela se forma como uma rachadura microscópica em uma barragem. No início, parece irrelevante. Um incidente fronteiriço, uma sanção adicional, um exercício militar “preventivo”, uma retórica que sobe um tom. Nada disso, isoladamente, parece suficiente para romper o concreto da estabilidade. Mas a água continua pressionando.
A fissura se amplia. Quando o dique cede, ninguém consegue apontar o minuto exato em que a tragédia se tornou inevitável.
Penso inevitavelmente em Mariana, Minas Gerais. Em 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão rompeu-se às 16h20 e liberou cerca de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos. Dezenove pessoas morreram, mais de 600 ficaram desalojadas, mais de 1 milhão foram atingidas ao longo de 850 quilômetros até o Atlântico. Relatórios prévios indicavam falhas, sensores apontavam instabilidade, comunidades alertavam. A produção seguiu. A pressão aumentou. A lama desceu.
Ninguém queria aquela devastação, mas muitos contribuíram para o colapso ao ignorar sinais claros de risco.
Essa é a metáfora que me parece mais fiel ao nosso tempo: não vivemos à beira de um botão vermelho prestes a ser pressionado por um louco isolado. Vivemos diante de uma barragem submetida a pressões cumulativas, onde cada ator acredita estar apenas reforçando sua própria segurança, enquanto aumenta a tensão estrutural do conjunto.
O discurso da prevenção pode, paradoxalmente, acelerar a ruptura.
Aprendi que conflitos não desaparecem por cansaço. Eles se deslocam, mudam de forma, aguardam circunstâncias favoráveis.
Uma guerra mal resolvida não termina; ela hiberna. O ressentimento coletivo se transforma em narrativa identitária. A memória da humilhação converte-se em combustível político. Quando as condições externas se alinham, o que parecia superado retorna com intensidade redobrada.
Vejo também outro elemento inquietante: a ilusão de racionalidade. Aqui mora, se alimenta, dorme e acorda o perigo.
Cada passo da escalada costuma ser justificado como necessário, proporcional, defensivo. Nenhum governo declara que está “perdendo o controle”. Ao contrário, todos afirmam agir com prudência e responsabilidade.
No entanto, a soma dessas decisões prudentes pode produzir um resultado imprudente. A história está repleta de líderes que acreditavam estar administrando crises e acabaram inaugurando guerras que atravessaram gerações.
Não ignoro o papel das armas nucleares, que continuam como sombra permanente sobre a humanidade. Mas o risco contemporâneo vai além delas. Ele reside na fragmentação do sistema internacional, no enfraquecimento progressivo dos mecanismos de mediação e na normalização do confronto como linguagem política.
Quando canais diplomáticos se estreitam, cresce o ruído — e o ruído, em geopolítica, costuma significar erro de cálculo.
Costumo dizer aos meus alunos que a guerra não começa no campo de batalha.
Começa na linguagem.
Começa quando a outra parte deixa de ser adversária e passa a ser ameaça absoluta.
Começa quando a política abdica da escuta e se entrega à performance.
O maior risco do nosso tempo não é desejar a guerra. É permitir que a pressão continue aumentando enquanto repetimos, com segurança ensaiada, que tudo está sob controle.
Foi assim em Mariana. Pode ser assim no mundo.
Quando a barragem rompe, já não importa quem dizia agir com prudência; importa apenas que o fluxo destrutivo não distingue intenções.
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