A sombra conhece as páginas que arrancamos
Dentro de cada pessoa existe uma mina ainda inexplorada; Goethe, Thomas Mann e Jung ajudam a compreender por que tantas joias atravessam uma vida inteira soterradas
Washington Araújo - 11/08/2026


Em 1808, Johann Wolfgang von Goethe publicou a primeira parte de Fausto, obra construída durante décadas a partir de uma antiga lenda alemã sobre um homem disposto a negociar com o demônio. Heinrich Faust é um erudito que estudou filosofia, direito, medicina e teologia e, cercado por livros, descobre que todo o conhecimento acumulado continua insuficiente diante das perguntas fundamentais de sua existência. Desesperado, considera o suicídio. Mefistófeles aparece nesse momento e lhe oferece a experiência do mundo que permaneceu do lado de fora de seu gabinete.
O acordo entre os dois costuma ser resumido como a venda da alma ao diabo, embora Goethe construa uma situação mais complexa. Mefistófeles vencerá se proporcionar a Fausto um instante de satisfação tão absoluto que ele deseje interromper sua busca. Fausto aceita:
— Se algum dia eu disser ao instante: “Fica! És tão belo!”, então poderás me acorrentar.
Mefistófeles aceita.
A fome que nenhuma conquista sacia
Goethe colocou no centro da obra uma inquietação que atravessaria os séculos. Fausto deseja conhecer, experimentar, conquistar, ultrapassar. Nenhuma chegada lhe basta. Reconheço nele algo assustadoramente contemporâneo. Compramos e já examinamos o modelo seguinte; chegamos a uma cidade pensando na próxima viagem; alcançamos determinada posição e procuramos outra. Publicamos um livro e começamos a imaginar o próximo. A sucessão dos desejos pode ocupar tamanho espaço que acabamos privados da experiência daquilo que conquistamos.
A segunda parte de Fausto, concluída pouco antes da morte de Goethe e publicada em 1832, amplia a aventura para a política, a riqueza, o poder, a mitologia, a criação e a culpa. Entre os episódios centrais está a tragédia de Margarida, ou Gretchen, jovem que se apaixona por Fausto e sofre consequências devastadoras dessa relação. Goethe trabalhou na obra durante aproximadamente seis décadas. Envelheceu escrevendo sobre um homem incapaz de considerar suficiente aquilo que já possuía.
Margarida, em certa passagem, dirige-lhe uma pergunta simples:
— Dize-me: como te relacionas com a religião?
Fausto procura contorná-la. Ela insiste:
— Crês em Deus?
Ele responde com outras perguntas:
— Quem pode dizer: “Creio nele”? Quem pode afirmar: “Não creio”?
Essa conversa sempre me interessou porque Margarida deseja conhecer o homem que está diante dela, enquanto Fausto procura abrigo numa elaboração filosófica. Passei boa parte da vida entre livros, universidades, redações e salas de aula e aprendi que a inteligência também sabe construir esconderijos. Um filho que pergunta se foi amado, uma mulher que deseja saber se ainda é amada ou um amigo que procura compreender nosso afastamento espera uma resposta que nenhuma erudição substitui.
Aquilo que escondemos de nós mesmos
Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica, oferece uma chave particularmente fecunda para entrar nesse território. Entre os conceitos centrais de sua obra está o da sombra. A palavra pode induzir o leitor a imaginar somente características negativas. O sentido junguiano alcança uma região mais ampla: a sombra reúne aspectos da personalidade que a consciência não reconhece como seus ou aos quais recusou expressão.
Ali podem permanecer inveja, agressividade, ressentimento, medo, desejo de reconhecimento. Também podem ficar retidos coragem, criatividade, delicadeza e capacidades que nossa formação, a família ou as circunstâncias da vida não permitiram desenvolver. Um menino ensinado a nunca chorar pode ter sepultado uma sensibilidade preciosa. Uma mulher educada para jamais contrariar talvez tenha relegado sua capacidade de estabelecer limites. Um homem que abandonou o piano aos vinte anos para construir uma carreira pode reencontrá-lo aos sessenta e descobrir que alguma coisa dele permaneceu diante daquele teclado durante quatro décadas.
Essa compreensão ilumina uma das falas mais conhecidas de Mefistófeles. Fausto pergunta:
— Quem és, afinal?
Ele responde:
— Sou parte daquela força que sempre deseja o mal e sempre acaba produzindo o bem.
Goethe escreveu muito antes de Jung, mas percebeu literariamente uma contradição que a psicologia examinaria depois: forças que preferiríamos expulsar de nossa biografia podem revelar aspectos que desconhecemos em nós. O que recusamos reconhecer continua capaz de interferir em escolhas, relações e julgamentos.
Vejo isso no homem celebrado pela generosidade que jamais consegue dizer não e acaba ressentido com aqueles a quem ajuda. Vejo no professor incapaz de pronunciar “não sei”, porque transformou conhecimento em identidade. Vejo no pai que proporcionou excelentes escolas aos filhos e percebe que nunca conseguiu conversar com eles sobre medo. Vejo no escritor que proclama seu amor à liberdade de pensamento e perde o sono diante de uma crítica. Em situações assim, uma pergunta merece ser feita: por que determinada característica de outra pessoa desperta em mim uma reação tão intensa?
Jung desenvolveu outro conceito necessário para compreender esse mecanismo. Chamou de persona, palavra originada no teatro, a face social que apresentamos ao mundo. Precisamos dela. Professor, médico, jornalista, empresário, pai, mãe, escritor desempenham papéis que organizam relações e responsabilidades. O perigo aparece quando a identidade inteira se confunde com esses papéis. Passamos tantos anos aperfeiçoando a pessoa que apresentamos aos outros que podemos terminar trabalhando para ela.
Essa possibilidade me faz desconfiar de qualquer qualidade que pretenda ocupar a personalidade inteira. Disciplina excessiva pode reduzir a espontaneidade; racionalidade sem contrapeso pode empobrecer a linguagem dos afetos; dedicação profissional pode consumir anos irrecuperáveis de convivência. Retire de uma pessoa profissão, currículo, patrimônio, prestígio e opinião alheia e uma pergunta difícil permanecerá sobre a mesa: quem existe por baixo de tudo isso?
A trajetória de Fausto dramatiza essa ruptura. Prestes a beber o veneno, ele escuta os sinos e os cânticos da Páscoa. Interrompe o gesto, deixa o gabinete e retorna ao convívio das pessoas. O erudito que procurava decifrar os segredos do universo precisa reencontrar experiências que seu mergulho intelectual havia deixado à margem.
O preço cobrado pela grandeza
Thomas Mann retomou a antiga lenda em Doutor Fausto, publicado em 1947. Convém separar claramente os dois livros. Goethe acompanha Heinrich Faust no final do século XVIII e início do XIX; Mann cria Adrian Leverkühn, compositor alemão fictício do século XX, cuja vida é narrada pelo amigo Serenus Zeitblom. O romance foi escrito enquanto a Alemanha atravessava a destruição provocada pelo nazismo e pela Segunda Guerra Mundial. A trajetória do músico permite a Mann examinar também a tragédia de um país de extraordinária tradição filosófica, científica e musical que participou da produção de uma catástrofe histórica.
Adrian deseja alcançar uma criação musical excepcional. Numa passagem decisiva, conversa com uma figura demoníaca cuja existência Mann deixa deliberadamente ambígua. Pode ser o demônio; pode ser delírio, doença ou manifestação de uma consciência em colapso. O visitante oferece-lhe um período de extraordinária potência criadora.
Adrian procura saber o preço.
A resposta atinge o centro do romance:
— Não amarás.
A frase me perturba porque transforma a genialidade numa mutilação. Thomas Mann coloca diante de Adrian uma pergunta que sobrevive ao romance: quanto alguém aceita sacrificar por aquilo que chama de grandeza? Não precisamos encontrar Mefistófeles numa sala para realizar versões menores desse acordo. Pessoas entregam convivência ao trabalho, filhos à agenda, amizades à ambição, afetos ao orgulho. Anos depois contemplam o patrimônio acumulado e começam outra contabilidade: quanto custou tornar-me aquilo que me tornei?
Essa pergunta aproxima Thomas Mann de Jung por uma passagem inesperada. Uma vida pode parecer admiravelmente realizada do lado de fora e conservar regiões inteiras sem desenvolvimento. O êxito social não informa, sozinho, o grau de conhecimento que uma pessoa possui sobre si mesma. A biografia pública registra cargos, prêmios, livros, propriedades e conquistas; dificilmente registra aquilo que precisou ser silenciado para que essa trajetória pudesse existir.
As joias que ainda não encontramos
Minha compreensão do ser humano acrescenta outra dimensão a esse percurso. Entendo cada pessoa como “uma mina rica em joias de grande valor”. Parte delas aparece cedo; muitas permanecem soterradas sob medo, preconceito, educação deficiente, expectativas familiares, fracassos e escolhas realizadas numa idade em que ainda sabíamos pouco sobre nós mesmos. A educação e o conhecimento de si permitem penetrar essa mina, reconhecer seus veios e trazer à superfície tesouros que poderiam permanecer ocultos durante uma vida inteira.
Essa imagem encontra um ponto de contato importante com Jung. A investigação da sombra inclui características difíceis de admitir, mas também pode revelar potencialidades negligenciadas. Uma pessoa talvez precise enfrentar a própria arrogância; outra terá de recuperar a coragem. Alguém precisará reconhecer sua inveja; outro descobrirá uma generosidade que nunca encontrou ocasião de exercer. Um deverá pedir perdão; outro aprenderá a estabelecer limites. Conhecer-se requer disposição para encontrar aquilo que preferíamos ignorar e discernimento para reconhecer aquilo que merece ser desenvolvido.
Jung chamou de individuação o processo pelo qual a pessoa se diferencia das identidades coletivas e amplia a consciência de sua própria singularidade, numa relação mais abrangente entre dimensões conscientes e inconscientes da personalidade. Não imagino o “verdadeiro eu” como uma criatura perfeita escondida em algum compartimento interior. Prefiro pensá-lo como uma possibilidade que se esclarece à medida que reconhecemos nossas contradições, fazemos escolhas e assumimos responsabilidade pelo que descobrimos.
Algumas noites olho fotografias de quarenta ou cinquenta anos atrás e procuro naquele rosto algo além da pessoa que fui. Tento perceber também quem poderia ter sido. Fotografias registram o que coube no enquadramento e permanecem silenciosas sobre o que ficou fora dele. A vida guarda arquivo semelhante. Cada escolha abre uma estrada e abandona outras. Não desejo regressar para percorrê-las. Interessa-me descobrir se alguma coisa delas ainda permanece viva.
Que capacidade abandonei cedo demais? Qual desejo descartei porque ninguém ao redor o compreendia? Que parte de mim ficou esperando enquanto construía profissão, família, reputação e certezas? Essas perguntas exigem consequências. Reconhecer arrogância e continuar humilhando pessoas acrescenta apenas vocabulário ao problema. Identificar ressentimento e continuar cobrando de inocentes a conta de antigas feridas transforma autoconhecimento em exercício estéril.
Goethe colocou Mefistófeles diante de Fausto. Thomas Mann colocou uma figura demoníaca diante de Adrian Leverkühn. Jung deslocou a investigação para as regiões da personalidade que escapam ao controle consciente. Literatura e psicologia chegam, por caminhos distintos, ao mesmo território humano: aquilo que fazemos com nossas possibilidades, nossos desejos, nossas recusas e os anos que nos foram concedidos.
Cheguei a uma idade em que essa investigação me interessa mais que muitas certezas acumuladas. Conheço razoavelmente o homem que estudou, trabalhou, escreveu, ensinou, amou, acertou e errou. Conheço também a narrativa que construí sobre ele. A sombra conhece os capítulos que preferi abreviar. A mina conserva as joias que ainda não encontrei.
Depois de tantos anos procurando respostas nos livros, nas pessoas, nas viagens e na vida, ficou comigo uma pergunta curta e difícil de contornar:
Que parte de mim ainda não viveu?
Encontrar a resposta pode ser uma das tarefas mais sérias da educação de um ser humano.
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