A tentação do soberano
Aos 250 anos, a república que ensinou o mundo a pôr o rei debaixo da lei namora o contrário: um presidente que se acha acima dela. A promessa de 1776 aguenta — mas já pede socorro
Washington Araújo - 08/07/2026


No dia 3 de julho, diante das quatro caras de presidentes esculpidas na pedra do Monte Rushmore, Donald Trump avisou aos americanos que os 250 anos de independência abrem uma “era de ouro”. É a fala de sempre dos homens fortes: o futuro glorioso, a nação escolhida, o chefe que encarna o destino do povo.
Desconfie de toda potência que troca a sobriedade de uma república pela liturgia de um regime. Porque a data que Trump comemorava naquele palco foi criada para impedir justamente o que ele encenava ali: o poder inteiro na mão de um homem só, livre da lei.
A independência americana foi muito mais que a saída de um império. Foi a construção de uma máquina para prender o poder à palavra escrita. Três textos a montaram, e vale lembrá-los, porque fora dos Estados Unidos quase ninguém os separa. A Declaração de 1776 disse por que a ruptura era justa: todos os homens nascem iguais, carregam direitos que não se vendem nem se cedem, e nenhuma autoridade vale sem o consentimento dos governados. A Constituição de 1787 disse como impedir que o poder recém-conquistado virasse tirania: dividiu-o entre Congresso, Presidência e Corte. A Bill of Rights, em 1791, fixou o que nenhum governante poderia tirar do cidadão.
Não foi obra de sonhadores. Foi obra de homens que tinham acabado de derrubar um rei e morriam de medo de fabricar outro. Madison escreveu que a ambição precisa conter a ambição — cada poder vigiando o vizinho, porque nenhum ser humano é santo o bastante para governar sem freio.
Somados, os três textos são uma desconfiança organizada contra o homem que manda. É essa desconfiança que hoje atravanca quem manda.
Dois assaltos à Constituição
Duas vezes, em dezoito meses, o presidente tentou governar por cima da Constituição. Duas vezes a Suprema Corte o segurou.
Primeiro, o dinheiro. A Constituição deu só ao Congresso o poder de taxar. Trump o tomou por decreto, com uma lei de emergência de 1977, e tarifou quase o mundo inteiro, o Brasil incluído. Em fevereiro de 2026, a Corte derrubou a jogada por seis a três — tarde para os mais de 160 bilhões de dólares que o Tesouro já havia recolhido sob um poder que ninguém lhe dera.
Depois, o sangue. Uma ordem executiva assinada no primeiro dia de mandato tentou rasgar a Décima Quarta Emenda e tirar a cidadania de bebês nascidos em solo americano, filhos de imigrantes sem documento — a mesma emenda escrita em 1868 para enterrar a vergonha de Dred Scott. Em 30 de junho de 2026, de novo por seis a três, a Corte barrou a tentativa, e seu presidente lembrou que a cidadania é o direito a ter direitos. As duas derrotas contam a mesma história: um governante convencido de que a caneta dele vale mais que a lei.
O desmonte é uma escolha
O que assusta não é o gesto isolado. É o método. Um poder que não consegue revogar a Constituição pela porta da frente aprende a comê-la pelas beiradas: perde no tribunal e, horas depois, reedita a mesma política por outra lei — as Seções 122, 232, 301 —, quase todas sem passar pelo Congresso.
Mata-se uma Constituição sem rasgar uma folha: mantém-se a moldura e tira-se o quadro. Hannah Arendt já avisara que as democracias raramente caem de um golpe; morrem por dentro, devagar, quando a linguagem perde nitidez e obedecer fica mais cômodo do que pensar. Por isso a cena de 2026 precisa ser dita sem rodeio: desmontar uma democracia não é fatalidade.
É escolha. Alguém escolhe, todo santo dia, driblar o texto em vez de honrá-lo, impor em vez de convencer, tratar a cidadania como favor pessoal, cancelável conforme o humor.
O Brasil assiste a tudo de fora e devia se olhar no espelho. Por que não temos um texto fundador que o cidadão saiba de cor e cobre? Porque a nossa independência foi cena, e a deles, escritura. Lá, um documento na origem. Aqui, um grito à beira de um riacho e a coroa de um imperador. Trocamos de constituição sete vezes desde 1824 sem que o povo decorasse uma linha. O americano comum ainda recita que nasceu igual e livre; o brasileiro comum não sabe citar a Constituição de 1988, a mais generosa que já tivemos.
E foi essa intimidade com o texto que deixou, neste ano, pequenos importadores e governos estaduais levarem o presidente ao tribunal e vencerem.
Onde o povo conhece a lei, o poder encontra freio. Onde a ignora, encontra súditos. Texto sabido de cor é escudo. Esquecido, é enfeite.
O império impaciente
Para o Brasil, o capítulo mais urgente nasce da mesma doença. Toda potência que se acha eterna começa a morrer no dia em que para de se explicar. Em 1776, os Estados Unidos falavam ao mundo com respeito declarado às opiniões da humanidade e se achavam no dever de justificar o que faziam. O império de hoje dispensou a gentileza. Enquanto solta fogos, o USTR, o escritório de comércio americano, recomenda 25% de tarifa sobre produtos brasileiros, com decisão marcada para 15 de julho, sob a alegação de censura digital e de irregularidade no Pix — desculpas que revelam menos defeito no Brasil do que vontade de castigar quem não obedece.
No ano passado o mesmo governo brandiu 50%, e só recolheu as garras quando a inflação americana doeu no próprio bolso.
É o mesmo poder, visto por dentro e por fora: atropela a Constituição em casa e decreta castigo sem argumento lá fora. Governar sem explicar não é força.
É a impaciência de quem já não convence e, por isso, prefere mandar.
Volto ao Rushmore. Diante daquela pedra, um presidente prometeu uma era de ouro; duzentos e cinquenta anos antes, um punhado de homens com pavor de reis prometeu algo mais difícil e mais durável — que nenhum indivíduo ficasse acima da lei escrita. Das duas promessas, a que fundou o país é a segunda, e é ela que agora se defende no tribunal, cláusula por cláusula.
A república americana ainda respira porque seu povo empunha o próprio texto contra quem governa. Que o Brasil aprenda a lição antes de precisar dela: só é livre o povo que conhece, cita e cobra o documento que o fundou. Onde a lei escrita é lembrança viva, existe cidadão. Onde virou peça de museu, existe só quem obedece — de mão estendida, esperando que o poderoso se lembre de explicar.
