A unidade levada a sério

Illumined by Oneness transforma cinco anos de encontros entre religiões em método de combate ao racismo sem esconder injustiças sob discursos conciliadores e promessas vazias

Washington Araújo - 21/09/2026

Durante dez anos, 4.878 denúncias acusaram policiais de Los Angeles de agir com preconceito racial. A corporação reconheceu apenas três. Em 2025, os negros formavam cerca de 8% da população, mas correspondiam a quase um terço dos motoristas parados por pequenas infrações. A polícia concedeu a si mesma uma absolvição de 99,94%.

Dois meses depois, uma fotografia transformou americanos em estrangeiros. Bo French, candidato a um cargo estadual no Texas, viu jovens de aparência sul-asiática na arquibancada da Universidade do Texas e afirmou que ocupavam vagas destinadas às famílias locais. Alunos internacionais representam apenas 4,3% da graduação; a lei reserva a texanos 90% das vagas de cada turma ingressante.

A distância entre uma corregedoria e uma arquibancada parece grande. Em ambas, a cor da pele interferiu no julgamento. É desse mecanismo que trata Illumined by OnenessIluminados pela unidade. A publicação reúne cinco anos de diálogo entre religiões sobre as raízes do racismo e as condições necessárias para superá-lo.

Diálogo prolongado

O livro nasceu de encontros promovidos pelo Escritório Bahá’í de Assuntos Públicos dos Estados Unidos, em parceria com duas instituições da Universidade Católica da América, em Washington.

Representantes de diferentes tradições reuniam-se a cada três meses, longe dos microfones. Um texto era lido em voz alta; depois, discutido em pequenos grupos e sessões plenárias. O caráter reservado permitia expor dúvidas, discordâncias e experiências pessoais.

Os textos abordavam identidade, justiça, unidade, materialismo, memória histórica, imprensa e poder. A religião também foi examinada. Templos já abençoaram escravocratas, protegeram a segregação e recomendaram resignação aos oprimidos. Outras comunidades sustentaram movimentos de libertação e ajudaram perseguidos a enfrentar governos, leis e costumes.

O valor de Illumined by Oneness está no tempo dedicado ao processo. Durante cinco anos, os participantes aprenderam a discordar, reconhecer erros e continuar à mesma mesa. O livro preserva os resultados e os oferece a outras comunidades.

Confiança construída

Os participantes partilhavam refeições e começavam as sessões dizendo o que traziam no coração. Depois de uma discussão difícil entre dois integrantes, o grupo passou a visitar museus ligados às histórias das comunidades representadas.

Antes de retomar o debate, cada participante precisaria conhecer melhor o passado do outro. Uma divergência muda depois que perdas, perseguições e resistências deixam de ser referências distantes e ganham nomes, documentos e testemunhos.

Durante a pandemia, os encontros migraram para o ambiente virtual. Após o assassinato de George Floyd, em 2020, o fórum serviu para compartilhar informações e enfrentar coletivamente o impacto daquela morte. Os fatos das ruas entravam na conversa sem o filtro oficial.

A publicação reúne os textos das reuniões, ensaios produzidos desde 2017 e uma síntese dos pontos mais relevantes. O material permite que escolas, igrejas, associações e grupos locais organizem debates semelhantes sem começar do zero.

Ferida coletiva

A ideia central afirma que a unidade da humanidade pertence à realidade social. A desigualdade racial prejudica suas vítimas e compromete o funcionamento do conjunto. Essa relação ganha forma concreta numa abordagem policial, numa seleção de emprego ou numa sala de aula.

O racismo aparece nas escolhas individuais e nos procedimentos institucionais. A placa de segregação desapareceu, mas sua lógica pode sobreviver no formulário, na abordagem policial, na seleção profissional, na cobertura jornalística e no relatório que apresenta discriminação como rotina administrativa.

Em Los Angeles, a abordagem produz registro; a humilhação, denúncia; a denúncia, processo interno. Ao final, a estrutura que parou, revistou e interrogou decide se agiu corretamente. Das 4.878 acusações, reconheceu três. O preconceito termina carimbado como percepção equivocada da vítima.

Justiça e unidade

O livro rejeita dois atalhos. O primeiro usa a unidade para pedir silêncio às vítimas e proteger a ordem existente. O segundo trata o conflito permanente como único caminho para a mudança. Um preserva a injustiça; o outro pode substituir um domínio por outro.

A proposta liga justiça e unidade. A justiça enfrenta desigualdades concretas, distribui responsabilidades e corrige instituições. A unidade estabelece o destino desse trabalho: uma sociedade em que a origem de cada pessoa deixe de determinar seus direitos, oportunidades e riscos.

Reconhecer a humanidade compartilhada exige reconhecer as experiências particulares. A cor traz consigo história, violência, cultura e resistência. Apagar essas diferenças protege privilégios antigos. Transformá-las em fronteiras definitivas entrega ao racismo o poder de organizar para sempre as relações sociais.

Outro poder

Illumined by Oneness também revê o significado de poder. Comando, dinheiro e imposição formam a definição mais conhecida. O livro acrescenta amor, cooperação, unidade e sacrifício, forças capazes de mobilizar pessoas e criar instituições.

Sacrifício, nesse caso, possui consequências mensuráveis: repartir oportunidades, abrir espaços de decisão, revisar versões convenientes da História e renunciar a vantagens herdadas. Uma fraternidade que preserva intactos todos os privilégios serve ao discurso e fracassa diante da primeira escolha concreta.

A imagem da lâmpada resume a proposta. Um objeto pode ser perfeito e permanecer inútil sem luz. O mesmo ocorre com constituições, escolas, parlamentos e tribunais desprovidos de solidariedade, propósito moral e compromisso com a dignidade humana. A qualidade do desenho institucional precisa aparecer na vida das pessoas.

Voltemos a Los Angeles. As 4.878 denúncias e os três casos reconhecidos mostram por que esse livro importa. O racismo já possui uniforme, formulário, arquivo, corregedoria e assinatura. Enfrentá-lo exige desmontar seus mecanismos e construir relações capazes de impedir seu retorno com outro nome.

Illumined by Oneness transforma diálogo em método, unidade em responsabilidade e espiritualidade em trabalho público. Seu mérito está em recolocar uma exigência elementar diante de sociedades habituadas a separar: nenhuma ordem pode ser chamada de justa enquanto a cor da pele continuar decidindo quem será ouvido, suspeito, protegido ou absolvido.

https://revistaforum.com.br/opiniao/a-unidade-levada-a-serio/

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