A xenofobia contra o Nordeste envergonha o Brasil

Parte do Brasil que se beneficiou do trabalho nordestino na construção de suas metrópoles agora hostiliza o Nordeste, expondo uma xenofobia que atravessa gerações e classes sociais

Washington Araújo - 30/10/2026

Pela quarta eleição presidencial consecutiva, milhões de nordestinos são submetidos a um exame de inteligência e legitimidade nacional conforme o resultado das urnas. A repetição desse ritual revela uma xenofobia interna persistente, disposta a transformar procedência regional em sentença de inferioridade política e humana.

O estudo “O Nordeste no Banco dos Réus”, da Ativaweb DataLab, divulgado por Carlos Madeiro no UOL, identificou 32,8 milhões de menções à região nas 72 horas posteriores ao primeiro turno de 2026; 27 milhões foram classificadas como críticas ou hostis. Após o segundo turno, outras 14,7 milhões elevaram o total a 41,75 milhões, entre 51,4 milhões de registros.

O monitoramento inclui comentários e compartilhamentos; seus números medem mensagens, sem identificar agressores ou quantificar crimes. O conteúdo examinado, contudo, reúne insultos à inteligência dos nordestinos, associação entre pobreza e incapacidade, comparações desumanizantes e propostas de amputar nove estados do território nacional. A fantasia separatista pretende punir uma população inteira por suas escolhas eleitorais.

Nessa hostilidade opera um expediente antigo: converter desigualdades historicamente produzidas em defeitos morais de quem as enfrenta. Indicadores sociais autorizariam insultos; políticas destinadas a reduzir a pobreza seriam provas de submissão intelectual. Nesse raciocínio desaparecem a concentração fundiária, os investimentos desiguais e a distribuição assimétrica das oportunidades.

A desqualificação do Nordeste também obedece a uma aritmética moral seletiva. Quem recebe transferência de renda é chamado de dependente; quem obtém subsídio tributário ou financiamento público costuma aparecer como agente do progresso. O auxílio muda de nome conforme a posição social do beneficiário, enquanto o voto conserva exatamente o mesmo valor constitucional, seja qual for sua renda.

A geografia guarda uma ironia para os que desprezam a região: foi no litoral baiano, em Porto Seguro, que a esquadra de Cabral chegou em 1500, encontrando povos indígenas com histórias anteriores à presença europeia. Salvador, fundada em 1549, foi a primeira capital até 1763. Durante mais de dois séculos, o Nordeste esteve no centro político e econômico da formação colonial brasileira.

O pioneirismo também alcança o ensino superior. A Escola de Cirurgia da Bahia, criada em 1808, originou uma das primeiras faculdades de Medicina, formalizada em 1832; em Olinda, surgiu em 1827 um dos dois primeiros cursos jurídicos brasileiros. Esses marcos expõem a ignorância de quem imagina o Nordeste incapaz de produzir conhecimento, embora a dignidade humana dispense diplomas.

A inteligência brasileira seria irreconhecível sem Gonçalves Dias, Castro Alves, José de Alencar, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado e Ariano Suassuna. Somem-se Gilberto Freyre, Josué de Castro, Paulo Freire, Celso Furtado e Milton Santos, intérpretes fundamentais da sociedade, da fome, da educação, da economia e do território.

A extensão territorial brasileira exige reflexão. Tivemos, nesse aspecto, uma sorte histórica: o domínio português legou uma língua comum, vínculos administrativos e instituições que favoreceram a integração; depois, a monarquia independente e conflitos políticos sustentaram essa unidade. Os antigos domínios espanhóis na América deram origem a dezoito países, processo diverso que impede simplificações sobre as duas experiências coloniais.

Essa herança possui uma contradição incontornável: a língua compartilhada e a continuidade territorial conviveram com expropriação indígena, escravização africana e violência colonial. Preservar um país continental trouxe vantagens de escala, circulação cultural e integração política, embora essa unidade tenha sido construída também por populações submetidas à força. Sua defesa exige enfrentar as hierarquias herdadas daquela formação.

São Paulo é hoje o que é, em medida decisiva, graças ao trabalho nordestino. A metrópole de milhares de edifícios, viadutos, túneis, avenidas, rodovias, ferrovias e estações foi erguida também por braços nordestinos. Sua expansão seria incompreensível sem aqueles que deixaram o sertão, a zona da mata e o litoral à procura de trabalho.

Essa contribuição alcançou as montadoras do ABC, a metalurgia, a siderurgia, as indústrias têxtil, alimentícia, química e de máquinas e equipamentos. Pesquisas acadêmicas registram trajetórias de camponeses paraibanos convertidos em operários automotivos, entre jornadas exaustivas, aprendizado profissional, organização sindical e expansão industrial paulista.

Segundo a Fundação Seade e o Censo de 2022, 5.010.208 habitantes do estado de São Paulo nasceram no Nordeste, ou 11,3% da população, sem incluir filhos e netos nascidos em terras paulistas. A capital passou de 2,2 milhões de habitantes em 1950 para 5,89 milhões em 1970, durante a intensificação migratória e industrial.

A violência moral aparece quando se aceita o trabalhador que ergue prédios e se despreza o cidadão que vota. Sua força interessa à economia; sua consciência política vira motivo de suspeita. A prosperidade construída coletivamente transforma-se em argumento de superioridade regional, enquanto seus construtores são tratados como intrusos.

Em julho de 2026, o Tribunal Regional Federal da Primeira Região divulgou decisão que manteve condenação por publicações comparando nordestinos a animais e excluindo simbolicamente a região do mapa nacional. O artigo 20 da Lei 7.716/1989 pune a incitação à discriminação por procedência nacional, reconhecendo a gravidade das ofensas dirigidas a coletividades inteiras.

Os nordestinos possuem orientações políticas e interesses sociais distintos. Tratá-los como massa homogênea permite ignorar nove estados e milhões de histórias pessoais. A urna recebe votos de cidadãos com direitos equivalentes, independentemente da renda, da escolaridade, da profissão ou da origem.

Recuso a ideia de que um brasileiro deva agradecer pela permissão de pertencer ao próprio país. A xenofobia contra nordestinos transforma diferenças políticas em hierarquias humanas, reproduzindo a lógica do racismo, da intolerância étnica, do desprezo social e da perseguição religiosa. Quando se admite a inferiorização de um grupo, enfraquece-se a proteção de todos. Um país que tenta expulsar simbolicamente seus próprios construtores compromete a legitimidade moral de sua democracia.

https://www.brasil247.com/blog/a-xenofobia-contra-o-nordeste-envergonha-o-brasil/

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