“Abandonai toda esperança, vós que entrais” na desordem do nosso tempo

Ao revisitar Dante, compreende-se que não se trata de passado, mas de um presente que cobra lucidez, exige decisão e já não tolera a ilusão confortável de que nada terá consequência

Washington Araújo - 26/03/2026

O calendário guarda datas. Algumas passam. Outras permanecem — não como lembrança, mas como fundação. O Dantedì, celebrado em 25 de março, não é concessão cultural nem efeméride protocolar. É um marco civilizatório. Celebrar Dante Alighieri significa revisitar a origem de uma linguagem que ousou confrontar poder, fé e destino humano com rigor e imaginação, projetando influência até hoje.

A escolha da data não é casual. Marca simbolicamente o início da travessia narrada em “Divina Comédia” — quando o homem se descobre perdido em uma selva escura. Não é geografia, é desorientação existencial. E quando Dante escreve “No meio do caminho de nossa vida, encontrei-me em uma selva escura”, ele expõe um ponto de ruptura: o instante em que o indivíduo percebe que já não domina o próprio rumo.

Há algo de profundamente contemporâneo nessa jornada medieval. Em um mundo saturado de informação e rarefeito de sentido, a “selva escura” tornou-se quase permanente. A confusão ética, a banalização da verdade e o enfraquecimento dos referenciais coletivos ecoam, com inquietante precisão, os pecados catalogados por Dante no século XIV. A diferença é que hoje já não há um Virgílio — o grande poeta latino da Eneida, símbolo da razão e da lucidez — para nos guiar com clareza.

Antes de se tornar símbolo universal, Dante foi homem de seu tempo — e de suas fraturas. Nascido em Florença, por volta de 1265, envolveu-se nas disputas políticas entre guelfos e gibelinos, sendo depois exilado de sua própria cidade, sentença jamais revogada. Esse exílio não foi detalhe biográfico: tornou-se combustível narrativo. Apaixonado por Beatriz, figura que transcende o amor terreno, Dante escreveu em língua vulgar, gesto que ajudou a fundar o italiano moderno.

Essa trajetória não apenas explica sua obra — legitima sua autoridade. A “Divina Comédia” não é exercício literário: é uma arquitetura intelectual que atravessa teologia, política e filosofia com precisão rara. Ao escrever “Abandonai toda esperança, vós que entrais”, Dante não constrói apenas uma imagem. Ele estabelece um limite absoluto, onde não há negociação nem retorno. É uma afirmação dura sobre consequência, sobre escolha, sobre destino.

O Dantedì, portanto, não celebra apenas um autor canônico. Ele nos interpela. Obriga-nos a encarar perguntas que foram empurradas para a margem do debate público: o que sustenta nossas decisões? Até que ponto participamos, por ação ou omissão, dos impasses que denunciamos? E mais — qual é o custo real de ignorar essas perguntas?

A força da obra de Dante reside em sua arquitetura implacável. Não há espaço para neutralidade confortável. Cada gesto tem peso, cada silêncio tem implicação, cada decisão projeta efeitos que ultrapassam o imediato. Em tempos de discursos diluídos, essa estrutura não apenas incomoda — expõe. E quando Dante escreve, ao final, “O amor que move o sol e as outras estrelas”, ele não oferece consolo fácil. Ele aponta para uma ordem que exige coerência, lucidez e responsabilidade diante do mundo.

Há também uma dimensão política impossível de ignorar. Dante denunciou abusos de poder, expôs figuras históricas e recusou qualquer acomodação com a conveniência. Sua escrita operou como denúncia, não como ornamento. Em um tempo que frequentemente prefere suavizar conflitos, essa postura revela um compromisso raro: dizer o que precisa ser dito, mesmo quando o preço é alto.

Mas há, na travessia dantesca, uma promessa que não pode ser descartada. O percurso entre queda e reconstrução existe — mas não é automático, nem confortável, nem rápido. Ele exige confronto direto com a própria escuridão. E exige decisão. Não há atalhos nessa jornada.

Celebrar o Dantedì em 2026 é reconhecer que algumas obras não apenas atravessam o tempo — elas permanecem como instrumento de leitura do presente. Dante não escreveu para agradar sua época. Escreveu para desafiá-la. E, ao fazer isso, antecipou dilemas que continuam sem solução fácil.

E talvez seja essa a sua maior atualidade — lembrar-nos, sem concessões, que perder-se não exige esforço. Exige apenas descuido. Difícil é sustentar, todos os dias, escolhas que nos afastem da própria queda.

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