Afinal, onde nasce, de verdade, a riqueza deste país?
Iniciativa anunciada pela China recoloca em discussão organismos internacionais desenhados para um mundo que deixou de existir décadas atrás
Washington Araújo - 30/06/2025


Existe um Brasil que abastece o mundo inteiro e permanece praticamente desconhecido dos próprios brasileiros. Patrocínio, no Alto Paranaíba mineiro, é uma dessas histórias. Enquanto milhões de pessoas começam o dia tomando um café produzido naquela região, a imensa maioria jamais ouviu falar da cidade onde aquele grão nasceu. Esse aparente detalhe ajuda a explicar um dos grandes paradoxos nacionais: exportamos produtos de excelência, mas conhecemos muito pouco os municípios que constroem diariamente essa reputação.
Durante muitos anos escrevi sobre governos, crises econômicas, eleições e relações internacionais. Em quase todos esses assuntos, as atenções se concentram nas grandes capitais. Entretanto, uma parte decisiva da economia brasileira nasce longe dos centros de poder. Ela é construída em cidades médias, onde inovação, tecnologia, pesquisa e trabalho cotidiano transformam atividades tradicionais em negócios competitivos no mercado internacional.
Patrocínio tornou-se um exemplo vibrante dessa transformação. O município integra a Região do Cerrado Mineiro, formada por 55 cidades, primeira região cafeeira brasileira a conquistar a Denominação de Origem concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Esse reconhecimento não funciona como um simples selo comercial. Ele certifica que a qualidade do café depende diretamente do território onde é produzido, da altitude superior a 800 metros, das condições climáticas, da rastreabilidade e do conhecimento acumulado pelos produtores ao longo de décadas.
A Expocacer
Esses números ajudam a compreender a dimensão dessa realidade. Criada em 1993 por cerca de cinquenta cafeicultores que decidiram adquirir coletivamente um armazém, a Expocacer transformou-se em uma das principais cooperativas cafeeiras do país. Hoje reúne mais de 760 cooperados, possui capacidade estática para armazenar um milhão de sacas, movimenta diariamente mais de 30 mil sacas entre recebimento e embarque e comercializa mais de 1,5 milhão de sacas por ano. Seus cafés chegam a mais de 35 países, e a cooperativa mantém estruturas comerciais permanentes nos Estados Unidos e na Inglaterra para aproximar produtores e compradores internacionais.
Há outro dado que me chamou atenção. A Expocacer tornou-se a primeira cooperativa de café do mundo certificada em agricultura regenerativa. Ao mesmo tempo, programas de mapeamento da qualidade analisam mais de mil amostras por safra para identificar microlotes destinados aos mercados mais exigentes. Em um segmento no qual consumidores querem conhecer a origem do produto, o nome do produtor, as práticas ambientais e até a história da fazenda, vender café passou a significar vender confiança.
Essa mudança de paradigma aparece também nas palavras de quem lidera esse processo.
O propósito central
A presidente do Conselho de Administração da cooperativa, Mariana Velloso Heitor, representante da terceira geração de uma família de cafeicultores, afirma que fortalecer continuamente a cafeicultura do Cerrado Mineiro permanece sendo o propósito central da instituição. Já o diretor-presidente executivo, Simão Pedro de Lima, resume a estratégia de forma objetiva: colocar o café de Patrocínio diretamente nas mãos dos consumidores do mundo.
Enquanto boa parte do debate nacional ainda gira em torno da exportação de commodities, Patrocínio demonstra que valor agregado, identidade territorial e cooperação podem transformar um produto agrícola em referência internacional.
Tecnologia e preservação
Mas a cidade também convida a outra reflexão. Ao lado de uma cafeicultura altamente tecnológica permanecem a antiga estação ferroviária, inaugurada entre 1917 e 1918, e a Serra Negra, conhecida por suas águas minerais e por uma estância hidromineral que durante décadas recebeu visitantes de várias regiões do país. São lembranças de que desenvolvimento econômico e preservação histórica nem sempre caminham juntos. Produzir riqueza é indispensável. Preservar a memória dos lugares onde ela nasceu também deveria ser.
No próximo dia 2 de julho estarei em Patrocínio a convite de um velho amigo, Márcio Araújo. Compartilhamos o sobrenome, embora não a família. Ele é mineiro; este articulista, potiguar. Márcio integra o grupo dos jornalistas mais respeitados de sua geração. Dirigiu durante muitos anos a área de Comunicação da Câmara dos Deputados e, mesmo aposentado, continua sendo uma das conversas mais inteligentes, generosas e bem-humoradas que Brasília me deu. Viajaremos em uma caravana de oito a dez amigos. Espero aproveitar esses dias para ouvir produtores, professores, comerciantes, trabalhadores e jovens que escolheram permanecer na cidade. É desse encontro entre pessoas, histórias e experiências que espero compreender melhor o que as estatísticas, sozinhas, nunca conseguem contar.
https://revistaforum.com.br/opiniao/afinal-onde-nasce-de-verdade-a-riqueza-deste-pais/
