Algo morre em nós quando a guerra deixa de ser questionada
O ceticismo defendido por Carl Sagan mostra que guerras avançam quando deixamos de questionar e aceitamos narrativas que anestesiam consciências e tornam massacres aceitáveis
Washington Araújo - 29/03/2025


Em 1987, ao publicar no periódico Skeptical Inquirer o ensaio “Ceticismo na Sociedade Americana”, Carl Sagan não ofereceu uma reflexão confortável — lançou um alerta que hoje soa incômodo e atual. Seu argumento não admite suavizações: sociedades que não cultivam o hábito de questionar tornam-se terreno fértil para manipulação, especialmente quando atravessadas por crises e guerras.
O ceticismo, nesse contexto, não é luxo intelectual; é mecanismo de defesa.
A palavra “ceticismo” nasce do grego skepsis: investigar, examinar, não aceitar sem prova. É disso que se trata. Não de negar por negar, mas de recusar a submissão automática ao discurso pronto.
Quando Sagan afirma que “o ceticismo é perigoso”, a frase carrega uma advertência direta — perigoso para quem precisa de adesão silenciosa, perigoso para sistemas que dependem da ausência de perguntas.
Desde 1994, quando fui deleitado com a leitura de seu Pálido Ponto Azul deparei com uma visão simultaneamente científica e profundamente humanista e a força desse pensamento tornou-se incontornável.
A imagem da Terra reduzida a um ponto quase invisível, captada pela sonda Voyager 1, reorganizava a escala das certezas humanas. A morte precoce de Sagan, aos 62 anos, em 20 de dezembro de 1996, não interrompeu essa influência; ao contrário, ampliou o alcance de suas advertências em um mundo cada vez mais saturado de informação e carente de discernimento.
Há uma passagem frequentemente citada — e mal compreendida — que exige precisão. Quando ele menciona “comerciais de aspirina e médiuns de 35 mil anos atrás”, Sagan ironiza um padrão cultural. Ensina-se a duvidar do irrelevante — da propaganda exagerada, do absurdo facilmente ridicularizável — mas evita-se aplicar o mesmo rigor a governos, decisões militares e estruturas de poder.
O ceticismo permitido é aquele que não incomoda.
É impossível não reconhecer esse padrão ao observar as guerras contemporâneas. Entre Rússia e Ucrânia, nas operações envolvendo Israel e Hamas, e na guerra que envolve Estados Unidos, Israel e Irã, o que se impõe não é apenas o confronto armado, mas a disputa pelo controle da narrativa.
Parte da imprensa ocidental, em especial nos momentos iniciais de escalada, evita nomear esse último cenário como guerra. Prefere expressões como “tensões persistentes” ou “crise regional”.
Essa escolha não é inocente. Ao suavizar a linguagem, reduz-se a percepção da gravidade e, sobretudo, o impulso de questionar. Há ataques, mortes, operações coordenadas. Chamar isso de outra coisa que não guerra está muito longe de alterar os fatos — mas os torna mais aceitáveis.
A advertência de Sagan ganha corpo nesse cenário. Se o ceticismo fosse amplamente ensinado, não ficaria restrito ao trivial. Avançaria sobre “instituições econômicas, sociais, políticas ou religiosas”. É exatamente esse avanço que se tenta conter.
Em tempos de guerra, perguntar passa a ser um gesto suspeito.
A experiência cotidiana diante do fluxo informacional confirma esse diagnóstico. Observa-se uma avalanche de dados, análises, opiniões — e, ainda assim, uma dificuldade crescente de distinguir informação de construção narrativa. A dúvida não é estimulada; é administrada, monitorada segundo a segundo, ditado ao que vai ao telejornal e ao que fica restrito apenas ao arquivo do seu computador.
Uma imagem mais direta talvez esclareça melhor: a guerra contemporânea funciona como um palco iluminado por refletores controlados. O público vê apenas o que está dentro do foco. Fora dele, decisões, interesses e contradições permanecem na sombra. O ceticismo não é contemplação — é o movimento de sair da plateia, contornar o palco e perguntar quem controla a luz.
Sagan foi explícito ao afirmar que o futuro exigiria “ferramentas intelectuais básicas para fazer perguntas incisivas àqueles que nominalmente estão no comando”.
Ignorar essa exigência tem custo concreto. Guerras se prolongam, decisões opacas se naturalizam, e o debate público perde densidade.
O problema não está apenas nos conflitos, mas na forma como são assimilados. Armas sustentam batalhas; narrativas sustentam sua continuidade. Onde não há questionamento, instala-se o consenso fabricado.
A leitura que faço de Sagan, iniciada décadas atrás, permanece como referência insistente. Não por nostalgia, mas por necessidade.
É que chegamos a um tempo em que as entrelinhas carregam mais verdade do que as linhas, em que o não dito pesa mais do que o discurso oficial. Permanecer na superfície tornou-se uma forma de renúncia intelectual.
Há, contudo, um princípio antigo que ilumina esse gesto de ruptura com a superfície: “a luz é boa, não importa que lâmpada brilhe”. A frase, oriunda do pensamento de um renomado sábio persa do século XIX — que já vislumbrava a unificação da humanidade como condição para uma nova era civilizatória — desloca o eixo do debate com precisão incômoda: não é a origem que legitima a ideia, mas a sua capacidade de resistir ao escrutínio. Retira-se o peso da autoridade temporal e devolve-se centralidade à verdade.
Em um ambiente saturado por vozes concorrentes, narrativas estratégicas e versões cuidadosamente editadas dos fatos, essa ideia ganha força renovada. Não importa se a informação vem de um governo, de um veículo tradicional ou de uma fonte independente; importa sua capacidade de resistir ao exame, de sustentar-se diante da pergunta insistente.
Isso exige mais do que atenção: exige disposição para atravessar camadas, comparar versões, identificar contradições. Não se trata de cultivar desconfiança estéril, mas de assumir responsabilidade diante do mundo.
O ceticismo, nesse cenário, deixa de ser uma opção e se impõe como exigência ética. Questionar não é desvio — é método. E talvez seja o único caminho ainda disponível para atravessar o ruído, escapar das luzes controladas e alcançar algo que ainda mereça ser chamado de realidade.
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