Andrew perdeu, a Coroa venceu: a escolha de Rei Charles III
A prisão do irmão do rei transforma o bordão 'ninguém está acima da lei' em ato verificável e obriga Charles III a provar que a monarquia não é blindagem penal
Washington Araújo - 20/02/2026


Em 19 de fevereiro de 2026, às 13h24 pelo horário de Brasília (11h24 na costa leste dos Estados Unidos), Londres confirmou o que durante anos pareceu politicamente inimaginável: Andrew Mountbatten-Windsor, irmão mais novo do rei Charles III, foi preso sob suspeita de má conduta em cargo público. A acusação é objetiva: enquanto atuava como enviado comercial britânico, teria compartilhado informações governamentais confidenciais com Jeffrey Epstein.
A cena não foi simbólica. Foi operacional. Policiais no portão. Procedimento formal. Custódia. Nenhuma deferência pública ao sobrenome.
A prisão ocorreu na propriedade de Sandringham, em Norfolk — área privada da Coroa com cerca de 81 quilômetros quadrados (aproximadamente 20 mil acres). Ali, Andrew residia após ser removido do Royal Lodge, decisão tomada meses antes pelo próprio rei.
A Polícia do Vale do Tâmisa confirmou a detenção. O comunicado não mencionou acusações de abuso sexual ou tráfico humano, concentrando-se na suspeita de violação de dever funcional. Após 12 horas de interrogatório na delegacia de Aylsham, em Norfolk, Andrew foi liberado, segundo a Sky News. A polícia confirmou a conclusão das buscas locais, mas ressaltou que o inquérito permanece aberto e sob análise formal.
Ainda assim, o pano de fundo é inseparável da longa associação entre Andrew e Epstein, condenado por aliciamento de menor em 2008 e preso novamente em 2019 por tráfico sexual.
O divisor institucional
A investigação ganhou novo impulso após a divulgação, em janeiro de 2026, de três milhões de páginas de documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Entre os registros, e-mails sugerem que Andrew teria encaminhado relatórios oficiais de viagens ao Sul da Ásia enquanto exercia função pública entre 2001 e 2011.
A questão central não é moralista. É técnica: houve violação consciente da confiança pública inerente ao cargo?
O advogado Andrew Gilmore, sócio da Grosvenor Law, explicou que a promotoria precisará demonstrar que o então representante oficial “negligenciou intencionalmente o cumprimento de seu dever a ponto de configurar abuso da confiança pública nele depositada”. Trata-se de um dos tipos penais mais difíceis de comprovar no direito britânico.
Andrew nega qualquer irregularidade.
Mas a erosão reputacional não começou agora.
Em 2019, sua entrevista ao programa “Newsnight”, da BBC, marcou o colapso público de sua credibilidade. Não foi apenas a afirmação de que não se lembrava da fotografia com Virginia Giuffre. Foi o conjunto: ausência de empatia explícita às vítimas, respostas consideradas evasivas e justificativas fisiológicas improváveis que minaram a percepção pública de honestidade. Dias depois, afastou-se das funções reais.
A entrevista não encerrou a crise. Consolidou-a.
Elizabeth poupada, Charles testado
Elizabeth II reinou por 70 anos, de 1952 a 2022. Atravessou crises familiares e turbulências políticas, mas jamais viu um filho conduzido sob custódia policial. Andrew era frequentemente descrito como seu filho favorito. Durante seu reinado, o escândalo permaneceu no campo da imagem.
Com Charles III, a abordagem foi estrutural.
No fim de 2025, o rei retirou formalmente os títulos e honrarias do irmão — medida inédita na monarquia moderna. Andrew deixou de ser tratado como príncipe. Foi removido do Royal Lodge e transferido para residência mais discreta.
Após a prisão, Charles declarou apoiar um “processo completo, justo e adequado” e afirmou de forma inequívoca: “Deixe-me ser claro: a lei deve seguir seu curso”.
David Lammy, vice-primeiro-ministro e secretário de Justiça do Reino Unido, reforçou à BBC: “Ninguém neste país está acima da lei”.
Desta vez, a frase não soa protocolar. Quando a polícia prende o irmão do soberano, o princípio deixa de ser retórica constitucional e passa a ser prática verificável.
A família de Virginia Giuffre declarou: “Finalmente. Ninguém está acima da lei, nem mesmo a realeza”. A afirmação sintetiza a dimensão simbólica do momento.
Reino Unido e Brasil: dois padrões
Andrew construiu trajetória marcada por contraste. Serviu na Marinha Real durante a Guerra das Malvinas. Foi celebrado como oficial de combate. Tornou-se enviado comercial, transitou entre chefes de Estado e magnatas globais. A amizade com Epstein persistiu mesmo após a condenação do financista em 2008. Fotografias no Central Park, em 2010, ampliaram a perplexidade pública.
O que diferencia este episódio não é apenas o conteúdo das acusações, mas a resposta institucional.
No Reino Unido, a polícia age. O rei se afasta. O governo reafirma a independência do processo. A instituição se protege permitindo que a investigação avance sem bloqueios.
No Brasil, o padrão muitas vezes se inverte. Autoridades sob suspeita de envolvimento em esquemas bilionários invocam a defesa da “imagem da instituição” enquanto resistem a qualquer providência concreta que assegure investigação autônoma. Não se declaram impedidas. Não se afastam. Não solicitam licença. Não sinalizam disposição inequívoca de que a apuração avance até o limite das responsabilidades pessoais.
Ao contrário: mobilizam narrativas, instrumentalizam discursos corporativos e frequentemente transformam a defesa institucional em mecanismo de autoproteção. O resultado é corrosivo: erosão da confiança pública, banalização do conflito de interesses e perpetuação de zonas de opacidade que protegem indivíduos sob o pretexto de preservar a estrutura.
A diferença não é cultural nem cosmética pra “inglês ver”. Aqui, ela é tanto ética quanto estrutural.
Em Londres, proteger a Coroa significa aceitar o risco da investigação. Em Brasília, frequentemente proteger a instituição significa blindar seus integrantes até que o desgaste perca tração política.
A prisão de Andrew não é condenação. É início formal de escrutínio.
Mas o fato de que o escrutínio não tenha sido bloqueado pelo sobrenome altera o eixo da discussão democrática.
O que está em jogo não é apenas a reputação de um homem que já atravessou palácios, campos de batalha e salões exclusivos do poder global. O que está em jogo é a capacidade de uma instituição milenar demonstrar que sua legitimidade depende da submissão à lei — inclusive quando a lei alcança o próprio núcleo do poder.
Charles III parece ter compreendido algo essencial: o trono não é escudo penal.
O que este fevereiro de 2026 revela é simples e incômodo: instituições não se defendem abafando investigações. Defendem-se submetendo-se a elas.
https://revistaforum.com.br/opiniao/andrew-perdeu-a-coroa-venceu-a-escolha-de-rei-charles-iii/
