Ao buscar pressionar Teerã, Washington pode estar ativando exatamente o que voltará contra si
A frase de Rumi sugere que toda busca projeta uma energia que retorna, como se o objeto desejado também estivesse em movimento na direção de quem o procura
Washington Araújo - 04/03/2025


Desde a Revolução de 1979, a República Islâmica enfrentou guerras, sanções e isolamento — mas jamais havia visto seu vértice político-religioso ser alcançado dessa maneira.
Teerã viveu uma dessas noites quando o céu, em vez de estrelas, exibiu rastros luminosos e o silêncio urbano foi rasgado por explosões calculadas ao milímetro. A capital iraniana, acostumada a décadas de tensão subterrânea, viu o conflito sair das sombras da retórica e ganhar corpo em clarões sucessivos. O que estava em jogo não era apenas mais um capítulo da disputa estratégica entre Estados Unidos, Israel e Irã, mas a própria engrenagem interna de um Estado que combina teologia, poder militar e memória imperial. Antes mesmo que as agências internacionais consolidassem versões, o mundo já tentava decifrar o que significava atingir o núcleo dirigente de uma das estruturas políticas mais singulares do planeta.
Não se trata apenas de geopolítica, mas de simbologia.
O Irã — nome que deriva do antigo “Aryānām”, associado à ideia de “terra dos nobres” — é herdeiro de uma tradição civilizacional que antecede o Islã em mais de mil anos. Durante séculos conhecido no Ocidente como Pérsia, o país solicitou oficialmente, em 1935, que fosse chamado por seu nome histórico interno, afirmando continuidade cultural e identidade própria.
Muito antes de as potências modernas disputarem influência no Golfo, impérios persas já administravam territórios vastíssimos com sistemas administrativos sofisticados e relativa tolerância religiosa. A História iraniana não é linha reta; é um mosaico que atravessa aquemênidas, partas, sassânidas, invasões árabes, dinastias turcomanas e revoluções modernas.
Quando bombas caem sobre Teerã, elas atingem também camadas de memória acumuladas por mais de dois milênios.
Foi nesse cenário que, às 22h30 de 28 de fevereiro de 2026, no horário local, ataques aéreos coordenados por forças dos Estados Unidos em cooperação com Israel atingiram o complexo residencial e administrativo do líder supremo iraniano, no norte da capital. Horas depois, autoridades iranianas confirmaram a morte de Ali Khamenei, assim como de membros de sua família e integrantes do alto comando militar presentes no local. Entre os nomes divulgados por veículos internacionais estavam o ministro da Defesa Aziz Nasirzadeh, Abdolrahim Mousavi, descrito como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, além de Mohammad Pakpour, apontado como comandante da Guarda Revolucionária, e Ali Shamkhani, figura central da segurança nacional. Circulou também a informação de que o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad teria sido morto, embora versões conflitantes tenham exigido cautela jornalística diante da ausência de confirmação independente.
O ataque marcou uma inflexão inequívoca: não mais guerra indireta, mas confronto frontal no coração institucional da República Islâmica.
É nesse ponto que o leitor se vê cercado por termos que voltam às manchetes como enigmas reapresentados: xiita, sunita, aiatolá, Conselho dos Guardiões, Assembleia de Especialistas, Guarda Revolucionária. Para compreender o presente, é preciso recuar a 632, ano da morte do profeta Muhammad. A pergunta que dividiu a comunidade islâmica era objetiva e devastadora: quem deveria liderar os fiéis? Vamos aos fatos:
Abu Bakr (573–634), comerciante de Meca, sogro do Profeta e seu companheiro na Hégira — a migração para Medina — foi escolhido por consenso como primeiro califa, inaugurando o que se tornaria o sunismo. Hoje, cerca de 85% a 90% dos 1,9 bilhão de muçulmanos no mundo são sunitas. No Oriente Médio, predominam na Arábia Saudita (aprox. 90%), no Egito (cerca de 90%) e na Turquia (mais de 80%).
Outra corrente sustentou que a liderança deveria permanecer na família do Profeta, particularmente em Ali ibn Abi Talib. Surge assim o xiismo, de Shi’at Ali, “o partido de Ali”. Xiitas são maioria no Irã (cerca de 90% da população), no Iraque (entre 60% e 65%) e no Bahrein (entre 60% e 70%), além de representarem parcela significativa no Líbano. A ruptura simbólica ocorreu em 680, na batalha de Karbala, quando Hussein, filho de Ali, foi morto. O martírio tornou-se eixo identitário do xiismo, celebrado anualmente na Ashura. (Vale a pena pesquisar o que é a Ashura!)
No xiismo desenvolveu-se uma hierarquia clerical estruturada. O aiatolá — “sinal de Deus” — é um alto jurista reconhecido após décadas de estudo em jurisprudência islâmica. Diferencia-se do imã, que conduz a oração coletiva na mesquita: posiciona-se à frente dos fiéis, recita trechos do Alcorão e orienta os movimentos rituais de inclinação e prostração que simbolizam submissão a Deus.
No Irã pós-1979, religião e Estado se fundiram institucionalmente. O líder supremo ocupa o ápice político-religioso, acima do presidente, controlando forças armadas e diretrizes estratégicas. É escolhido pela Assembleia de Especialistas — 88 clérigos eleitos por voto popular — cujos candidatos passam pelo crivo do Conselho dos Guardiões, parte indicado pelo próprio líder.
Essa engrenagem interna projeta-se para fora através da geografia.
Entre o Irã e Omã estende-se o Estreito de Ormuz, com cerca de 167 quilômetros de comprimento e apenas 33 quilômetros em seu ponto mais estreito, com canais de navegação de cerca de 3 quilômetros em cada sentido. Por ali transitam aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo por dia — perto de 20% do consumo global. A preços médios internacionais, isso representa algo entre 1,4 e 1,8 bilhão de dólares diariamente, podendo ultrapassar 600 bilhões de dólares ao ano apenas em petróleo bruto, sem contar gás natural liquefeito. Ormuz não é metáfora; é artéria vital da economia mundial.
Reduzir o Irã a esse gargalo energético, porém, é ignorar sua densidade cultural.
Avicena — Ibn Sina (980–1037), nascido em Afshana, próximo a Bukhara — legou o “Cânone da Medicina”, influenciou a filosofia aristotélica e sistematizou práticas clínicas que moldaram a medicina por séculos. Jalal ad-Din Rumi (1207–1273), nascido em Balkh e radicado em Konya, escreveu versos que ecoam além de fronteiras: “Além das ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá.” E também: “O que você busca está buscando você.”
Entre explosões contemporâneas e ecos milenares, o Irã reaparece não como caricatura, mas como civilização complexa. Entendê-lo exige mais do que acompanhar sirenes e cotações do barril. Exige reconhecer que, por trás do estrondo das últimas horas, há um país cujo passado continua a dialogar — e a tensionar — o presente.
