Apagaram a noite sem nos avisar

Da boemia de Dolores Duran às notificações da madrugada, a história de como a espera perdeu a hora de terminar

Washington Araújo - 25/09/2026

Nesta semana do equinócio de primavera, com o dia e a noite repartindo quase por igual as vinte e quatro horas de Brasília, apaguei as luzes da varanda, guardei o celular numa gaveta e procurei a Via Láctea sobre o Planalto Central. Vieram antes o halo alaranjado da cidade, o rumor contínuo das avenidas, um cachorro latindo para algum alarme de carro. Algumas estrelas ainda resistiam, empurradas para as margens do céu. A experiência durou poucos minutos; a constatação ficou: perdemos uma parte do mundo sem perceber o instante exato em que ela começou a desaparecer.

Nenhum decreto aboliu a escuridão. Nenhuma autoridade comunicou o fim do silêncio. A ocupação avançou poste a poste, fachada a fachada, farol a farol, tela a tela, notificação a notificação. Prolongamos o dia para dentro da madrugada e levamos essa claridade até o quarto, a cama, a palma da mão. O relógio continuou marcando horas noturnas enquanto a própria ideia de recolhimento encolhia. A modernidade conseguiu uma proeza curiosa: desalojou duas experiências que acompanharam a vida durante milênios sem precisar anunciar que estava fazendo isso.

Os números dão materialidade ao que os olhos já suspeitam. Em 2016, Fabio Falchi e uma equipe internacional publicaram na Science Advances o Atlas Mundial do Brilho Artificial do Céu Noturno: mais de 80% da população do planeta vive sob céus contaminados por luz artificial e mais de um terço já perdeu a visão da Via Láctea. Em 2023, Christopher Kyba e seus colegas analisaram 51.351 observações feitas entre 2011 e 2022 e chegaram, na Science, a outro resultado inquietante: o brilho do céu percebido pelo olho cresceu, em média, 9,6% ao ano. Num lugar onde uma criança enxerga hoje 250 estrelas, poderá restar-lhe menos de uma centena aos 18 anos.

Céus noturnos preservados

O assunto já alcançou o Congresso brasileiro. Em 10 de junho deste ano, a Comissão de Turismo da Câmara aprovou parecer favorável ao Projeto de Lei 1.975/2021, que cria um programa de certificação e divulgação de sítios com céus noturnos preservados; a matéria seguiu para a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. No Senado, o PL 5.103/2025 propõe incluir a poluição luminosa na Lei de Crimes Ambientais e, desde março, aguarda designação de relator. A legislação começa a procurar palavras para uma perda que as cidades produziram muito antes de reconhecê-la.

O silêncio percorreu estrada semelhante. A Organização Mundial da Saúde situa o ruído entre os grandes fatores ambientais de adoecimento na Europa, atrás da poluição do ar em carga de doença, associado a distúrbios do sono e doenças cardiovasculares. Brasília mede seu próprio barulho desde 2012. O Brasília Ambiental informa que 18,3% da população da área estudada no mapa de ruído da capital estava exposta, à noite, a níveis superiores a 55 decibéis. A cidade planejada para separar fluxos, proteger superquadras e dar espaço ao horizonte precisou aprender a medir aquilo que atravessa paredes e invade os ouvidos.

Durante séculos, iluminar significou civilizar. A luz pública tornou ruas mais seguras, ampliou a circulação, protegeu pedestres, permitiu trabalho e encontro depois do pôr do sol. A conquista foi extraordinária. O problema nasceu no excesso, no instante em que confundimos iluminação com claridade permanente e segurança com a obrigação de manter tudo aceso. Iluminamos fachadas vazias, estacionamentos desertos, escritórios fechados, árvores, monumentos e céus que jamais pediram holofotes. Derrotamos a falta de luz e adquirimos uma espécie de arrogância diante da escuridão.

Sentinelas luminosas

O corpo registra a conta antes que a consciência a reconheça. Charles Czeisler, professor de Medicina do Sono em Harvard, dedicou décadas ao estudo do relógio circadiano e da influência da luz sobre o sono. A própria Escola de Medicina de Harvard resume o problema: a luz noturna inibe a secreção de melatonina, e a luz enriquecida em azul, emitida por telas e outros dispositivos eletrônicos, é especialmente eficaz em atrasá-la. Dormimos acompanhados por pequenas sentinelas luminosas, despertamos para consultá-las e tratamos o cansaço do dia seguinte como preço inevitável da vida contemporânea. Compramos a insônia em prestações e demos ao carnê o nome de progresso.

A perda mais funda escapa aos aparelhos. Durante milênios, o fim do dia impôs uma fronteira à vida social. O comércio fechava, as notícias paravam de chegar, as portas se cerravam, a conversa diminuía. O mundo desistia de nos convocar durante algumas horas. Nesse intervalo cabiam pensamento, memória, oração, leitura, desejo, medo e até o tédio, esse espaço sem produtividade que hoje nos parece defeito a ser preenchido. Pascal escreveu sobre a incapacidade de permanecer quieto dentro de um quarto. Quase quatro séculos depois, levamos o planeta inteiro para dentro dele. Guerras, promoções, cobranças, aniversários, fotografias, tragédias e mensagens desembarcam na mesma tela sob uma ordem silenciosa: olhe agora.

Conheci outra relação com a noite. Adormecia-se ao coro dos grilos, despertava-se com galos, e a faixa leitosa da galáxia atravessava o céu do interior brasileiro com uma naturalidade que hoje exige distância das cidades e alguma sorte. A lembrança dispensa idealizações; cada época entrega alguma coisa e retira outra. O grave aparece quando uma sociedade elimina uma experiência elementar e seus filhos crescem sem sequer saber que poderiam sentir falta dela. Ninguém sente saudade daquilo que nunca lhe permitiram conhecer.

“Uma noite sem pensar”

Minha memória dessa noite passa também pela música. Em 1974, no palco do Canecão, no Rio de Janeiro, Clara Nunes e Paulo Gracindo apresentavam Brasileiro, Profissão Esperança, espetáculo de Paulo Pontes dirigido por Bibi Ferreira e construído em torno das canções de Dolores Duran e Antônio Maria. Dolores morrera em 1959, aos 29 anos. Mulher das madrugadas cariocas, conhecia por dentro esse território em que a cidade diminui de voz e o pensamento aumenta de volume. Numa de suas canções, pediu a Deus quase nada: uma noite comum.

Dá-me, Senhor
Uma noite sem pensar
Dá-me Senhor
Uma noite bem comum
Uma só noite em que eu possa descansar.

O pedido impressiona pela modéstia. Dolores não suplica riqueza, felicidade, permanência ou esquecimento. Quer algumas horas em que a memória lhe conceda licença. E se dispõe a pagar caro por essa breve suspensão do desejo:

Por uma só noite assim posso trocar
O que eu tiver de mais puro e mais sincero
Uma só noite de paz pra não lembrar
Que eu não devia esperar e ainda espero.

Releio esses versos e encontro neles uma diferença decisiva entre a madrugada de Dolores e a nossa. Ela esperava alguém. Seu sofrimento possuía rosto, motivo, ausência. O telefone repousava no gancho, as ruas diminuíam de volume, as janelas se apagavam. Bastava apagar a lâmpada para o mundo se retirar e restarem uma mulher, sua lembrança e o silêncio. O tormento continuava dentro dela, mas a cidade não trabalhava contra seu descanso. A noite ainda sabia terminar o dia.

Essa possibilidade se tornou rara. A espera ganhou engenharia, mercado, algoritmo e modelo de negócio. Esperamos a mensagem, a curtida, a confirmação, o resultado, a encomenda, a resposta, a próxima notícia. Permanecemos de prontidão sem saber exatamente o que aguardamos. Dolores sofria porque ainda esperava alguém; organizamos uma sociedade inteira para manter todos esperando alguma coisa. A economia da atenção descobriu que essa vigília rende dinheiro: cada minuto adicional diante da tela produz audiência, dados, publicidade, consumo. Até o vazio ganhou concorrência.

Direito de terminar o dia

Por isso a discussão sobre a noite ultrapassa astronomia, decibéis e higiene do sono. Está em jogo o direito de terminar o próprio dia. Uma sociedade incapaz de cessar estímulos produz pessoas permanentemente acessíveis, convocáveis e cansadas. Depois procura aplicativos, clínicas, medicamentos, retiros e técnicas de respiração para recuperar uma capacidade que durante séculos vinha incluída no simples movimento do sol: encerrar. O descanso deixou de ser consequência natural da madrugada e passou a exigir disciplina contra tudo o que disputa nossa atenção.

Flagstaff, no Arizona, começou a regulamentar a iluminação externa em 1958 e, em 2001, tornou-se a primeira cidade reconhecida internacionalmente pela proteção de seu céu escuro. A experiência contém uma lição maior que a própria legislação: uma cidade demonstra inteligência também pela luz que sabe dispensar. No plano pessoal, a resistência parece mínima — guardar o telefone, apagar uma lâmpada, fechar uma tela, olhar para cima —, mas enfrenta uma indústria gigantesca organizada no sentido contrário. Durante o sono deixamos de clicar, comprar, reagir, responder e produzir dados. Dormir adquiriu, por isso, uma dimensão quase subversiva.

Dolores Duran morreu cedo demais para conhecer um telefone vibrando sobre o criado-mudo, mas sua súplica atravessou quase sete décadas com uma atualidade que deveria nos constranger. Ela queria uma única noite de paz para interromper uma espera. Precisamos recuperar o significado de uma noite comum antes que a expressão adquira valor arqueológico. Acendemos tudo o que pudemos e chamamos o resultado de progresso, sem perguntar quanto de nós permaneceria desperto depois que as estrelas fossem embora.

Apagaram a noite sem nos avisar. Mais grave: ensinaram-nos a agradecer pela claridade. Só agora começamos a descobrir que estrelas, silêncio, sono e solidão formavam um patrimônio invisível, daqueles cujo preço aparece depois da perda. Recuperá-lo exigirá mais que desligar aparelhos. Exigirá devolver à madrugada o direito de encerrar o dia — e a cada pessoa o direito, cada vez mais raro, de não estar esperando coisa alguma.

https://revistaforum.com.br/opiniao/apagaram-a-noite-sem-nos-avisar/

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