Às margens do Huangpu, uma sinfonia para toda a humanidade

Do discurso de Xi em Xangai emerge uma convicção partilhada no Brasil: a inteligência artificial será cooperação entre povos ou fratura

Washington Araújo - 20/07/2026

Há discursos que informam e há discursos que situam. O pronunciamento do presidente Xi Jinping, na abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em 17 de julho, às margens do rio Huangpu, pertence à segunda espécie: não apenas descreve para onde vai a tecnologia, mas propõe como a humanidade deveria caminhar com ela. Ouvi-lo do Brasil — como professor universitário que, desde 2022, dedica especial interesse acadêmico à inteligência artificial — foi reconhecer, em voz alheia, convicções que venho sustentando há anos. Não escrevo como quem chega à conversa; escrevo como quem, do hemisfério sul, já vinha formulando as mesmas perguntas.

O essencial é simples de enunciar e árduo de cumprir: o progresso técnico não se mede por si mesmo, mas pelo quanto melhora a vida das pessoas. Quando Xi fala de uma inteligência artificial centrada nas pessoas e voltada para o bem, nomeia aquilo que a máquina, sozinha, jamais saberá perguntar. A tecnologia responde à pergunta “como?”; cabe a nós, humanos, guardar a pergunta “para quê?”. Um algoritmo diagnostica um tumor que o olho não viu, traduz línguas que separavam povos, guia o cirurgião às três da manhã — mas nenhuma dessas façanhas decide, por nós, que espécie de mundo queremos habitar.

Regular a IA deixou de ser opcional

Regular a inteligência artificial deixou de ser opcional. A verdadeira questão nunca foi se haverá governança, mas quem a fará, em que prazo e sobre quais valores. Um mundo virtual sem lei não é um mundo livre: é um território onde as regras, como sempre, terminam valendo apenas para os mais fortes. Por isso saúdo o apelo de Xangai a um sistema de governança global justo e equitativo — porque justiça, aqui, começa por decidir quem se senta à mesa em que as normas são escritas.

O discurso toca ainda o nervo mais sensível para nós, do Sul Global. Xi advertiu contra a criação de novas injustiças históricas e prometeu cooperação para capacitar os países em desenvolvimento. Conheço bem o avesso dessa promessa: os dados coletados no Brasil, na Guiné, na Indonésia alimentam modelos treinados alhures, segundo regras que esses países não ajudaram a redigir. Incluir o Sul Global depois que tudo foi decidido é oferecer-lhe apenas a liberdade de aceitar ou recusar. Convocá-lo antes — para escrever, e não somente assinar — é o que transforma retórica em parceria. E não ficou no papel: os centros de cooperação anunciados com a CELAC e com o BRICS, somados às cinco mil vagas de formação prometidas aos países em desenvolvimento, colocam a América Latina no mapa dessa construção — e ao Brasil cabe hoje decidir se comparece como protagonista ou espectador.

Nenhuma nação decide sozinha aquilo que pertence a todas

Partilho, também, a aposta no multilateralismo real. Anunciar a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, reconhecer o papel das Nações Unidas, alinhar padrões técnicos e estratégias de desenvolvimento: tudo isso aponta para uma arquitetura em que nenhuma nação decide sozinha aquilo que pertence a todas. O Brasil, que integra os BRICS e dialoga com a União Africana e o Mercosul, sabe que a cooperação regional não é caridade entre pobres, e sim a forma madura de somar o que, isolado, se dispersa.

E há uma forma concreta de fazê-lo. A China acumulou o que o Brasil persegue — escala industrial, manufatura avançada, a infraestrutura de dados que as sustenta; o Brasil guarda o que a China não replica: a maior biodiversidade do planeta, uma matriz de energia limpa, uma agricultura capaz de alimentar continentes, o Pix, sistema de pagamentos que outros países passaram a estudar. Complementaridade não significa subordinação. Significa encontrar no outro aquilo que falta em si. Agricultura, saúde pública, energias verdes, formação de novos talentos: é aí que a promessa vira projeto entre iguais.

Morar em casa alheia

Há ainda a fronteira da soberania. No século XXI, ela não se mede mais apenas por territórios e exércitos, mas pelo controle da infraestrutura que decide como pensamos, como nos comunicamos e como escolhemos. Uma nação que terceiriza por inteiro a sua nuvem, os seus dados e os seus modelos aceita morar em casa alheia, sem jamais possuir as chaves do próprio futuro. Soberania digital não é detalhe técnico: é a fronteira decisiva da dignidade contemporânea — e um direito que o discurso de Xi, ao valorizar caminhos próprios de desenvolvimento, ajuda a legitimar.

Concordo quando Xangai insiste que a inteligência artificial permaneça sempre sob controle humano. O risco maior do nosso tempo não é a máquina decidir por nós; é aceitarmos, com docilidade crescente, que pensar se tornou esforço dispensável. A dúvida — esse motor silencioso da liberdade — não pode ser terceirizada. Governança madura é, no fundo, a recusa a abdicar do juízo que nos faz humanos, e não a mera administração de riscos técnicos.

Sinfonia de cooperação

Mas a imagem que mais me comoveu foi a da sinfonia. “Uma corda não faz música, uma árvore não faz floresta”, lembrou Xi, para concluir que o desenvolvimento da inteligência artificial deve ser uma sinfonia de cooperação, e não um solo tocado por um único país. Escrevo há anos sobre o mesmo, por outro caminho: a humanidade tornou-se objetivamente interdependente antes de amadurecer a consciência dessa interdependência. Somos, hoje, uma orquestra que ainda não decidiu reger-se. A inteligência artificial pode aprofundar o abismo que nos separa ou tornar-se o instrumento que, enfim, nos afina. Ela não inventa valores: amplia os que lhe entregamos. É espelho, não nascente — devolve, aumentada, a face de quem a programa e de quem a rege. A escolha não é da máquina. É nossa.

Parceiro de pensamento

Por isso me alegra que o discurso una duas exigências que os apressados julgam opostas: preservar a diversidade das civilizações e cultivar os valores comuns da humanidade. Não há contradição entre elas. O jardim só é belo porque cada flor conserva a sua cor; e só é jardim porque todas partilham a mesma terra. Uma inteligência artificial que apague as singularidades culturais em nome da eficiência estatística empobrece a todos; outra, erguida sobre o que há de mais humano em cada povo, pode ampliar a nossa compreensão mútua e aproximar o que a história afastou.

Ouço, portanto, do Brasil, o convite de Xangai como quem reconhece um parceiro de pensamento. Entre a admiração e o medo, entre o solo e a sinfonia, ainda existe um intervalo em que a decisão nos pertence. Que o Brasil e a China, que a América Latina e a Ásia, que o Sul Global inteiro ocupem esse intervalo antes que ele se feche. A inteligência artificial será aquilo que dela fizermos juntos — e prefiro ajudar a construí-la como quem escreve uma partitura a muitas mãos, a ouvi-la como um solo tocado longe, por outros, sobre o nosso silêncio.

https://revistaforum.com.br/opiniao/huangpu-sinfonia-humanidade/

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