As perdas de todos ampliam o espaço da paz

A interdependência global, a guerra assimétrica e a inteligência artificial criaram novos mecanismos de contenção em favor da paz

Washington Araújo - 15/06/2026

Em outubro de 1962, a Crise dos Mísseis de Cuba mostrou a John Kennedy e Nikita Khruschov que uma guerra nuclear poderia produzir o desaparecimento simultâneo dos dois lados. A velha lógica da dissuasão nasceu desse pavor administrado. Em 2026, o medo continua funcionando como freio, mas seus instrumentos deixaram de caber apenas nos silos nucleares.

A Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022. Três anos depois, Moscou não conquistou Kiev, não derrubou o governo ucraniano e não obteve a vitória rápida esperada no início da operação. Do outro lado, os Estados Unidos e seus aliados destinaram centenas de bilhões de dólares a Kiev. O Instituto Kiel, que acompanha a ajuda internacional à Ucrânia desde janeiro de 2022, calcula que o apoio direto americano já chegou a cerca de US$ 127 bilhões, enquanto Europa e Estados Unidos somaram mais de € 240 bilhões nos três primeiros anos da guerra.

Guerras mais caras

A guerra deixou de ser medida apenas pelo tamanho dos exércitos. O orçamento militar dos Estados Unidos ultrapassa US$ 900 bilhões anuais, segundo os levantamentos do SIPRI sobre despesas militares globais. Ainda assim, Washington não conseguiu converter superioridade bélica em solução política rápida nem na Ucrânia nem no Oriente Médio. A Rússia, segunda potência nuclear do planeta, também descobriu que tanques, artilharia e mísseis não bastam para vencer um país menor, motivado, apoiado externamente e capaz de utilizar drones de baixo custo com enorme eficiência.

Essa mudança aparece em cada frente de combate. Drones comerciais adaptados destruíram blindados avaliados em milhões de dólares. Ataques cibernéticos passaram a atingir bancos, hospitais, redes elétricas e bases de dados governamentais. Operações de desinformação interferem no ambiente político antes mesmo do primeiro disparo. A assimetria deixou de ser detalhe tático. Virou método de guerra.

A rivalidade entre Estados Unidos e China organiza boa parte da tensão global. Washington restringiu exportações de semicondutores avançados. Pequim acelerou planos de autossuficiência tecnológica. Mesmo assim, uma ruptura completa teria custo brutal para os dois lados.

Taiwan mostra o tamanho dessa dependência. O território responde por mais de 60% da receita global das fundições de semicondutores e por mais de 90% da fabricação dos chips mais avançados do mundo. Em 2024, sua indústria de semicondutores gerou maisde US$ 165 bilhões, cerca de 20,7% do PIB taiwanês.

Um bloqueio militar no Estreito de Taiwan não atingiria apenas Taipei. Afetaria Apple, Nvidia, AMD, montadoras, bancos, hospitais, satélites, data centers e parte da infraestrutura digital mundial. A economia global construiu uma engrenagem na qual adversários estratégicos dependem uns dos outros para continuar funcionando.

A IA entra no jogo

A inteligência artificial acrescentou nova camada à disputa. O Stanford AI Index registrou US$ 109,1 bilhões em investimento privado americano em IA em 2024, quase 12 vezes o volume aplicado pela China no mesmo período. Em 2025, o relatório elevou o número dos Estados Unidos para US$ 285,9 bilhões, mais de 23 vezes o investimento privado chinês identificado.

A China respondeu com planos estatais de grande escala. Em junho de 2026, a Reuters noticiou que Pequim prepara um programa de aproximadamente US$ 295 bilhões, ao longo de cinco anos, para construir uma rede nacional de data centers voltada à inteligência artificial.

Essas cifras explicam por que a IA passou a integrar o vocabulário da segurança nacional. Sistemas capazes de analisar imagens de satélite, detectar ataques cibernéticos, identificar movimentos militares e antecipar crises humanitárias também podem localizar vulnerabilidades exploráveis por grupos criminosos ou governos hostis.

Vladimir Putin iniciou a guerra apostando na velocidade. Donald Trump voltou à Casa Branca prometendo restaurar autoridade americana com gestos de força. Os dois esbarraram na mesma realidade: poder concentrado não garante vitória limpa.

A Rússia enfrenta sanções, desgaste militar e isolamento diplomático parcial. Os Estados Unidos continuam liderando o maior aparato militar do planeta, mas sua capacidade de impor desfechos diminuiu. O orçamento de defesa americano segue gigantesco, e mesmo assim Washington precisa negociar com aliados, adversários, mercados, empresas de tecnologia e opiniões públicas fragmentadas.

A força continua existindo. Perdeu a antiga pretensão de resolver tudo sozinha.

O preço da vitória

Em 2025, os nove países com armas nucleares gastaram US$ 119 bilhões em seus arsenais, aumento de 19% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares divulgado pela Reuters.

O dado revela a permanência do medo nuclear. Mas esse medo agora divide espaço com outros temores: colapso de cadeias produtivas, apagões digitais, sabotagens cibernéticas, descontrole da IA, guerras por procuração e crises regionais capazes de incendiar mercados em poucas horas.

O que temos de novo é que o mundo entrou em uma fase na qual nenhuma potência consegue calcular todos os custos de uma escalada.

As guerras continuarão existindo enquanto existirem ambições, ressentimentos e disputas de poder. Mas os acontecimentos dos últimos anos deixaram uma lição difícil de ignorar. Nenhuma potência consegue impor sozinha a própria vontade e nenhuma vitória compensa integralmente os custos humanos, econômicos e tecnológicos que ela produz. Os homens que decidem guerras ainda possuem poder para prolongar sofrimentos. Não possuem poder para alterar uma tendência mais profunda da história. A convivência pacífica entre os povos deixou de ser uma utopia generosa. Tornou-se uma exigência da própria sobrevivência humana. A paz é possível. E, cada vez mais, inevitável.

https://revistaforum.com.br/opiniao/as-perdas-de-todos-ampliam-o-espaco-da-paz/

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