As pesquisas falharam e o país exige explicações e desculpas
Entre margens de erro, manchetes categóricas e previsões frustradas, permanece uma questão decisiva para a democracia brasileira: quantos eleitores desistiram de votar acreditando antecipadamente na derrota?
Washington Araújo - 01/11/2026


Imagine um eleitor que precisa atravessar a cidade para votar e, na noite de 24 de outubro, lê no telefone uma notícia revestida da autoridade dos números: Flávio Bolsonaro tinha 51% das intenções de votos válidos; Lula, 49%. A pergunta o acompanha: vale enfrentar ônibus, trânsito e filas se o desfecho já parece decidido?
Às 18h32 daquele sábado, o Datafolha divulgou justamente esses percentuais, embora reconhecesse empate técnico. Quaest, AtlasIntel e outros levantamentos também colocavam Flávio numericamente à frente. No domingo, 25, as urnas deram 51,79% a Lula e 48,21% ao adversário. A autoridade de vários institutos esbarrava na decisão de milhões de pessoas.
Penso sobretudo naquele cidadão para quem votar custa mais do que alguns minutos. A trabalhadora que depende de duas conduções, o idoso que precisa de companhia, a mãe que reorganiza o cuidado dos filhos. Diante da derrota anunciada, a dúvida pode tornar-se insistente: por que sacrificar o domingo por uma escolha aparentemente inútil?
O próprio Datafolha identificou que 24% do eleitorado apresentava propensão média ou baixa a comparecer, considerando a distância da seção e a participação no primeiro turno. Nesse grupo, Lula marcava 52% e Flávio, 48%; entre os mais propensos, a relação se invertia. O instituto mediu os obstáculos ao comparecimento. Faltou considerar quanto uma manchete poderia agravá-los.
No segundo turno, 30,5 milhões de brasileiros se abstiveram, embora a ausência tenha caído de 21,08% para 19,22% entre os turnos. Não sabemos quantos foram influenciados pelas sondagens. Mas também seria intelectualmente preguiçoso ignorar a pergunta: quantos deixaram de sair de casa porque acreditaram que sua participação já nada modificaria?
A influência pode ocorrer por caminhos conhecidos da psicologia social. O efeito de adesão ao provável vencedor seduz alguns indecisos; a percepção de derrota desanima outros; a repetição das mesmas cifras cria a aparência de consenso. Quem vota estrategicamente, acompanha notícias de maneira intermitente ou enfrenta custos elevados para comparecer pode sentir essas pressões com intensidade particular.
Quem transforma estatística em manchete assume responsabilidade adicional. Uma pesquisa com empate técnico admite incerteza relevante; a chamada que proclama um candidato à frente transmite certeza emocional muito diferente. Quando jornais, televisão e grupos de mensagens reproduzem a mesma hierarquia de números, o cidadão recebe dezenas de vezes uma conclusão que os próprios dados recomendavam tratar com prudência.
A célebre fórmula dos “95% de confiança” pode reforçar a aparência de segurança. Seu sentido técnico é outro: se o procedimento amostral e suas hipóteses fossem repetidos muitas vezes, cerca de 95 em 100 intervalos estimados conteriam a proporção verdadeira daquele momento. Não são 95% de chance de acertar o vencedor; tampouco imunidade contra recusas, vieses e mudanças de comparecimento.
Quando tantas medições apontam a mesma direção equivocada, a pergunta se impõe: falhas semelhantes ou tentativas de moldar expectativas? A hipótese de manipulação não pode ser descartada por deferência aos institutos. É preciso examinar a seleção de entrevistados, ponderações, financiamento e escolhas editoriais. A gravidade da suspeita exige investigação independente, com documentos e métodos abertos ao escrutínio.
Divulgar sondagens menos de 14 horas antes da abertura das urnas exige debate público. O Supremo, em 2006, protegeu a liberdade de informação ao derrubar uma proibição de pesquisas. Esse direito importa. Mas quem defende a divulgação irrestrita deve responder por que uma estimativa potencialmente equivocada pode ganhar alcance nacional quando quase inexiste tempo para questioná-la.
Seria razoável exigir a publicação simultânea dos dados completos, das taxas de recusa, dos critérios de ponderação e da diferença entre liderança numérica e empate técnico. Veículos deveriam dar às revisões metodológicas visibilidade comparável à das pesquisas. A correção publicada depois da votação pode aperfeiçoar a ciência; jamais devolve ao eleitor a manhã em que desistiu de participar.
O problema permanece humano. Uma democracia pede que cada cidadão sinta que seu esforço importa, especialmente quando votar exige vencer obstáculos cotidianos. Ao transformar incertezas em presságios, os intérpretes da opinião pública podem interferir na disposição de exercer um direito. A urna pertence a quem chega até ela; nenhum instituto deveria contribuir para que alguém deixasse de chegar.
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