Brexit tentou romper a marcha da unidade humana — e falhou

Dez anos após o Brexit, estudos estimam perdas entre 6% e 8% do PIB potencial britânico, enquanto a integração europeia permanece como referência econômica mundial

Washington Araújo - 26/06/2026

Sempre considerei fascinante observar como a humanidade resolve seus grandes impasses. Quase nunca o faz pela força permanente. Resolve-os ampliando o círculo de pertencimento. Foi assim durante milhares de anos. A família tornou-se clã. Os clãs deram origem às tribos. As tribos consolidaram cidades. As cidades transformaram-se em Estados. Os Estados formaram nações. Nos dois últimos séculos surgiram iniciativas de integração regional que pareciam impensáveis poucas gerações antes. A história humana, vista em perspectiva, revela um lento movimento de ampliação da cooperação política, econômica e institucional.

É por isso que nunca enxerguei a integração europeia apenas como um acordo comercial. Ela representa um dos mais ousados laboratórios políticos já construídos. Pode cometer erros, produzir burocracias excessivas e exigir reformas profundas. Ainda assim, continua sendo um experimento extraordinário porque tenta responder a uma pergunta que acompanha nossa civilização desde sempre: como povos diferentes podem prosperar sem recorrer continuamente à guerra?

Para compreender essa experiência é preciso lembrar como era a Europa antes dela. Durante séculos, o continente foi o principal palco das disputas militares do planeta. Franceses, alemães, ingleses, espanhóis, italianos, austríacos, russos e inúmeros outros povos alternaram alianças e conflitos que custaram dezenas de milhões de vidas. Somente entre 1914 e 1945, duas guerras mundiais devastaram cidades inteiras, destruíram economias e deixaram marcas que atravessam gerações.

Foi justamente dessa tragédia que nasceu uma ideia revolucionária.

A Comunidade Econômica Europeia

Em 9 de maio de 1950, o ministro francês das Relações Exteriores, Robert Schuman, apresentou uma proposta elaborada em estreita colaboração com Jean Monnet. Em vez de administrar apenas a paz, seria necessário construir instituições capazes de impedir materialmente uma nova guerra entre França e Alemanha. A solução parecia simples e genial ao mesmo tempo: colocar sob administração comum justamente as indústrias de carvão e aço, indispensáveis para fabricar armamentos.

No ano seguinte, em 1951, França, Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo assinaram o Tratado de Paris, criando a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Era muito mais do que um acordo econômico. Era uma tentativa de tornar a guerra economicamente irracional.

O passo seguinte ocorreu em 25 de março de 1957, quando os mesmos seis países assinaram os Tratados de Roma, criando a Comunidade Econômica Europeia. Nascia o mercado comum europeu, baseado na livre circulação de mercadorias, capitais, serviços e, progressivamente, pessoas.

Década após década, esse projeto ganhou novos integrantes e novas instituições. Em 1979, ocorreram as primeiras eleições diretas para o Parlamento Europeu. Em 1992, o Tratado de Maastricht transformou aquela comunidade econômica na atual União Europeia, ampliando a integração política, jurídica e monetária. Anos depois viria o euro, hoje adotado por vinte países.

Nenhum outro continente construiu algo semelhante com tamanha profundidade institucional.

Enquanto isso, o Reino Unido mantinha uma relação permanentemente ambivalente com esse projeto. Curiosamente, Charles de Gaulle, presidente francês frequentemente associado à construção europeia, foi um dos maiores opositores à entrada britânica. Em 1963 e novamente em 1967, vetou o ingresso de Londres por acreditar que o país mantinha vínculos excessivamente estreitos com os Estados Unidos e jamais compartilharia plenamente da visão continental europeia.

Somente em 1973, já depois da saída de De Gaulle do poder, os britânicos ingressaram na Comunidade Econômica Europeia.

Um pé dentro e outro fora

Mesmo assim, permaneceram sempre com um pé dentro e outro fora. Optaram por não adotar o euro. Permaneceram fora do Espaço Schengen. Negociaram sucessivos regimes especiais. Em muitos momentos, comportaram-se mais como parceiros comerciais do que como participantes de um projeto político comum.

Esse desconforto histórico alimentou, durante décadas, o crescimento do euroceticismo. A burocracia de Bruxelas passou a ser apresentada por parte da política britânica como símbolo da perda de soberania nacional. Questões relacionadas à imigração, à legislação comum e às contribuições financeiras para o bloco transformaram-se em combustível eleitoral.

A saída

Foi nesse ambiente que o então primeiro-ministro David Cameron convocou o referendo realizado em 23 de junho de 2016.

Naquele dia, 51,9% dos eleitores decidiram retirar o Reino Unido da União Europeia.

A promessa parecia sedutora: recuperar plenamente o controle das fronteiras, libertar-se da regulamentação europeia, ampliar acordos comerciais independentes e devolver ao país uma soberania que muitos julgavam perdida.

A década seguinte transformaria essas promessas em um dos mais ricos estudos de caso da economia política contemporânea.

Os primeiros anos após o referendo foram marcados por intensas negociações. A saída oficial ocorreu em 31 de janeiro de 2020, mas somente em 1º de janeiro de 2021 passaram a valer integralmente as novas regras comerciais e aduaneiras entre Londres e Bruxelas. Muitos defensores do Brexit pediam paciência. Argumentavam que os ganhos apareceriam no médio e no longo prazo. Passados dez anos da consulta popular, já existe um conjunto suficientemente amplo de indicadores para avaliar, com menos paixão e mais evidências, o que de fato aconteceu.

Desgaste lento e acumulativo

O jornal espanhol La Vanguardia publicou, em junho deste ano, uma ampla reportagem baseada nas conclusões do Global Trade Policy Observatory (GTPO), centro de estudos ligado à Universidade de Sussex. O diagnóstico está longe da retórica apocalíptica anunciada por alguns adversários do Brexit. O Reino Unido não entrou em colapso, não enfrentou uma depressão econômica permanente nem deixou de ser uma das maiores economias do planeta. Mas o estudo também desmonta a narrativa otimista construída pelos defensores da ruptura.

Segundo estimativas do National Institute of Economic and Social Research (NIESR), a economia britânica produz hoje entre 6% e 8% menos riqueza do que produziria caso tivesse permanecido na União Europeia. Jonathan Portes, economista do King’s College London, resume o fenômeno como um desgaste lento e acumulativo sobre o comércio, os investimentos e a produtividade. Não se trata de uma crise explosiva. Trata-se de uma perda persistente de dinamismo.

Os efeitos distribuíram-se de forma desigual. Pequenas e médias empresas foram obrigadas a conviver com novas exigências alfandegárias, certificados sanitários, controles de fronteira e custos administrativos que praticamente desapareceram durante o período de integração plena. Para muitas delas, exportar para a Europa tornou-se simplesmente mais caro. O próprio relatório identifica aumento aproximado de 6% nos custos de importação de alimentos, pressionando especialmente os orçamentos das famílias de menor renda. Arthur Blanchard, um dos autores do estudo, conclui que o Brexit ampliou a desigualdade econômica dentro do Reino Unido.

O comércio internacional

Outra promessa submetida à realidade dizia respeito ao comércio internacional. Repetia-se que, livre das regras de Bruxelas, Londres assinaria rapidamente dezenas de acordos mais vantajosos ao redor do mundo. O resultado mostrou-se bem mais modesto. Em uma década, apenas quatro novos acordos relevantes foram concluídos, produzindo um benefício estimado de 0,32% do PIB. Enquanto isso, a União Europeia avançou em negociações estratégicas com parceiros como Mercosul, Índia e Austrália, preservando seu enorme poder de barganha internacional.

A City de Londres também perdeu parte de sua centralidade. Mais de 440 instituições financeiras transferiram atividades para Paris, Frankfurt, Dublin e Amsterdã. Cerca de 900 bilhões de libras esterlinas em ativos bancários migraram para outros centros financeiros. A ironia é que o grande vencedor desse rearranjo não foi outra capital europeia, mas Nova York, que ampliou sua influência sobre mercados antes concentrados na capital britânica.

Nem mesmo a tão anunciada autonomia regulatória ocorreu na dimensão prometida. Para continuar vendendo ao mercado europeu, empresas britânicas permanecem adaptando produtos às normas definidas em Bruxelas. A diferença é evidente: antes, Londres participava das negociações que produziam essas regras; hoje, em grande medida, limita-se a segui-las para preservar o acesso ao maior mercado consumidor do continente.

A energia oferece outro exemplo eloquente. O Reino Unido continua importando parte significativa da eletricidade consumida, sobretudo da França, e procura ampliar mecanismos de cooperação com o mercado energético europeu. A independência absoluta revelou-se muito menos prática do que parecia durante a campanha do referendo.

A imigração

Mas talvez nenhum tema exponha tamanho contraste entre discurso e realidade quanto a imigração. A entrada de cidadãos provenientes da União Europeia diminuiu sensivelmente. Em compensação, aumentou a imigração oriunda de países como Índia, Nigéria e Paquistão. O perfil dos imigrantes mudou; o volume total não apenas permaneceu elevado como alcançou recordes históricos. A promessa de “retomar o controle das fronteiras” mostrou-se bem mais complexa do que sugeriam os slogans eleitorais.

Estruturas crescentes de cooperação

Não interpreto esses resultados como uma condenação definitiva ao Reino Unido. A história raramente encerra capítulos de forma absoluta. Nações reinventam estratégias, corrigem equívocos e recuperam protagonismo. O que essa experiência oferece ao restante do mundo é uma lição mais ampla: problemas produzidos pela interdependência dificilmente encontram solução duradoura por meio do isolamento.

Continuo convencido de que a História caminha, lentamente, na direção oposta. Assim como famílias se transformaram em comunidades, comunidades em cidades, cidades em Estados nacionais e estes passaram a construir organizações regionais, também os grandes desafios do século XXI exigem estruturas crescentes de cooperação. União Europeia, Mercosul, Nafta — hoje sucedido pelo USMCA —, Asean, União Africana e até experiências fracassadas, como o Comecon, nasceram da mesma intuição histórica: sociedades interdependentes precisam aprender a governar essa interdependência.

Um governo mundial

Não imagino um governo mundial surgindo por decreto nem por imposição. Imagino um processo gradual, construído ao longo de gerações, impulsionado pela economia, pela ciência, pelas mudanças climáticas, pela tecnologia e pela própria convivência humana. A unidade política do planeta pode parecer distante, assim como parecia impossível imaginar, há cinco séculos, dezenas de pequenos reinos europeus compartilhando moeda, parlamento, tribunais e políticas comuns.

Talvez o maior legado do Brexit não seja a saída de um país da União Europeia. Talvez seja recordar que a História raramente avança em linha reta. Ela experimenta, recua, corrige rotas e volta a seguir adiante. O essencial é não perder de vista a direção mais ampla do percurso humano. E, observada da altura dos milênios, essa direção continua apontando menos para a fragmentação do que para uma cooperação cada vez mais abrangente entre os povos.

https://revistaforum.com.br/opiniao/brexit-tentou-romper-a-marcha-da-unidade-humana-e-falhou/

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