Che Guevara vai muito além do retrato

A imagem de Che feita em Cuba por Alberto Korda não registra apenas um momento — ela suspende o tempo e continua interrogando quem ousa sustentar aquele olhar

Washington Araújo - 01/05/2026

Sim, é verdade, existem imagens que nascem como registro e morrem como arquivo. Outras fazem o caminho inverso: surgem quase invisíveis e, com o tempo, tornam-se uma espécie de linguagem universal. A fotografia de Ernesto “Che” Guevara feita por Alberto Korda pertence a esse segundo grupo — não porque foi planejada como símbolo, mas porque escapou de qualquer planejamento.

O dia era 5 de março de 1960, em Havana. A cidade estava atravessada por tensão e luto após a explosão do navio La Coubre, episódio que matou mais de uma centena de pessoas e redefiniu o ambiente político da ilha. O ato público que reuniu milhares de pessoas tinha função política clara: consolidar apoio interno e projetar, para fora, a imagem de um governo em afirmação. Nesse cenário, a construção simbólica de seus líderes não era acessória — era estratégica.

Alberto Korda, fotógrafo do jornal Revolución, estava ali com uma missão objetiva: documentar o evento. Curiosamente, o foco não era Che Guevara. As lentes se voltavam majoritariamente para Fidel Castro e para os visitantes estrangeiros Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, cuja presença conferia densidade intelectual ao novo regime. A folha de contato desse dia — esse diário visual — mostra repetição, método e previsibilidade.

Até que algo se desloca.

Em determinado momento, Che avança até a borda da tribuna. Korda reage e faz dois disparos: um horizontal, outro vertical. A cena dura segundos. Nada indica que aquele fragmento atravessaria o século. O ponto decisivo viria depois: a imagem consagrada é um recorte da fotografia horizontal, uma escolha estética que elimina o contexto e instala o símbolo.

Esse gesto transforma tudo. O que era documento torna-se projeção. Che deixa de estar em Havana e passa a existir num território simbólico. O olhar — duro, tenso, quase atravessado por dor — sustenta essa transição. O próprio Korda diria que ali havia “implacabilidade” e “raiva”, concentradas num único ponto de fuga.

Mas essa fotografia também carrega duas biografias.

Ernesto Guevara de la Serna, nascido na Argentina em 1928, formou-se médico antes de se tornar guerrilheiro. Sua trajetória foi moldada por viagens pela América Latina, onde testemunhou desigualdades estruturais que redefiniram sua visão política. Em Cuba, tornou-se uma das figuras centrais da Revolução, ocupando funções de governo e atuando como estrategista militar. Sua frase mais citada — “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás” — sintetiza uma tensão entre rigor e sensibilidade que a fotografia parece condensar no olhar.

Alberto Díaz Gutiérrez, o Korda, também nasceu em 1928, em Havana. Começou fotografando casamentos e rapidamente migrou para a fotografia de moda, onde desenvolveu o domínio do enquadramento e da composição. A revolução o desloca: ele abandona o glamour e se torna fotógrafo oficial de Fidel Castro. Anos depois, ao comentar sua imagem mais famosa, afirmou algo revelador: não buscava lucro, mas a difusão de ideias. Chegou a permitir a reprodução livre da foto por acreditar que ela servia à causa que retratava.

A fotografia, no entanto, ultrapassou ambos.

O diretor do Museu de Fotografia da Califórnia, Jonathan Green, afirmou que a imagem se tornou “um hieróglifo, um símbolo instantâneo” que reaparece sempre que há conflito. Já o Instituto de Arte de Maryland a classificou como a imagem mais famosa do século XX. Nenhuma outra fotografia circulou com tanta intensidade, atravessando política, arte e mercado.

Curiosamente, ela não nasceu pública. Ficou anos guardada, até ganhar o mundo após a morte de Che, em 1967. Nesse momento, deixou de ser fotografia para se tornar linguagem.

E talvez seja isso que ainda nos prende a ela.

Korda recortou o mundo ao redor de Che. Ao fazer isso, não simplificou — abriu. Criou uma imagem que não pertence mais ao passado, nem ao seu autor, nem ao próprio Che. Uma imagem que continua sendo preenchida por quem a olha.

O artista irlandês Jim Fitzpatrick, responsável pela versão gráfica que popularizou a imagem em alto contraste, afirmou que não pretendia “criar um ícone”, mas libertar a fotografia de qualquer propriedade individual, permitindo que ela circulasse como um gesto coletivo de resistência. Já Susan Sontag, ao refletir sobre o poder das imagens, sugeria que certas fotografias não informam — elas convocam, deslocam, inquietam, tornando-se experiências morais condensadas. No caso de Che, essa convocação permanece ativa.

O fotógrafo Henri Cartier-Bresson, mestre do instante decisivo, via na imagem de Korda algo raro: não o flagrante do acontecimento, mas a suspensão dele. Para ele, o retrato ultrapassava o tempo da ação e entrava no território da permanência, onde o gesto já não importa, apenas a intensidade do olhar. E o cineasta Wim Wenders chegou a dizer que poucas imagens na história conseguiram sintetizar, com tamanha economia visual, uma ideia inteira de mundo.

Essas leituras não esgotam a fotografia — ao contrário, ampliam seu campo de ressonância. Porque há algo de profundamente humano nesse rosto que não se entrega completamente. Algo que resiste à explicação, mas se oferece à contemplação.

E é por isso que ainda voltamos a esse olhar — não para entender um homem, mas para medir o quanto ainda projetamos nele aquilo que falta em nós —, e talvez seja justamente nessa projeção que a imagem continua viva, pulsando entre memória, desejo e aquilo que insistimos em transformar em horizonte.

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