Chico Vigilante, meio século defendendo quem vive do próprio trabalho
Do Maranhão ao microfone presidencial no Palácio do Planalto, a vida de Chico Vigilante atravessa cinco mandatos no DF, uma amizade duradoura e décadas de compromisso sindical
Washington Araújo - 07/08/2026


Em 9 de junho de 2026, no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quebrou o protocolo de uma cerimônia oficial para chamar ao microfone presidencial um deputado distrital do Partido dos Trabalhadores. O gesto marcava a regulamentação de um decreto voltado à categoria dos vigilantes brasileiros, e o homem chamado à frente das câmeras era Francisco Domingos dos Santos, o Chico Vigilante, apresentado por Lula como compadre e como símbolo nacional da luta da categoria, alguém que soube se desenvolver não apenas profissionalmente, mas politicamente, ao longo de toda uma vida de trabalho. Emocionado, Chico relembrou publicamente o primeiro encontro dos dois, em 1979, nas galerias do Congresso Nacional, relembrou a ajuda financeira recebida naquela ocasião do jovem metalúrgico do ABC paulista, relembrou a viagem posterior a São Bernardo do Campo e relembrou, com evidente orgulho, o convite feito ao próprio Lula para ser padrinho de um de seus filhos. Diante das câmeras, tratou o decreto assinado naquele dia como a consagração de um sonho antigo, nascido ainda em seu mandato de deputado federal, quando apresentara o primeiro esboço de um estatuto para a categoria, projeto interrompido por sua derrota eleitoral e depois conduzido à maturidade legislativa pelo colega Paulo Rocha. Aproveitou o momento para pedir ao governo a criação de uma medida provisória de combate ao calote salarial, tanto no setor público quanto no privado, reivindicação que definiu como fundamental para trabalhadores cansados de ver o próprio salário virar promessa não cumprida. Encerrou o discurso concedendo ao próprio Lula, em tom de brincadeira carregada de afeto, o título de vigilante honorário do Brasil.
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O menino de Vitorino Freire
Vitorino Freire fica a quilômetros de distância de qualquer sonho de poder. Ali nasceu, em 8 de setembro de 1954, Francisco Domingos dos Santos, filho de Josefa Aclísia dos Santos e Raimundo Domingos dos Santos, criado numa terra maranhense que exporta braços fortes e histórias de superação para todos os cantos do Brasil. Concluiu apenas o ensino primário em sua cidade natal, formação escassa que jamais se converteu em limite para a trajetória que construiria décadas depois. Ninguém naquele chão de infância poderia imaginar que aquele menino se tornaria uma das figuras mais duradouras da política do Distrito Federal, reeleito para cinco mandatos consecutivos na Câmara Legislativa, símbolo de uma travessia que mistura suor operário, fé sindical e compromisso inabalável com quem vive do próprio trabalho.
O radinho de pilha e a voz do metalúrgico
Francisco chegou a Brasília em 1977, aos vinte e três anos, carregando a bagagem comum a milhões de nordestinos que migraram rumo ao Planalto Central em busca de oportunidade. Encontrou emprego como vigilante noturno, profissão que definiria seu apelido e, mais tarde, sua identidade pública. Casou-se com Lindalva ainda nos primeiros anos na capital federal e teve dois filhos, Leila e Flávio, que costuma descrever como sua maior riqueza, frase que revela o homem por trás do político nas raras ocasiões em que fala de si mesmo fora do palanque. Nas madrugadas solitárias de trabalho, um radinho de pilha era sua única companhia, e por ele ouvia as declarações inflamadas de um metalúrgico do ABC paulista chamado Luiz Inácio Lula da Silva, então liderança emergente do movimento sindical brasileiro. “Eu ouvia Lula falar no rádio e pensava comigo mesmo: quero ser como ele”, contaria o próprio Chico anos depois. Aquela voz distante, ouvida em plena vigília noturna, plantou nele a semente de um engajamento que atravessaria toda a vida adulta.
Um dinheiro para a greve
Em 1979, aos vinte e cinco anos, deu o primeiro passo rumo à vida pública ao fundar a Associação dos Vigilantes do Distrito Federal, entidade que mais tarde se transformaria em sindicato da categoria. Foi justamente naquele ano, em meio a uma greve que reivindicava a criação de uma política salarial ainda inexistente no país, que Francisco e o metalúrgico do radinho de pilha se encontraram pela primeira vez, cara a cara, e não apenas através das ondas curtas de um transistor. Os vigilantes fardados ocuparam as galerias do Congresso Nacional, gritando contra o presidente da Casa, apelidado de Passarinho, enquanto lá embaixo, na rampa, estendiam uma faixa de protesto. Foi ali que um jovem sindicalista de São Bernardo do Campo parou para conversar, ofereceu solidariedade e ainda deixou um dinheiro modesto para ajudar a manter a greve viva. Aquele gesto simples, entre dois trabalhadores desconhecidos um do outro, tornou-se a semente de uma amizade que atravessaria meio século de história política brasileira.
Presidiu a associação de vigilantes ao longo dos anos oitenta e tornou-se também dirigente nacional da Central Única dos Trabalhadores, a CUT, recém-criada e já decisiva na articulação dos trabalhadores brasileiros contra o arbítrio da ditadura militar, cargo que ocupou por praticamente uma década inteira. Ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores no Distrito Federal, entidade que presidiria por três vezes ao longo da carreira, consolidando uma liderança sindical que o projetaria definitivamente para a arena eleitoral. Foi a São Bernardo do Campo ajudar nas greves do ABC paulista, devolvendo em solidariedade o gesto recebido nas galerias do Congresso, e construiu com Lula um vínculo que ultrapassaria décadas, ultrapassaria mandatos, ultrapassaria até mesmo a política, a ponto de o presidente se tornar padrinho de um dos filhos de Chico, honraria que o próprio deputado costuma citar com visível orgulho quando fala da amizade que os une.
Em 1986, Chico Vigilante disputou vaga de deputado constituinte com campanha modesta, percorrendo a rodoviária de Brasília ao lado do professor Lauro Campos, munidos apenas de um megafone, e obteve votação expressiva que, mesmo assim, não foi suficiente para garantir posse, em razão do quociente eleitoral da época. Quatro anos depois, em 1990, conquistou finalmente uma cadeira na Câmara dos Deputados. Reeleito em 1994, tornou-se o deputado federal mais votado de Brasília e, proporcionalmente, o mais votado de todo o Brasil naquela eleição, marca que revela a intensidade do vínculo construído com o eleitorado da capital ao longo da década anterior de militância sindical.
A derrota de 1998 não encerrou a caminhada, apenas a redirecionou. Chico Vigilante migrou para a disputa distrital e, em 2002, conquistou uma cadeira na Câmara Legislativa, onde passou a atuar em frentes como segurança pública, saúde, defesa do consumidor, educação e ocupação do solo urbano, temas que atravessam diretamente a vida cotidiana da população de Ceilândia, cidade onde reside desde a chegada a Brasília e que se tornou base afetiva e eleitoral de sua trajetória. Presidiu o PT-DF a partir de 2005 e enfrentou, no ano seguinte, uma eleição interna contestada, revertida judicialmente a seu favor, episódio que revela a dureza das disputas vividas por quem constrói carreira longa dentro de um mesmo partido.
Da tribuna ao diagnóstico
Em junho de 2017, Chico Vigilante anunciou publicamente, por vídeo nas redes sociais, o diagnóstico de câncer na tireoide, decisão tomada em nome da transparência que sempre disse cultivar com seus eleitores. Submeteu-se à cirurgia dias depois, teve o tumor removido e voltou ao mandato sem sinais posteriores da doença, atravessando o próprio drama pessoal com a mesma determinação que havia marcado a travessia do Maranhão até a capital federal décadas antes.
Reeleito em 2010, 2014, 2018 e 2022, Chico Vigilante consolidou-se como principal voz de oposição aos governos de Rodrigo Rollemberg e Ibaneis Rocha, fiscalizando o Executivo distrital e apresentando propostas nas áreas que sempre priorizou. Em 2018, no auge da perseguição judicial contra Lula, incorporou o nome do amigo e correligionário ao próprio nome parlamentar, passando a assinar como Chico Vigilante Lula da Silva, gesto de lealdade que sintetiza décadas de convivência política e afetiva entre os dois. Contaria mais tarde que, quando da prisão injusta do presidente, ele e toda a sua família sofreram profundamente, e que a soltura trouxe de volta uma alegria capaz de resumir, sozinha, o tamanho daquele elo.
Sou apartidário a vida toda, por escolha e por princípio. Um candidato conquista meu voto apenas quando comprova força de caráter, defesa firme das populações mais vulneráveis — os pobres, as mulheres, os indígenas, os afrodescendentes, os meninos de rua —, compromisso efetivo com a inclusão de todos e com a unidade nacional, e uma mente bem preparada para exercer com dignidade a função de representar a sociedade. O critério final, o mais difícil de mensurar, é a sinceridade da intenção de servir à coletividade. É essa a medida que aplico a qualquer trajetória política, sempre como observador, no propósito de que o leitor, na hora de votar, decida de forma informada e consciente.
Uma vigília que atravessa gerações
Não conheço pessoalmente Chico Vigilante. Conheço, sim, através de décadas de atuação pública, a marca de quem respira direitos do trabalhador dia e noite, noite e dia, sem hiato, sem pausa, sem descanso aparente. Essa marca atravessa cada capítulo de sua trajetória, do radinho de pilha nas madrugadas de vigia até o microfone presidencial em pleno Palácio do Planalto, meio século depois. A trajetória do vigilante noturno que ouvia Lula no rádio e sonhava em ser como ele tornou-se, com o tempo, parte da própria história da Câmara Legislativa do Distrito Federal, casa que ele ajudou a erguer com a mesma disciplina silenciosa das rondas noturnas de sua juventude maranhense, e parte também da história de um país que, naquela manhã de junho de 2026, finalmente reconheceu em lei o ofício que moldou a vida inteira de Francisco Domingos dos Santos.
https://www.brasil247.com/blog/chico-vigilante-meio-seculo-defendendo-quem-vive-do-proprio-trabalho/
