Como no mito de Sísifo, seguimos empurrando a pedra da história montanha acima

Entre guerras prolongadas, crises climáticas e sociedades polarizadas, o século XXI revive o mito de Sísifo; a cada tentativa de reconstrução, a pedra da história ameaça rolar novamente

Washington Araújo - 18/03/2026

Em 4 de janeiro de 1960, um acidente automobilístico encerrou abruptamente a vida de Albert Camus. O carro esportivo Facel Vega, dirigido por seu editor Michel Gallimard, saiu da estrada e chocou-se violentamente contra uma árvore em uma estrada francesa. Camus morreu instantaneamente, aos 46 anos. No bolso do casaco encontraram uma passagem de trem que ele havia comprado para a mesma viagem, mas decidira não usar.

O detalhe parece banal, mas carrega uma ironia devastadora: um homem que dedicou a vida a examinar o absurdo terminou vencido por ele. Em um de seus textos mais citados, Camus escreveu: “O verdadeiro problema filosófico é o suicídio”. A frase não era provocação retórica, mas uma pergunta radical: vale a pena viver?

O pequeno pedaço de papel tornou-se um símbolo involuntário daquilo que atravessa toda a sua obra: a indiferença do mundo diante dos projetos humanos.

Três anos antes, em 1957, ele havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura. A consagração veio cedo, e o próprio Camus demonstrava desconforto com ela.

Em seu discurso de aceitação, ele ofereceu uma definição austera do papel do escritor: “Cada geração se crê destinada a refazer o mundo. A minha sabe, porém, que não o refará. Mas sua tarefa é talvez maior: impedir que o mundo se desfaça”.

Em outro momento afirmou: “A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”. Para muitos leitores, sua obra parecia girar em torno de uma pergunta incômoda: como viver quando o universo não oferece respostas?

A formulação mais clara desse problema aparece em “O Mito de Sísifo”. O ensaio parte de uma antiga narrativa da mitologia grega. Sísifo, condenado pelos deuses, deve empurrar eternamente uma pedra montanha acima. Quando o esforço finalmente termina, a rocha rola novamente para o vale. O castigo recomeça.

A imagem resume aquilo que Camus chamou de absurdo: o encontro entre o desejo humano de sentido e um mundo que permanece silencioso.

O filósofo não via o absurdo como uma tragédia metafísica, mas como uma condição concreta da existência.

A vida cotidiana oferece inúmeras versões do trabalho de Sísifo: rotinas repetidas, expectativas frustradas, planos interrompidos por forças que não controlamos. A morte inesperada de Camus acabaria reforçando, ironicamente, esse diagnóstico.

Diante desse cenário, Camus rejeita duas respostas frequentes. A primeira é a desistência, que ele associa ao suicídio filosófico ou literal. A segunda é a construção de ilusões reconfortantes que prometem um sentido definitivo.

Para ele, ambas evitam encarar o problema.

A alternativa proposta por Camus é mais austera: reconhecer o absurdo e, ainda assim, continuar vivendo. Não se trata de esperança transcendental, mas de lucidez.

O homem absurdo sabe que o universo não lhe oferece explicações finais, porém escolhe agir, criar e amar dentro dessa ausência de garantias.

No final do ensaio, Camus formula uma das imagens mais conhecidas da filosofia moderna: é preciso imaginar Sísifo feliz.

A felicidade não surge porque o trabalho deixa de ser inútil, mas porque o próprio ato de empurrar a pedra passa a ser escolhido conscientemente. O sentido não está no destino, mas na atitude.

Essa visão atravessa também sua obra literária. Em “O Estrangeiro”, o protagonista Meursault enfrenta um mundo que exige emoções e justificativas que ele não consegue oferecer. A frieza do personagem expõe o desconforto de uma sociedade que prefere narrativas claras a verdades incertas.

Mais perturbador ainda é perceber que Meursault não é punido apenas por matar um homem, mas por falhar no teatro social da sensibilidade. Durante o julgamento, o que pesa contra ele não é apenas o crime, mas o fato de não ter chorado no funeral da mãe. A justiça transforma-se, assim, em um tribunal moral que exige gestos codificados de humanidade.

Camus desmonta essa engrenagem com precisão incômoda: talvez a sociedade tema menos a violência do que a honestidade radical de quem se recusa a fingir sentimentos que não possui.

Camus manteve posições independentes ao longo da vida, inclusive rompendo com Jean-Paul Sartre em debates políticos do pós-guerra. Essa autonomia intelectual fazia parte da mesma recusa em aceitar respostas prontas.

Talvez por isso a passagem de trem não utilizada permaneça como um detalhe quase literário de sua morte.

Ela lembra que nossos planos raramente seguem o roteiro imaginado.

Mas também recorda outra coisa que Camus insistiu em afirmar: mesmo quando o mundo não oferece sentido, o intervalo entre o nascimento e a morte continua sendo um território de escolhas humanas. Empurramos a pedra todos os dias — e é nesse esforço que a vida ganha forma.

Talvez seja justamente nesse ponto que o mito de Sísifo volta a dialogar com o nosso tempo. A pedra que rola montanha abaixo não pertence apenas ao herói da mitologia; ela reaparece nas crises sucessivas que atravessam o século XXI. Guerras que parecem intermináveis, populações inteiras expulsas de suas casas, filas silenciosas de refugiados caminhando por estradas desconhecidas, enquanto nações discutem fronteiras e interesses. A cada tentativa de reconstrução, novas ruínas surgem no horizonte, como se a pedra da história insistisse em voltar ao vale.

Camus diria que esse cenário não é apenas político, mas existencial. O absurdo se manifesta quando sociedades inteiras procuram sentido em lideranças incapazes de olhar além de si mesmas. O fanatismo religioso ou ideológico endurece o espaço público, o materialismo transforma consumo em substituto de significado e a ética das relações humanas se dilui em disputas permanentes por poder e prestígio. Milhões trabalham sem horizonte, outros tantos são empurrados para o desemprego estrutural, enquanto catástrofes ambientais ampliam a sensação de fragilidade coletiva.

Mas o pensamento de Camus não termina no desespero. Assim como Sísifo, a humanidade continua subindo a montanha, mesmo sabendo que a pedra pode cair outra vez. A dignidade não está em vencer definitivamente a tarefa, mas em recusarmos a indiferença e continuarmos empurrando — reconstruindo cidades, acolhendo estrangeiros, defendendo a justiça possível. É nesse gesto repetido, consciente e teimoso que a lucidez se transforma em esperança.

Talvez seja por isso que “O Estrangeiro” continue sendo um livro tão desconfortável. Ele não oferece consolo nem moral final. O que Camus faz é retirar lentamente as camadas de justificativas que usamos para explicar a vida — e, quando percebemos, estamos diante de um espelho inesperado. Meursault revela algo que preferimos ignorar: a possibilidade de viver sem máscaras sentimentais, sem narrativas reconfortantes, sem promessas de redenção.

Esse choque ainda ressoa hoje. Em uma época saturada por discursos prontos, indignações performáticas e moralismos instantâneos, a figura de Meursault continua perturbadora. Ele não tenta convencer ninguém de sua virtude. Apenas existe, observa, respira o calor do sol argelino e aceita a realidade sem ornamentos. Ao fazer isso, desmonta silenciosamente o teatro coletivo que exige que todos sintam, falem e pensem da mesma maneira.

Quem me conhece sabe que sou chegado a filosofar. Sabe também que praticamente todos os filósofos — de Sócrates a Camus — costumam me fornecer bom combustível para essas inquietações. Confesso que gostaria que este artigo terminasse de maneira mais leve, com uma esperança mais visível no horizonte. Mas depois de atravessar essas reflexões sobre o absurdo, sobre Sísifo e sobre o mundo que construímos, seria intelectualmente desonesto oferecer um otimismo fácil, desses que ignoram a realidade. A esperança, quando existe, não nasce de frases reconfortantes, mas da lucidez — da coragem de olhar o mundo como ele é e, mesmo assim, continuar empurrando a pedra.

E talvez seja exatamente aí que a provocação de Camus se torna ainda mais incômoda para o nosso tempo.

Vivemos numa era em que a indignação virou espetáculo, a virtude virou performance e a empatia frequentemente se limita a slogans compartilhados em telas luminosas. O mundo exige demonstrações públicas de sensibilidade, mas continua tolerando guerras, fome, desigualdades brutais e multidões descartadas pela engrenagem econômica. Meursault perturba porque desmonta esse teatro. Ele não mente para caber nas expectativas da plateia moral. Sua indiferença brutal funciona como um espelho que revela algo inquietante: talvez a sociedade tema mais a autenticidade crua do que a própria violência.

E é por isso que Camus continua perigoso — porque sua obra não nos permite permanecer confortavelmente sentados à beira do lago.

Ela nos empurra, sem aviso, para dentro dos tsunamis da existência.

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