Da Roma antiga à China atual, o idioma continua sendo arma silenciosa

Uma visita da cônsul chinesa a uma escola de Lagos revela como o ensino do mandarim integra estratégia de poder que atravessa séculos, impérios e continentes

Washington Araújo - 18/08/2026

No fim de julho de 2026, durante uma visita oficial à Grace Schools, em Lagos, a cônsul-geral da China na Nigéria, Yan Yuqing, fez um pronunciamento que passou quase despercebido fora dos círculos diplomáticos, mas que merece atenção maior do que recebeu. Diante de professores, estudantes e dirigentes escolares, defendeu a ampliação do ensino do mandarim nas escolas nigerianas, apresentou o idioma como caminho para bolsas de estudo, melhores empregos e oportunidades de negócios, e associou essa política ao Ano do Intercâmbio entre os Povos China-África, iniciativa anunciada por Pequim para fortalecer sua presença cultural no continente. A notícia é verdadeira, ponto final. A interpretação sobre seu significado exige que o olhar avance além da sala de aula.

A China não escolheu a Nigéria ao acaso. Mais de 230 milhões de habitantes, a maior população africana, reservas imensas de petróleo, uma economia entre as maiores do continente, influência regional em expansão: o país tornou-se peça estratégica para qualquer potência interessada em ampliar presença na África. O tabuleiro geopolítico não perdoa esse tipo de descuido. O comércio bilateral sino-nigeriano cresce há mais de duas décadas. Empresas chinesas participam de grandes projetos ferroviários, rodoviários, portuários e energéticos. Milhares de estudantes africanos recebem bolsas para cursar universidades chinesas. Nesse desenho, ensinar mandarim deixa de ser gesto educacional isolado. Passa a integrar política internacional planejada com paciência de décadas.

Seria desonesto enxergar nessa iniciativa apenas projeto de influência política. O mandarim abre portas concretas. Jovens nigerianos que dominam o idioma encontram oportunidades profissionais antes inacessíveis, participam de programas acadêmicos financiados por universidades chinesas, tornam-se candidatos mais competitivos em empresas multinacionais, ampliam o horizonte de atuação. O crescimento econômico da China transformou sua língua em ativo valioso, como ocorreu com o inglês depois da Segunda Guerra Mundial. Quem pretende compreender a economia do século XXI dificilmente ignora esse fato.

O idioma que sobrevive às legiões

A questão relevante aparece quando se abandona a superfície dos acontecimentos. Nenhuma grande potência investe recursos financeiros, universidades, professores, centros culturais, bolsas de estudo e programas permanentes de ensino de idiomas movida por generosidade cultural. A história das relações internacionais prova o contrário. Desde a Antiguidade, as grandes civilizações compreenderam algo essencial: a ocupação militar termina no dia em que os soldados partem. A capacidade de moldar como outros povos compreendem o mundo atravessa séculos.

Roma descobriu isso cedo. As legiões conquistavam territórios. O latim permanecia depois da retirada dos soldados. Ao lado das estradas, dos aquedutos, do direito romano e das instituições administrativas, difundia-se um idioma que organizava a vida pública, estruturava a Justiça, regulava o comércio, aproximava populações distintas sob uma mesma concepção de civilização. As armas garantiam a conquista. A cultura garantia a permanência. Impérios morrem; certas palavras atravessam a morte dos impérios que as criaram, e o latim segue vivo em cada sentença jurídica que ainda hoje cita seus termos.

A expansão islâmica produziu fenômeno semelhante. Entre os séculos VII e XIII, o árabe tornou-se muito mais que a língua do Alcorão. Passou a reunir a produção científica, filosófica, matemática e médica de uma civilização que construiu pontes entre Oriente e Ocidente. Grandes centros intelectuais, como Bagdá, Córdoba e Cairo, produziram conhecimento em árabe porque aquela língua havia se tornado veículo privilegiado da ciência e da administração. Quem desejava participar daquele universo intelectual atravessava a porta aberta pelo idioma.

Os séculos seguintes ofereceriam demonstrações ainda mais evidentes dessa relação entre língua e poder. Espanha, Portugal, França e Reino Unido compreenderam que controlar um território durante décadas exigia instrumentos mais sofisticados que exércitos permanentes. A conquista militar abria fronteiras. A escola formava gerações inteiras capazes de pensar, escrever, administrar e sonhar segundo os referenciais da metrópole. A educação deixou então de ocupar posição secundária nas estratégias imperiais. Tornou-se um dos pilares mais sólidos da expansão europeia.

Quando a Conferência de Berlim reuniu, entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, representantes das principais potências europeias para dividir praticamente toda a África sem a presença de um único africano, definiu-se muito mais que novas fronteiras. Inaugurava-se longo processo de reorganização política, econômica e cultural do continente. Nas décadas seguintes, administrações coloniais francesas e britânicas multiplicariam escolas destinadas a formar funcionários, intérpretes, professores e burocratas capazes de manter em funcionamento uma estrutura concebida longe dali. A língua transformava-se, aos poucos, numa das engrenagens centrais daquele sistema.

A memória que se ensina, a memória que se apaga

Essa memória histórica voltou à mente ao ler as declarações feitas em Lagos. A comparação entre a política linguística chinesa e o colonialismo europeu exige grande prudência, porque os contextos históricos pertencem a mundos diferentes. Ainda assim, ignorar que toda expansão internacional passa também pela cultura fecharia os olhos para uma das constantes mais persistentes da História.

Foi dessa percepção que nasceram algumas das obras mais importantes do pensamento anticolonial do século XX. O psiquiatra martinicano Frantz Fanon observou que a dominação política alcançava plenitude somente quando o colonizado passava a admirar, por conta própria, os valores do colonizador. Albert Memmi descreveu mecanismo semelhante ao mostrar como as estruturas coloniais buscavam formar indivíduos convencidos de que a própria cultura ocupava posição inferior. Décadas depois, o escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o levou essa reflexão ao campo da linguagem ao publicar Decolonising the Mind, obra em que demonstra como o abandono das línguas africanas produzia consequências que ultrapassavam a comunicação cotidiana. Quando uma comunidade deixa de transmitir seu idioma às novas gerações, entrega junto sua memória, seus mitos, seus provérbios, sua literatura oral, sua forma singular de interpretar a realidade, seu modo próprio de organizar o pensamento.

Essas reflexões ajudam a compreender aspecto negligenciado com frequência no debate atual. O mandarim, o inglês, o francês, o espanhol ou o português nunca chegam sozinhos. Cada um carrega séculos de experiências acumuladas, instituições, referências literárias, tradições filosóficas, visões de Estado, modelos econômicos, formas próprias de compreender o desenvolvimento humano. Aprender um novo idioma representa enriquecimento intelectual extraordinário. Transformar esse idioma na principal referência cultural de uma sociedade é fenômeno inteiramente diferente. A distinção importa porque costuma desaparecer quando a discussão se limita às vantagens imediatas do mercado de trabalho.

É óbvio que a China conhece essa dimensão histórica a fundo. Desde o início do século XXI, sua política externa passou a incorporar instrumentos que os estudiosos das relações internacionais classificam como soft power, conceito desenvolvido pelo cientista político norte-americano Joseph Nye para explicar a capacidade de um país influenciar outros por meio da cultura, da educação, da ciência, da inovação e da atração institucional, sem recorrer ao emprego da força militar. Poucas nações investiram tanto nessa estratégia nas últimas duas décadas quanto a China.

Os Institutos Confúcio espalhados por universidades de dezenas de países constituem apenas parte desse esforço mais amplo. Somam-se a eles milhares de bolsas de estudo destinadas a estudantes estrangeiros, programas de intercâmbio científico, cooperação tecnológica, investimentos em infraestrutura, produção audiovisual, plataformas digitais, editoras, festivais culturais, projetos acadêmicos. A Iniciativa Cinturão e Rota, conhecida em todo o mundo como Belt and Road Initiative, ampliou essa presença ao integrar investimentos econômicos e aproximação cultural numa mesma estratégia de longo prazo. O incentivo ao ensino do mandarim na Nigéria deixa então de parecer episódio isolado. Passa a integrar desenho geopolítico coerente, planejado com paciência.

A diferença entre negociar e dominar

Interpretar essa estratégia como simples reprodução do colonialismo europeu seria incorrer em enorme equívoco histórico, por dois motivos principais. Primeiro: A China não governa a Nigéria. Não administra suas instituições. Não impõe seu idioma pela força. Não substitui autoridades locais. Segundo: As relações se estabelecem entre Estados soberanos, decorrem de acordos negociados de forma direta. Essa diferença precisa permanecer clara, sob pena de a análise virar caricatura.

Reduzir a discussão à livre escolha dos estudantes, por outro lado, significaria ignorar a própria experiência histórica da humanidade. Grandes potências sempre compreenderam que influência duradoura nasce da combinação entre economia, educação, tecnologia, ciência e cultura. O poder internacional raramente se sustenta sobre navios, tanques ou bases militares apenas. Antes de conquistar territórios, busca conquistar imaginações.

É nesse ponto que a Nigéria oferece ao mundo reflexão que ultrapassa suas próprias fronteiras. O país abriga mais de quinhentas línguas vivas, pertencentes a dezenas de famílias linguísticas, um dos patrimônios culturais mais extraordinários do planeta. Cada uma delas preserva narrativas ancestrais, sistemas próprios de conhecimento, expressões artísticas, tradições religiosas, formas de mediação de conflitos, interpretações originais sobre a relação entre indivíduo, comunidade e natureza. Trata-se de riqueza construída ao longo de séculos, impossível de medir apenas por indicadores econômicos. Nenhum satélite fotografa esse patrimônio; nenhuma estatística de comércio o contabiliza.

Quando uma sociedade investe recursos significativos para ampliar o ensino de idiomas estrangeiros, surge inevitavelmente pergunta que transcende governos e conjunturas: com a mesma intensidade estão sendo preservadas, pesquisadas, digitalizadas e ensinadas as línguas que constituem a própria identidade histórica do país? Essa pergunta transforma notícia que parecia restrita à educação em debate sobre soberania cultural.

A resposta determinará o lugar que a Nigéria ocupará no século XXI. Nenhum país se fortalece isolado do mundo, da mesma forma que projeto nacional algum permanece sólido quando trata a própria herança cultural como patrimônio secundário. As duas tarefas caminham juntas. A juventude nigeriana deve aprender mandarim, inglês, francês, espanhol ou qualquer outro idioma capaz de ampliar suas possibilidades profissionais. O mesmo empenho precisa alcançar o iorubá, o hauçá, o igbo e as centenas de outras línguas que formam uma das maiores riquezas culturais da humanidade. Política educacional madura nunca coloca essas escolhas em campos opostos. Compreende que pertencem ao mesmo projeto de desenvolvimento nacional.

A conquista final é a da imaginação

Essa discussão não diz respeito apenas à Nigéria. Alcança praticamente todas as nações que procuram seu lugar numa economia internacional organizada, cada vez mais, em torno de grandes polos tecnológicos e financeiros. Nas últimas décadas, a China ampliou presença na África por meio de ferrovias, portos, usinas, rodovias, telecomunicações, mineração, universidades.

Os Estados Unidos continuam exercendo influência enorme através de suas universidades, da indústria audiovisual, das plataformas digitais, do sistema financeiro internacional. A França preserva laços históricos em boa parte da África francófona. O Reino Unido mantém influência relevante por meio da Commonwealth, do inglês, de suas instituições acadêmicas. Nenhuma dessas estratégias se compreende separada da cultura. Todas revelam que, antes de disputar mercados, as grandes potências buscam conquistar confiança, prestígio, legitimidade.

Durante muito tempo, acreditou-se que a globalização produziria planeta culturalmente homogêneo. A realidade provou o oposto. Quanto maior a circulação de mercadorias, capitais e tecnologias, maior se tornou também a importância da identidade nacional. Países que ingressaram de forma competitiva na economia global preservaram com cuidado seus idiomas, sua produção intelectual, seus sistemas educacionais, suas tradições culturais. Japão, Coreia do Sul, Finlândia, Israel e a própria China jamais imaginaram que desenvolvimento econômico exigisse abandonar a própria língua. Ao contrário: transformaram-na em instrumento de inovação científica, de produção tecnológica, de afirmação internacional.

Essa é a principal lição escondida atrás da notícia publicada em Lagos. O debate nunca esteve restrito ao mandarim. Também não se resume à China ou à Nigéria. A questão verdadeira consiste em compreender que cada idioma representa muito mais que um conjunto de palavras. Dentro dele vive a memória de um povo, sua literatura, seus símbolos, seus afetos, seus modos de ensinar, suas formas de compreender a justiça, a beleza, a autoridade, a convivência, o futuro. Quando uma língua desaparece, desaparece junto uma biblioteca construída ao longo de séculos, sem possibilidade de reconstrução integral.

Recordei, enquanto escrevia estas linhas, observação feita pelo historiador britânico Arnold Toynbee. Ao estudar o nascimento, o apogeu e o declínio de dezenas de civilizações, concluiu que sociedades desaparecem muito antes de perder seus territórios. O enfraquecimento começa quando deixam de acreditar no valor daquilo que produziram, passam a buscar, fora de si mesmas, todas as respostas para o próprio destino. A conquista territorial pode levar alguns anos. A conquista da imaginação atravessa gerações.

Por isso mesmo, a visita da cônsul chinesa a uma escola de Lagos carrega significado maior do que aparenta.

Ela lembra que a disputa contemporânea entre as grandes potências raramente acontece só nos mercados financeiros, nos laboratórios de inteligência artificial, nos estaleiros, nas rotas marítimas ou nas cadeias globais de suprimentos. Parte decisiva dessa competição ocorre todos os dias dentro das salas de aula, das bibliotecas, das universidades, dos centros de pesquisa: lugares onde se forma a visão de mundo das próximas gerações.

A notícia publicada na Nigéria não fala apenas da China, nem apenas da África. Fala de pergunta que alcança todas as nações que desejam participar do mundo sem abrir mão da própria identidade. Ensinar idiomas estrangeiros amplia horizontes. Preservar a própria língua preserva a capacidade de uma sociedade continuar escrevendo sua história com as próprias palavras. Essa segue sendo uma das escolhas mais decisivas que um povo pode fazer — a mesma escolha que começou, há muitos séculos, dentro de uma sala de aula.

https://revistaforum.com.br/opiniao/da-roma-antiga-a-china-atual-o-idioma-continua-sendo-arma-silenciosa/

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