Da travessia do Saara ao caos da FIFA, temos o péssimo trabalho do Gianni

A medalha entregue por Nico Williams à mãe devolveu humanidade a uma Copa marcada por interferências políticas, privilégios e suspeitas ainda sem resposta

Washington Araújo - 21/07/2026

A Espanha mereceu ganhar a Copa do Mundo de 2026. Foi a seleção mais organizada, tecnicamente mais equilibrada e capaz de vencer a Argentina por 1 a 0, na prorrogação, depois de atravessar o mata-mata com autoridade. Minha convicção sobre a justiça esportiva do resultado, porém, não apaga o desconforto provocado pelo ambiente político que cercou o torneio. A maior Copa da história, disputada por 48 seleções em Estados Unidos, México e Canadá, terminou com Donald Trump tentando ocupar também o enquadramento reservado aos campeões.

O presidente norte-americano entregou medalhas, tocou a taça e permaneceu próximo da seleção espanhola no instante da celebração, até ser afastado discretamente por Gianni Infantino. As vaias dirigidas aos dois no estádio mostraram que o público percebeu a apropriação da cerimônia. Não existe comprovação confiável de que o capitão Rodri tenha declarado previamente que se recusaria a levantar o troféu enquanto Trump estivesse no palco.

O que existe são imagens, relatos jornalísticos e uma torrente de interpretações nas redes sobre a demora em retirar o presidente do centro da festa. A diferença precisa ser preservada. Um vexame sobre qualquer aspecto que se analise

Um telefonema muda a regra

Trump já havia ensaiado esse protagonismo em 2025, quando permaneceu ao lado dos jogadores do Chelsea durante a comemoração do Mundial de Clubes. Em 2026, a repetição adquiriu outra dimensão: tratava-se da final da Copa do Mundo, acompanhada por centenas de milhões de pessoas, e da celebração de uma equipe estrangeira. O anfitrião transformou cortesia institucional em presença cênica prolongada.

A proximidade de Infantino com a Casa Branca deixou de ser uma questão de estilo quando passou a alcançar decisões esportivas. Após Folarin Balogun receber cartão vermelho na vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia, Trump declarou que telefonara ao presidente da FIFA e pedira a revisão do lance.

A suspensão automática foi colocada em período probatório, permitindo que o atacante enfrentasse a Bélgica. A federação belga declarou-se “atônita”, enquanto dirigentes europeus apontaram ruptura de protocolo.

O problema ultrapassa a qualidade da falta. Presidentes podem discordar de árbitros; o que não podem é obter acesso privilegiado ao dirigente máximo da entidade e ver a punição alterada antes da partida seguinte. A pergunta inevitável passou a ser esta: a FIFA teria tomado a mesma decisão se o telefonema partisse do presidente da Bósnia, da Bélgica ou de Cabo Verde?

Uma organização de direitos esportivos pediu ao Comitê Olímpico Internacional que investigasse a participação de Infantino no episódio. Aleksander Čeferin, presidente da UEFA, boicotou a final após uma sucessão de divergências com a FIFA, entre elas o caso Balogun e a exclusão do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, impedido de entrar nos Estados Unidos.

A dúvida passa a ser notícia

As controvérsias não terminaram no caso Balogun. Durante todo o Mundial, acumulou-se uma sucessão de episódios que, isoladamente, poderiam ser classificados como circunstanciais. Reunidos, passaram a formar um ambiente de desconfiança.

Diversas delegações relataram dificuldades para obtenção de vistos, atrasos migratórios e procedimentos diferentes entre participantes. Organizações ligadas aos direitos civis denunciaram que a política migratória norte-americana introduziu um elemento externo ao futebol. A Copa do Mundo deveria reduzir fronteiras durante um mês. Em alguns momentos, ocorreu exatamente o contrário.

Também circularam, em veículos de imprensa e nas redes sociais, questionamentos sobre determinados lances de arbitragem ao longo do torneio, especialmente em partidas da Argentina. Nenhuma investigação oficial concluiu que houve favorecimento deliberado. Ainda assim, quando um campeonato produz um volume tão elevado de dúvidas, a resposta adequada não é silêncio institucional. Transparência nunca enfraquece uma competição; fortalece sua legitimidade.

Essa exigência torna-se ainda mais relevante porque a FIFA continua convivendo com a herança do maior escândalo de corrupção de sua história. As investigações conduzidas pelo FBI e pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, iniciadas em 2015, derrubaram dirigentes históricos, produziram dezenas de acusações criminais e alteraram definitivamente a relação entre a entidade e as autoridades americanas.

Não existe prova de que esses antecedentes tenham influenciado decisões durante a Copa de 2026. Existe, porém, um contexto que explica por que qualquer demonstração de proximidade política passa imediatamente a ser examinada com rigor.

O futebol não precisa de censores

A Copa do Mundo pertence aos jogadores, aos treinadores e aos torcedores. Não pertence ao presidente do país-sede, nem ao dirigente da FIFA, nem a qualquer governo interessado em utilizar a força simbólica do esporte como extensão de sua estratégia política.

Infantino construiu, ao longo dos últimos anos, uma presidência marcada pela concentração de poder. Em 2026, esse modelo encontrou um interlocutor igualmente interessado em transformar grandes eventos em vitrines pessoais. O resultado foi um torneio em que o debate sobre telefonemas, cerimônias protocolares, relações políticas e decisões administrativas passou a disputar espaço com o desempenho das seleções.

A Espanha conquistou a taça porque jogou melhor. Essa realidade esportiva merece ser preservada da turbulência institucional que cercou o campeonato.

Houve, entretanto, um instante em que toda a disputa política desapareceu. Logo após a cerimônia de premiação, Nico Williams deixou os companheiros e caminhou até a primeira fila do MetLife Stadium. Sua mãe o esperava. Sem dizer uma palavra, colocou no pescoço dela a medalha de campeão do mundo.

O gesto encerrava uma história iniciada muito antes daquele domingo. Grávida de Iñaki, seu filho mais velho, ela deixou Gana ao lado do marido em busca de uma nova vida na Espanha. Anos depois, Iñaki revelaria que só na vida adulta descobriu toda a dimensão daquela travessia. “Não sabia que eles haviam atravessado o deserto a pé”, contou. “Eu sabia que meu pai tinha problemas nas solas dos pés, mas não que isso acontecera porque ele havia caminhado descalço pela areia do Saara, sob temperaturas de 40 ou 50 graus.”

A família chegou a Melilla, passou por Pamplona e encontrou em Bilbao um lugar para recomeçar. Iñaki tornou-se um dos maiores jogadores da história do Athletic Club. Nico escreveu outro capítulo: campeão da Eurocopa de 2024 e, agora, da Copa do Mundo de 2026.

Muito antes de o irmão levantar a taça, Iñaki já havia compreendido que aquele caminho precisava ser percorrido sem atalhos. “Eu tenho uma história que comecei a escrever há sete anos; ele precisa escrever a própria. Estamos vivendo tudo isso juntos. Tenho muito orgulho dele. Deixem que siga o seu caminho, que amadureça e conquiste, por mérito próprio, tudo o que vier.”

Nico fez exatamente isso. E, ao entregar a medalha à mãe, lembrou que as maiores vitórias do esporte nem sempre começam em centros de treinamento ou estádios. Algumas começam quando uma família decide atravessar um deserto para oferecer aos filhos um futuro que ela própria jamais teve.

Será que a FIFA ainda dispõe de capital suficiente para recuperar sua credibilidade? Tenho minhas dúvidas.

Para isso, precisará aceitar um princípio elementar: dirigentes devem prestar contas com a mesma intensidade exigida dos árbitros e dos atletas. Enquanto decisões excepcionais permanecerem insuficientemente explicadas, cada episódio controverso alimentará novos questionamentos.

A paixão pelo futebol resiste quase a tudo. A paixão pelo caos, não. Ela transforma o maior espetáculo esportivo do planeta em um espaço onde a política procura dividir o protagonismo com a bola. Quando isso acontece, todos perdem: a FIFA, os países anfitriões, os campeões e milhões de torcedores que esperam encontrar em uma Copa do Mundo aquilo que ela sempre representou — uma competição em que o vencedor seja conhecido apenas quando termina o jogo.

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