De Patrocínio ao mundo, o Planeta Café

Entre a Fazenda Nunes, a Chácara São Roque e o Café Conosco, Patrocínio mostra por que seu café virou destino e reputação

Washington Araújo - 05/07/2026

Entrei em Patrocínio, nas Minas Gerais, com a impressão de que visitaria fazendas de café. Saí com a certeza de que havia atravessado um território econômico, humano e cultural maior do que a palavra fazenda costuma comportar. O município mineiro, fincado no Alto Paranaíba e integrado ao Cerrado Mineiro, não recebeu por acaso o título de capital mundial do café. Reúne a maior área cafeeira do Brasil, cerca de 42.830 hectares cultivados, e lidera a produção nacional de café arábica, com mais de 64 mil toneladas anuais. Esses números explicam parte da força local. A outra parte só se entende caminhando entre lavouras, terreiros, máquinas, famílias e o aroma que parece chegar antes da própria conversa.

Johann Sebastian Bach escreveu: “Ah! Que doce prazer, nada me dá tanto prazer quanto tomar meu café!” Em Patrocínio, a frase ganhou endereço, altitude e lavoura. Aquele prazer estava na florada, no terreiro, no café servido sem cerimônia e na alegria contida de quem sabe que uma boa bebida começa muito antes da água ferver. Começa no solo, no clima, na poda, na colheita, na escolha do grão e na paciência de uma gente que aprendeu a conversar com a terra sem pressa, sem transformar a dureza do trabalho em postal turístico.

A cadeia econômica do café

O café é uma das mercadorias mais consumidas do planeta. Atravessa fronteiras, sustenta milhões de famílias e move uma cadeia que vai do pequeno produtor ao exportador, do laboratório de classificação ao barista, do porto brasileiro às cafeterias de Tóquio e Londres. Para o Brasil, maior produtor e exportador mundial, o grão nunca foi apenas bebida. Foi fronteira agrícola, formação de cidades, riqueza, disputa política, trabalho, inovação e, agora, reputação. No passado, bastava embarcar sacas. Hoje, o mundo pergunta de onde vem o produto, como foi cultivado, que história carrega e que responsabilidade social e ambiental sustenta.

A Fazenda Nunes

Foi esse Brasil novo que encontrei na Fazenda Nunes. Ali, Osmar Júnior, o Juninho, fala da lavoura como quem narra uma vida. A história começou com o gado, sob a liderança do patriarca Osmar Pereira Nunes, até que, em 24 de novembro de 1984, Juninho decidiu plantar dez hectares de arábica no solo do Cerrado Mineiro. No ano seguinte, outros sete hectares ampliaram o plantio na Fazenda Freitas. Quatro décadas depois, o empreendimento chegou a cerca de 300 hectares, com cafés especiais, reconhecimento nacional e internacional e uma lição aprendida no campo: qualidade pede tempo, método e permanência.

Clarice Lispector escreveu: “O café é um instante de ternura, o que vem depois não importa.” Na Fazenda Nunes, essa ternura estava na acolhida, na mesa aberta, na conversa sem pressa e na serenidade de quem recebe o visitante como quem partilha uma biografia. O café, ali, era também gesto familiar. Tinha lembrança, sucessão, hospitalidade mineira e uma forma de orgulho que dispensa alarde para permanecer na memória.

A visita teve nome, escuta e substância. Conheci Célia, esposa de Juninho; Gabriel, filho do casal, agrônomo; Jacinto, irmão de Juninho e professor de sociologia; e Gilvan, agrônomo que acompanha a lógica técnica da produção. Esse conjunto familiar e profissional ajuda a explicar a passagem de uma cafeicultura de volume para uma cafeicultura de conhecimento. Gabriel representa a terceira geração, mas não entrou na história para repetir o passado. Entrou para ler solo, mercado, certificação, fermentação, sustentabilidade e manejo com a velocidade exigida por um setor em que decisões tardias custam caro.

A marcha das ideias

Honoré de Balzac afirmou: “Quando se toma café, as ideias marcham como um exército.” Vi essa marcha na Fazenda Nunes: máquinas, agrônomos, concursos, certificações, renovação de lavouras, compradores, experimentos e safras. A modernização não aparece como discurso de catálogo. Está nos equipamentos que deram agilidade ao plantio, ao manejo, à colheita e ao pós-colheita. Está na renovação anual de parte das plantas, entre 10% e 15%, para preservar o vigor produtivo. Está nas experiências com fermentações controladas, na busca por cafés acima de 80 pontos, na participação em concursos e na capacidade de transformar premiações em instrumento de avaliação.

A barista Lidiane

Na Fazenda Nunes, a visita encontrou seu fecho nas mãos da barista Lidiane. Seu profissionalismo ajudou a traduzir em xícara aquilo que havíamos visto na lavoura. O café servido por ela condensava solo, florada, colheita, manejo, seleção do grão e paciência. Lidiane deu precisão ao rito final. Mostrou que o café especial se explica também pelo aroma, pela temperatura, pelo tempo de extração e pela segurança discreta de quem sabe servir sem transformar técnica em espetáculo.

Nos últimos três anos, a cafeicultura brasileira recebeu aportes federais de grande escala: o Funcafé passou de R$ 6,3 bilhões na safra 2023/2024 para R$ 6,9 bilhões em 2024/2025 e R$ 7,18 bilhões em 2025/2026, somando mais de R$ 20 bilhões em financiamento diretamente ligado ao setor cafeeiro. Em outra frente, não restrita ao café, a agricultura familiar também ampliou seu espaço, com mais de R$ 225 bilhões destinados desde 2023 pelo Plano Safra da Agricultura Familiar ao conjunto dos pequenos produtores rurais. Essa distinção importa: o café tem fundo próprio, enquanto a agricultura familiar reúne várias cadeias produtivas. É nesse encontro entre cafeicultura, pequenas propriedades, queijos, leite, aves e hospitalidade rural que muitos produtores deixam a borda da economia e conquistam, com trabalho visível, seu lugar ao sol.

O Cerrado Mineiro

O Cerrado Mineiro oferece altitude adequada, estação de colheita com menor volume de chuvas e uma Denominação de Origem que protege a procedência. A região compreendeu cedo que o futuro exige mais do que volume. Foi preciso demarcar território, certificar produção, criar identidade e afirmar atitude pioneira diante de um mercado que durante muito tempo aceitou vender o Brasil como fornecedor genérico. Quando um café de Patrocínio recebe prêmio fora do país, a conquista ultrapassa a porteira. Fortalece produtores, compradores, torrefadores, consumidores e a própria imagem do café brasileiro.

De commodity a especiaria

T. S. Eliot escreveu: “Medi minha vida em colheres de café.” Em Patrocínio, muitas vidas se medem também em safras, chuvas, podas, viagens e prêmios. Juninho resume a virada com uma frase certeira: o café deixou de ser commodity para tornar-se especiaria, produto valorizado mundialmente. A afirmação descreve a mudança do mercado, do consumidor e do próprio produtor. O café especial exige memória, método, orgulho, padrão, origem e constância.

A Chácara São Roque

A Chácara São Roque apresentou outra face dessa economia. Ali, o café divide espaço com queijos artesanais, derivados do leite, vacas Jersey e avicultura. Jean-Paul Sartre escreveu: “Tomar café não é apenas beber: é existir.” A frase acompanhava o caminho entre o rebanho, a produção de queijos, os derivados do leite e a rotina rural. Existir, ali, era agregar valor ao que nasce da terra, multiplicar fontes de renda e fazer do sítio um lugar de produção, visita, sabor e permanência.

Mário Quintana escreveu: “O segredo da felicidade está em saber saborear um café como se fosse poesia líquida.” Na Chácara São Roque, essa poesia vinha misturada ao trabalho. Estava no queijo artesanal, no leite, nas aves, na conversa e na dignidade de transformar pequena produção em economia viva. Albert Camus, em adaptação, falou de “um verão invencível — e um café quente na mão.” Vinicius de Moraes, também em adaptação, desejou: “Que seja eterno enquanto dure, como o café que esfria e ainda assim aquece.” Pensei que Patrocínio vive dessa permanência: o café passa pela mesa, mas fica na terra, na renda e na continuidade das famílias.

O Café Conosco, da chef Marilda Araújo

Também não podia faltar, nesse roteiro pelo Planeta Café, a passagem pelo Café Conosco, da chef Marilda Araújo, no centro de Patrocínio. Foram dois encontros num ambiente acolhedor, de decoração caprichada, onde a cidade parece conversar em torno da mesa. Ali, o café encontra companhia em iguarias bem apresentadas, receitas selecionadas e sanduíches de inspiração variada — Dom Jamón, Caribenho, Libanês, Argentino, Mexicano, Italiano — capazes de atender aos paladares mais exigentes sem perder a simplicidade de um bom encontro. Se a Fazenda Nunes mostra a grandeza do café na origem, o Café Conosco revela sua dimensão urbana: pausa, convivência, hospitalidade e prazer compartilhado.

Afeto e planilha

As visitas revelaram empreendimentos familiares com vocação empresarial. O campo brasileiro amadurecido precisa de afeto e planilha, sucessão e laboratório, memória e coragem para mudar o que deu certo ontem e pode não bastar amanhã. Os desafios estão à vista: clima instável, custos de produção, exigências ambientais, rastreabilidade e concorrência internacional. Quem trata café apenas como saca corre o risco de perder o mercado que aprendeu a comprar história, qualidade e procedência.

Saí de Patrocínio convencido de que o Planeta Café não cabe numa xícara. A xícara é apenas sua embaixada. Antes dela existem famílias, tecnologia, madrugadas de colheita, agrônomos, ordenhas, queijarias, concursos, certificados, portos, compradores e uma cidade que fez do grão seu passaporte para o mundo. O Brasil costuma não reconhecer a tempo suas grandezas. Em Patrocínio, Minas Gerais, vi uma delas, trabalhando em silêncio, perfumando o Cerrado e ensinando que desenvolvimento, quando nasce da terra e respeita a inteligência de quem a cultiva, tem sabor, nome e destino.

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