Depois das urnas, o Brasil ainda está aqui
A disputa de outubro termina nas urnas; nossa responsabilidade começa ali, na defesa de um país maior que candidatos, partidos, governos, corporações e potências.
Washington Araújo - 03/10/2026


No domingo, 4 de outubro, 158.765.543 brasileiros estarão aptos a votar. Se a eleição presidencial exigir novo turno, a votação será em 25 de outubro. São números do calendário; o que permanecerá depois deles pertence ao caráter de uma sociedade obrigada a continuar convivendo consigo mesma.
Escala humana
Já vi partidos nascerem cercados de esperança, chegar ao poder, perder eleições, trocar de discurso e sobreviver aos próprios fundadores. Governantes apresentados como indispensáveis deixaram a cena, enquanto o país seguiu em frente. Essa convivência com a vida pública ensinou-me a desconfiar das certezas que pedem adesão antes de oferecer argumentos.
Conhecer dezenas de países ampliou essa perspectiva. Fronteiras organizam Estados, culturas guardam memórias e povos defendem interesses legítimos. Nada disso altera o valor essencial de uma vida humana. Uma criança nascida em Brasília tem a mesma dignidade de outra nascida em Gaza, Pequim ou numa aldeia africana. É nessa medida que me reconheço brasileiro e cidadão do mundo.
Meu apartidarismo nasce dessa liberdade de consciência. Posso reconhecer uma boa política pública sem comprar o governo inteiro, condenar um abuso sem transformar seus autores em monstros, concordar hoje com quem critiquei ontem. A consciência se apequena quando precisa consultar uma sigla antes de formular cada julgamento.
Memória e régua
A democracia adoece quando o princípio muda conforme o personagem. A mentira indigna quando parte do outro campo e recebe desconto quando beneficia o nosso. Uma arbitrariedade provoca revolta ou aplauso segundo a identidade de quem foi atingido. Nesse ponto, a régua já foi adulterada.
Nossa história deveria nos tornar mais exigentes. A ditadura instaurada em 1964 deixou censura, cassações, prisões, tortura, mortes e exílios documentados pelo Estado brasileiro. Em 8 de janeiro de 2023, as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas; até janeiro de 2026, o STF informava ter responsabilizado 1.399 pessoas pelos atos.
A memória perde força quando serve apenas para acusar adversários. Seu valor aparece diante dos nossos, quando o abuso favorece alguém próximo e, ainda assim, continuamos capazes de reconhecê-lo sem trocar o nome das coisas para proteger conveniências.
Praça algorítmica
A eleição de 2026 ocorre numa praça pública profundamente alterada. Plataformas privadas organizam alcance, visibilidade e atenção para milhões de brasileiros. Nove delas apresentaram ao TSE planos para mitigar riscos à integridade eleitoral, entre elas Meta, Google, X, TikTok e Telegram.
A tecnologia não inventou a mentira política; ofereceu-lhe velocidade, escala e precisão inéditas. Um boato alcança milhões antes que a apuração termine. Algoritmos aprendem o que nos irrita, assusta ou mobiliza. Nós completamos o circuito quando compartilhamos acusações que sequer lemos ou acreditamos depressa naquilo que confirma nossos preconceitos.
Soberania
Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia, Índia e outros centros de poder defendem interesses estratégicos. O Brasil precisa conhecê-los sem ingenuidade nem paranoia. Povos não devem ser confundidos com governos, e nenhuma potência recebe procuração para definir o rumo de outra sociedade.
Uma política externa madura conversa com Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou, Nova Délhi, América Latina, África e mundo árabe preservando autonomia. Unidade humana não significa submissão nem apagamento das diferenças. Povos distintos podem cooperar sem que um deles reivindique tutela sobre os demais.
Esse olhar para fora não nos absolve por dentro. Nossa desigualdade atravessa séculos. A corrupção frequentou governos de diferentes orientações. Racismo, violência, privilégios e intolerância foram produzidos aqui. Redes sociais amplificaram muito disso, mas não criaram nossa facilidade de acreditar no pior sobre quem pensa diferente.
Depois dos slogans continuarão saúde, educação, renda, emprego, segurança, ciência, cultura, meio ambiente, contas públicas e desigualdade. Candidatos devem ser examinados por propostas, alianças, biografias, compromissos democráticos e pelo modo como pretendem lidar com os limites do próprio poder.
Presidente algum recebe escritura do país. Congresso, tribunais, imprensa, empresas e organizações religiosas exercem funções ou influências relevantes e precisam conviver com fiscalização e responsabilidade. Defender instituições não exige silêncio diante delas; exige força para cumprir sua função e abertura ao escrutínio.
Segunda-feira
Cada eleitor chegará à urna carregando perdas, filhos, crenças, medos e experiências com serviços públicos. Não me cabe ocupar esse espaço íntimo nem transformar este artigo numa indicação de voto. Minha escolha pertence a mim; a do outro, à consciência dele.
Na manhã seguinte, estaremos novamente juntos. A pessoa que escolheu outro candidato continuará nossa vizinha. Crianças de famílias politicamente opostas dividirão a escola. Médicos atenderão pacientes sem consultar preferência eleitoral. O país continuará funcionando pela cooperação silenciosa entre pessoas que discordam profundamente, mas dependem umas das outras.
A democracia revela aí sua dimensão mais difícil: oferecer espaço político também a quem perdeu. Vitória concede mandato, não propriedade; derrota retira poder, não cidadania. Nenhum resultado transforma milhões de brasileiros em estrangeiros dentro do próprio país nem autoriza vencedores a confundirem maioria eleitoral com posse do todo.
No domingo escolheremos governantes. Na segunda-feira, o país inteiro continuará diante de nós, com diferenças, feridas, esperanças e milhões de rostos que nenhuma urna consegue reduzir aos vencedores. Preservar esse todo sem exigir que cada parte renuncie à própria voz é a responsabilidade que começa depois do voto.
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